os portugueses e o oriente, Miguel Castelo Branco

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Para contrariar o mito da “aventura portuguesa”
Nunca houve “aventura portuguesa”: planeamento rigoroso e persistência, eis o segredo do sucesso português
Miguel Castelo Branco

Para a elite dirigente portuguesa do século XVI a inícios do século XIX, a Ásia não tinha mistério. Se há quem persiste em confundir a presença portuguesa no Oriente com aventuras de nautas, mercenários e missionários – lugares-comuns que, de tão repetidos, acabaram por ganhar respeitabilidade, transformando-se em sub-cultura historiográfica de difícil erradicação – a leitura dos clássicos, assim como dos mananciais existentes nos arquivos, oferece o contraditório. Desde a institucionalização do Estado da Índia, os seus dirigentes tinham a assisti-los invejável património de saber letrado, empírico, científico e tecnológico que lhes garantia importante capital de vantagem sobre os concorrentes mas, também, capacidade de exercer influência que aos outros europeus faltava.
Os Portugueses detiveram, do século XVI a finais do século XVIII, vantagem no conhecimento das línguas e culturas orientais. Os primeiros estudos sistemáticos no domínio da indianologia, sinologia e nipologia foram dados por Portugueses. Até meados do século XVII, a sinologia era portuguesa por antonomásia. A opera magna do Padre Álvaro Semedo pontificou ao longo de décadas e conheceu sucessivas edições em todas as línguas cultas do Ocidente. Do Jesuíta João Rodrigues, o primeiro estudo sobre a língua japonesa, Arte Breve da Lingoa Japoa, de 1620; de Luís Fróis, a primeira grande Historia de Japam, de 1583 – que de tão extensa foi recusada por Valignano; de Manuel Godinho de Erédia, luso-macaçar, os primeiros estudos sistemáticos sobre história, geografia, economia e produções do mundo malaio; do Padre Francisco de Pina, a criação do Quốc ngữ. Estes trabalhos não surgiram como expressão desgarrada e fruto da curiosidade de indivíduos isolados. Desde o século XVI havia, institucionalizada, uma cultura portuguesa asiática. Em Macau, o Colégio de São Paulo formou sucessivas gerações de missionários com desenvolvida competência no domínio das línguas e culturas do Extremo Oriente.
Em Macau funcionou a partir de 1568 o primeiro hospital ocidental na China, responsável não apenas pela assistência, mas pela difusão das técnicas operatórias e de diagnóstico e até na introdução do quinino no Império do Meio. O caso paradigmático de agente da presença científica portuguesa foi o Padre João Loureiro (1710-1796), Jesuíta que chegou à Cochinchina em 1741 e ali permaneceu durante trinta e cinco anos na corte de Hué como matemático e médico dos Senhores Nguyễn. Ao abandonar a sua missão, elaborou uma Flora Cochinchinesa, obra que catapultou o autor para o renome e fama entre as maiores academias da Europa. Lembrar, também, que a tipografia portuguesa trabalhava na Ásia desde o século XVI e que no início do século XIX, antes da criação de Singapura e Hong Kong, a única imprensa periódica editada no Extremo-Oriente era a macaense.
Miguel Castelo Branco
Imagem: jovem diplomata português visto por um artista persa. Período safávida.
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Sobre CHRYS CHRYSTELLO

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção da AICL
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