mais um democrata açoriano que falece

Eduardo Pontes

 

 

Faleceu este democrata açoriano de esquerda que há muito tempo foi para o continente da República, forçado pelo contra ataque das forças de direita que controlaram a rua em S. Miguel depois de 6 de junho de 1975. Antes da revolução de 1974, Pontes era uma espécie de braço direito de Borges Coutinho com quem lutou contra o Estado Novo e os seus sistemas autoritários e intolerantes para com os opositores. Nunca percebi bem a sua ideologia política, embora o dissessem do Partido Comunista, postura que penso nunca confirmou. Antes de 1974, todos os opositores ao regime eram considerados comunistas o que nos impede de distinguir qual a política que seguem quando a prática posterior à restauração da democracia o não revela com clareza. Sabe-se que, fora da sua terra, se dedicou devotadamente a obras sociais junto das classes menos protegidas, sendo que o seu trabalho na Cova da Moura em Lisboa foi muito importante e durou até à sua morte prematura. O nosso primeiro contato ocorreu nos anos 60 quando presidi ao Ateneu Comercial e, entre as várias conferências que promovi, convidei Valter Melo, então um dos mais classificados dos alunos do Liceu, com postura de esquerda. Apesar da PIDE e das mais altas autoridades do regime, incluindo o Governador Civil substituto, estarem presentes na assistência que encheu completamente a sala de baile, o orador falou livremente sobre o tema económico que escolheu. Aos debates, Eduardo Pontes interveio para falar da fome no mundo, tema obviamente polémico que suscitou animada discussão. Sempre educado e calmo, rebateu as interpelações que lhe fizeram e a sessão acabou em ordem e foi um dos pontos altos do meu consulado ali naquela velha instituição cultural. As lutas fratricidas que o 6 de junho desencadeou, retiraram-no do nosso convívio que não do seu ideal. Com José de Almeida tentámos comunicar-lhe que ele fazia falta na nossa terra mas ainda hoje não sei se a mensagem chegou até ele. Só sei que devo curvar-me perante a sua memória de coragem e devoção a um ideal superior.

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lusofonias.net

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção e da comissão executiva da AICL