Osvaldo José Vieira Cabral · Um governo à imagem de Bolieiro

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Um governo à imagem de Bolieiro
O novo governo, apresentado sexta-feira, é um governo à imagem e semelhança de José Manuel Bolieiro.
Com um perfil não surpreendente, quase low profile, pelo menos aparentemente, não parecendo um governo de combate no seu todo, mas antes circunscrito às condições de uma coligação de três partidos.
É uma experiência nova na nossa Autonomia. Nunca tivemos um governo tão fragmentado ideologicamente, mas da sua coesão interna vai depender muito o seu sucesso.
Vai ser o governo regional mais escrutinado de sempre, porquanto será vigiado pela oposição, mas também pelos próprios partidos que o apoiam, sobretudo os dois com quem possui apenas acordos parlamentares.
Vai ser também muito seguido pela classe política nacional e restantes portugueses, como laboratório para outras experiências de coligação que possam ocorrer, à direita, em Lisboa.
Notoriamente, há neste primeiro governo do Dr. Bolieiro uma preocupação em rodear-se de um núcleo com forte pendor político, numa mistura de algumas personalidades com alguma experiência política e governativa com outros menos experientes politicamente, mas com perfis profissionais inquestionáveis.
O seu núcleo mais estratégico está nas pastas mais importantes, como é o caso de Artur Lima na Vice-Presidência, Bastos e Silva nas Finanças, Clélio Meneses na Saúde, Duarte Freitas no Emprego e Pedro Faria e Castro a fazer a ligação com o parlamento, onde o líder parlamentar do PSD, Pedro Nascimento Cabral, terá também um papel preponderante na ligação com os outros partidos apoiantes.
É deste núcleo duro que sairá certamente as grandes linhas estratégicas do novo governo, sendo certo que, pelo menos no primeiro ano, estará focado apenas em dois assuntos: pandemia e economia.
Clélio Meneses é o governante com menos tempo para se manter em “estado de graça”, porquanto vai ter que iniciar de imediato um desafio impopular, que é tomar medidas duras para combater a pandemia, mais ou menos descontrolada na região, a par com a desorganização em todo o sistema de saúde.
Terá de se rodear de uma forte componente técnica e científica de colaboradores especialistas em várias áreas, com uma Autoridade de Saúde mais abrangente e credível tecnicamente.
Bastos e Silva será o outro governante sem tempo de espera.
A recuperação económica e a gestão das finanças públicas nesta crise sanitária é uma tarefa complicada, dependendo muito dos ventos de sorte que virão do exterior.
Este governo vai instalar-se primeiro, conhecer os cantos à casa, nomear os seus colaboradores mais próximos, aperfeiçoar o seu organigrama se for necessário e gerir sem grandes ambições estes tempos de crise. A conjuntura não permite outra coisa.
Lá para o segundo semestre do próximo ano, se as vacinas contra a pandemia resultarem, a economia começar a recuperar e as primeiras tranches do novo Quadro Comunitário de Apoio a chegarem, então o novo governo poderá começar a respirar mais fundo e atirar-se a todo o gás para medidas de alívio às famílias e empresas, começando a aplicar o seu programa de governo.
Até lá, espera-se uma atitude responsável e séria de todos os escrutinadores, a começar pelo maior partido de oposição.
O PS tinha razão quando acusava o PSD, na oposição, de falar mal de tudo. Era uma estratégia errada. Se seguir o mesmo caminho, corre o risco de ficar também 24 anos na oposição.
A missão da oposição é tão importante como a do governo.
Certamente que o PS estará atento no parlamento e compete-lhe apresentar propostas alternativas que o credibilizem como alternativa, a todo o momento, ao insucesso deste governo.
Tudo se conjuga para termos, nos próximos tempos, bons combates políticos.
E a boa política é isso.
Concentremo-nos no essencial, na substância da política, que é resolver os problemas da sociedade e dos cidadãos, encontrando formas inovadoras de criar riqueza e empregos.
Deixemos a berraria para as agendas maquiavélicas dos senhores de Lisboa, onde muito se fala e pouco se trabalha.
O sacho açoriano é outro.
Osvaldo Cabral
Editorial 22 Novembro 2020
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Afonso Quental and 14 others
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  • Como já nos habituou,

    Osvaldo José Vieira Cabral

    com mais excelente análise que deve ser lida e relida pelos políticos açorianos! A nossa frágil e limitada Autonomia, não pode correr riscos e, o poder centralista, tanto de direita como de esquerda, apr…

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