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Chico às armas, às armas
Francisco César exaltou-se. O que é sempre um acontecimento. Um Francisco César sereno amedronta, no seu brilhantismo oratório. Mas um Francisco César zangado assusta, pelo desassossego que causa nas agulhas de todas as estações de observação sismológica da Região.
Com a sua voz poderosa e o seu timbre longamente masculino, ambas as características fruto de herança genética que muito rogamos nunca se perca, haja as descendências que houver nos anos vindouros, denunciou, em plenário da Assembleia, que o governo mandou polícia para Rabo de Peixe, com “metralhadoras apontadas à população”. E acrescentou “como foi vesível”.
Assim mesmo, com e, não foi erro meu. Visível é uma coisa que a vista alcança com facilidade. Vesível é uma coisa que só Francisco vê mas que, depois de gritada, pretenderia todos tivessem visto.
Veio logo a Associação Sindical da PSP denunciar tratar-se de uma falsidade e exigir retratações ao ilustre deputado. Levantaram-se vozes de protesto nas redes sociais. Francisco defendeu-se nas mesmas. Que o sindicato da PSP tem um dirigente do PSD. Vejam como uma letra faz toda a diferença. E manteve a sua. Só não via quem não queria. Bocas suplicantes de crianças, histerias de pânico de suas mães, fugas de barco e de mota dos machos, e a PSP a avançar sem dó nem piedade de metralhadoras apontadas. Tudo imensamente vesível para ele, continuando invisível para nós, Chico a reescrever o “Ensaio sobre a cegueira”.
É tempo de nos perguntarmos como foi possível chegarmos a este ponto. De termos rapazes carreiristas espalhados por todas as ilhas a desempenhar altos cargos, sem que a gente saiba bem como chegaram a tais cumes.
Imagine o leitor que tem uma empresa e precisa de um empregado. Aparecem-lhe candidatos com qualificações académicas e experiência profissional. Preferiria escolher o candidato que só tivesse a escolaridade obrigatória e nunca tivesse trabalhado na vida?
Continue a imaginar o leitor: é membro de um júri para selecionar candidatos num concurso para preenchimento de uma vaga no sector público. Rasgaria os currículos dos mais capazes, preferindo um que só soubesse mandar bitaites?
Creio que a resposta em ambas as hipóteses é óbvia, para a larga maioria.
Mas gostaria que o leitor imaginasse que é dirigente de um partido político. Aparece-lhe um rapaz sem estudos, ou que interrompeu os estudos que estava a desenvolver, sem nunca ter trabalhado ou dado provas públicas da sua competência. Com certeza poderá o leitor admiti-lo no partido, afinal é um direito que assiste ao rapaz. Mas metê-lo em listas de candidatos a eleições? Não será um risco tremendo de o partido ter fraca votação?
Se aceitarmos o princípio de que, para gerir a coisa pública, aquele que a tal se candidata tem de ter dado provas da sua capacidade para gerir a sua vida privada, a resposta é clara. O rapaz que complete o seu curso, vá trabalhar, prove que é capaz, e depois a gente conversa…
Só que o PS partiu durante muitos anos do princípio contrário, de que qualquer um serve. E aí os temos, os rapazes, deputados, governantes, presidentes de câmaras municipais, sem nunca terem gerido nada mais para além de paleio.
Claro que têm de estar desesperados. O que vão fazer, se lhes faltar uma carreira de mama? Assim sendo, desatam a atacar, a escrever para os jornais, a inventar factos, só para eles “vesíveis”.
Cabe a todos os cidadãos conscientes usar o seu voto para repor a ordem natural das coisas. Que os filtros que existem noutros domínios, nas empresas privadas e na contratação pública, passem a existir igualmente na participação política. No fundo, como foi durante muitos anos: que os rapazes cresçam e depois apareçam.
António Bulcão
(publicada hoje no Diário Insular)
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