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Encontramo-nos, neste lindíssimo espaço que é a Alameda Duque de Bragança, mais conhecido por Relvão, para homenagear os pescadores desta freguesia, alguns entre nós, outros que já partiram, E para o lançamento do livro de Carlos Corvelo César, intitulado “A Confraria de São Pedro Gonçalves”.
Começaria por agradecer e felicitar, o Dr. José Manuel Leal, por esta louvável iniciativa, há muito merecida, aos nossos pescadores de quem tenho muitas saudades e guardo as melhores recordações do tempo que com eles passei, sentada no paredão observando o que faziam.
HOMENS, HERÓIS, que na MUITO NOSSA Calheta de Pêro de Teive, MUITO NOSSA mas que nos roubaram destruindo-a para sempre, moravam e viviam pessoas das mais diversas profissões, mas durante muitos e muitos anos, séculos, os pescadores eram preponderantes, ora labutando em barcos de “boca aberta” nas águas em redor da ilha de São Miguel, ora trabalhando em embarcações de maior dimensão na pesca do bacalhau para os lados dos bancos da Terra Nova. Gente muito trabalhadora, corajosa e honesta!
Foi essa população – em muitos casos pobre, mas sempre digna – que deu vida, protegeu e defendeu a Calheta de Pêro de Teive ao longo do tempo e todo o ambiente que a caracterizava e envolvia, com destaque para o portinho de pesca, “porta” de saída então para o árduo trabalho de muitos, com riscos imensos, e “porta” de entrada no regresso da faina, quase sempre com muito peixe, que se vendia muitas vezes em parte logo à chegada, ainda a saltitar, seguindo depois a maior parte para o velho “barracão” para ser comercializado. Nesse tempo distante, não existiam os apoios sociais que hoje conhecemos. Os pescadores trabalhavam muito para se sustentarem e às suas famílias, gente que sofreu muito, na luta pelo “pão” de cada dia”. Houve muita alegria e muito convívio, mas também houve muito suor e muitas lágrimas.
A profissão de pescador passava de geração em geração, sempre com a mesma determinação, a mesma vontade, a mesma entrega e o mesmo conhecimento. Viviam para o mar e com o mar.
Quando estavam no mar pensavam obviamente na terra segura, nos seus lares e nas suas famílias, mas quando estavam em terra segura sentiam-se atraídos pelo mar, pela pesca e pelo horizonte distante.
Todos os habitantes da Calheta de Pêro de Teive mereciam e merecem respeito, consideração e proteção, mas os pescadores mereciam muito mais, mas não foi o que aconteceu quando, levianamente, há uns 40 anos, políticos mandaram arrasar a Calheta de Pêro de Teive, destruindo em consequência o portinho de pesca, varadouro e ancoradouro de barcos de trabalho, a tal “porta” de saída e de entrada para aqueles que tinham aqui a base do seu “ganha pão”.
Os pescadores nesta zona de Ponta Delgada vinham diminuindo com os anos, mas ainda existiam muitos pescadores quando a Calheta de Pêro de Teive foi arrasada. Não se importaram com eles, não se preocuparam com eles e não os compensaram pela perda do seu portinho de pesca. Os pescadores e as famílias sofreram com essa triste situação. Foi um erro indesculpável, até porque o que veio a seguir foi só trapalhada e mais trapalhada, que parece nunca mais ter fim, apesar de já ter tido um “empurrão” da atual e aqui presente, presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, Dra. Maria José Duarte.
Com os pescadores a Calheta de Pêro de Teive tinha um sentido intrinsecamente humano. Sem os pescadores a Calheta de Pêro de Teive tem estado entregue a instáveis interesses económicos e à mercê de decisões políticas em muitos casos nefastas, polémicas e mesmo absurdas.
É por tudo isso que os pescadores da Calheta de Pêro de Teive, muitos já falecidos, merecem a nossa homenagem, pelo seu grande exemplo de trabalho, coragem e honestidade, tão agarrados que eram a esta terra e a este mar. Mereciam um monumento, por mais simbólico que fosse, a lembrar aos mais novos e aos vindouros que a Calheta de Pêro de Teive não era de betão: era, sim, essencialmente, de mar e de gente que amava o mar.
Quem conheceu o que era a Calheta de Pêro de Teive não esquecerá nem perdoará a maldade feita a esta zona e aos pescadores, que de um momento para o outro, sem dó nem piedade, se viram privados do seu portinho de pesca. É uma nódoa negra que fica na história da Autonomia político-administrativa açoriana, acima de tudo porque não se respeitaram pessoas, muitas delas de fracos recursos, para depois entregar a Calheta a interesses económicos. Que fique pelo menos uma lição: a Autonomia político-administrativa açoriana só faz sentido se for para servir as pessoas, resolver os seus problemas e satisfazer as suas necessidades.
Disse.
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Afeganistão, ou a repetição da história enquanto farsa
Edição por António Moura dos Santos
Chegados a agosto de 2021, a pouco mais de um mês de se assinalarem 20 anos desde a invasão do Afeganistão, pouco faria crer que esta fosse a notícia a dominar o dia: “Talibãs preparam-se para tomar o país, ministro do Interior promete transição pacífica de poder”.
Todavia, face aos acontecimentos desta última semana, não se pode dizer que seja particularmente surpreendente. Desde que os EUA de Joe Biden puseram em prática o plano de retirada negociado com os talibãs pelos EUA de Donald Trump, as forças insurgentes fizeram um avanço absolutamente avassalador pelo território — o que, à luz da história, torna compreensível que os EUA de Barack Obama tenham prometido uma saída sem nunca cumpri-la, depois dos EUA de George W. Bush invadirem o país em retaliação ao 11 de setembro.
Neste momento, praticamente apenas Cabul, a capital, “resiste” — todas as outras capitais de província se entregaram, quase sempre sem violência, preferindo deixar-se dominar pelos talibãs do que arriscar confronto armado e, com isso, a morte indiscriminada de civis.
Entenda-se este uso de aspas: Cabul só não foi dominada porque as forças insurgentes optaram por não carregar sobre a capital. Estão às suas portas, nas zonas suburbanas, pacientemente aguardando pela capitulação do Governo e prometendo que não vão agir de forma violenta.
Promessas leva-as o vento, bem se sabe — não é preciso ser um ancião para recordar como era medieval e fundamentalista o regime talibã — especialmente no que toca aos direitos das mulheres — antes das forças ocidentais o remeterem para a reclusão, instaurando um governo civil e secular. E é por isso que é grande o temor da população, particularmente aquela que colaborou com o “invasor”.
Na sexta-feira, o nosso cronista José Couto Nogueira traçou em parágrafos sucintos a história do intervencionismo militar norte-americano, tal como da ingovernabilidade do Afeganistão. Junte-se uma superpotência pouco potente em gerir confrontos nos últimos 70 anos e um território que há séculos que é impossível de conquistar (os ingleses ou os soviéticos que o digam) e o que se passa neste momento parece que podia ser previsto ao milímetro.
De nada parecem ter valido 20 anos de treino militar para as forças afegãs, investimento em intraestruturas e elevados custos humanos — até abril deste ano, morreram 2 448 soldados norte-americanos, 66 mil membros das forças armadas e da polícia afegãs e 47 245 civis. Neste momento, os EUA, que prometeram deixar um país preparado para lidar com os talibãs, estão a acelerar a retirada dos seus diplomatas, para que saiam o quanto antes do Afeganistão — e os restantes países ocidentais estão a seguir as pegadas desta evacuação apressada.
Todo este cenário traz à memória a queda de Saigão em 1975, quando as forças norte-americanas também tiveram de deixar 20 anos de uma guerra ruinosa no Vietname sem deixar mais nada que não sangue e contas por pagar. É por isso que faz sentido recordar a frase que Karl Marx escreveu a propósito do 18 de Brumário de Luís Bonaparte, num acrescento ao que Hegel já tinha postulado: “todos os grandes factos e personagens da história universal aparecem como que duas vezes. Mas ele esqueceu-se de acrescentar: uma vez como tragédia e a outra como farsa.”