O que se estará a passar no interior da Terra que provoca a elevada sismicidade na ilha de São Jorge?
Com base nos dados do Civisa [Centro de Informação e Vigilância Sismovulcânica dos Açores] e IPMA [Instituto Português do Mar e da Atmosfera], assim como dados de detecção remota analisados em conjunto com os meus colegas em Portugal e no estrangeiro, a meu ver esta sismicidade é criada pela fracturação da rocha em profundidade, induzida pela intrusão de magma, na forma de um filão, ao longo do sistema vulcânico fissural que se estende desde o Pico do Carvão para além das Velas, no offshore. Esta intrusão está ainda numa fase inicial e não é claro que venha a chegar à superfície. As probabilidades de essa intrusão chegar à supefície e gerar uma erupção, ou parar pelo caminho, cessando a actividade sísmica, são ainda muito difíceis de estimar. Daí o reforço das medidas de monitorização por parte do Civisa e do IPMA, e também da
comunidade científica. Foi neste sistema vulcânico fissural que se deram as erupções históricas de 1580 e 1808, e a crise sismovulcânica de 1964, que resultou provavelmente numa erupção submarina em águas profundas, ao largo e a noroeste das Velas.
Preocupa-o a actual crise sismovulcânica nos Açores?
Naturalmente que é motivo de preocupação e deve ser encarada com a seriedade devida. Existe um risco real de a crise aumentar e resultar numa erupção vulcânica ou em sismicidade acrescida e, deste modo, deveremos sempre preparar-nos para esta eventualidade, mesmo que não venha a materializar-se — como, aliás, esperamos todos que a situação não evolva para uma erupção ou sismo forte.
É preciso estar consciente, contudo, de que nem sempre este tipo de crises sismovulcânicas evoluem até resultar em erupção — nos Açores, a maioria, felizmente, não resulta — e que a nossa capacidade técnica e cientifica para antever cenários prováveis é ainda muito limitada. Mas, quando resulta em erupção, as consequências são gravosas e por isso é necessário encarar a situação com a seriedade devida, adoptando uma atitude de prevenção para não sermos apanhados desprevenidos.
Quais são os cenários mais fortes de evolução da actual situação?
É ainda muito cedo para conseguir fazer este tipo de análise de modo sólido. Muitas destas crises — felizmente — não resultam em erupções à superfície, na medida em que a intrusão de magma não chega à superfície, parando e arrefecendo lentamente. No caso de resultar numa erupção, no entanto, três cenários são possíveis. Primeiro: erupção no pedestal submarino da ilha, em águas profundas, de risco muito reduzido para as populações, sendo este o cenário de erupção mais benigno, semelhante ao que aconteceu em 1964. Segundo: erupção em águas pouco profundas, possivelmente ao largo das Velas, semelhante à erupção dos Capelinhos, sendo que este é um cenário de risco muito elevado, dada a proximidade à povoação das Velas e o possível fecho simultâneo do porto desta localidade e do aeroporto. Terceiro: erupção em terra, semelhante às erupções históricas de 1580 e 1808, cenário também de risco muito elevado devido a poder vir a afectar as povoações deste troço da ilha e ao fecho do aeroporto. Reforço a ideia de que nesta altura, com os dados disponíveis, não é ainda possível saber se a presente crise irá ou não “escalar” e resultar numa erupção. Deste modo, é preciso seguir a crise de perto e estar constantemente a avaliar estas possibilidades com os dados disponíveis na altura.
Estaremos no inicio de uma erupção como a de La Palma (Canárias em 2021) ou dos Capelinhos (Faial em 1957)?
É certamente possível, pois o risco de erupção é real, mas é ainda muito cedo para se fazer esta avaliação, com os dados disponíveis.
(Teresa Firmino – Publico de 26/03/2022)