O HISTORIADOR QUE SORRIU NA CAIXA DO PINGO DOCE

O HISTORIADOR QUE SORRIU NA CAIXA DO PINGO DOCE
Está montado um caldo interessante com esta história de todas as licenciaturas servirem para aturar o filho alheio.
E digo interessante sem ponta de ironia porque acho que daqui resulta uma discussão bem catita.
Vamlá ver…eu não tenho opinião sobre o tema e como tal, vou partilhar essa ausência de opinião fazendo-a passar por opinião. Confuso? Nada disso. Venham daí.
Eu não sei se qualquer licenciado deve poder dar aulas sem ter tirado a componente de ensino, a parte pedagógica e por aí fora. E não sei, acrescente-se, por várias razões que passo a elencar.
Ainda sou do tempo em que os professores nem passavam os portões da universidade e como tal, só por a discussão estar no nível do tipo de curso mais adequado para a prática da coisa, já mostra a evolucão do debate.
Desse longínquo passado sobram-me memórias de péssimos ocupadores de tempos livres e de excepcionais professores. Com ou sem diploma de pedagogia. Essa é logo a minha primeira dúvida.
Mais do que o curso A ou B ser ou não da via ensino, interessa-me mesmo é saber se vocês, professores heróis deste país, têm jeito para a poda.
Volto a não ser irónico, agora com o uso de “heróis”. Considero que ao dia de hoje, alguém que se sujeite a ser professor em Portugal é um herói. Ou um doido que precisa de comer e não consegue arranjar outro emprego.
É a profissão mais importante e, ainda assim, mais maltratada pela sociedade. Seja no congelamento das carreiras docentes, na burocracia imposta a quem se devia preocupar em ensinar, na instabilidade familiar das colocacões ou nos baixíssimos salários, quase de vergonha, que licenciados/mestres levam para casa depois de ensinarem centenas de alunos todos os anos. E já estou a dar o desconto de amigo para a constante humilhacão a que estão sujeitos na praca pública. Bem sei que o líder sindical não ajuda à causa mas, serem retratados como os mandriões das 35 horas e das greves à sexta, a troco de 1200 euros, é caso para dizer, f***-se, antes servir à mesa ou apanhar limões na quinta do Macário Correia.
Portanto, sendo esta uma profissão tão mal tratada e, ao que parece, com falta de gente, faz sentido abrir as portas a qualquer curso?
Não sei. Como disse ali em cima, não tenho opinião. Mas já li as vossas, incluindo as dos professores ofendidos.
Tendo a perceber a lógica da coisa. Deve o gajo que lava as panelas passar a cozinhar o ensopado de borrego? Em princípio não. Mas e se ele for um extraordinário chef que, até por acaso, usa o coentro como poucos?
Aqui a coisa balanca um pouco. É que alguns de vós, com a via de ensino e tal, tiraram aquilo porque não entraram em mais lado nenhum e ensinam tão bem como eu. Que sou uma desgraca, para o caso de não terem acusado o toque.
Pois, bem sei que é um pouco ofensivo e coiso, mas é a realidade. Muitos de nós estudamos algo na meninice, vá-se lá saber porquê, e somos pouco mais do que sofríveis na profissão que abracamos. No fim das contas todos temos que pagar as taxas escondidas na conta da EDP e um gajo tem que se fazer à vida. A não ser que sejam netos do Salgado antes de ele ter perdido a memória.
Se forem como eu, não vem mal ao mundo se o software do rádio de um carro para ricalhaços estiver engatado. Já se ensinarem mal uns milhares de putos durante 20 anos, não nos sobra mais ninguém para exportar para os países de primeiro mundo. É um rombo nas contas em Bruxelas.
Assim de repente lembro-me de duas mãos cheias deles, com a via de ensino e todos os papéis certos que deviam estar proibidos, há muito, de entrarem numa sala de aula.
E no mundo ideal, quem sabe, pode estar um camarada na caixa do Pingo Doce, licenciado em História com sonhos de Indiana Jones, que seria uma apaixonado e dedicado contador de estórias, com um jeito e uma paciência infindáveis para os nossos filhos mimados, ranhosos e mal educados.
É por isso que me custa ver esta coisa apenas pela perspectiva da “villaarriba” contra “villaabajo”. Notem que o Fairy continua a ser um excelente parceiro de metáforas, embora só esteja acessível para os sobreviventes do século XX.
De modo que é isso. Acho bem. Abram os portões.
Olha, afinal tinha.
May be an image of coast, ocean, twilight and sky
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  • António Cruz

    De uma coisa eu tenho a certeza,o ensino, pior não vai ficar.

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    • 42 m
  • Dorinda Castro

    É isso mesmo!
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    • 19 m
  • Paula Varela

    Acho que para ser professor é preciso, para além das competências científicas, gostar de miúdos, achar graça à miudagem que são o melhor da escola. Da minha experiência, as Ciências da Educação são o menos importante, aprende-se no terreno e sim é uma …

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    • 15 m
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  • Manela Pinto

    Olha nem quero dizer bacorada alguma mas ofereço.me para lições de língua alentejana que é património da humanidade e mesmo sem licenciatura sou do melhor que há.
    😁😢😁😢😁😢
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    • 4 m
  • Moreira António

    Com dúvida, Tiago (ia escrever “sem dúvida” mas mudei a tempo).
    Do que não tenho dúvida é da minha máxima de que as “classes” fundamentais para a sociedade, são a dos políticos, dos professores e dos juizes, pela ordem que Vos aprouver.

    Quanto ao tema …

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