em 2012 pedi… AUTONOMIA SEM SUBALTERNIDADE 6 JUNHO 2012 CRÓNICA 116

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. AUTONOMIA SEM SUBALTERNIDADE 6 JUNHO 2012 CRÓNICA 116

A autonomia, instituída no papel, ciclicamente pedida com salamaleques e, sempre que necessário, contestada pelo governo central, dá a ilusão de liberdade ao feudal ciclo secular repetido. Aquando das grandes tragédias, dos elementos telúricos, fogo e água, a revolta popular manifestava-se nos pés dos que se punham a caminho. A emigração foi sempre a fuga à fome e escravidão, para paraísos no lado outro do Grande Mar Oceano, lá donde os parentes tornavam com contarelos. À exceção do Havai, o Éden há séculos que se conjuga nas Américas, primeiro na do sul (Brasil), mais recentemente, na do norte. Já Daniel de Sá escrevera “Sair da ilha é a pior maneira de ficar nela”, Onésimo diria que era a “melhor”. Havia sempre um ou outro revoltado com a miséria, a falta de futuro, a ausência de presente e o excesso de passado, pronto a meter pés ao caminho, rumo à verdadeira autonomia, a do dinheiro. A única que permite sonhar.

O desprezo constante a que votam os ilhéus é quase tão mau como a desertificação humana no interior profundo. Para os ibéricos, em 2005, quando se falava dos Açores era como discursar sobre Timor Português quando fui para lá em 1973. Sabiam que eram ilhas e pouco mais. Como a anedota insólita “a senhora é dos Açores, mas é branca?” Não avisaram que a paisagem é verde, as pessoas não. Depois com as companhias de baixo custo tudo mudou em 2018…e passamos a ser os melhores, na crista da onda, os maiores, a funchalizar e construir hotéis, alojamento local, empresas de exploração turística e fazer uma Disneylândia da natureza. O orgulho em ser-se açoriano é profundo, arreigado ao húmus, mas difuso. Confunde-se com bairrismos de ilha, insularismos de freguesia. É prejudicado pela idiossincrasia micaelense de chamar Açores às outras ilhas. Como se S. Miguel fosse Lisboa perpetuando dependências e vassalagens obsoletas. Fruto da herança ancestral, do obscurantismo de 48 invernos salazarentos e primaveras bafientas da 3ª República entorpecente e anestesiante, alegadamente democrática… A história ilustra a luta entre a Terceira e S. Miguel pela supremacia dos capitães donatários, titulares da efémera nobilitude de “capital do arquipélago”. Estes vícios repetem-se. Em tempos, Manuel Leal, expatriado nos EUA escreveu: “A revolução açoriana vem-se mostrando à janela há séculos. Nunca teve uma face persuasiva. Não a possui em ideologia, embora exista quem assim apregoa. Fazem-no nos cafés, numa elite dentro da ilha e sem eco. A revolução à mesa do café não chega a parte nenhuma”.

Chegou o tempo de demonstrar capacidade identitária e poder de intervenção perante o país encafuado em Lisboa e submisso à omnipresente Europa, onde funcionários não-eleitos usam a tirania financeira que julga os cidadãos como números, para estabilizar orçamentos. A emancipação autonómica tem de vir sem macrocefalias nem subalternidade. Um governo regional sem ser filial de Lisboa, reclamando sem ser defensor dos interesses dos donos disto, que sempre exploraram os ilhéus, sombrias e persistentes personagens que perenizam monopólios. Arrivistas pequenos e isolados. Limitados como as ilhas e o país. A autonomia vive-se em círculos circunscritos, em escritores e “expatriados”. Surgirá – cremos, um dia -, não à mesa do café, mas da escrita, da “elite esclarecida” (à falta de melhor adjetivação). Mas haverá elites pensantes para além das que se emproam em encontros de intelectuais representando a fina-flor com direito a nome no jornal? Uns pararam no tempo, outros andam em busca dele, que nunca à frente. A populaça não os segue nem os entende. Nem mesmo os ditos. Ufanos por preencherem as revistas cor-de-rosa? Todos. Incapazes de congregarem mentes, mentem sem insistirem no tema. Temerosos de perderem a caleche em que se pavoneiam na avenida marginal tal como os antepassados de 1890. Nos Açores, compete aos mestres da palavra indoutrinarem e apontarem o caminho da Atlântida perdida a que se chamou autonomia. Só então cortarão os cordões umbilicais, granjeando a independência. Com a sageza da sua açorianidade sonharão o momento de libertação tal como inventaram a literatura açoriana para que ninguém se esquecesse deles e o mundo não os deixasse para trás na sua voragem.