CONTRADITÓRIO Nº 4 AO SR ADVOGADO E AO SR QUEIXOSO

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Rita Pereira is at Hotel Marina Atlântico.

Sou uma estudante açoriana, residente na ilha de São Miguel, que estuda em Portugal Continental, mais especificamente em Lisboa. Como muitos outros nesta situação, acabou por ser inevitável a vontade e necessidade de regressar ao nosso lar, face à incerteza vivida por todos nós.
Após ouvir as declarações do advogado Pedro Gomes na RTP Açores, responsável pelo processo de Habeas Corpus, relativamente a um indivíduo obrigado a fazer quarentena numa unidade hoteleira em São Miguel (que se traduziu na posterior dispensação da mesma a quem aterrar no arquipélago), venho aqui deixar o meu testemunho e opinião acerca do assunto, uma vez que fui uma das residentes no arquipélago que foi obrigada a realizar a quarentena obrigatória num hotel durante 2 semanas.
Aterrei no Aeroporto João Paulo II, na ilha de São Miguel, dia 26 de março de 2020, data em que a quarentena obrigatória em unidades hoteleiras foi decretada. Apanhada completamente de surpresa por esta medida, fiquei inicialmente aborrecida, tal como muitos outros passageiros do meu voo. Não nos restando alternativa, fomos num autocarro diretos ao Hotel Marina Atlântico, unidade hoteleira que nos acolheu desde o dia 26 de março até ao dia 10 de abril, esta última sendo a data que foi permitida a saída dos passageiros com resultado negativo ao coronavírus, que foi o meu caso.
Em tempo de confinamento, fruto da crise de saúde pública testemunhável, dar uma gargalhada não é fácil. Devo confessar, porém, que consegui dar uma boa gargalhada ao ouvir o senhor advogado a mencionar as “condições desumanas” a que os passageiros estavam sujeitos nos hotéis. Será que a palavra “desumano” não consta no dicionário de língua portuguesa para consulta pública? Da última vez que verifiquei, esta palavra estava lá, cujo significado é “falta de humanidade”. Como cobaia desta medida digo, com toda a sinceridade, que a única coisa que posso considerar desumana passa pelo facto de o meu voo ter aterrado dentro do período da hora de almoço e só me ter sido servido o jantar nesse mesmo dia. Apesar da minha revolta por estar faminta, acredito que tal situação só aconteceu por ter estado no grupo das cobaias de execução de tal medida, onde tudo ainda era muito incerto e estavam a tentar aperfeiçoar a mesma.
No dia seguinte e restantes, a minha maior queixa foi o mau tempo, que me impediu de apreciar a vista para o mar que tinha através da varanda do meu quarto. Eu e todos os passageiros tivemos direito a pequeno-almoço, almoço, um pequeno lanche e jantar. O pequeno-almoço incluía um papo-seco, uma fatia de pão, uma fatia de bolo, um/dois mini croissants ou um mini pão-de-leite, manteiga, doce, fiambre, queijo, um iogurte, salada de fruta, café com leite, um sumo mic-mac e uma garrafa de água pequena. O almoço e jantar incluíam sopa, prato principal (dada a possibilidade de optar pelo prato vegetariano e alternando entre peixe e carne), salada, um papo-seco, uma sobremesa, um sumo mic-mac e uma garrafa de água. O pequeno lanche consistia ou numa barra de cereais ou numa peça de fruta, juntamente com um sumo mic-mac e uma garrafa de água. A fome facilmente se colmatava com todas estas refeições.
Para além das refeições, importa também salientar as características dos quartos no Hotel Marina Atlântico. Estes tinham duas camas, uma secretária, uma televisão, um mini frigorífico, um armário, um bom sinal de Wi-fi, uma varanda com vista para o mar (medida tomada ao máximo para evitar que os passageiros ficassem com vista para a traseira do hotel) e, ainda, uma casa de banho totalmente equipada. Sanita, bidé, lavatório, banheira, toalhas de mãos, toalhas de banho, secador, papel higiénico, gel de banho e shampoo.
Durante a estadia, recebi praticamente todos os dias uma chamada da Autoridade de Saúde Regional para lhes comunicar eventuais sintomas, e também chamadas da receção do hotel, perguntando os rececionistas se nos sentíamos bem e se precisávamos de alguma coisa. Durante os primeiros dias, os meus pais conseguiram deixar-me algumas coisas na receção do hotel, coisas que eram, de imediato, transportadas até ao meu quarto. Por decisão da Autoridade de Saúde Regional, tal deixou de ser possível, por precaução. A receção do hotel reagiu, desde logo, afirmando que caso precisássemos de bens de primeira necessidade, podíamos comunicar-lhes, que eles arranjariam maneira de nos ir entregar.
O que mais me custou a mim e a todos foi, indubitavelmente, o facto de não ser permitido estar com familiares. Algo que não deve ser esquecido é que tal, apesar de nos entristecer, acabou por ser o melhor para todos. Foi uma medida de prevenção necessária. De facto, senti-me mais segura em fazer quarentena no hotel durante duas semanas, dado que pude sair aliviada por não ser responsável pelo contágio dos meus entes queridos. Todavia, não deixei de ver a minha família, de todo, pois, tendo uma varanda ao meu dispor, pude vê-los ao longe, no outro lado da rua. Não é o ideal, mas é melhor do que nada, e foi o necessário.
Claro que nunca há bela sem senão, isto é, nunca algo apresenta somente vantagens. Nada é perfeito, pelo que é normal ter havido alguns inconvenientes nesta estadia, contudo, a verdade é que estas unidades hoteleiras fizeram tudo o que estava ao seu alcance para agradar os passageiros que nelas estavam hospedados. Havia espaço para alongar e fazer exercício, bastava a pessoa querer e esforçar-se para tal. Eu consegui. Se as pessoas eram esquisitas, isso já é outra história completamente diferente.
Assim, quero dizer que afirmar que os passageiros que são obrigados a realizar quarentena em hotéis experienciam “condições desumanas” é completamente errado, o que é corroborado por tudo o que disse acima. Claro que ninguém gosta de ser privado da sua liberdade e passar duas semanas inteiras dentro de um quarto, mas as circunstâncias não deixaram outra alternativa ao Governo Regional dos Açores, uma vez que a TAP continua a voar para as ilhas de São Miguel e Terceira, entrando pessoas provenientes do exterior da região, que em liberdade, podem pôr em causa todas as medidas tomadas pelo Governo Regional para combater a pandemia.
Nunca estive presa, mas se supostamente é assim que os presidiários vivem, então creio que há muita gente por aí que não se importaria, certamente, de vivenciar tal experiência.
Ninguém está acima da lei, quer esta seja certa ou errada, isto é um facto inquestionável. Se a obrigatoriedade de quarentena em unidades hoteleiras nos Açores é inconstitucional, visto que o país já não se encontra em estado de emergência, então não há nada que possamos fazer, exceto quem aterre na região daqui adiante. Faço aqui um apelo a estas mesmas pessoas, para que aceitem fazer a quarentena obrigatória nos hotéis da região (possibilidade ainda dada pelo Governo Regional) e protejam a vossa família, os vossos amigos, os vossos conterrâneos e qualquer outro indivíduo, tal como o nosso arquipélago.
Por favor, aceitem viver nestas “condições desumanas” durante 14 dias a que o senhor advogado se refere, juro que não são assim tão más.
Abaixo encontram alguns exemplos da “falta de humanidade” a que fui sujeita durante a minha estadia.

Comments
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  • Margarida Franco Muito bem!!!! É pena que esse tal advogado e quem ele foi “defender”, não apanhem o Vírus, forte e feio, para terem que passar 15 dias ou mais, nos cuidados intensivos… Aí talvez lhes fizesse perceber… Tenho mesmo, muita pena!!! 🤔🤔🤔😭😭
  • Carlos Ferreira E como se diz comer do prato e cuspir no Prato A gentes que são assim mais que se deia Menes ele agradece e por fim sabem porque e isto Porque temos uns governantes humildes . não são todos Mas esta hora difícil do a mão a palmatoria ao dr. Vasco Cordeiro e quem lhe ajudou nesta ideia obrigado Presidente

 

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