nas mãos de um louco, “Gengis Khan era um pacifista ao pé de Trump.

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“Gengis Khan era um pacifista ao pé de Trump. Nero era um aprendiz de incendiário que pegou fogo a Roma mas não ao mundo inteiro. Calígula era um pobre vaidoso comparado com a demência narcísica do Presidente dos Estados Unidos. Até o grande, o infalível Kim Jong-il fica aquém do culto de personalidade deste louco insaciável. E mesmo Estaline, Hitler, Mao ou Pol Pot, encarnações do mal absoluto, tinham pelo menos um plano de acção coerente, ainda que tenebroso, enquanto que com Trump nem ele próprio sabe onde o conduzirão as suas bravatas — como se está a ver no Irão. É verdade que eles perseguiam e fuzilavam os adversários, ao passo que Trump também os persegue, mas ainda não os fuzila, apenas porque não pode, embora, como qualquer outro ditador, vá dando os passos necessários para lá chegar. Os seus recentes ataques à Alemanha e, por arrasto, à Europa e à NATO mostraram, para quem ainda tivesse dúvidas, que ele não respeita tratados, nem acordos, nem palavra dada. Que não conhece regras, nem limites, nem vergonha, e por isso é capaz de se gabar e orgulhar-se de actos de pirataria internacio­nal ou de ameaçar destruir numa noite toda uma civilização pelo método Hiroxima de vitória militar.

Não sei quanto mais tempo é que o mundo, o Ocidente, a Europa, as democracias e as nações civilizadas esperarão ainda para encarar Donald Trump como um terrorista planetário e organizarem-se para lhe fazer frente. Mas as coisas agora parece que finalmente começam a mudar e vemos aliados ou contemporizadores do trumpismo, como Merz, Meloni, Starmer, Von der Leyen ou António Costa, já a balançarem face ao óbvio. A recente Cimeira Política Europeia, na Arménia — para a qual foram convidados países outros como Inglaterra, Turquia ou Canadá —, foi a prova disso, com uma agenda centrada na coordenação de uma resposta política ao destrambelhamento (até fisicamente patente) deste alucinado. Porém, ocupado com o banco de horas e a caça aos imigrantes (também aí em contracorrente com o resto da Europa), o nosso primeiro-ministro não “teve agenda” para estar presente. Mas há que compreender: Erevan fica longe e o que iria fazer a uma cimeira convocada em parte para responder a Trump, o único Governo que, além do Governo genocida de Israel, apoia sem rodeios, compreende e ajuda Donald Trump no seu crescente desvario? O nosso Governo, em nome de Portugal, face ao ataque sem aviso contra o Irão, “está com o nosso aliado americano” e oferece as Lajes, de borla e sem questionar. Face às sucessivas amea­ças de Trump de retirar os Estados Unidos da NATO ou de desproteger a Europa, obedece à ordem de se arruinar a comprar armas — e de preferência americanas, como uma caterva de F-35 ao preço de €100 milhões cada e mesmo que depois não haja pilotos para os aviões. Ele manda e Montenegro e Rangel obedecem e até agradecem, na mais indecente postura da nossa diplomacia desde o “orgulhosamente sós” de Salazar.

2 Nunca hei-de perceber por que razão é que os nossos deputados acham que é gritando que se tornam mais credíveis, ou mais verdadeiros, ou mais populares. Não são todos, é claro, mas há um grupo seleccionado deles e delas que só sabe falar aos gritos — e por vezes até servidos por vozes estridentes ou esganiçadas, que transformam a Assembleia da República não numa peixeirada de mercado, porque as peixeiras não gritam assim, mas numa espécie de gaiola das loucas, onde é suposto estarmos representados. Também constato que quanto maior é a demagogia do discurso maior é a gritaria, como se achassem que o povo é mais facilmente enganado por quem mais estardalhaço causa. E nesse capítulo ninguém bate os deputados do grupo parlamentar do Chega, que, seja qual for o tema e o pretexto, gritam como se quisessem vender casacos de pele aos tuaregues do Saara num souk da Argélia. Seguem as pisadas do seu líder, André Ventura, forçado a gritar ainda mais para vender ao povo o supra-sumo da demagogia: subida das pensões e baixa da idade de reforma. De facto, é preciso gritar muito para conseguir argumentar a favor de uma progressão aritmética contra uma progressão geométrica: as pessoas a viverem cada vez mais e as pensões a subirem sempre. Se pensarmos que baixando apenas um ano na idade da reforma haveria 100 mil portugueses que automaticamente deixavam de ser contribuintes da Segurança Social e passavam a ser beneficiá­rios, quanto anos seriam necessá­rios para o sistema rebentar? Como explicar ao povo, mesmo aos gritos, que a geração no activo deve pagar os custos insustentáveis da geração reformada até que o sistema vá à falência e os que andaram a pagar não tenham depois reformas?

3 Por más razões, fui um privilegiado no que respeita a saber de perto o que significa a violação do direito à intimidade da vida privada e o direito ao sigilo da correspondência, que é um direito instrumental do outro e ambos consagrados na nossa Constituição: cresci numa casa onde fui ensinado a saber que a PIDE escutava todas as conversas telefónicas, e anos mais tarde, na Comissão de Extinção da PIDE, não quis, obviamente, consultar a transcrição das nossas conversas escutadas pelos esbirros da PIDE, mas encontrei cartas enviadas pelos meus pais e que nunca chegaram ao destino ou outras que nunca receberam. Julguei que tudo isso tinha acabado de vez na manhã do Largo do Carmo, mas a verdade é que desde o 25 de Abril só tenho visto, revisão legal após revisão, recuarem as garantias individuais e avançarem as excepções permitidas à investigação penal.

Uma semana depois de ser conhecido um relatório de uma inspecção interna ao DCIAP — o coração e a jóia da coroa do Ministério Público (MP) —, que, entre outras graves descobertas, se deparou com processos há anos sem qualquer movimento, enquanto os investigados continuavam com computadores apreendidos, contas bancárias congeladas e suspeitas públicas permanentes, eis que um grupo de trabalho do mesmo MP veio apresentar as suas propostas para acelerar a tramitação dos processos. A primeira conclusão dessas propostas (lidas na imprensa), que não constitui surpresa, mas não deixa de ser chocante, é que não existe uma só medida prevista para penalizar os procuradores que arrastam processos sem sentido nem desfecho previsível, majestaticamente sentados em cima do tempo como se não houvesse ninguém a sofrer consequências enquanto eles dormem o sono dos justos: chamam a isso, a essa absoluta irresponsabilidade profissional, a autonomia do MP. Logicamente também é sem surpresa que vemos o grupo de trabalho propor duas medidas que tinham sido recomendadas pelo Conselho Superior da Magistratura e, ao que parece, em vias de serem adoptadas pelo Governo: multas pesadas aos arguidos ou seus defensores que usem “expedientes dilatórios” para atrasarem o andamento dos processos (uma avaliação subjectiva unicamente a cargo dos próprios magistrados) e a impossibilidade de recorrer de uma sentença para o Supremo Tribunal de Justiça por quem não foi condenado a menos de 12 anos de prisão. Mas é no campo da invasão da privacidade alheia que os senhores procuradores mais exibem as suas pretensões visionárias. Eles querem poder ter acesso à geolocalização instantânea de quem considerem suspeitos, a poder examinar todo o correio electrónico apreendido em computadores sem antes passarem pelo crivo de um juiz de instrução que lhes diga o que podem e não podem usar e, cereja no topo da libertinagem, poderem aceder remotamente ao correio electrónico dos visados sem sequer terem de examinar os seus computadores na sequência de um mandado de busca e apreensão de um magistrado e da sua autorização para tal. Ou seja, e indo isto para a frente, um cidadão, que pode ser absolutamente inocente de qualquer suspeita — vítima, por exemplo, de uma simples denúncia anónima por razões de vingança pessoal —, pode ter os seus telefonemas escutados sem qualquer motivo para desconfiar de tal e indefinidamente; pode, via telemóvel, dar a conhecer a um procurador onde está e por quanto tempo, em qualquer momento, e pode, tranquilamente e como todos nós, estar a usar o seu computador, nele armazenando a sua correspondência privada, a sua vida profissio­nal, financeira, familiar e pessoal, enquanto à distância o vigilante procurador vai seguindo passo a passo tudo o que acontece na sua vida.

Creio que não vale a pena perder muito latim a classificar estas 130 medidas reivindicadas: trata-se de propor, sem mais, a substituição de um Estado democrático, fundado no respeito pelos direitos das pessoas, num Estado policial. Mas seguramente haverá quem não se importe: por alguma razão havia tantos informadores da PIDE e muitos até voluntariamente e pro bono.”

https://expresso.pt/…/2026-05-07-nas-maos-de-um-louco…

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