Uma vez reconhecida a incapacidade, por saturação acrescente-se, de seguir as notícias, debates, discussões, informação e contra-informação da pandemia que nos assola, resolvi encostar-me no meu canto, confiar nos médicos e cientistas e, simplesmente, fazer o que me pedem. Ao contrário do que pensava há quase um ano, hoje olho para esta pandemia com mais cuidado, preocupação e, obviamente, receio. É esse o efeito que o tempo provoca. E respeito quem esteja a sofrer com a doença, já tenha sofrido ou veja a dor de um familiar. E é exactamente por isso que me abstenho no meio da gritaria. Chegámos a um ponto da discussão em que, sinto eu, ainda tentamos convencer metade da população que isto existe. Há conversas tão surreais que a argumentação está ao nível da campanha eleitoral, quando se explicava a um eleitor do Chega, que beneficiava do RSI, porque é que o voto dele era uma arma apontada para ele próprio.
A comunicação portuguesa, incluindo jornais que já foram de referência, dão palco a qualquer artista que queira dizer umas asneiras e, sempre que possível, estimulam a confusão, o ódio e não raras vezes falham na sua mais básica função, a de informar.
Nesta histeria colectiva, alguém me explicará um dia durante um café, que raio de fixação é esta com a Suécia? Eu sou do tempo em que esta rapaziada era referenciada em Portugal por 3 razões, a saber:
1 – festas de karaoke onde o momento “Dancing Queen” era obrigatório
2 – telefones com toques polifónicos
3 – saltos efusivos lá no terceiro anel, aquele bem alto com cadeiras de cimento, sempre que o Stefan arrancava na esquerda e deixava para o Jonas no meio que, por sua vez, fazia chegar ao Mats para ele atirar a contar
Eram estes os momentos Suécia em Portugal. Quando chegou o IKEA já eu não pedia a bica pela manhã.
Mas durante este ano parece que a coisa mudou, não é ? Entre 200 países com Covid, há uma vibração especial com a Suécia.
Os negacionistas, com aqueles grupos dos não sei quantos pela verdade, agradecem à Suécia e dizem todos os dias que ali é que é. Nas mentes deste pessoal vive-se um Woodstock 69 e vamos para o trabalho às cavalitas uns dos outros. E por mais que uma pessoa explique que não é assim, que há quem use máscara, que o sector privado meteu o pessoal a trabalhar em casa, que durante algum tempo os miúdos mais velhos também tiveram aulas remotamente, que o governo pediu que os convívios se reduzissem ao núcleo familiar, que há postos de desinfecção por todo o lado, que há horários mais reduzidos, que as marcas para distanciamentos estão presentes em qualquer zona de comércio e por aí fora. Por mais que uma pessoa diga, ao fim de 9 meses a trabalhar em casa, que a Suécia tem e sempre teve medidas de contenção, a mensagem não passa. Não há muito a fazer.
E do outro lado, dos que querem justificar que a teoria portuguesa está correcta, também usam a Suécia como o exemplo errado, embora o governo português tenha optado nesta segunda fase por um conjunto de medidas muito parecidas com as que a Suécia tem desde sempre.
Mas o que verdadeiramente me irrita é a leviandade com que jornais, outrora de referência como o DN, vão a tablóides ingleses e nem se dão ao trabalho de confirmar antes de traduzir o que julgam ser uma notícia. Há 3000 portugueses na Suécia…não era mais fácil pedir a algum deles que faça as transcrições das conferências de imprensa do primeiro-ministro ou do epidemologista chefe ? Não era mais fácil irem à fonte em vez de contribuirem para um circo que costuma ser a praia das CMTVs desta vida? Este é um país onde cada um de nós pode ir ao Google ver se o vizinho tem dívidas ao fisco. Certamente não custará muito descobrir a posição oficial do governo sobre o covid.
Dizia desta vez o DN que Anders Tegnell assumia que a estratégia da Suécia estava errada. É que…o homem não disse nada disso. Disse exactamente o contrário, que iria seguir o mesmo caminho (
https://mobile.reuters.com/article/amp/idUSKBN27T2R1). E note-se, eu não estou a discutir qual é o caminho certo. Ao contrário do que vou lendo por aqui, de repente todos somos especialistas em pandemias e vírus, eu não faço a mínima ideia de qual será a saída para isto. A única coisa que me faz pensar é, PORQUE RAZÃO MENTEM, DESCARADAMENTE, ALGUNS JORNAIS PORTUGUESES ? É só isto.
De que forma é que isto ajuda seja quem for? Escapa-me.
A única coisa que Anders Tegnell, e com ele a Suécia, tem dito desde o início é: ninguém sabe nada sobre isto, vamos aprendendo enquanto tentamos combater a doença mas, o essencial é garantir que a propagação do vírus é feita a uma velocidade a que os hospitais consigam responder. Isto parece-me mais ou menos senso comum. Aliás, foi exactamente o que o Costa disse na última conferência de imprensa. Sobre máscaras e confinamentos totais, o que a Suécia defendeu foi, aprendendo com outros países, não notam uma diferença muito grande nos casos/mortos em quem optou por medidas mais severas nesta segunda fase. Tal como a notícia sobre a proibição de se vender álcool depois das 22h. Significa apenas encerrar os bares mais cedo (tal como em Portugal). Nunca foi possível comprar álcool num supermercado mas pronto, a notícia omite essa parte para causar mais fricção. E pronto pá…é isto. Senso comum. Pragmatismo. Nem Woodstock, nem Gulag. Algures ali no meio que é, só por acaso, onde Portugal chegou também. E se estiverem errados, mudam. Sem gritos.
Mas, já agora, se quiserem manter o balanço e continuar com esta fixação nórdica na era pós-Covid, eu ficaria particularmente agradecido e muito menos irritado.
Começavam por distribuir os impostos por quem os paga e não por bancos ou PPPs. Metiam 2 ou 3 creches GRÁTIS em cada bairro e garantiam que o ensino tinha acesso universal. Depois arranjavam forma de entrar no mundo digital e faziam o IRS com um sms ou compravam uma casa sem meterem os pés no banco. O DN poderia continuar a alterar as histórias (por exemplo, 5 creches em cada bairro) só para manter o pessoal da espuma nos comentários. Se é para ficar obcecado com as escolhas dos outros, meus amigos, não sejam pobres a escolher. Não se fiquem pelo vírus. Apontem para cima.
Ps – foto com pessoas ao molho numa das lojas estatais com autorização para vender álcool. Mesmo aqui ao lado de casa. Perto das 5 creches.