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Faceboquemos
Ao longo da minha carreira como professor, houve anos em que leccionei Sociologia.
Um dos capítulos fundamentais dessa disciplina é sobre os agentes de socialização, isto é, os indivíduos, grupos ou instituições que transmitem normas, valores e culturas, de modo a ajudar o indivíduo a se integrar na sociedade.
Durante muito tempo, os alunos estudavam os agentes de socialização mais importantes, como a família, a escola, o grupo de amigos ou de trabalho. Mais tarde, foram incluídos na lista os órgãos de comunicação social.
Esta inclusão suplementar aos agentes tradicionais foi tida como natural, pelo impacto que jornais, rádios e televisões têm na formação de mentalidades e formas de agir.
As Ciências Sociais por vezes têm dificuldade em acolherem realidades novas. Passa sempre algum tempo até incluírem aquelas novidades no seu âmbito de estudo. Por exemplo, o Direito tardou a reagir a todo o tipo de crime que surgiu na era informática, pela razão simples de que durante séculos não houve computadores. Nos termos do Código Penal, só há crime se houver lei que o puna. Será impossível determinar quantos crimes de burla informática foram cometidos antes de o legislador incluir esse tipo objectivo de crime no Código Penal e os que praticaram tal crime ficaram sem punição.
Do mesmo modo, os manuais de Sociologia ainda não incluem um importante agente de socialização – as chamadas redes sociais. Porque relativamente recentes, porque não haverá ainda evidência científica dos efeitos das mesmas, as redes sociais escapam à lista de agentes de socialização. Claro que há estudos, ensaios, teses, relativamente consistentes, sobre aqueles efeitos nas sociedades. Mas ainda não fazem parte dos manuais de Sociologia.
Nos tempos que vivemos, as redes sociais têm uma importância enorme nas mentalidades e formas de agir. Tão grande que influenciam a família, a escola, os grupos. Isto é, estamos na presença de um agente que tem influência decisiva nos outros agentes. O conceito de família está a mudar, os comportamentos de alunos e professores já não é o que foi durante anos na escola, etc.
Quem anda pelo Facebook, mesmo que apenas cirurgicamente, apercebe-se de muitas anormalidades ou desvios, que poderão revelar-se como tumores malignos para a sociedade. A violência verbal, o apelo à violência física, a completa intolerância que cresce em relação a quem pensa diferente, o insulto gratuito, a má-criação, o analfabetismo, a difamação (esta crime), a cobardia (há imensos perfis falsos), dominam o ecrã de todos os telemóveis, num tempo em que toda a gente (incluindo crianças) tem um.
Igualmente assustadora é a velocidade com que certos comportamentos são conhecidos e criticados. Por exemplo, durante as Sanjoaninas que acabaram anteontem, alguém atirou um balde de água para cima de alguns cidadãos e, em segundos, a ilha toda já sabia. Centenas de comentários, uns a condenarem, outros a defenderem, muitos simplesmente a injuriarem, e o assunto passou a ser discutido por todo o lado.
Nunca vi tanta raiva “à solta”. São hétero contra homo, crentes contra ateus, sportinguistas contra benfiquistas, direitistas contra esquerdistas, analfabetos contra cultos, parece que é fundamental discordar porque sim. E valores como a amizade, a solidariedade, a tolerância, vão-se perdendo, infectando famílias, escolas, grupos de amigos. Está toda a gente com os bolsos cheios de pedras. E atira-as, com força, mesmo sem pensar se será pecador.
(publicada hoje no Diário Insular)
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