PEDRO ARRUDA SOBRE AS ELEIÇÕES

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Deixem-me, desde já, admitir o eventual erro da minha análise. Não sou sociólogo, nem politólogo, que é a difícil ciência de interpretar políticos, nem sequer tudólogo, esse novo fenómeno televisivo que nos assoberbou com inúmeros especialistas em tudologia, nos vários canais de televisão, antes e durante o auge destes anos da peste. Poderei, quanto muito, reivindicar o vago direito à condição de historiador, que não é grande fundamento académico para análise de questões comportamentais, mas avançarei, na mesma, com a minha singela interpretação para a pergunta política do momento, que tanto apoquenta jornalistas, comentadores e Marcelos de toda a espécie: o porquê da maioria absoluta do PS de António Costa? Na minha parca visão, existem duas razões, que até são paradoxais entre si, para este retumbante resultado. Em primeiro lugar, julgo que fica claro, embora tal não tenha sido alvo de plebiscito, que a grandíssima maioria dos portugueses acabaram por fazer uma avaliação e validação positiva da gestão socialista, e do governo de Costa, da pandemia. No fundo, a ideia de um Governo autoritário e repressivo é algo que não perturba e que até agrada aos portugueses. É que, sejamos claros, foi um governo dito socialista que, quando colocado debaixo de uma ameaça, optou, sem pestanejar, pela via do fascismo sanitário. Que os especialistas recomendassem a perda de direitos fundamentais é uma coisa, que os políticos o decidissem, e até com verdadeiras ganas de o fazer, é outra, substancialmente diferente. Quando confrontados com a decisão de escolher entre a Liberdade ou a Vida, os políticos, e políticos ditos socialistas, como Costa, optaram voluntariamente por matar a Liberdade. E não me venham dizer que sou um assassino de velhinhos porque basta olhar para a Suécia para perceber que isso não é verdade. A questão fundamental aqui é exatamente essa escolha política da ponderação da opção entre os princípios basilares de um Estado de Direito Democrático e de uma sociedade livre, que imperava defender, ou o Estado Totalitário de uma sociedade presa na ditadura sanitária, à qual se ofereceram voluntária e sorridentemente. “Antes morrer livres do que em paz sujeitos” vem-me imediatamente à cabeça. Ora, aparentemente, esta contradição fulcral não perturbou os portugueses, que deram uma maioria ao Primeiro-ministro dos confinamentos, das quarentenas, da vacinação em massa e, talvez o mais grave, ao pai histórico do precedente mais assustador e absurdo, de violação do ideal europeu, o passaporte sanitário. Costa ficará na história como o sancionador do maior ataque aos ideais de uma Europa livre, a Europa de Maastricht e Schengen, uma Europa de circulação aberta para todos os cidadãos, com a instituição do salvo conduto vacinal, o maior instrumento de segregação e de limitação das liberdades individuais na história do continente europeu. Para os portugueses, tudo isto está bem quando acaba bem, o importante era matar o bicho, mesmo que para isso fosse preciso matar tudo aquilo que nos faz ser uma sociedade aberta, livre e democrática. A segunda razão de fundo que vejo para a maioria absoluta de Costa, e é aqui que reside o paradoxo fundamental, é o CHEGA!. Houve, creio que claramente, tanto à esquerda como ao centro, que são a maioria do país, uma concentração de voto no PS para evitar a possibilidade de reedição, no país, daquilo que tinha acontecido nos Açores, um Governo refém, fosse no parlamento, ou até mesmo em coligação governamental, do partido de André Ventura. É aqui que reside o paradoxo das massas. Os mesmos eleitores que se assustam com um partido xenófobo e racista a governar o país são os mesmos que aceitam um Primeiro-ministro que lhes coarta sem pestanejar as liberdades mais essenciais. Esta contradição fundamental está no centro do nosso momento político e é extraordinário que a maioria das pessoas não o consiga discernir. No fundo, Portugal é um país do respeitinho e da autoridade, uma sociedade amorfa e abdicante, que se revê na panaceia de um líder, que nos proteja da ameaça, desde que o ordenadosinho não deixe de cair na conta ao final do mês. A verdade, como se vê pelos resultados eleitorais deste domingo, é que o PREC nunca acabou, restará é saber quem é que, verdadeiramente, está com a revolução e quem é que, no fundo, está com a reação. Eu, por mim, sei que nunca irei com a Ditadura, seja ela de que tipo for… ✊
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Pilar Melo Antunes and 5 others
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O SALTO

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O SALTO
Luís Castro Mendes
Opinião
Ubi libertas ibi patria.
Ovídio
Vemo-los nas fotografias de Gérard Bloncourt, datadas dos anos 1960: viviam nos bidonvilles à volta das cidades de França, em condições miseráveis, trabalhavam como pedreiros e mulheres-a-dias nessa França dos “trinta gloriosos” anos de crescimento económico (1945-1975), um país que se reconstruía e transformava dia a dia. Eles eram os peões e os párias nessa sociedade e eram desprezados com o fino desdém que a França reserva aos metecos.
Em duas ou três gerações mudaram, como o seu país de origem mudou. Essas transformações nem sempre foram mutuamente percebidas. Na escola pública em Paris, ainda em 1990, um menino português garantia às minhas filhas que em Portugal não existiam cinemas nem supermercados, apenas aldeias perdidas nas serras, numa das quais ele se aborrecia perdidamente durante as férias. Hoje tal imagem não existe nem poderia existir, porque os jovens portugueses de França conhecem o seu país e dele se orgulham ou simplesmente o consideram um país europeu como os outros. Os portugueses deixaram de ser metecos em terras de França (continuando os magrebinos nessa condição) e a cultura francesa abre-se à nossa cultura, como a excelente Temporada Cruzada de manifestações culturais portuguesas em França e francesas em Portugal irá neste ano uma vez mais demonstrar.
A comunidade portuguesa em França, essa que descende das heroicas figuras que Bloncourt retratou, teve a sua origem num movimento migratório com início nos anos 60 do século passado, a que se deu o nome de “O Salto”.
Eles agrupavam-se, vindos em táxis ou em camionetas, nos pontos indicados pelos passadores e esperavam. Às vezes juntavam-se a eles os desertores, os foragidos políticos, com o sonho noutros horizontes, os da Revolução. Juntavam-se e esperavam, vindos de muitos lugares e de muitas vidas.
E por vezes acontecia o que eles mais temiam: em lugar do passador aparecia a polícia, por denúncia de informadores. Emigrar era um crime, a força de trabalho tinha de ficar disponível a preço vil e sair para ir trabalhar por melhor salário era uma traição equiparável a desertar da luta pela África Portuguesa ou a combater a política de Salazar, que nos garantia a todos a guerra e a miséria.
Sucedeu que uma vez alguns desses criminosos, apanhados de malas na mão perto da linha da fronteira, foram conduzidos a um juiz da comarca de Chaves, que proferiu na altura um despacho escandaloso:
Considerando que se trata de cidadãos portugueses que se encontravam em território nacional, não considero provado o crime de emigração clandestina, uma vez que estes cidadãos nunca saíram do país e é mera conjetura a sua intenção de emigrar, pelo que os mando ir em paz.
A princípio tentaram as autoridades uma aproximação tolerante e construtiva, que evitasse o escândalo. Uma delegação de funcionários superiores da PIDE pediu para ser recebida por esse juiz e solicitou-lhe, com bons modos, que alterasse para o futuro a sua jurisprudência.
O magistrado respondeu-lhes com a ideia obstinada da independência dos tribunais e convidou-os, com modos um pouco mais ásperos, a saírem do seu gabinete. A brandura dos nossos costumes e o medo do escândalo levou a que a única consequência para esse juiz tivesse sido a sua imediata transferência para uma outra comarca, bem longe da raia. Assim, o contingente seguinte de emigrantes clandestinos apanhados do lado de cá da fronteira foi cumprir a sua merecida pena de prisão, que para os pobres não havia brandura de costumes que valesse. Era esta a independência da justiça antes do 25 de Abril, essa de que alguns hoje sentem saudades…
Aquele juiz era meu pai.
Dedicado à comunidade portuguesa e de origem portuguesa em França
Diplomata e escritor
May be an image of nature and tree
Carlos Fino, Ana Maria (Nini) Botelho Neves and 66 others
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    Carlos Fino

    Extraordinário episódio, que me fez reviver a minha passagem a salto, justamente na fronteira de Chaves, em 1971, fugido à PIDE e às guerras na sequência das greves estudantis desse ano e da entrada dos “gorilas” na Faculdade de Direito. Na noite anter…

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    La poesía es un arma cargada de futuro - Paco Ibañez
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  • Lucila Meira

    Pensava que passadores e GNR eram amigos e colaboravam entre si? A minha irmã mais velha também se tramou em Coimbra. Não pode terminar o curso. Foi para Angola com marido delegado do ministério público que teve que fazer lá a tropa. E ela terminou o …

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  • Jose Guilherme Anjos Pires

    Também em 1968 fugi por S.Gregório em Melgaço perseguidos pela gnr e depois por 2 pides conseguimos a tempo ficar escondidos em Espanha algum tempo , até rumar a Paris em Maio
  • Carlos Torres

    Muito bom sou um fã do Senhor Carlos Fino desde muito jovem,posso partilhar,melhor eu jà partilhei desculpe mas não resisti abraço amigo força sempre.

REVISTA DE ESTUDOS LUSÓFONOS, LÍNGUA E LITERATURA, dos COLÓQUIOS DA LUSOFONIA – #5, ANO 2020-2021

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Subject:

novidade dos CADERNOS AÇORIANOS

From:

“lusofonias@lusofonias.net” <lusofonias@lusofonias.net>

Date:

23/01/2022, 17:31

To:

aicl socios <aicl.socios@lusofonias.net>

 

A AICL teve dois anos difíceis mas continua a pugnar pela divulgação dos autores de matriz açoriana. Um dos seus grandes sucessos na área educacional têm sido os CADERNOS DE ESTUDOS AÇORIANOS e os seus suplementos, usados por escolas, politécnicos e universidades e por todos os que pretendem ter acesso à obra dos autores açorianos.

Assim, para facilitar mais esse acesso compilam-se todos os Cadernos de 2010 a 2021 no último número da

REVISTA DE ESTUDOS LUSÓFONOS, LÍNGUA E LITERATURA,

dos COLÓQUIOS DA LUSOFONIA – #5,

ANO 2020-2021

disponível em https://www.lusofonias.net/documentos/revistas.html

Neste nº 5 da Revista incluímos os 4 números anteriores da Revista com nº ISSN que albergam uma vasta seleção de comunicações e apresentações aos colóquios da lusofonia desde 2002 até 2020
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