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Aqui vai, AMIGOS, a crónica destacada para este sábado:
Acerca das palavras XLV: pena e compaixão
Tem-me ocorrido frequentes vezes que as palavras nos surgem já prenhes de significados mais ou menos ocultos – e com esta afirmação nada direi de extraordinário nem de novo. Aprendíamos, noutros tempos, naqueles em que ingressei na universidade, que as palavras tinham um sentido denotativo, aquele que é objetivo e linear, e um sentido conotativo, aquele que tem a ver com as derivações afetivas das palavras ou com os sentidos que vão adquirindo no meio social e cultural. De facto, ao ser usada uma palavra, ela vai-se adensando de significado(s), e há palavras carregadas de ternura, há palavras espessadas de tragicidade, há palavras engrossadas de negatividade.
Ora as palavras que hoje escolhi – pena e compaixão – são justamente daquelas cujos significados conotativos extravasam largamente os significados denotativos. De facto, se nos ativermos aos significados meramente lineares das duas palavras, concluímos que se tratam de palavras sinónimas, pois tanto uma como outra, se usadas na sequência do verbo “sentir”, querem dizer aproximadamente (só aproximadamente) a mesma coisa: sentir pena de alguém ou sentir compaixão por alguém parece-nos o mesmo. Ou não?
A verdade é que a maioria das pessoas rejeita – e veementemente – o sentimento de pena que possa despertar. Ninguém quer ser alvo de pena, ninguém quer ser objeto da comiseração ou da piedade dos outros. Dir-se-ia que sentir pena de alguém amesquinha a pessoa que desperta tal sentimento. É como se quem sente pena dissesse ao alvo dessa pena qualquer coisa deste género: és um desgraçado, és um verdadeiro desastre, logo és, porque tão apoucado, digno só da minha pena. É evidente que ninguém quer ser o “desgraçado” (ou o “desgraçadinho”, pior ainda, mercê do diminutivo depreciativo), é óbvio que ninguém quer ser “um verdadeiro desastre”, digno só de pena, incapaz de outro sentimento nos outros conseguir provocar.
Já o sentimento de compaixão parece bastante mais digno, e, de facto, a própria etimologia da palavra como que a eleva. Como muitos sabem, a palavra “compaixão” deriva do Latim, querendo dizer “sofrer com”, dado o vocábulo “paixão”, como também muitos sabem, querer significar dor, sofrimento. Sentir compaixão por alguém não se resume, pois, a lastimar a sua sorte ou a ter piedade, muito menos a considerar o alvo de compaixão como o “desgraçadinho”, aquele que pouco é ou que pouco vale. Sentir compaixão pressupõe que se sofra com o outro, ou seja, se quisermos usar palavras mais atuais, que se seja solidário relativamente ao outro, à sua má sorte ou situação menos venturosa. Assim, o outro já não é (nem se sente) amesquinhado, antes dignificado por encontrar quem o compreenda, antes menos solitário porque acompanhado no seu sofrimento. (Eu, pessoalmente, tenho considerado e experimentado que a dor é sempre muito solitária e indivisível, mas posso estar de mal com a razão, é possível, embora não se me mostre evidente, que a dor seja menos solitária do que eu creio, assim tenhamos alguém que connosco se preste a partilhá-la ou, pelo menos, que a compreenda.) Esta última frase deve entender-se como um parêntesis, tal como a marquei, pouco relevante, de resto. Adiante, rumo à conclusão.
Será assim tão relevante que usemos uma palavra em vez de outra, no caso, que substituamos “pena” por “compaixão”? Pois é óbvio que sim. Cada palavra tem a sua pulsação própria, e, por vezes, palavras aparentadas, que são tidas como sinónimas, divergem muito no seu significado afetivo. E é esse que conta, é esse que o nosso coração entende. De resto, a língua, se não fala ao coração, pouco nos tem a dizer.
Delta Fernandes, Vitor Almeida and 36 others
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Marco CarvalhoLi, gostei e em especial, do parágrafo final.

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- 5 h
Gina JorgeLi com paixão
e compadeci-me de quem não ouve a língua a falar ao coração!-
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- 2 h
Maria Luisa ColaçoA compaixão aproxima-se da empatia, que é colocar-se no lugar do outro e experimentar o que ele está a sent -