Galiza, a importância da língua

Views: 4

retirado de diálogos lusófonos:

Otto L. Winck: «Minha pesquisa me descortinou de maneira especial a importância da língua galego-portuguesa na construção de nossas identidades lusófonas»
A tese de doutoramento do escritor e professor brasileiro analisa a identidade galega

PGL – Otto Leopoldo Winck é Doutor em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, escritor, autor do romance Jaboc (Prêmio Nacional de Academia de Letras da Bahia, 2005). A sua tese, «Minha Pátria é minha Língua: construção da identidade e sistema literário na Galiza», defendida recentemente em Curitiba, debruça-se sobre a “célula matricial da lusofonia”, com uma profundidade e compreensão que nunca antes se tinha dado no Brasil nem talvez em parte alguma.

O autor debruça-se sobre duas narrativas ficcionais que tem como tema a procura/descoberta da identidade:Arredor de si, de Otero Pedrayo, e Periferias, de Carlos Quiroga. Acrescenta ainda ao corpus um relato de viagens do brasileiro filho de galegos Renard Pêrez,Chão galego, que completa com um olhar exterior a abordagem do problema identitário galego.
O estudo apresenta um intenso recuo hitoriográfico e teórico para chegar a um enquadramento exequível da prosa de ficção do século XX, onde justamente se (re)avivam o interesse e a necessidade, na Galiza, pela sua re/construção identitária, e onde se vai realizar a análise central. No trabalho entra-se na discussão do conceito nação, examina-se a História da Galiza entre Espanha e Portugal, percorre-se o “despertar de uma consciência” galega no seu decorrer histórico, coloca-se um olhar mais do que de través sobre a Literatura Galega na sua estrutura sistémica, para chegar às análises literárias e à observação fundada das estratégias de construção da identidade no e do sistema literário galego.
PGL: Que leva a um escritor e professor brasileiro a debruçar-se sobre a literatura galega e sobre a Galiza?
Otto Winck: Quando concluía minha dissertação de mestrado, que foi uma análise narratológica do escritor paranaense Jamil Snege, eu já procurava um tema para o meu doutorado. Como eu fizera uma pesquisa de análise estritamente interna, preocupada em localizar e descrever os elementos da narrativa da obra de Snege, eu queria agora algo mais “externo”, um estudo histórico, ao mesmo tempo próximo e distante da minha realidade. E acabei dando na Galiza, um outro país, com uma história bimilenar bastante diferente da do Brasil, mas que ao mesmo tempo ostenta muitos laços de afinidade com o nosso, não somente pela língua, mas também por uma experiência em alguns aspetos similar de colonialismo.
Como se sabe, o Brasil teve de “inventar” sua identidade em primeiro lugar contra Portugal, mas depois e mesmo hoje contra toda forma de dependência econômica e cultural em relação às potências europeias primeiramente e num segundo momento aos Estados Unidos. Em todo país submetido a alguma espécie de colonização, formal ou não, direta ou indireta, cria-se uma elite que se beneficia desse estado, uma elite predatória, aliada ao opressor externo, “fração dominada da classe dominante”, para falar como Pierre Bourdieu.
Para esta elite é necessário cultivar uma imagem negativa do país para justificar seu estado de dependência e subdesenvolvimento. Na Galiza este sentimento é chamado de auto-ódio. No Brasil, complexo de vira-lata (isto é, cão sem raça, sem pedigree). Neste processo aparecem o desprestígio da língua na Galiza e de determinadas características nacionais no Brasil. Claro que isso eu só percebi depois, quando a pesquisa já estava adiantada.
Enfim, eu descobri muitos e surpreendentes pontos de contato entre essas duas nações atlânticas. Sem falar a língua que nos une, que é um dos elementos centrais da construção de nossas identidades. O brasileiro fala e pensa com a língua que nasceu aí, na antiga Gallaecia romana, língua que depois se tornou a língua do novo reino de Portugal, de quem tomou o nome emprestado. Claro que a língua, ao longo desse tempo, recebeu uma série de contribuições – mas basicamente é a mesma língua. Creio que este é o principal patrimônio cultural da Galiza, e deve ser defendido ardorosamente.
divulgado também no coloquioslusofonia.blogspot.com.es/2012/07/otto-l-winck-lingua-galega-identidade.html


Sobre CHRYS CHRYSTELLO

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção da AICL
Esta entrada foi publicada em Galiza GALICIA espanha españa olivenza olivença, lingua CPLP IILP Academias literatura poesia ensino professores educação sports desportos livros convites mirandês Conf prix prémios dicionários, tradução. ligação permanente.