RAINER RILKE À LUZ DE NUNO ÁLVARES PEREIRA

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RAINER RILKE À LUZ DE NUNO ÁLVARES PEREIRA

 

O Indivíduo na sociedade e a sociedade no indivíduo: Ninguém se pensa sozinho

 

Não existe um “eu” puro fora do “nós”, nem um “nós” abstrato que dispense a interioridade pessoal.

Para tornar visível esta tensão e a sua fecundidade, recorro a duas figuras paradigmáticas do século XX e uma do século XIV: Rainer Maria Rilke, poeta da interioridade e do devir existencial, Dietrich Bonhoeffer, teólogo da responsabilidade comunitária e da ação histórica e Nuno Álvares Pereira, estratega militar português (1) que pode figurar como configuração exemplar e integradora dos dois.

Rilke e a primazia da interioridade vivida

Rilke escreve: “Não procures agora as respostas que não te podem ser dadas, porque não as podes viver. Trata-se de viver tudo. Vive agora as perguntas. Talvez então, sem te aperceberes, um dia vivas gradualmente a resposta.” E ainda: “Nunca se deve desesperar quando se perde algo, uma pessoa, uma alegria, uma felicidade; tudo volta ainda mais maravilhoso.”

Estas palavras condensam o núcleo do pensamento rilkeano expresso na vida como processo de maturação interior, em que o sentido não é imposto de fora, mas emerge da experiência vivida…

Rilke insere-se na tradição existencialista e na filosofia da vida, onde a autenticidade da experiência interior se torna critério supremo. “Viver as perguntas” significa aceitar que o sentido não se revela de modo abstrato ou imediato, mas se encarna lentamente na biografia…

A sociedade que habita o indivíduo limita a interioridade isolada

Uma crítica legítima ao pensamento de Rilke é a sua radical subjetividade. O foco quase exclusivo na interioridade corre o risco de obscurecer uma dimensão fundamental da existência: a sociedade vive no indivíduo e ao mesmo tempo o indivíduo vive na sociedade.

As nossas perguntas não nascem num vazio… A pergunta decisiva que Rilke não formula é: quem pode, de facto, “viver as perguntas”?…

Há sofrimentos que não se resolvem apenas por trabalho interior, porque não são apenas interiores.

Sem instituições, sem memória coletiva e sem tradição, o ser humano não se torna mais livre: regressa a um estado de imediatismo instintivo, vivendo num presente sem profundidade temporal. Rilke rejeitou dogmas e instituições, com razão em certos contextos, mas sem alguma forma de institucionalização simbólica, não há cultura, nem futuro, nem responsabilidade histórica.

 

Bonhoeffer: da interioridade à responsabilidade histórica

É aqui que o pensamento de Dietrich Bonhoeffer se torna decisivo. Ele escreve: «A glória final não é que o mundo seja julgado e condenado, mas que Cristo, através da sua cruz, que é também a cruz da comunidade, perdoe o mundo e faça a paz.»

À primeira vista, esta afirmação pode parecer resignada. Mas essa leitura dissolve-se quando se considera o contexto existencial de Bonhoeffer…

Ele não escreveu a partir de uma torre de marfim espiritual, nem a partir do espírito do tempo, mas do interior da resistência ativa ao regime nazi…

A “cruz da comunidade” não é símbolo de passividade, mas de solidariedade ativa…

Paz como acção criadora, não como capitulação

Para Bonhoeffer, “promover a paz” é uma tarefa profundamente activa. Não significa evitar conflitos, mas romper o ciclo da violência, da vingança e da humilhação moral. O pacificador não é neutro: ele paga o preço da reconciliação…

Uma espiritualidade que se refugia no interior ou se limita a julgamentos piedosos é uma traição ao real e à própria filosofia e mística cristã…

A aparente renúncia ao juízo condenatório não é fraqueza política, mas uma estratégia ética radical em que o objetivo não é destruir o adversário, mas restaurar a comunidade, o “shalom”, mesmo quando isso exige decisões duras…

 

Rilke e Bonhoeffer são duas faces de um mesmo processo humano

Rilke e Bonhoeffer não se opõem; complementam-se… Rilke trabalha o tempo interior da maturação e Bonhoeffer assume o tempo histórico da decisão.

Ambos rejeitam respostas fáceis e confiam em processos transformadores. Mas em Bonhoeffer esses processos são explicitamente orientados para a mudança social, para a justiça encarnada, para a paz construída, algo que contrasta fortemente com a política contemporânea, dominada pela lógica da polarização, da humilhação do adversário e da vitória simbólica…

Rilke à luz de Nuno Álvares Pereira como interioridade encarnada

Para que o pensamento de Rilke não permaneça suspenso numa interioridade sem corpo histórico, é fecundo colocá-lo em diálogo com uma espiritualidade que soube viver as perguntas no meio do conflito real. Aqui, a figura de São Nuno de Santa Maria (Nuno Álvares Pereira) revela-se exemplar

A sua vida mostra que a verdadeira tensão formadora não é apenas entre o eu e a sociedade, mas entre o eu e o próprio ego.

Se Rilke nos convida a “viver as perguntas”, Nuno Álvares Pereira mostra como fazê-lo quando a vida não permite retirada, quando a decisão é urgente e o sofrimento coletivo é real. Ele não fugiu do mundo para se tornar santo; tornou-se santo atravessando o mundo, transfigurando por dentro aquilo que por fora parecia apenas violência, ambição ou identidade nacional…

Neste sentido, o “Santo Condestável” realiza aquilo que em Rilke permanece sobretudo como potencial: a integração entre trabalho interior e responsabilidade histórica… O egoísmo, a indiferença e a autossuficiência, inimigos silenciosos mais perigosos do que qualquer exército, são combatidos diariamente, até que neles floresça uma humanidade mais ampla e reconciliada. Isto é o que não se encontra nos políticos hodiernos e por isso a falta de humanismo, de coerência e de lógica política…

A sua passagem da espada ao hábito carmelita não foi uma fuga tardia, mas a consumação lógica de um caminho interior já vivido em plena ação. Ele prova que a santidade não é incompatível com a política, nem a fé com a lucidez histórica, desde que o centro da luta seja deslocado do inimigo exterior para a conversão do coração

São Nuno é, assim, a resposta viva à crítica sociológica feita a Rilke: ele mostra que é possível viver as perguntas sem ignorar o sofrimento coletivo, e crescer interiormente sem abandonar a responsabilidade pelo destino comum.

Com Nuo Álvares Pereira compreende-se que a tensão entre o eu e o nós, entre o privado e o público, entre o sagrado e o profano, não é um problema a eliminar, mas é o lugar onde o Homem se forma, porque a identidade nasce da tensão, não da fuga…

O desafio contemporâneo não é escolher entre interioridade ou ação, mas integrá-las (Nuno torna-se exemplo de identidade, tensão e encarnação) … (Em pegadas do tempo encontra-se uma nota explicativa adequada a este resumo)

António da Cunha Duarte Justo

Teólogo e Pedagogo Social

Texto completo © em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10637

 

 

A FERIDA SOCIAL DA SOLIDÃO E O IMPERATIVO DE CRIAR LAÇOS

 

Há um paradoxo original na condição humana: nascemos sozinhos e morremos sozinhos, mas o greta da existência só ganha cor, calor e significado no cadinho do outro… A sua afirmação no mundo não é um monólogo, mas um diálogo permanente que espera uma resposta, um eco, um reconhecimento…

Sentir-se sozinho é, de facto, uma das experiências mais cruéis. Não é sinónimo de estar fisicamente só, porque muitas vezes habita os corredores apinhados de um escritório ou o lado vazio de uma cama partilhada…. Os dados, como o preocupante estudo alemão que aponta que seis em cada dez pessoas se sentem sós, são mais do que estatísticas; são o retrato de uma epidemia subjetiva numa sociedade carente…

Vivemos tempos em que o nosso chão se torna cada vez mais movediço. A globalização, com as suas luzes e sombras, retirou-nos muitas vezes o chão das comunidades estáveis, das praças onde todos se conheciam. As notícias de conflitos globais ecoam como um ruído de fundo ansioso. Muitos sentem-se como peças intercambiáveis numa engrenagem vasta e impessoal, onde a eficácia substitui a afetividade…

As comunidades, sejam religiosas, culturais ou de simples proximidade, são os antídotos naturais ao isolamento. É por isso que a ação do Estado e das instituições não pode limitar-se ao económico e ao funcional; deve investir ativamente na criação de espaços de encontro, de cultura viva e partilhada, de celebração do vínculo, durante todo o ano. Uma sociedade que não cultiva o seu espírito comunitário é uma sociedade que adoece coletivamente, tornando-se mais depressiva e fragmentada.

Contudo, a ponte para o outro não se constrói apenas de cima para baixo. Ela nasce dos gestos mínimos, da micropolítica da gentileza quotidiana. Fiquei profundamente comovido com um episódio simples: durante um passeio, ao executar discretamente um exercício de equilíbrio, um desconhecido de semblante alegre que passava perguntou-me: “Está tudo bem?”. Não era mais do que uma frase, uma nesga de atenção, mas continha um universo de reconhecimento. Naquele instante, deixei de ser uma figura anónima numa paisagem para me tornar um alguém. Admiro, com um certo sentimento de humildade, a etiqueta infalível dos cães que, ao cruzarem-se, se cheiram e se saúdam. Recordam-nos um protocolo básico de existência: a presença do outro merece um registo, um reconhecimento…

A biologia confirma a tragédia: o isolamento social crónico eleva os níveis de cortisol, a hormona do stress, abrindo caminho a doenças cardiovasculares e a um declínio geral do sistema imunitário…

Combate-se com a participação ativa, como, dançar, pertencer a um coro, fazer parte de um grupo de voluntários, cultivar uma amizade com a paciência com que se cultiva uma árvore. Sei bem como isto é difícil de praticar porque também eu não consigo praticar sempre muito do que aqui digo embora reconheça a sua importância…

Chegou a hora de um investimento coletivo na arte do encontro. De perguntar ao vizinho como está. De criar, com pequenos gestos, uma rede de luz que afaste a escuridão da solidão. Porque no fim, salvamo-nos uns aos outros, ou perecemos juntos, na mais dolorosa das separações, que é a que acontece estando lado a lado. Ninguém se realiza sozinho.

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10635

 

637. prevendo futuros 18.1.2026 por chrys c

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637. prevendo futuros 18.1.2026

 

Quase todos sabem da minha inequívoca falta de jeito no campo das previsões, sejam Elias eleitorais ou futebolísticas, mas ao fim da primeira quinzena aterradora deste ano creio acertar quando disser que, a qualquer momento Trump vai deitar a mão à Gronelândia (não se sabe bem é como). E a UE que mandou meia dúzia de militares (37 no total: 1 RU, Países Baixos, 2 Noruega, 2 Finlândia, 3 Suécia, 13 Alemanha, 15 França) não vai fazer nada, a NATO precisava que os EUA dessem dinheiro para a NATO impedir a tomada da Gronelândia pelos EUA! A Dinamarca nada pode fazer e os habitantes locais ainda menos.

Podem acontecer três desfechos que inviabilizem esta previsão:

  1. Os EUA entram em colapso (tipo guerra civil)
  2. A 3ª Guerra Mundial formalmente toma conta do mundo
  3. Trump desaparece da cena. Sei que as estatísticas dizem que os presidentes mais à esquerda são normalmente, as vítimas de tentativas de assassinato, mas neste caso justificava-se uma exceção.

A verdade tornou-se traição neste império de mentiras que são os EUA. Já não é época de desastres bíblicos, tipo as dez pragas do Egito ou os mais prosaicos castigos divinos sobre esse mentiroso compulsivo narcisista que se diz cristão (protestante).Há muitos que dizem que a Rússia tem um ficheiro comprometedor sobre ele e que o manipulam livremente. Em 12 de agosto de 2025, Alnur Mussayev, ex-chefe do Comité de Segurança Nacional do Cazaquistão, alegou que o presidente russo Vladimir Putin (há muitos anos) possui um arquivo abrangente sobre Donald J. Trump. Ele não sugeriu isso. Ele afirmou que inclui registos financeiros que mostram transações ilícitas relacionadas com contas pertencentes a Trump ou claramente associadas ao seu nome além de gravações: documentação em áudio e vídeo de crimes sexuais contra menores e atos de violência contra mulheres. O objetivo, segundo Mussayev, é estratégico: garantir que Trump permaneça alinhado com os interesses geopolíticos russos. Isso inclui minar a OTAN, desestabilizar a União Europeia e pressionar a Ucrânia a se render.

Piers Morgan (cuja carreira na TV se deve ao “Aprendiz”, programa de TV de Donald Trump), surgiu crítico “A Grã-Bretanha deveria recomprar os Estados Unidos. Afinal, eles já foram nossos, e isso aumentaria a nossa segurança no Atlântico Norte. Se não nos vender, presidente Trump, vamos impor tarifas aos EUA e a qualquer país que o apoiar na resistência a este excelente acordo. Justo?”

Gronelândia pede à NATO defesa e proteção perante ameaças dos EUA.  Ministros reúnem amanhã - Economia - Jornal de Negócios

ICE EUA 2026

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LEMBREM-SE BEM DISTO QUANDO CHEGAREM À VOSSA PORTA

 

 

Maiakovski – poeta russo “suicidado” após a revolução de Lenine que escreveu ainda no início do século XX:

Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.

Como não sou judeu, não me incomodei.

No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista.

Como não sou comunista, não me incomodei.

No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.

Como não sou católico, não me incomodei.

No quarto dia, vieram e me levaram;

já não havia mais ninguém para reclamar…”

Martin Niemöller, 1933, símbolo da resistência aos nazistas. (Parodiando o pastor protestante Martin Niemöller, símbolo da resistência nazi):

“Primeiro eles roubaram nos sinais, mas não fui eu a vítima,

Depois incendiaram os ônibus, mas eu não estava neles;

Depois fecharam ruas, onde não moro;

Fecharam então o portão da favela, que não habito;

Em seguida arrastaram até a morte uma criança,

que não era meu filho…”

Cláudio Humberto, 09 fev. 2007

Primeiro levaram os negros

Mas não me importei com isso

Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários

Mas não me importei com isso

Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis

Mas não me importei com isso

Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados

Mas como tenho meu emprego

Também não me importei

Agora estão me levando

Mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém

Ninguém se importa comigo.

É PRECISO AGIR

Bertold Brecht (1898-1956)

Um passeio com Maiakovski

Na primeira noite

eles se aproximam

e colhem uma flor

de nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite,

já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles,

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a lua, e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz

da garganta.

E porque não dissemos nada,

já não podemos dizer nada.

 

LEMBREM-SE BEM DISTO QUANDO CHEGAREM À VOSSA PORTA

 

 

 

A história dos dois lobos

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A história dos dois lobos

A história dos dois lobos é frequentemente atribuída ao folclore nativo americano. No entanto, parece ter na verdade origem num ministro cristão. Independentemente da fonte, geralmente é assim:

Um velho chefe Cherokee estava a ensinar o seu neto sobre a vida. Ele disse ao menino:

«Há uma luta a decorrer dentro de mim. É uma luta terrível, entre dois lobos. Um é sombrio — ele é raiva, inveja, tristeza, arrependimento, ganância, arrogância, autopiedade, culpa, ressentimento, inferioridade, mentiras, falso orgulho, superioridade e ego.»

Ele continuou: “O outro é claro — ele é alegria, paz, amor, esperança, serenidade, humildade, bondade, benevolência, empatia, generosidade, verdade, compaixão e fé. A mesma luta está acontecendo dentro de ti — e dentro de todas as outras pessoas também”.

O neto pensou por um minuto e então perguntou ao avô: “Qual lobo vai vencer?”

O velho Cherokee respondeu: “Aquele que eu alimentar”.

O Lobo Negro

O «lobo negro» representa as qualidades negativas que às vezes podem dominar a vida das pessoas. O chefe mencionou coisas como ganância, arrogância e ressentimento, entre outras. Mas o lobo negro pode representar qualquer traço ou característica (por exemplo, vingança, teimosia, ingratidão) que possa obscurecer o seu julgamento, prejudicar a sua saúde mental e afastá-lo de uma vida plena.

O Lobo da Luz

O «lobo da luz» representa o oposto — as qualidades positivas que as pessoas podem ter. Embora o chefe tenha mencionado algumas, como bondade, generosidade e humildade, temos muitos outros traços e características positivas (por exemplo, paciência, diligência, coragem) que podem não ser óbvios quando enfrentamos os desafios da vida. Este lobo pode parecer o mais fraco dos dois quando enfrenta situações difíceis, mas pode ser cultivado e fortalecido ao longo do tempo.

O poder da escolha

«Alimentar os lobos» tem a ver com as escolhas que faz. Cada pensamento, ação e reação alimenta o lobo negro ou o lobo claro. Por outras palavras, as escolhas diárias ajudam-no a negligenciar ou a cultivar características pessoais em si mesmo.

Todos têm uma mistura única de características pessoais. Alguns traços de personalidade podem parecer naturalmente mais dominantes ou naturais para si. Outras qualidades podem parecer mais fracas — embora o chefe Cherokee sugira que elas não são tão fracas, mas sim adormecidas, à espera que as desenvolva. É fácil cair em rotinas nas quais certos traços parecem controlar-nos, enquanto ignoramos outros que poderiam ser mais úteis. Mas, assim como na história dos Dois Lobos, você tem o poder de cultivar as qualidades que o aproximam dos seus valores e objetivos.

Escolher exatamente quais características cultivar nem sempre é fácil — especialmente quando se enfrenta stress ou emoções difíceis. No entanto, você pode moldar quem você é seguindo um processo de duas etapas: primeiro, decidir quais objetivos e valores na vida são mais importantes para você. Depois, uma vez que tenha decidido, pode fazer escolhas mais intencionais que se alinhem com esses valores — por exemplo, bondade, integridade, paciência ou coragem. Isso não significa rejeitar todas as suas características de «lobo negro», mas compreender quais características pessoais apoiarão a vida que deseja e quais podem estar a impedi-lo de avançar.

Como cultivar as qualidades que deseja

Uma maneira de fazer mudanças duradouras é concentrar-se nas características que se alinham com a sua visão de quem deseja se tornar. Vejamos um exemplo: imagine que deseja tornar-se um pai mais paciente porque valoriza a criação de um ambiente calmo e solidário para os seus filhos. Nesse caso, pode decidir concentrar-se em lidar com momentos frustrantes com compaixão, em vez de raiva em relação ao seu filho. Cada vez que escolhe a paciência em vez da irritação, está a cultivar ativamente essa qualidade. Com o tempo, ela se torna parte de quem é e vai perceber que está a viver de acordo com o seu objetivo de ser um pai ou mãe solidário.

Da mesma forma, se está a trabalhar para se tornar mais corajoso, pode se esforçar para falar mais no trabalho ou aceitar novos desafios, mesmo que eles o assustem. Ao sair da sua zona de conforto com esses pequenos passos, estará alimentando o «lobo da luz» da coragem, o que pode, em última análise, ajudá-lo a se sentir mais realizado e alinhado com os seus objetivos.

Fazer escolhas guiadas por qualidades positivas como paciência, perdão ou empatia, mesmo em interações menores, é uma forma de nutrir o seu «lobo da luz». Alimentar o lobo da luz é como fortalecer um músculo. Com o tempo, a sua capacidade de compaixão, paciência e compreensão cresce.

 

O lobo escuro torna-se mais fácil de controlar — não porque desaparece, mas porque o lobo claro ficou mais forte. Com o tempo, as decisões aparentemente pequenas que toma todos os dias não se tornam apenas hábitos — podem solidificar-se como parte da sua personalidade.

A ligação entre saúde mental e traços positivos

Há cada vez mais pesquisas que mostram que nutrir traços positivos não é bom apenas para os seus relacionamentos ou carreira — é essencial para o seu bem-estar mental. Praticar deliberadamente a gratidão, pensar de forma otimista e ser mais consciente tem demonstrado ajudar a melhorar o bem-estar e diminuir os sintomas depressivos. Ser gentil com as outras pessoas pode ajudar a reduzir o stress e o sofrimento emocional. A gentileza com os outros e o perdão a si mesmo podem melhorar o funcionamento psicológico e até mesmo a saúde física. Ter uma perspetiva amorosa, gentil e atenciosa de si mesmo e dos outros está associado a uma melhoria da atenção plena, da compaixão e dos sintomas psicológicos.

Em contrapartida, cultivar qualidades negativas pode ser potencialmente prejudicial ao seu bem-estar. Por exemplo, a ganância está associada a uma menor qualidade de vida, sintomas de saúde mental mais graves e maior agressividade. Da mesma forma, a inveja está relacionada com o agravamento da saúde mental e do bem-estar no futuro. Remoer o arrependimento pode contribuir para sintomas de depressão e ansiedade, e ser agressivo com os outros está relacionado com depressão e uso problemático de substâncias mais tarde na vida.

Quando investe em qualidades como gratidão, bondade e coragem, está a desenvolver a sua própria capacidade de lidar com o stress e os desafios de forma mais eficaz. Não se trata de forçar a positividade. Trata-se de criar hábitos que melhoram a sua resiliência mental ao longo do tempo.

Autorreflexão e conhecimento mais profundo

Muitas vezes, pode nem perceber qual lobo está a alimentar — o lobo negro ou o lobo branco. É aqui que a autorreflexão e a atenção plena entram em ação. Ao desacelerar e reservar um tempo para se perguntar: «O que cada lobo quer de mim agora?» e «Qual lobo quero alimentar agora?», pode se tornar mais consciente das suas escolhas e do impacto delas no seu bem-estar.

 

Essa prática de atenção plena ajuda-te a tomar decisões conscientes e intencionais sobre como responder às tuas emoções e pensamentos. Ao decidir deliberadamente qual lobo alimentar, podes capacitar-te para levar uma vida mais equilibrada e saudável.

The Story of the Two Wolves

The story of the Two Wolves is often attributed to Native American folklore. However, it seems to have actually originated from a Christian minister. Regardless of the source, it usually goes like this:

An old Cherokee chief was teaching his grandson about life. He told the boy:

“A fight is going on inside me. It is a terrible fight, and it is between two wolves. One is dark—he is anger, envy, sorrow, regret, greed, arrogance, self-pity, guilt, resentment, inferiority, lies, false pride, superiority, and ego.”

He continued, “The other is light—he is joy, peace, love, hope, serenity, humility, kindness, benevolence, empathy, generosity, truth, compassion, and faith. The same fight is going on inside you—and inside every other person, too.”

The grandson thought about it for a minute and then asked his grandfather: “Which wolf will win?”

The old Cherokee replied: “The one I feed.”

The Dark Wolf

The “dark wolf” represents the negative qualities that can sometimes dominate people’s lives. The chief mentioned things like greed, arrogance, and resentment, among others. But the dark wolf can represent any trait or characteristic (e.g., vindictiveness, stubbornness, ingratitude) that can cloud your judgment, harm your mental health, and lead you away from living a fulfilling life.

The Light Wolf

The “light wolf” represents the opposite – the positive qualities that people can have. Though the chief mentioned a few, such as kindness, generosity, and humility, we have many other positive traits and characteristics (e.g., patience, diligence, courage) that may not be obvious when we’re going through life’s challenges. This wolf might seem like the weaker of the two when you’re faced with difficult situations, but it can be nurtured and strengthened over time.

The Power of Choice

“Feeding the wolves” is about the choices you make. Every thought, action, and reaction feeds either the dark wolf or the light wolf. In other words, everyday choices help you either neglect or cultivate personal characteristics in yourself.

Everyone has a unique blend of personal characteristics. Some personality traits may naturally feel more dominant or natural for you. Other qualities may seem weaker — though the Cherokee chief would suggest that they aren’t weaker so much as lying dormant, waiting for you to develop them. It’s easy to fall into routines in which certain traits seem to control you while you ignore others that might serve you better. But, just like in the story of the Two Wolves, you have the power to nurture the qualities that bring you closer to your values and goals.

Choosing exactly which characteristics to cultivate isn’t always easy — especially when facing stress or difficult emotions. However, you can shape who you are by following a two-step process: first, deciding which goals and values in life matter the most to you. Then, once you’ve decided, you can more intentionally make choices that align with those values — for example, kindness, integrity, patience, or courage. This doesn’t mean rejecting all of your “dark wolf” traits but understanding which personal characteristics will support the life you want and which ones may be holding you back.

How To Cultivate the Qualities You Want

One way to make lasting changes is to focus on characteristics that align with your vision for who you want to become. Let’s look at an example: imagine you want to become a more patient parent because you value creating a calm, supportive environment for your children. In that case, you might decide to focus on handling frustrating moments with compassion rather than anger towards your child. Each time you choose patience over irritation, you’re actively cultivating that quality. Over time, it becomes part of who you are, and you’ll find yourself living in alignment with your goal of being a supportive parent.

Similarly, if you’re working toward becoming more courageous, you might push yourself to speak up more at work or take on new challenges even when they scare you. By stepping out of your comfort zone in these small ways, you’re feeding the “light wolf” of courage, which can ultimately help you feel more fulfilled and aligned with your goals.

Making choices guided by positive qualities like patience, forgiveness, or empathy, even in minor interactions, is a way of nurturing your “light wolf.” Feeding the light wolf is like strengthening a muscle. Over time, your capacity for compassion, patience, and understanding grows. The dark wolf becomes easier to manage—not because it disappears, but because the light wolf has grown stronger. Over time, the seemingly small everyday decisions you make don’t just become habits — they can be solidified as part of your personality.

story of the two wolves -- howling at the moon

The Link Between Mental Health and Positive Traits

There’s growing research showing that nurturing positive traits isn’t just good for your relationships or career — it’s essential for your mental well-being. Deliberately practicing gratitude, thinking optimistically, and being more mindful has been shown to help enhance well-being and lower depressive symptoms. Being kind towards other people can help reduce stress and emotional distress. Kindness to others and forgiveness to yourself may both improve psychological functioning and even physical health. Taking a loving, kind, caring perspective of yourself and others is associated with improved mindfulness, compassion, and psychological symptoms.

In contrast, fostering negative qualities can potentially be detrimental to your well-being. For instance, greed is associated with lower quality of life, poorer mental health symptoms, and higher aggression. Similarly, envy is related to worsened mental health and well-being in the future. Dwelling on regret can contribute to depression and anxiety symptoms, and being aggressive towards others is related to depression and problematic substance use later in life.

When you invest in qualities like gratitude, kindness, and courage, you’re building up your own ability to handle stress and challenges more effectively. This isn’t about forcing positivity. It’s about creating habits that improve your mental resilience over time.

Self-Reflection and Deeper Knowing

Often, you may not even realize which wolf you’re feeding — the dark wolf or the light wolf. This is where self-reflection and mindfulness come into play. By slowing down and taking the time to ask yourself, “What does each wolf want from me right now?” and “Which wolf do I want to feed right now?” you can become more aware of your choices and their impact on your well-being.

This practice of mindfulness helps you make conscious, intentional decisions about how to respond to your emotions and thoughts. By deliberately deciding which wolf to feed, you can empower yourself to lead a more balanced and healthier life.

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O preço da Liberdade de Imprensa na Lagoa – Diário da Lagoa, exemplo de isenção a seguir

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Esclarecemos a opinião pública de que somos, efetivamente, um jornal de iniciativa privada e independente que respeita os valores expressos na Constituição da República Portuguesa.

Source: O preço da Liberdade de Imprensa na Lagoa – Diário da Lagoa

NOAM CHOMSKY: UM LEGADO EM VIDA.

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NOAM CHOMSKY: UM LEGADO EM VIDA.
May be an image of text that says "O "A população geral não sabe que está acontecendo, e nem mesmo sabe que não sabe." (Noam Chomsky)" Que 2026 nos permita ficar na posse da Clarividência necessária para entendermos o que se passa no mundo, para não nos distrairmos do essencial e verdadeiro. Tentem dar exemplos para cada ponto, aqui descritos. Usem o vosso conhecimento para iluminar e informar quem precisa, com exemplos reais, pois não vai ser fácil. A educação e a cultura são essenciais para que tenhamos um futuro digno e tranquilo. (Ana Isabel D’Arruda)
Avançado em idade, este extraordinário intelectual norteamericano anunciou recentemente sua retirada da vida pública.
Tem uma obra extensa, tanto como cientista social como escritor e ativista político, identificado como ‘left wing’ (esquerda americana).
Veio várias vezes ao Brasil e Leituras Livres já resenhou diversos livros seus.
Entre tantos textos de sua setorial, gostamos deste que segue, por ser bastante útil diante da ‘confusão ‘ em que nos achamos mergulhados.
Confusão esta, nos dizeres de Chomsky, deliberada e estratégica, gerada e turbinada pelos donos do poder e do capital sem escrúpulos.
A quem a mídia empresarial serviria sem qualquer escrúpulo.
Noam Chomsky elaborou a lista das “10 estratégias de manipulação” das consciência coletiva e individual, através da midia:
1- A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO.
O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes.
A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neuro-biologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto ‘Armas silenciosas para guerras tranquilas’)”.
2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES.
Este método também é chamado “problema-reação-solução”: cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.
3- A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO.
Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la graduadamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.
4- A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO.
Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo “dolorosa e necessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura.
É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a ideia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegar o momento.
5- DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS, NFANTILIZAR O PÚBLICO.
A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entoação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de pouca idade ou um deficiente mental. Quanto mais o intento for enganar o espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê? “Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestão, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico, como a de uma pessoa de 12 anos ou até menos (ver “Armas silenciosas para guerras tranquilas”)”.
6- UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO.
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e por fim ao sentido critico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir a determinados comportamentos…
7- MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE.
Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão.
“A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores às classes sociais superiores seja e permaneça impossível para o alcance das classes inferiores (ver ‘Armas silenciosas para guerras tranquilas’)”.
8- ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE:
Promover ao status de moda, de aceitável o fato de ser estúpido, vulgar e inculto…
9- REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTO-CULPABILIDADE.
Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços.
Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvaloriza e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, impotentes, sem ação, não há revolução nem mudança substantiva.
10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM.
No decorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes.
Graças à biologia, à neuro-biologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo.
Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos sobre si mesmos.
Chomsky não economiza denúncias nem argumentos que mostram o fracasso do neoliberalismo como doutrina de produção econômica e social de bem estar. (Leituras Livres)

o noivo da Lomba da Maia

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O noivo da Lomba da Maia
O costume era conhecido de todos e desde há muito: as raparigas da Maia estavam reservadas, mal nascessem, para os rapazes da Maia. Nem mais, nem menos.
Fazia todo o sentido. Conheciam-se, assim, pelo nome os pretendentes desde tenra idade. O mesmo sucedendo com as famílias de cada um deles, além das suas posses, fartas ou escassas. O essencial do lado do rapaz, note-se, era ser de boas famílias. Do das raparigas, como bem sabemos, era serem das suas «portas pra dentro»”.
Esse detalhado conhecimento desde a nascença dos potenciais pretendentes facilitava tudo a todos. Reservando-se a escolha apenas aos rapazes da Maia, para quê complicar o que era assim tão simples e cristalino com rapazes de fora?
– — Ê já te disse mesteres de vâazes. Nã olhes páquele home! Âle nã é da Maia e cme nã é da Maia nã podes namorá coâele, nim âle pode casá contigue. Tás ouvinde o quê te tou dezende, mulhé?
-— Ê tou ouvinde, nhamã. Ê nã sou mouca. Mas acâle home é ruim? Tã defête? Prquié quê nã posse nim sequé olhá praiêle? – — respondeu, de nariz arrebitado, Fernanda.
– — Nã sê sâle é ruim nim minporta. Ê só sê é câle é da Lomba da Maia. E sabes lá qualié a famila dâle? E sâle nã amanhou mulhé na Lomba é preque nã é flô que se chêre. E fica sabende que na Maia há beles homes. Podes iscolhê o que tu quisés, câles andim todes de roda de ti caté é um derrice. Ê tou-te avisande quê sou tua mã! Ouviste?
Sempre houve quem quisesse complicar tudo, mesmo o que deveria ser simples, como era o caso de Fernanda. Quis por força Carlos, um «“home da Lomba»”.
Apesar de ter um belíssimo palminho de cara que lhe permitiria escolher o homem da Maia que quisesse, encabeçou para Carlos, nascido e criado na Lomba da Maia. E eram tantos muitos os rapazes da Maia que não se cansavam de lhe rondar a porta. Mas Fernanda nem sequer lhes concedia um simples olhar ou uma vaga esperança.
Haviam-se conhecido anos antes, ainda crianças, na Fábrica do Chá Gorreana. E ficou-lhes o gosto de um pelo outro, que se manteve ano após ano, até aos 19 anos de ambos. Foi então que Fernanda ouviu o solene e sério aviso da mãe: deveria rejeitar Carlos e escolher um homem da Maia, como impunham os bons costumes.
Mas nem sempre são escolhidos os caminhos mais fáceis e óbvios. E Fernanda sempre se mostrou de nariz empinado, ignorando o aviso da mãe e a censura da vizinhança:
– — NoSenhô me perdoi, mas séla amanhou um home da Lomba é preque na Maia ninum la quis.
– — É mulhé, tu nã digas isse. Fernanda é ua rapariga perfetcha e nã faltim homes na Maia à roda dela. Séla amanhou um de fora fou preque gostou más dâle decós da Maia. E nã penses cos homes da Maia sã melhós cós outres. Há aqui cada um que noSenhô livre a todas.
Todos sabiam que o namoro de Carlos com Fernanda não seria fácil. Outros vindos de fora para namorar na Maia tinham sofrido, e muito, no caminho de acesso à Maia – — o da Lombinha, como seria o caso de Carlos, ou o da Estrada de S. Sebastião, do lado oposto. As únicas duas vias de entrada e de saída da Maia.
– — A gente isconde-se na Fonte Velha e quande âle passá logue à noutche pra cima a gente comecim todes a aboiá-le os oves podres e terrãs. Âle camanhe uma mulhé na Lomba. As mulhés da Maia sã pós da Maia – — disse Francisco aos sete amigos, sentados no coreto do jardim, combinando o devido tratamento a dar a Carlos.
Mas Carlos, avisado por Fernanda sobre o que sucedera num caso semelhante uns tempos atrás, preveniu-se: rumou em sentido contrário, pela Estrada de S. Sebastião e Passagem da Vila, voltando depois para a Lomba da Maia, deixando sem destino, no desconforto dos tanques da Fonte Velha, até tarde da noite, Francisco e os sete fiéis amigos.
O amor tudo pode!
( Fotografia: Laudalino Pacheco)

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Porque é que o Natal também se chama Xmas?

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Apesar de haver cristãos que consideram o termo ofensivo por remover o nome de Jesus Cristo, a história revela que o exato oposto é verdade. Com a chegada das festas de fim de ano, regressa um debate cultural recorrente: será o uso de “Xmas” uma substituição desrespeitosa ou secularizada para “Christmas”? Os críticos argumentam frequentemente que a forma abreviada retira Cristo da celebração. Historiadores e teólogos, no entanto, afirmam que esta interpretação é incorreta e ignora séculos de tradição cristã. A polémica em torno de “Xmas” não é recente. As objeções públicas ao termo remontam, pelo menos, a meados do

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Estaremos próximo de um adeus definitivo ao bolo-rei? – ZAP Notícias

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O bolo-rei foi a última grande mudança na ceia de Natal tradicional portuguesa. Mais de 100 anos depois da sua introdução, o especialista João Pedro Gomes acredita que este doce, tal como o conhecemos, vai deixar de existir. João Pedro Gomes, autor de um livro sobre as origens e história da doçaria portuguesa e docente na Escola Superior de Educação de Coimbra (ESEC), costuma fazer um exercício com os seus alunos em que pergunta: “Quem é que daqui gosta de bolo-rei?”. Dois ou três braços se levantam entre uns 30 jovens. Segue-se uma outra pergunta: “Quem é que daqui tem

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quem tem medo do museu dos descobrimentos?

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O meu amigo Alexandre Monteiro publicou este maravilhoso artigo! Leiam que vale MUITO a pena.
“Quem tem medo de um Museu dos Descobrimentos?
Sabemos hoje mais sobre os navios romanos de há dois mil anos do que sobre as embarcações com que os Portugueses do século XV abriram o mundo.
Por paradoxal que pareça, ninguém sabe ao certo como era um barinel, uma caravela nas suas proporções verdadeiras, na sua arquitectura íntima de casco e mastreação. Escavaram-se mais navios da Grécia Clássica do que navios portugueses da chamada Era dos Descobrimentos – o nosso próprio passado é um arquipélago de silêncios, feito mais de conjecturas do que de achados. Faltam-nos os navios – reais, tangíveis, escavados e estudados. Falta-nos o que permitiria a um país marítimo olhar-se ao espelho, sem nevoeiro.
E sei do que falo. Há trinta anos que sou arqueólogo náutico e subaquático, especializado em navios ibéricos.
Encontrei, escavei e desmontei um galeão espanhol nos Açores. Fiz a carta dos naufrágios de Cabo Verde e dos Açores.
Mergulhei num recife de coral na Austrália para recuperar moedas de prata espanholas, naufragadas num navio português que seguia de Lisboa para Macau.
Nas águas silenciosas do Emirato de Sharjah procurei vestígios de embarcações portuguesas. Na pequena ilha omanita de Masirah deparei-me com a estória de André Cortes, que em 1546 combateu, com a filha bebé ao colo, contra piratas nautaques que acabaram por o fazer cativo.
Em Colónia do Sacramento, deixei-me ficar diante da foz larga e turva do rio da Prata, onde Portugueses e Espanhóis trocaram tiros vezes sem conta.
Na ilha de Moçambique, a 20 metros de profundidade, mergulhei num canhão português em bronze, que ajudei a salvar da cupidez dos caçadores de tesouros.
Na costa da Namíbia identifiquei a nau Bom Jesus, desaparecida em 1533 e reencontrada quase cinco séculos depois.
Nas Caraíbas, segui o rasto do navio negreiro Esperança, francês no casco e no comércio, mas convenientemente português no pavilhão.
Estas histórias não são notas de viagem: são a medida do que ainda não sabemos. Mostram que o passado marítimo português está por contar – e que um Museu dos Descobrimentos, mais do que uma instituição, deveria ser um laboratório de verdade histórica. Um espaço onde a arqueologia, a história, a crítica, a memória e o incómodo se possam encontrar sem medo.
Quando digo Museu dos Descobrimentos, obviamente não falo de “descobrimentos”. Poucas terras foram verdadeiramente descobertas: os Açores, a Madeira, Cabo Verde, a remota ilha de São Paulo no Índico – e pouco mais. O que os Portugueses fizeram, acompanhados por Venezianos, Genoveses, Flamengos ou Alemães que com eles navegaram, foi resolver uma equação que permanecera irresolúvel durante séculos: como lá chegar. Lá, ao conhecido e ao desconhecido. Lá, àquilo que se intuía nos mapas incompletos, nos portulanos carregados de hipóteses, nos nebulosos limites do mundo medieval.
Quem navegou naqueles séculos iniciais, fundiu tecnologia e ciência muçulmana e judaica com um saber-fazer cristão e, dessa síntese improvável, fez-se ao mar. Não foi um milagre; foi engenharia, matemática, cosmografia, cálculo astronómico, carpintaria naval, meteorologia empírica, e sobretudo a coragem de combiná-los. O resto foram encontros – inevitáveis, transformadores, por vezes violentos, as mais das vezes mutuamente fecundos.
Se os Portugueses encontraram o Brasil, também os povos do Brasil encontraram Portugal. Se chegaram às costas do Japão, não tardou muito até que emissários Japoneses atravessassem meio mundo e descessem literalmente na Europa, em navios portugueses, invertendo as rotas e as narrativas. Não há unilateralidade na história global: há fluxos, retornos, contaminações, aprendizagens cruzadas. Esquece-se facilmente que o universalismo europeu começou por ser, ele próprio, uma descoberta do Outro.
O maior feito dos Portugueses de então não foi terem simplesmente navegado. Outros antes deles navegaram – Fenícios, Árabes, Chineses. O que os Portugueses fizeram foi outra coisa: desfizeram a escolástica medieval. Abriram fendas no pensamento fechado, na visão teológica do espaço, no mapa moral do mundo. Aceitaram que a experiência directa pudesse contradizer a teoria; que o mar, ao contrário dos livros, não mentia; que um piloto pragmático pudesse valer tanto quanto um letrado. Substituíram a especulação pelo empirismo. Distorceram a gramática da Idade Média e inauguraram, sabendo-o ou não, um modo novo de estar no mundo.
Em Fevereiro de 1502, Valentim Fernandes imprimiu em Lisboa o Livro de Marco Polo e enviou-o, fresco da tipografia, para a Armada que partiria dias depois rumo à Índia. Não o fez para ornamentar bibliotecas, nem para perpetuar maravilhas orientais num registo literário.
Fê-lo para uma função prática, quase científica, e deixou-o claro no colofão: o livro servia “para avisamento daqueles que agora vão para as ditas Índias”, e pedia humildemente aos navegadores que “queiram emendar e corrigir o que menos acharem escrito”; nos nomes das províncias, reinos, cidades, ilhas, nas distâncias entre lugares – em tudo o que a experiência directa contrariasse o que seguia escrito.
Isso foi, de facto, uma revolução. Não uma revolução política ou religiosa, mas uma revolução cognitiva. Pela primeira vez, num livro europeu indicava-se que o texto poderia estar errado e de que caberia ao leitor – não a qualquer leitor, mas ao marinheiro, ao piloto, ao mercador – corrigi-lo a partir da sua observação empírica. Era a inversão completa da escolástica, para quem o mundo devia caber nos livros e não o contrário. De repente, a autoridade não é o pergaminho, nem o mestre universitário, nem o comentador aristotélico: é o homem que viu, que mediu, que navegou, que aferiu distâncias com a experiência e o corpo. O mundo tornava-se mais confiável do que o discurso que o descrevia.
A modernidade científica começa aqui, nesta página impressa, em português, em Lisboa, muito antes de Galileu apontar um telescópio ao céu ou de Bacon escrever sobre o método científico. Começa com Portugal a transformar a viagem numa forma de conhecimento, o oceano numa sala de aula e a náutica num laboratório móvel. Começa com a ideia subversiva de que um piloto anónimo pode corrigir Marco Polo, e que essa correcção não é heresia – é progresso.
Por isso é que o verdadeiro legado dos Portugueses não está nos monumentos, no pastel de nata, em Ronaldo, ou nos slogans turísticos do Allgarve. Está nesta coragem intelectual de submeter o manuscrito ao real, o dogma à observação, o Velho Mundo a um mundo maior do que ele próprio imaginava. O império que estas pessoas construíram – frágil, fragmentado, multifacetado, do seu tempo – foi menos duradouro do que a epistemologia que deixaram: a convicção de que o saber se testa, se revê, se corrige, se discute, se aperfeiçoa. Que a verdade é um processo, não uma doutrina.
É irónico, portanto, que hoje se tenha medo de um “Museu dos Descobrimentos”, como se o passado fosse uma estátua ameaçadora e não uma conversa aberta sobre o que fomos e sobre o que aprendemos. A melhor herança desse período não está nas glórias nem nos mitos: está na capacidade de olhar para o mundo com curiosidade crítica, sem catecismos, sem certezas impermeáveis – como aqueles navegadores que partiam com um livro na mão e a consciência de que o próprio livro podia estar errado. O que verdadeiramente descobriram foi isto: que o conhecimento é uma viagem contínua, feita de rectificações, encruzilhadas e retornos.
Em contraste com essa abertura intelectual dos séculos XV e XVI, assistimos hoje a um fenómeno perturbador: a recusa de lidar com a história como ela realmente foi. Em Londres, Bristol, Antuérpia ou Paris, ergue-se a tentação de derrubar estátuas, apagar nomes, amputar paredes. É como se o passado fosse uma ofensa pessoal, e não uma realidade a compreender.
Mas uma estátua não é um elogio eterno: é um documento. É um testemunho do que uma comunidade, num certo momento, escolheu ver em si mesma. Derrubá-la pode dar a ilusão de limpeza moral, mas apenas empobrece o arquivo visível da nossa memória colectiva. Quem totalitariamente rasura o passado não o corrige – apenas se condena a repeti-lo às cegas.
Pior ainda é a vontade crescente de reescrever a história num sentido maniqueísta, atribuindo culpas únicas e inocências impossíveis. Como se o tráfico de escravos tivesse sido um desvio exclusivo de um ou dois impérios europeus; como se todos os outros continentes vivessem em sociedades puras, imaculadas, imunes às tentações económicas e às hierarquias humanas.
É historicamente falso – e moralmente perigoso. Todos os povos venderam seres humanos. Todos os povos compraram seres humanos. A escravatura existiu na Ásia muito antes de Camões ter tido um escravo javanês; foi estruturante nos impérios africanos do Sahel e da costa da Guiné; sustentou tanto civilizações da Antiguidade Clássica como ameríndias; fez parte das economias do mundo islâmico desde o Magrebe até ao Índico; moldou, sem excepção, a história humana. A Europa não inventou a escravatura – inventou, isso sim, o debate público sobre a sua abolição.
Mas há ainda outra ironia que raramente se reconhece: de Xangai a Buenos Aires, de Lagos a Istambul, de Bombaim ao Rio de Janeiro, todos os povos do mundo incorporaram, com entusiasmo variável, aquilo que hoje se chama “capitalismo ocidental”. Não por submissão, mas por desejo – desejo de mobilidade, de riqueza, de distinção, de símbolos de status. O luxo, a ostentação e a competição pelo prestígio social são universais. A paisagem contemporânea – arranha-céus, centros comerciais, telecomunicações, marcas de luxo, mercados financeiros – não é um pastiche europeu imposto ao mundo: é uma construção global, co-criada por todos.
O capitalismo globalizou-se não porque foi imposto, mas porque encontrou, em cada cultura, uma sede humana antiga: a de, por meio de objectos, de tecnologias, de raridades, alardear o poder que se detém ou a posição que se ocupa naquela sociedade.
Em todos os países, em todas as épocas, o que a história nos mostra é isto: a humanidade não é inocente, mas é curiosa; é violenta, mas é capaz de criar beleza; é desigual, mas é também capaz de aprender e corrigir-se. Não há povo puro, não há cultura sem sombras, não há civilização ou etnia sem contradições. Por isso mesmo, rasurar o passado é uma forma de infantilização moral – como se a maturidade colectiva dependesse de apagar erros, e não de os compreender.
Na verdade, o verdadeiro desafio não é derrubar estátuas; é aprender a olhar para elas. Não é apagar capítulos; mas lê-los com atenção crítica. Não é purificar a história; mas compreendê-la na sua densidade: feita de grandezas e horrores, de génio e brutalidade, de encontros improváveis e embates devastadores. É nessa espessura que se mede a humanidade, e é nesse confronto que se constrói o futuro.
E é aqui que surge a terceira ironia do nosso tempo: enquanto alguns poucos, entre nós, clamam pela urgência de “descolonizar” museus, o mundo dito “colonizado” preserva – por vezes com orgulho, outras com pragmatismo histórico – a presença portuguesa no seu património.
Em Cabo Verde, mesmo em frente ao palácio presidencial, continuam voltadas para o mar as estátuas dos descobridores. Não como celebração acrítica, mas como parte da continuidade material de uma história partilhada, com as suas luzes e sombras.
Na ilha de Moçambique, Vasco da Gama e Camões permanecem erguidos, não porque representem uma adesão cega ao passado colonial, mas porque a história da ilha – a sua identidade urbana, a sua memória arquitetónica – não existe sem eles. A própria fortaleza, símbolo máximo da presença lusa no Índico, foi proposta pelas autoridades moçambicanas, e aceite pela UNESCO, como Património Mundial. Não houve escândalo, nem polémica: houve reconhecimento de que o passado é mais complexo do que dão a entender alguns gritos histéricos, emitidos em falsete nas redes sociais.
O mesmo se passa em Omã e nos Emiratos Árabes Unidos, territórios que viveram sob domínio português durante século e meio. Longe de apagarem esse período, os seus museus nacionais dedicam-lhe salas inteiras. Em Mascate, Sohar ou Sur, investigam-se as fortalezas atribuídas aos Portugueses, restauram-se torres, catalogam-se peças de artilharia, exibem-se moedas e cerâmicas. No Emirato de Sharjah, escavam-se sistematicamente os níveis portugueses de jazidas arqueológicas costeiras e integram-se essas descobertas na narrativa oficial da história local. Não há ressentimento: há arqueologia, estudo, curiosidade – e, sobretudo, a consciência de que a identidade omanita ou emirati não se constrói eliminando vestígios; mas incorporando-os.
Por isso é tão paradoxal – e tão revelador – que, enquanto noutros continentes se reconhece que o passado é sedimentação e não camisa-de-forças, aqui pela Europa persistam vozes que pretendem purificar museus como quem higieniza sanitas. Talvez porque, paradoxalmente, o ex-colonizado já fez o trabalho que o ex-colonizador ainda hesita em iniciar: aceitar que o passado não é uma disputa moral, mas uma herança que se interpreta, se estuda, se confronta e se incorpora. E que nenhuma sociedade cresce amputando os capítulos que a constituem.
É tempo, portanto, de deixarmos de ter medo do passado. Tempo de deixarmos de ver fantasmas onde há apenas história, e de percebermos que a memória não se purifica: trabalha-se, debate-se, expõe-se.
É já tempo – finalmente – de Portugal fazer aquilo que há décadas posterga: construir um Museu dos Descobrimentos. Não um simulacro turístico, não uma vitrina anémica de réplicas, não uma sala tímida escondida atrás de discursos culpabilizadores ou auto-glorificantes.
Um museu sério, central, monumental no melhor sentido do termo – o suficiente para acolher a complexidade do que foram e do que fizeram muitos Portugueses no passado. O fluxo turístico que nos chega – e que continuará a chegar – está cansado dos restos pífios dos Jerónimos, das salas esvaziadas de significado que sobreviveram ao sismo e aos séculos, da singularidade isolada da Torre de Belém, que já não consegue, sozinha, contar uma história tão vasta.
Um Museu dos Descobrimentos é o único capaz de oferecer ao mundo uma narrativa verdadeiramente única porque só Portugal pode contar, a partir da sua própria experiência histórica, como um pequeno país reinventou a escala do planeta e inaugurou a primeira era de globalização.
No entanto, quem decide em Portugal hesita perante este museu.
Há décadas que adiamos a decisão, e cada governo, seja de que cor for, parece aliviar-se com a ideia de que “ainda não é o momento”.
Mas o que significa isso? Quando é, exactamente, “o momento” para olhar de frente a nossa própria história global?
Creio que o motivo para tal é temer-se que um Museu dos Descobrimentos obrigue o país a sair das trincheiras identitárias onde comodamente se instalou. Teme-se que um espaço verdadeiramente museológico – científico, crítico, arqueológico, documental – destrua as caricaturas que alimentam o debate público: a figura do herói marítimo intocável, por um lado, e a ideia de um Portugal exclusivamente predador e opressor, por outro. São dois extremos que se preferem mutuamente porque dispensam complexidade.
Um museu a sério não faria propaganda. Não ofereceria consolo. Recusaria simplificações. Colocaria lado a lado o astrolábio e o pelourinho, a caravela e o tumbeiro, a visão científica e a violência colonial. Mostraria que o avanço técnico que permitiu medir a latitude também permitiu transportar, em escala industrial, pessoas escravizadas. Revelaria como a cartografia portuguesa expandiu o mundo conhecido, mas também como essa expansão abriu a porta a novos impérios, novos conflitos, novos tráficos.
Um Museu dos Descobrimentos mostraria que os Portugueses não foram deuses nem demónios: foram seres humanos do seu tempo, entalados entre a necessidade económica, a ambição política, a curiosidade científica, a fé religiosa, a sobrevivência quotidiana e as violências estruturais próprias da Idade Moderna.
Talvez seja isso que se teme: um museu que devolva aos Portugueses a consciência de que foram inventores e imitadores, vítimas e algozes, pioneiros e produtos da mesma história global que, hoje, tanto nos custa integrar.
Precisamos desse Museu.
Portugal precisa de um edifício novo, pensado de raiz, onde se explique o que foi a grande aventura marítima: a ciência que se criou e reinventou, a náutica que se sofisticou, o comércio global que emergiu, a diplomacia que se teceu de Goa a Nagasáqui, de Benim a Sevilha, de Lisboa a Ormuz. Um museu onde não haja medo de falar das sombras – da violência, da escravatura, das assimetrias – nem vergonha de expor as luzes – a cartografia, a astronomia, a medicina tropical, a circulação cultural que ligou continentes.
Um espaço onde o visitante possa compreender que a expansão portuguesa não foi uma epopeia homogénea, mas um jogo de forças, de interesses, de confrontos e de colaborações, feito de pragmatismos e improvisações, de ambições e de erros, de genialidades e de horrores.
E, sobretudo, um museu que não seja apenas sobre nós. Um museu que tenha asas – literalmente.
A Portugal caberia erguer o corpo principal; às nações que connosco se cruzaram caberia ocupar, se o desejarem, alas dedicadas, anexos autónomos, espaços seus. Espaços oferecidos, mas não controlados por Portugal; espaços museológicos inteiros, onde cada país possa construir, às suas próprias custas e com plena liberdade, a sua narrativa do encontro histórico que manteve com o nosso país.
Que o Benim conte o que foi o Atlântico negro.
Que Angola e Moçambique expliquem as dinâmicas internas que precederam, acompanharam e ultrapassaram a presença portuguesa.
Que o Brasil narre a sua construção plural, com as suas múltiplas matrizes.
Que o Japão descreva a fascinante convivência, trocas e choques daquele curto, intenso século de contacto.
Que o Uruguai, a Tailândia, o Irão, os Emiratos Árabes, a Índia, Timor e tantos outros desenhem as suas próprias leituras, sem tutela, sem revisão portuguesa, sem filtros.
Um museu destes não é apenas uma instituição: é um gesto político e civilizacional. É reconhecer que o passado é tecido por muitos fios e que nenhum deles nos pertence em exclusivo. É devolver a voz a quem a história nem sempre escutou. É afirmar, sem medo, que a grandeza e o fracasso fazem parte da mesma herança. É, finalmente, assumir que só um país adulto consegue olhar para a sua história inteira – e convidar o mundo a olhá-la connosco.
Portugal precisa deste museu não para consolidar mitos, mas para os ultrapassar; não para se vangloriar, mas para compreender; não para se desculpar, mas para se explicar.
Seria uma obra de maturidade e, acima de tudo, urgente. Porque a verdade histórica não se derruba – constrói-se. E a nossa, feita de mar e de encontros, merece finalmente uma casa à sua altura.
Alexandre Monteiro
Arqueólogo Náutico e Subaquático
HTC, Universidade Nova de Lisboa/Universidade de Coimbra”