OSVALDO CABRAL DIÁRIO DA PANDEMIA

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Diário da pandemia

Terça, 7 de Abril – O Governo da República anda desorientado nesta crise pandémica no que toca às decisões relativas às Regiões Autónomas e o Governo dos Açores continua submisso.
Estamos a andar para trás anos luz nas conquistas da Autonomia com os ataques que Marcelo, Costa e Catarino estão a desferir contra os Açores e a Madeira, mas isto são contas que certamente serão pedidas na altura própria.
A última desorientação tem a ver com o número limite de passageiros a viajar na TAP, de Lisboa para os Açores e Madeira, a tal que transporta tudo o que aparece, desde não-residentes a turistas e até infectados foragidos…
Na semana passada o Secretário de Estado Adjunto e das Comunicações, Alberto Souto de Miranda, publicou no Diário da República um despacho que desobrigava os voos da TAP a cumprir com a regra de limite máximo de um terço da ocupação.
Uma aberração, pois permitiria todos ao molhe dentro do avião a caminho das Regiões Autónomas.
Desconhecemos como reagiu o Governo dos Açores, mas sabemos que o da Madeira, como vem sendo habitual nesta crise, deu mais um murro na mesa em defesa da protecção dos madeirenses.
Barafustou junto da República e, de imediato, obteve a promessa de que a asneira ia ser corrigida.
Ao fim do dia lá vinha a correcção com outro despacho do Ministério dos Transportes, repondo o limite que já tinha sido definido.
A República quer mesmo infectar-nos.
O que virá a seguir?

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Quarta, 8 de Abril – Porque é que os comunicados do Governo dos Açores, sobre o estado de emergência, indicam que as decisões foram tomadas com o conhecimento do Representante da República, e o comunicado do Representante da República, emitido na passada semana, sobre os limites de circulação na Páscoa, não faz nenhuma referência ao Governo dos Açores?
Afinal, quem manda nesta Região?

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Quinta, 9 de Abril – Não é estranho que a Autoridade de Saúde dos Açores desaconselhe o uso generalizado de máscaras pela população, enquanto a Direcção Geral de Saúde já emitiu uma norma a incentivar o uso (“é um acto de altruísmo”) e o Governo da Madeira até distribuiu máscaras gratuitas por toda a população?
A norma açoriana baseia-se em que teoria da Organização Mundial de Saúde? Ou é por não querer admitir que não há máscaras suficientes para distribuir?

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Sexta, 10 de Abril – O mais provável é que também não hajam reagentes suficientes para se massificar os testes, sobretudo em S. Miguel. Mandar doentes que estavam internados para os lares de idosos sem terem efectuado testes é de uma grande irresponsabilidade. Não se percebe este racionamento de testes. Foi o racionamento inexplicável que criou o pandemónio no Hospital de Ponta Delgada. E os enfermeiros avisaram a tempo. Agora, já depois do mal estar feito, é que tentam apagar o incêndio.
No segundo voo à China tragam mais testes.

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Sábado, 11 de Abril – “Quando os Açores precisam da SATA, a SATA responde: Presente!”, disse-nos o Presidente do Governo.
Ora aqui está um belo slogan para o nosso governo aplicar também na EDA.
Sabemos que no próximo mês de Maio os accionistas da EDA vão reunir para a distribuição de dividendos.
O Governo dos Açores, sendo o maior accionista, vai permitir a distribuição de dividendos no meio desta crise ou vai, também, lembrar-se que a EDA deve dizer “Presente!” a todos os consumidores açorianos agora com menos rendimento?

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Domingo, 12 de Abril – A SATA vai à China, mas parece que custa muito descolar de Santa Maria e fazer escala em S. Miguel para deixar as grávidas daquela ilha a caminho do hospital.
As marienses têm que fazer um ’tour’ pelas outras ilhas (como disse uma das grávidas), chegando ao seu destino quatro horas depois, numa viagem que poderia durar 15 minutos.
Numa destas viagens uma grávida sentiu-se mal, depois de ter descolado da Horta, e a aeronave teve que regressar.
Não se pode corrigir isto? Perguntam as grávidas de Santa Maria.

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Segunda, 13 de Abril – A Comissão Europeia pretende que os Estados-membros prolonguem até 15 de Maio a interdição de entradas “não essenciais” em território europeu, medida que foi adoptada a 17 de Março como forma de prevenir a propagação da pandemia de COVID-19 e que deveria vigorar por 30 dias.
O governo português aprova a decisão europeia.
É o mesmo governo que mantém a TAP a viajar para as Regiões Autónomas, contra a intenção dos respectivos governos regionais.
É difícil interpretar certas decisões, que pertencem ao domínio da hipocrisia política.
Até quando nos vão espezinhar?

Abril 2020
Osvaldo Cabral
(Diário dos Açores, Diário Insular, Multimedia RTP-A, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal)

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quando o mau jornalismo expulsa o bom

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«Não estamos todos no mesmo saco. Não somos todos iguais. Daí que se torne um bocadinho irritante que o conselho deontológico do Sindicato dos Jornalistas se refugie numa espécie de “recordatórias”, enviadas às direções de informação, ora sob a forma de notas ora sob a forma de cartas abertas a pretexto da Covid-19 para, em menos de um mês, alertar repetidamente para que as direções de informação, dos vários meios, velem pelo escrupuloso cumprimento das mais básicas regras da profissão por parte dos seus jornalistas.
É caso para perguntar: esta repetida pedagogia deve-se exactamente a quê? Acordaram para o incumprimento reiterado de alguns órgãos de informação em matéria deontológica? Só perceberam agora. Não deram pela cobertura dos casos Sócrates e companhia, não assistiram à novela Rosa Grilo? Perceberam finalmente que se pratica em Portugal, às vezes e em alguns casos senão mau, pelo menos péssimo jornalismo?

Não querem chamar os “bois pelos nomes” e temem que acabemos todos num pântano onde nos afogamos coletivamente reciclados com o lixo das redes sociais? Se sim, cabe informar então que, lamentavelmente, descobriram tarde e o risco é grande. Cada vez maior. Nisso têm toda a razão. No jornalismo como na economia “a má moeda” acaba por eliminar “a boa moeda”. Não é novo e já está a acontecer.
E o público foge e começa a estar farto? Pois. E começa a tomar a parte pelo todo? Sem dúvida. Daí o desafio: não ceder. Não ceder. Não ceder. Escrutinar ainda mais. Não cair na voracidade de ser sempre os primeiros. Não dar voz ao falso, para corrigir de imediato. Em “fact check” logo a seguir as próprias notícias. (…)»

[Graça Franco, Rádio Renascença, 14/04]

Acordaram para o incumprimento reiterado de alguns órgãos de informação em matéria deontológica? Só perceberam agora. Não deram pela cobertura dos casos Sócrates e companhia, não assistiram à novela Rosa Grilo? Perceberam finalmente que se pratica em Portugal, às vezes e em alguns casos …

pneumónica nos açores 1918 mortos por idade, sérgio resendes

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Óbitos por idade, São Joaquim em 1918.
Claro que a natalidade infantil batia, como sempre, recordes.
“[…] Apesar de no registo não constar a causa de morte, verifica‑se a predominância de jovens, uma das caraterísticas da gripe “Espanhola”, nomeadamente a faixa etária entre os 15 e os 40 anos, correspondente a 37.8% dos óbitos ocorridos durante esses três meses (116 casos). A predominância é do sexo masculino, cujos féretros são cinco vezes mais do que a média dos outros meses (entre 1917 e 1919), e no caso feminino, três vezes mais. Estudos similares, embora não tão profundos, fazem jus a este terrível ano em cemitérios de freguesia, nomeadamente o da Ponta Garça.[…]” in “A Grande Guerra e os Açores: da estratégia naval à Pneumónica”, Letras Lavadas, 2019.

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  • Santos Narciso Delicio-me a aprendo lendo os seus escritos. Obrigado, Amigo que considero Professor. Abraço

ANTÓNIO BULCÃO, O SENHOR MORTO

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O Senhor Morto
O Senhor Morto estava dentro de uma caixa de vidro. Para que todos pudéssemos ver que estava ali e que estava morto.
Era a imagem que mais me impressionava, na Igreja da Matriz. Todas as outras estátuas tinham os olhos abertos e estavam de pé. Anjos com asas e santos com cajados para se aguentarem melhor nos altares, Santa Cecília com uma harpa, para lembrar ser a padroeira da Música. Só o Senhor Morto estava deitado, com os olhos fechados.
Muito estranho, para uma criança, ver um Senhor que estava morto, na base do terceiro altar a contar da entrada, e ver o mesmo Senhor vivo noutros altares.
Ainda mais estranho na Páscoa. O Senhor Morto ia dar um passeio à Sexta-Feira, num cortejo chamado procissão. Depois voltava para a sua caixa de vidro. Mas eu esperava que ele ressuscitasse no Domingo. Era assim que estava previsto, que estava nos livros da catequese e nos sermões do padre.
A igreja inteira a cantar “ressuscitou, ressuscitou” e eu a vê-lo morto ao meu lado.
Depois meti na cabeça: aquele Senhor podia estar vivo e morto ao mesmo tempo. Por isso é que se chamava Nosso Senhor. Estava por todo o lado, quer estivesse vivo, quer estivesse morto.
Pai: que saudades desse tempo dos calções curtos, a entrar na igreja pela tua mão. Foste-te fez há pouco vinte anos, por isso tenho de te contar como as coisas andam por aqui.
Estou trancado em casa há um mês, pai. Por causa de um vírus chamado corona, que começou num mercado de uma cidade chinesa o ano passado. Sempre desconfiei de malta que come ratos e baratas. Desta vez parece que foram morcegos.
Claro que eles poderão desconfiar de nós, que comemos lapas. Mas eu cá acho que é muito diferente. A lapa é um animal limpinho, sempre ali na água, até se mama com o mar a escorrer da casca, se for mansa e apanhada no calhau. Já uma barata é coisa bem diferente. Fico arrepiado com aquele estalo que dão quando lhes meto o pé em cima, nem quero imaginar o que seria trancar uma pela goela abaixo, mesmo que fosse frita.
Mas pronto, a doença começou ali, e toda a malta esperava que por ali ficasse. Víamos as notícias que chegavam de lá e pensávamos que aquilo era coisa dos chineses. O médico que denunciou morreu a ficámos mais assustados. Um rapaz novo, médico ainda por cima, morrer de um vírus, era mais sério do que julgávamos.
Não ficou pela China. Foi para Itália e depois para todo o Mundo. E chegou à ilha.
Havia o rumor de que um terceirense tinha regressado de Itália e era suspeito. Na primeira aula da manhã um aluno confirmou. Disse de que freguesia era e que tinha andado a ver bailinhos no salão da mesma. Na segunda aula da manhã uma aluna disse que era o primo dela. Ficámos à espera do teste. Deu negativo. Respirámos fundo.
Mas por poucos dias. Ao primeiro caso positivo, entrámos em alerta, depois em contingência, depois em emergência. A escola já tinha fechado logo no alerta.
Meti-me logo em casa. Por ter pisado muitos riscos ao longo da vida, pertenço ao grupo de risco. E aqui estou, faz hoje precisamente um mês. Em todos os canais os mortos sobem no Mundo, ainda mais os infectados.
Espero a fase de mitigação numa casa à beira-mar. Sou um privilegiado por poder apanhar sol no alpendre. Não sei o que significará ficar em casa para quem partilha o mesmo quarto com mais oito pessoas em Bombaim. Como não imagino o que quer dizer ficar em casa para um sem-abrigo em Lisboa. Apesar de o primeiro a morrer em Portugal tenha sido o maior do banco onde guardo alguns cêntimos…
Estamos todos mortos, pai, só que não tínhamos reparado. Como o Senhor Morto, parecendo vivo num lado, morto dentro de uma caixa de vidro no outro. O grande José viu-nos todos cegos, no seu Ensaio. O que não escreveria hoje? Afinal não estamos apenas todos cegos. Estamos mortos.
Talvez ressuscitemos. Talvez saiamos da caixa de vidro. Mas que tenhamos aprendido a lição. É só o que peço. E espero.
António Bulcão

COVID 19 TAXAS DE MORTALIDADE

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Assim vai o mundo

1 – Taxas brutas de mortalidade (cumulativa) a 15-4-2020

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Comments
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  • Antonio Gomes Obrigado, compº. Contudo, em vez de taxa de mortalidade, não deveria ser taxa de letalidade? Ou o nº de casos, por não ser rigoroso, não é bom indicador?
    • Carlos Ramalheira Antonio Gomes caro comp°., de facto a estatística mais confiável, nesta fase evolutiva da epidemia, nomeadamente pela razão que refere, de poder haver diferentes proporções de doentes detectados em cada país, é a taxa de mortalidade.
      Nas fases iniciaiSee more
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ANTERO A HOMENAGEM QUE NUNCA FOI FEITA

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Tomás Quental

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A homenagem que nunca foi prestada nos Açores a Antero de Quental

Os Açores nunca souberam ou não quiseram homenagear condignamente o maior de todos os açorianos: Antero de Quental. Mas outros souberam e fizeram, para vergonha das instituições açorianas. Vila do Conde, onde Antero de Quental viveu durante dez anos e onde produziu uma parte muito importante da sua obra poética, transformou a sua antiga residência em “Casa Antero de Quental”, que, além de recordar esse facto, funciona como centro de estudos anterianos, decorrendo com alguma frequência conferências e outras iniciativas culturais. O elevado montante que a Câmara Municipal de Ponta Delgada pagou ao mais famoso arquitecto brasileiro pelo projecto de um Museu de Arte Contemporânea que nunca foi construído daria – e ainda sobrava – para criar uma “Casa Antero de Quental”, que também poderia funcionar como repositório de recordações do poeta-filósofo e como centro de estudos anterianos. A memória de Antero de Quental merecia mais consideração dos açorianos!

 

VEJA AQUI ALGUMAS INICIATIVAS DA AICL COLÓQUIOS DA LUSOFONIA SOBRE ESTE TEMA
https://coloquios.lusofonias.net/projetos%20aicl/antero.htm
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Mal Amanhados. Novo programa da RTP leva-nos a conhecer o arquipélago dos Açores a partir do sofá

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Estreia já esta quinta-feira, dia 16 de abril, às 21h45 (20h45 nos Açores) e promete ser uma verdadeira odisseia pelos Açores.

Source: Mal Amanhados. Novo programa da RTP leva-nos a conhecer o arquipélago dos Açores a partir do sofá