Views: 1

Views: 1

Views: 0

Views: 2

Views: 1

Views: 0

Views: 0

Views: 0
Afeganistão, ou a repetição da história enquanto farsa
Edição por António Moura dos Santos
Chegados a agosto de 2021, a pouco mais de um mês de se assinalarem 20 anos desde a invasão do Afeganistão, pouco faria crer que esta fosse a notícia a dominar o dia: “Talibãs preparam-se para tomar o país, ministro do Interior promete transição pacífica de poder”.
Todavia, face aos acontecimentos desta última semana, não se pode dizer que seja particularmente surpreendente. Desde que os EUA de Joe Biden puseram em prática o plano de retirada negociado com os talibãs pelos EUA de Donald Trump, as forças insurgentes fizeram um avanço absolutamente avassalador pelo território — o que, à luz da história, torna compreensível que os EUA de Barack Obama tenham prometido uma saída sem nunca cumpri-la, depois dos EUA de George W. Bush invadirem o país em retaliação ao 11 de setembro.
Neste momento, praticamente apenas Cabul, a capital, “resiste” — todas as outras capitais de província se entregaram, quase sempre sem violência, preferindo deixar-se dominar pelos talibãs do que arriscar confronto armado e, com isso, a morte indiscriminada de civis.
Entenda-se este uso de aspas: Cabul só não foi dominada porque as forças insurgentes optaram por não carregar sobre a capital. Estão às suas portas, nas zonas suburbanas, pacientemente aguardando pela capitulação do Governo e prometendo que não vão agir de forma violenta.
Promessas leva-as o vento, bem se sabe — não é preciso ser um ancião para recordar como era medieval e fundamentalista o regime talibã — especialmente no que toca aos direitos das mulheres — antes das forças ocidentais o remeterem para a reclusão, instaurando um governo civil e secular. E é por isso que é grande o temor da população, particularmente aquela que colaborou com o “invasor”.
Na sexta-feira, o nosso cronista José Couto Nogueira traçou em parágrafos sucintos a história do intervencionismo militar norte-americano, tal como da ingovernabilidade do Afeganistão. Junte-se uma superpotência pouco potente em gerir confrontos nos últimos 70 anos e um território que há séculos que é impossível de conquistar (os ingleses ou os soviéticos que o digam) e o que se passa neste momento parece que podia ser previsto ao milímetro.
De nada parecem ter valido 20 anos de treino militar para as forças afegãs, investimento em intraestruturas e elevados custos humanos — até abril deste ano, morreram 2 448 soldados norte-americanos, 66 mil membros das forças armadas e da polícia afegãs e 47 245 civis. Neste momento, os EUA, que prometeram deixar um país preparado para lidar com os talibãs, estão a acelerar a retirada dos seus diplomatas, para que saiam o quanto antes do Afeganistão — e os restantes países ocidentais estão a seguir as pegadas desta evacuação apressada.
Todo este cenário traz à memória a queda de Saigão em 1975, quando as forças norte-americanas também tiveram de deixar 20 anos de uma guerra ruinosa no Vietname sem deixar mais nada que não sangue e contas por pagar. É por isso que faz sentido recordar a frase que Karl Marx escreveu a propósito do 18 de Brumário de Luís Bonaparte, num acrescento ao que Hegel já tinha postulado: “todos os grandes factos e personagens da história universal aparecem como que duas vezes. Mas ele esqueceu-se de acrescentar: uma vez como tragédia e a outra como farsa.”
Views: 1

Views: 0
Ouvi a frase bíblica “Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos” [Mt 22: 14] e perguntei-me por que é que os pobres cidadãos do Haiti têm sido chamados tantas vezes. Ayiti (“terra de altas montanhas”) era o nome indígena dos taínos. O ponto mais alto é Pic la Sele (2 680 m). Li a história do país na metade ocidental da Hispaniola, Grandes Antilhas, que partilha com a República Dominicana. O Haiti é o terceiro maior país do Caribe com 27 750 km² e 10,4 milhões de habitantes, um milhão na capital, Porto Príncipe. O francês e o crioulo são línguas oficiais. Quando conquistou a independência em 1804, foi a primeira nação independente da América Latina resultante da revolta de escravos e a segunda república da América. A Revolução durou uma década; os primeiros líderes foram antigos escravos. É o país mais pobre da América com violência política desde a independência, quase sempre orquestrada pelos EUA. Em fevº 2004, um golpe de Estado forçou à renúncia e exílio do presidente Jean-Bertrand Aristide. Um governo provisório assumiu o controlo sob a tutela dos EUA. Em janº 2010, um terramoto com magnitude 7,3, de Richter, atingiu o país. Michel Martelly foi eleito presidente (2010), deixou a presidência em 2016 numa profunda crise sem um formal vencedor. Jovenel Moise tomou posse em 2017 que sem eleições em 2020 governou por decreto até ser assassinado em julho 2021.
De leitura obrigatória o artigo “Os pecados do Haiti”, de 15 janº 2010 de Eduardo Galeano:
Os EUA conquistaram a independência, conservando meio milhão de escravos nas plantações. Jefferson, dono de escravos, dizia “todos os homens são iguais, mas os negros foram, são e serão inferiores”.
Em 1803, os negros do Haiti causaram tremenda derrota às tropas de Napoleão e a Europa não perdoou a humilhação. A terra devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pela guerra contra a França. Um terço da população caíra em combate. Começou o bloqueio, ninguém comprava, vendia ou reconhecia. Nem Bolívar teve a coragem de assinar o reconhecimento diplomático depois de derrotar a Espanha, graças ao apoio do Haiti que lhe tinha entregue sete navios, armas e soldados, com a condição de libertar os escravos. Depois, governou a Colômbia e virou as costas ao país que o havia salvado. Os EUA reconheceram o Haiti 60 anos depois.
“A democracia haitiana nasceu há pouco. Os EUA invadiram em 1915 e governaram até 1934, quando alcançaram os objetivos: cobrar as dívidas do Citibank e revogar o artigo constitucional que proibia a venda de terras a estrangeiros. Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a feroz ocupação militar “a raça negra é incapaz de se governar e possui a tendência inerente à vida selvagem e a incapacidade física de civilização”. O Haiti fora a pérola da coroa, a colónia mais rica: uma grande plantação de açúcar, com trabalho escravo. O Haiti e as carniceiras ditaduras militares, destinava os famélicos recursos a pagar o que a Europa impôs pagar à França como indemnização, para perdoar o delito da dignidade, a história do racismo na civilização ocidental.
Montesquieu explicara sem papas na língua: “O açúcar seria demasiado caro se não trabalhassem os escravos, negros desde os pés até a cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível ter deles alguma pena. Resulta impensável que Deus, um ser muito sábio, tenha posto uma alma e sobretudo uma alma boa num corpo inteiramente negro”. Deus havia colocado um chicote na mão do feitor. Os negros eram escravos e vadios por natureza; e esta, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir ao amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrasse entusiasmo a cumprir o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: “Vagabundo, desocupado, negligente, indolente e de costumes dissolutos”. Mais generoso David Hume, “o negro pode desenvolver certas habilidades humanas, como o papagaio que fala algumas palavras”. Etienne Serres, um génio francês da anatomia, descobria que os negros são primitivos pois “possuem pouca distância entre o umbigo e o pénis”.
Em 1991, foi assassinada em golpe de estado (general Raul Cedras). Três anos mais tarde, depois de terem colocado e retirado ditadores, os EUA impuseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, o primeiro eleito por voto popular, com a louca aspiração de querer um país menos injusto. Para apagar a participação norte-americana na ditadura carniceira do general Cedras, a marinha levou 160 mil páginas de arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para retomar o governo, mas proibiram-no de exercer o poder. O sucessor, René Préval, obteve 90% dos votos, mas qualquer burocrata de quarta categoria do FMI ou do Banco Mundial tinha mais poder. Cada vez que pedia crédito para dar pão aos famintos, instrução aos analfabetos, terra aos camponeses ou não recebia resposta, ou mandavam-no seguir as instruções. Como o governo haitiano nunca desmantelou os serviços públicos, os professores do FMI e do BM acabam sempre por reprová-lo. No final de 2009 quatro deputados alemães visitaram o Haiti e ficaram chocados com a miséria. O embaixador explicou: “Este país é demasiadamente povoado. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode”. E riu. Nessa noite, Winfried Wolf, não viu a miséria mas ficou deslumbrado com a beleza dos pintores, o Haiti está superpovoado de artistas.”
Como cantou em tempos Caetano Veloso, “O Haiti não é aqui”.
Views: 0


Views: 0
“Entraram por todos os lados”, anuncia ministério do Interior afegão.
Views: 0
Views: 0




