morreu Victor Manuel Caetano que fugiu para os EUA num barquinho

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Victor Manuel Caetano faleceu aos 95 anos. A sua história de emigração clandestina, juntamente com Evaristo Gaspar, para os EUA, num barco construído pelas suas próprias mãos, inspirou uma das obras literárias mais importantes dos Açores “O Barco e o Sonho”, de Manuel Ferreira, editado pela Publiçor.
Endereçamos os nossos votos de pesar à família enlutada. 🖤

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Michael Caetano

Uma Vida aventurada … 1924-2020
Nascido a 4 de setembro de 1924, Victor Manuel Caetano viveu uma vida de aventuras. A maior de todas, foi quando aos 26 anos, resolveu partir para os Estados Unidos da América, num barquinho construído com as próprias mãos, media apenas 6 metros de uma ponta à outra à vela e remos. História esta, que depois de tanto ouvida, no seio familiar, passou quase como se de uma lenda se tratasse. Mas esta era bem diferente, esta era contada pelo próprio, o que vivenciou e sentiu na pele todas as tormentas que foi atravessar um oceano rumo ao desconhecido, rumo ao que todos diziam ser a ”terra prometida”.
Ouvir da boca dele, para nós, era um orgulho. Ter na família um homem que se aventurou sem saber o seu destino, rumo ao que pensava ser o melhor para a sua família e para ele próprio. Victor Caetano e Evaristo Gaspar, partiram de Ponta Delgada, ilha de São Miguel, a 28 de junho de 1951 e chegaram a 4 de setembro aos Estados Unidos, onde foram recebidos como heróis, depois de terem sido dados como mortos. Sim, a travessia não foi simples, contava ele, “ao fim de umas semanas já não havia comida e os tubarões já circundavam o barco”…” Valeu-nos um cagueiro junto às Bermudas que nos salvou”…
Contava ainda, muito orgulhoso, que depois de tal proeza conheceu John F. Kennedy o qual lhe foi apresentado numa festa para assinalar o aniversário da igreja portuguesa de Cambridge, num dos maiores hotéis de Boston. Isto porque, dizia Victor, “foi John F. Kennedy, à data congressista pelo estado de Massachusetts, que assegurou-me que iria empenhar-se na minha legalização para ficar no país pois tinha ficado fascinado com a minha aventura marítima”. “Ele ficou admirado com a nossa história. Ele próprio contou-me como ficou ferido durante a II Guerra Mundial, num barco de patrulha. Todos os anos, graças a JFK, eu renovava os meus documentos e, quando faltavam sete dias para os cinco anos (período necessário para obter a cidadania), tornei-me cidadão americano”, acabando sempre por dizer: “Nunca conheci homem como ele”.
Esta e muitas outras histórias eram contadas por ele e sempre comprovadas com os documentos e fotos que tinha em sua posse exibindo-os sempre orgulhosamente.
Quis sempre ajudar a sua família, viu todos os seus netos casarem e fazerem vida, netos dos seus três filhos que deixou para trás quando se pôs ao mar, mas que nunca esqueceu, teve a felicidade de conhecer ainda 5 bisnetos.
A maior parte da vida, foi um exemplo para muitos, mas como todos os seres humanos também errou, mas isto não fez dele menor ser humano, pelo contrário mostrou e deu o exemplo do que é certo e errado…
Desta vez, aos 95 anos, a vida quis que passasse por mais uma aventura, a fragilidade da idade, apesar de aparentemente parecer aquele homem forte que sempre foi, fez com que tombasse. Desta vez, partiu para a sua última aventura, navegou na sua última viagem…
Certamente deixará muitas saudades entre os seus.
Como neto deixo o meu pesar pela sua grande falta, pois sempre foi um homem que admirei!
Com muito amor, até sempre Avô Victor…
Ponta Delgada, 31 de março de 2020
Michael Paul Caetano

Sobre CHRYS CHRYSTELLO

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção da AICL
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