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O Sino do Papa

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O Sino do Papa

 

«uma mudança de crescimento e em favor da dignidade das pessoas»

(Francisco)

 

 

Francisco inaugurou a 4 de outubro a primeira sessão da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, com o tema ‘Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação, missão’; uma segunda etapa vai decorrer em outubro de 2024.

“Há alguma dificuldade em acolher todos de igual forma e em aceitar a diversidade no seio da Igreja (casais em segunda união, pessoas com atração pelo mesmo sexo ou em uniões homossexuais) em valorizar a fragilidade, nomeadamente das pessoas com deficiência, e em compreender o que se entende por ‘acolhimento’”, pode ler-se na documentação apresentada.

Segundo as conclusões plasmadas nesta síntese, “…há, ainda, tensões diversas em temas ditos fraturantes, tais como: o acesso das mulheres ao sacramento da ordem; a ordenação de homens casados; a identidade sexual e de género; a educação para a afetividade e sexualidade; e o celibato dos padres”.

Como prioridades para discussão, nomeadamente, na primeira sessão da Assembleia sinodal, a realizar no Vaticano no outubro deste ano, fala-se na prioridade a dar aos jovens e à participação da mulher na Igreja, à reflexão sobre “o ministério ordenado, considerando a possibilidade de ordenar presbíteros homens casados” bem como “ter uma atenção permanente aos pobres e dar centralidade às diferentes questões de cariz social, bem como às questões relacionadas com a ecologia face aos crescentes problemas ambientais”.

“Dar resposta às novas realidades sociais e afetivas, fortalecendo os vínculos nas Igrejas domésticas com um acompanhamento personalizado das famílias, e acolhendo os novos modelos familiares (famílias monoparentais, famílias reconstruídas a partir de outras, divorciados recasados, famílias com pais/mães do mesmo sexo e com filhos biológicos ou adotados)” é outra das prioridades identificadas, a par do diálogo com “a cultura e com o pensamento contemporâneo, em temas como a inteligência artificial, a robótica ou as questões de identidade de género (LGBTQIA+)” ou a necessidade de revisão da “comunicação e linguagem da Igreja (para dentro e para fora) e a ocupação do espaço público como uma voz credível e de serviço”.

O Sínodo sobre a Sinodalidade, que culminará no Vaticano em outubro de 2024, quer saber como é que a Igreja está a fazer o “caminho em conjunto” no anúncio do Evangelho e chamou, numa primeira fase, “todos os batizados” a darem opinião.

“Uma Igreja sinodal, ao anunciar o Evangelho, ‘caminha em conjunto’. Como é que este ‘caminho em conjunto’ está a acontecer hoje nas Igrejas locais?” – Foi uma das principais perguntas colocadas aos cristãos.

Esta será a mais importante reunião desde o Concílio Ecuménico II, aberto em 11 de outubro de 1962 pelo Papa João XXIII e terminado por Paulo VI em 8 de dezembro de 1965.

Já nessa altura, o Papa João XXIII queria ir mais longe no seu Concílio e aprofundar as muitas mudanças necessárias. No entanto e tal como agora, os cardeais mais conservadores eram muito resistentes a essas mudanças. O certo é que o bom Papa João XXIII morreu. O seu sucessor, Paulo VI, evitou toda a continuidade transformadora do seu antecessor.

O Papa Francisco enfrenta neste momento uma grande oposição por parte de vários cardeais, sobre a forma como atualizar o Catolicismo aos tempos que correm. A ordenação da mulher tem oposição acérrima dos ultraconservadores.

Neste Sínodo que assistimos, estamos em crer que, no essencial, tudo ficará na mesma. A Igreja Católica Apostólica Romana continuará na sua saga de renúncia incompreensível ao mais comum dos seus membros, nas mudanças que o mundo exige.

O Sínodo de Francisco, mais não será do que o sino do Papa. Barulho e nada mais.

 

jose.soares@peixedomeuquintal.com

JSoaresc
1970 – 2023
53 ANOS DE JORNALISMO
INCISIVO E ACUTILANTE

 

 

 

 

 

 

baleeiro açoriano na Nova Zelândia?

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História ou ficção? Parece-me ser história, e interessante. Trata-se de Antonio Joseph, que em 1911 residia em Taieri Beach, na ilha de Taieri, Nova Zelândia. Entre 7 de Março e 11 de Abril de 1911, assinados pelo pseudónimo «Kowhai», sairam no Clutha Leader (volume XXXVII), jornal de Balclutha, a Nova Zelândia, seis pequenos artigos sobre a sua vida de baleeiro, começada como uma fuga da ilha das Flores por volta de 1828, aos 17 anos. Começa assim:
In Early Days.
SOME INCIDENT’S IN THE LIFE OF AN OTAGO PIONEER.
(Specially written for the Clutha Leader.)
By Kowhai.
Antonio Joseph, of Taieri Beach, a name familiar to most early settlers of Otago, and a familiar figure at the various reunions of pioneers and descendants held in Balclutha, Milton, and elsewhere for some time past, has, notwithstanding his burden of almost 83 years, a remarkably clear memory, and the writer has obtained for the Leader a glimpse into his eventful life.
The veteran pioneer, now perforce resting quietly in the evening of life, is typical of the old-time whalers, and a somewhat rugged exterior indicates the possession of that determination and daring one naturally associates with the people we
affectionately call “our pioneers.”
Born in Flores, in the Western Islands of Europe, Mr Joseph, when 17 years of age, ran away from home and joined a whaling vessel, the American barque “Favourite,” Capt. Young. For several years the Favourite was engaged in the whaling industry, and the veteran can speak of many exciting experiences in the course of the long cruises undertaken by the vessel. A rather unpleasant incident so far as he was concerned has not yet been forgotten, and serves to show the recklessness that obtained among the old-time whaling crews, who of course participated in the profits of the industry. Mr Joseph states that on one occasion in the early forties they had made fast to a whale, and while the rope was running at lightning speed through the boat’s hawse-pipe a bend of the rope bounded over his head and encircled his legs, dragging him overboard. So intent were the boat’s crew in the pursuit of the valuable whale that the fact of one of their party being in distress was of little moment, and it was not for over an hour’s time that the crew saw fit to effect the rescue of their comrade, who, being a good swimmer, managed, though injured, to remain afloat.
In 1847 the Favourite called at Preservation Inlet for fresh water and an addition to the larder in the shape of native game, which there abounded. Pigeons, kakas, etc., were so quiet that great numbers were knocked over with sticks. Crayfish were also in plenty, and needless to say the vessel’s crew dined right royally for some time afterwards. The birds were hung up in the rigging, and the crew subsequently had to throw the remainder overboard. The vessel also called at Chalky Inlet, and after again putting to sea a sensational experience took place, the vessel striking a whale and badly damaging her rudder. Captain Young decided to make for Otakou to endeavour to have repairs effected, and thus in 1847 Mr Joseph saw for the first time the port of the province where he was destined to make his
home. The Favourite anchored at the Heads, where there were a great number of natives, and the captain took a boat up to where Port Chalmers now is. Bush covered the steep hillsides to the water’s edge, and the sight was indeed a grand one, though the loneliness of the place forced itself upon one. A shelving shingly beach served as a boat landing. The whaler captain found but one house in the locality, fashioned out of clay and thatch—the wellknown material “architects” of the early days made use of. Mr and Mrs Wyllie, and Mr and Mrs McKay occupied the house, and a schooner lay at anchor put in the bay. It was the Scotia, owned by Mr John Jones, and the little vessel had just recently arrived from Sydney, having on board the first horses for Otago—four draughts. The Favourite, having effected repairs with the aid of a blacksmith’s forge at the Heads, put to sea after a three weeks’ stay, and returned to Otago the first week in March, 1848. The vessel sailed again minus several members of her crew, among the number being Mr Joseph. The latter’s first experience of colonial life was in the bush near the Heads with a party of sawyers—Messrs Chas. Hopkinson, David Carey, Jack Logan and James Bell—who were engaged sawing timber “on spec” with the old-fashioned pit-saws. The “head of the river,” as the site of Dunedin was best known by, was practically an unknown quantity save to the natives and to the first surveyors. However, the Heads at that time (about three weeks before the arrival of the Philip Laing with the first immigrants) was a scene of life, visits of American whaling ships being not uncommon, and many quaint characters and many a lively “shindy” the veteran can throw on the screen of memory. Whales were caught in numbers in Blueskin (Waitati) Bay, and even in the harbour itself, and it can well be imagined the natives did a profitable barter business with the whaling ships’ crews. Of course the staple foodstuffs the Maoris produced were pigs and potatoes, and they received in exchange blankets, clothing, axes, knives, etc. The smart
appearance of the Yankee sailors in red shirts and white pants appealed to the imitative tastes of the natives, and Mr Joseph can remember many ludicrous pictures of the in pakeha garb with the additional adornment of shark’s teeth and greenstone curios piercing the ears.
WHALLING.
The American barque Favourite, Captain Young, a vessel of some 400 tons, was engaged in whaling in New Zealand waters for some years. She was owned in New Bedford, U.S.A., from which port, after calling at the Azores group of islands, the vessel came direct to New Zealand. She circumnavigated New Zealand in the course of her first cruise, and “worked” besides the whaling grounds in the vicinity of the Chatham, Auckland, and Macquarie Islands. Whales abounded in these waters in the forties, and Mr .Joseph can tell of many a combat with those monsters of the deep. The carcases were, “tried out” on board the ship, and the process of converting an average sized whale into oil occupied about three days. Both sperm and black whales were plentiful in New Zealand waters, the former of course being the more valuable. A large whale would turn out about 120
barrels of oil (32 gallons in a barrel), and the Favourite had accommodation for some 2,800 barrels. It may be stated that the Americans calculated by barrel measurement, while the English reckoned by tuns.
Off the West Coast of the South Island in 1847 four ships were busily “engaged” at the same time among a school of whales. The Favourite, two other American ships, and a Britisher (the “Flying Childers,” of Hobart) ; each lowered four boats, and all “got fast.” The Britisher had the misfortune to lose one whale through the capsizing of a boat, but each American boat secured a prize, and thus Uncle Sam was victorious over John Bull. A total of 15 was the result of the capture from the “school,” and Mr Joseph says the sight was one not easily forgotten—the whole sea, it seemed, being alive with spouting whales, resembling a great expanse water-spouts. The Favourite’s catch turned out 30 barrels each, the whales being small, but it was not uncommon to secure a prize that would try out 120 barrels, and a good sperm whale was valued at something like £500.
DESERTING SAILORS.
Captain Young, of the Favourite, had good cause to remember his first voyage to New Zealand, for upon his second visit to Otago he lost many of his crew through desertions. When anchored off Port William, Stewart’s Island, one morning, the mate reported the loss of a whaleboat, which had been left in the water over night astern of the ship. It turned out that the fourth mate (Harper), a boat-steerer (a man who could ill be spared), and a boat’s crew, had gone ashore in the whaleboat, which was recovered minus the crew. In Otakou two others—Clarkson and Joseph—forsook the sea at the beckoning call of the new and fair land of the south. In the latter instance Captain Young resorted to subterfuge to endeavour to recapture the two delinquents, who had the satisfaction one morning of seeing (from their hiding place in the bush) the Favourite make sail and put to sea. They noticed the vessel standing off and on, and became curious. They came to the edge of the bush, where a Maori garden was roughly fenced with fallen trees, and before they could make further investigation they got a great fright at seeing the first mate of the whaler jumping over the fence and making towards them. The two exploring sailors decamped with surprising speed, and successfully eluded their would-be captor, who later reported to his chief that “the devil himself wouldn’t catch them.”
Alter leaving Otakou the Favourite became an unlucky ship, for at Akaroa the crew had to be practically replaced on account of desertions, and the vessel besides lost both anchors and many fathoms of chain, necessitating the reshipping of a fresh crew drawn from a mixed lot of whalers at that port, and a trip to Port Nicholson to refit. However, shortly afterwards the tide turned, and a three months’ cruise to the Chatham Islands and neighbourhood proved a profitable venture. The vessel again returned to Otakou to ship spare spars and a boat previously left, after which she sailed, homeward bound; and that was the last Mr Josoph saw of the good old Favourite. Capt. Young returned to New Zealand six years later in a vessel called the St. Peter. Mr Joseph met his quondam master in Dunedin, who enquired after his welfare, and offered him 10 tons of tobacco if he cared to go on board the vessel for the same, which for, obvious reasons anchored outside the Heads. The offer was declined, as the sailor’s friends advised him to be watchful of the cute Yankees. And watchful he decided to be. (To be continued.)
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afinal a profissão mais antiga é….

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QUAL É A PROFISSÃO MAIS ANTIGA DO MUNDO?
Tiago Cordeiro (Super Interessante), 21 Maio 2012
Diferentemente do que diz a sabedoria popular, a primeira profissão humana foi a de cozinheiro – e não a de prostituta. É o que diz um estudo publicado pela Universidade de Harvard.
O raciocínio é o seguinte: se a prostituição surgiu quando uma ancestral nossa ofereceu sexo em troca de comida ou abrigo, já havia colectores de alimentos e guerreiros para protegê-la. “É certo que os caçadores vieram antes dos fazendeiros. Provavelmente, os colectores de alimentos são ainda mais antigos”, afirma Patrick Geary, historiador da Universidade da Califórnia.
Ainda assim, outras espécies de animais também colectam alimentos, caçam e se prostituem – comportamento observado em outros primatas. Cozinhar, porém, teria sido o primeiro ofício exclusivo dos seres humanos.
A actividade teria surgido há 2 milhões de anos com o Homo Erectus. Entre eles, já existia a especialização no preparo dos alimentos, como comprovam utensílios encontrados perto de fósseis da época. “Além de ser a primeira profissão, é também aquela que nos definiu como espécie”, defende Chris Organ, biólogo de Harvard e um dos co-autores do estudo.
________
FONTES: Artigo Energetic Consequences of Thermal and Nonthermal Food Processing, publicado na revista acadêmica Proceedings of the National Academy of Sciences.
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Um Historiador Português na Universidade de São Paulo – Diario dos Açores

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Source: Um Historiador Português na Universidade de São Paulo – Diario dos Açores

AI reveals first word of ancient scroll torched by Mount Vesuvius | Popular Science

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The carbonized scrolls are too delicate for human hands, but AI analysis found ‘purple’ amid the charred papyrus.

Source: AI reveals first word of ancient scroll torched by Mount Vesuvius | Popular Science

How the Azores islands went from whale hunting to whale watching | CNN

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The remote Azores archipelago used to be known for its whale hunting. These days, however, it’s better known for whale watching – and is officially one of the most sustainable places on the planet to see the animals.

Source: How the Azores islands went from whale hunting to whale watching | CNN

Algoso: o castelo do “reino maravilhoso” é único em Portugal – Viagens – SAPO

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O castelo de Algoso é a fortificação do nordeste transmontano. Não há outro igual e são poucas as semelhanças com outro castelos roqueiros. Altivo, forte, teimoso e abraçado a lendas, o castelo de Algoso é a fortaleza do “reino maravilhoso” de Miguel Torga.

Source: Algoso: o castelo do “reino maravilhoso” é único em Portugal – Viagens – SAPO

FOTOS MINHAS 2003

A ORIGEM DA ERMIDA DOS ANJOS EM SANTA MARIA

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O pesquisador Miguel Corte-Real levanta a dúvida se Tomé Afonso e sua esposa Isabel Gonçalves seriam ou não os primitivos fundadores, se apenas reedificadores, ou mesmo apenas padroeiros mais modernos da ermida.[7] Conforme a sua pesquisa, de acordo com um documento na Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada, no espólio Velho Arruda, é referido um Tomé Afonso, casado com Isabel Gonçalves, que, por volta de 1560 deixaram ambos parte de seus bens para a conservação da ermida.[8]
Encontra-se classificada como Imóvel de Interesse Público pela Resolução nº 58, de 17 de maio de 2001.
NÃO HÁ RESPOSTAS ??????
DE QUEM É ESTE PATRIMÓNIO???????

ícone do ecce homo de lisboa para a etiópia há 500 anos

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CRISTO PINTADO EM LISBOA HÁ 500 ANOS
TORNOU-SE UM ÍCONE REAL DA DISTANTE ETIÓPIA
Como um Cristo pintado em Lisboa há 500 anos se tornou um ícone real da Etiópia. Na embaixada enviada ao reino de Preste João em 1520 seguia um Ecce Homo coroado de espinhos. Ícone de imperadores, a pintura foi saqueada pelos ingleses. Está em Portugal desde 1950.
Luís Miguel Queirós
28 de Setembro de 2023, Público
Foto
Detalhe da pintura Kwer’ata Re’seu, o Cristo etíope MARTIN BAILEY/CORTESIA THE ART NEWSPAPER
Esta é a improvável história de uma pintura a óleo de um Cristo sofredor, provavelmente da oficina de Jorge Afonso, pintor régio de D. Manuel I, que foi oferecida em 1520 ao imperador etíope Lebna Dengel, e que veio a tornar-se um ícone real em terras de Preste João – um tesouro que era levado para as batalhas e guardado nas próprias tendas dos monarcas, mas também um venerado (e muito copiado) objecto de culto, até hoje omnipresente na pintura religiosa do país. E como se a história deste Cristo etíope – relembrada nesta segunda-feira pelo jornalista e historiador de arte britânico Martin Bailey, no The Art Newspaper – não fosse já suficientemente insólita, estranhas circunstâncias ditaram o regresso da pintura a Portugal, onde vem passando mais ou menos despercebida há mais de 70 anos.
Saqueado durante a batalha de Magdala, em 1868, este Ecce Homo, a que os etíopes chamam Kwer’ata Re’seu, foi parar às mãos de Richard Holmes, um agente enviado à Etiópia pelo Museu Britânico para comprar manuscritos e antiguidades aos militares que regressavam com o saque da expedição. Holmes entregou aos seus empregadores do museu um extenso conjunto de peças, mas conservou secretamente a pintura do Cristo com a coroa de espinhos, vinda directamente da tenda do imperador Teodoro II, que se suicidou na ocasião.
Neste contexto em que se discute a questão das restituições, mas também no quadro das relações diplomáticas entre os dois países, parece-me que faria sentido o Estado adquirir a obra para a oferecer à Etiópia”
Joaquim Caetano, director do Museu Nacional de Arte Antiga
Uma versão provavelmente algo fantasiosa sustenta que Holmes retirou ele próprio o quadro da tenda, onde o cadáver do monarca ainda não arrefecera, mas parece mais plausível que o tenha comprado às tropas do general Napier, e eventualmente com verbas do Museu Britânico.
Magdala não fora a primeira ocasião em que o ícone real dos imperadores etíopes caíra em mãos inimigas. Em 1738 fora levado pelos muçulmanos do sultanato de Senar, no Sudão, após uma desastrosa campanha militar empreendida pelo imperador etíope Iyasu, que teve de promover uma colecta especial de impostos para custear o seu elevado resgate. O explorador escocês James Bruce contará mais tarde que “toda a Gondar”, então a capital do império, “ficou embriagada de alegria” com o regresso do Kwer’ata Re’seu.
Foto
Pintura a óleo de um Cristo sofredor, provavelmente da oficina de Jorge Afonso, pintor régio de D. Manuel I, que foi oferecida em 1520 ao imperador etíope Lebna Dengel MARTIN BAILEY/CORTESIA THE ART NEWSPAPER
Em 1868, todavia, não houve pedido de resgate, e a Etiópia não recuperou, até hoje, um dos objectos mais venerados do seu património histórico, político e religioso. Em 1872, o imperador etíope João IV, que apoiara os ingleses na expedição contra o seu antecessor, pediu a devolução da pintura, bem como do Kebra Nagast (A Glória dos Reis), o livro que narra a origem mítica da dinastia salomónica dos imperadores etíopes, que se teria iniciado com um filho de Salomão e da rainha de Sabá. Um exemplar do livro foi-lhe rapidamente restituído, mas a pintura nunca apareceu.
Holmes manteve o silêncio sobre a obra durante mais de 30 anos, até que em 1905 surgiu na prestigiada revista de arte britânica Burlington Magazine um artigo sobre o Cristo abissínio, que ele próprio terá escrito sob anonimato.
Salazar rejeita proposta
Após a sua morte, a obra foi leiloada em 1917 na Christie’s, que a atribuiu à escola de Bruges e a descreveu como tendo sido “encontrada em 1868 na casa do rei Teodoro em Magdala”. Um comprador londrino, Martin Reid, levou-a para casa por 420 libras, e um seu herdeiro voltou a recorrer à mesma leiloeira para a vender em 1950, sem que tivesse alcançado o preço de reserva. A pintura acabaria, depois, por ser comprada a título particular, em Londres, pelo historiador de arte português Luís Reis Santos, director do Museu Machado de Castro nas décadas de 50 e 60. Este ainda sugeriu a Salazar que mandasse adquirir a obra para a oferecer ao imperador etíope Hailé Selassié durante a sua visita de Estado a Portugal, em 1959, mas a proposta não foi aceite. Reis Santos viria a morrer num desastre de viação, em 1967.
Luís Reis Santos conhecia bem a história da pintura, uma vez que publicara já em 1939, na revista Ocidente, um artigo sobre o Kwer’ata Re’seu, defendendo que era da autoria de Lázaro de Andrade, um pintor que integrara a embaixada liderada por D. Rodrigo de Lima à Etiópia. Uma versão inglesa do mesmo artigo saiu depois na Burlington Magazine, em 1941, com o título On a Picture From Abyssinia.
No entanto, em 1950, a história já estava esquecida e, em Portugal, só se voltou a ouvir falar do quadro em 1998, quando Martin Bailey conseguiu seguir-lhe o rasto até Coimbra, onde a herdeira de Reis Santos o mantinha há muito num cofre bancário, ainda envolto num exemplar da edição de 20 de Abril de 1950 do jornal London Evening News.
Foi na sequência do seu artigo que o Estado português, após ter tentado comprar a pintura — projecto que se terá frustrado devido ao elevado preço então exigido —, decidiu avançar para a classificação, impedindo a exportação da obra sem autorização expressa do ministro da Cultura.
A portaria é assinada pelo então secretário de Estado do ministro da Cultura Augusto Santos Silva, José Manuel Conde Rodrigues, que atribui a propriedade do bem a Isabel Pereira Fernandes Reis Santos, e o descreve como uma “pintura quinhentista (ca. 1520) sobre madeira de carvalho, possivelmente luso-flamenga, representando Cristo coroado e nimbado, de mãos abertas e olhos semiabertos”. O diploma não faz nenhuma referência ao percurso etíope da obra.
A busca de Preste João
Passada esta efémera notoriedade pública na viragem do milénio, o caso do Cristo etíope voltou a sair dos radares durante mais duas décadas, até ao persistente Martin Bailey ter voltado agora à carga com um novo artigo no Art Newspaper, desta vez ilustrado com uma fotografia a cores inédita do Kwer’ata Re’seu.
Há poucos anos, no entanto, o cenário da compra poderá ter voltado discretamente a colocar-se, já que o director do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), Joaquim Caetano, se lembra de lhe terem pedido um parecer a respeito da obra, ao que crê ainda durante a passagem de Bernardo Alabaça pela Direcção-Geral do Património Cultural, onde este só esteve cerca de um ano e meio, de Fevereiro de 2020 a Junho de 2021. Caetano não conseguiu agora encontrar a resposta que enviou, mas sublinha que a sua posição tem sido sempre a mesma: “Neste contexto em que se discute a questão das restituições, mas também no quadro das relações diplomáticas entre os dois países, parece-me que faria sentido o Estado adquirir a obra para a oferecer à Etiópia.”
[1950] A pintura não alcançou o preço de reserva e foi depois vendida particularmente, em Londres, ao historiador de arte português Luís Reis Santos
Argumenta que se trata de “uma pintura pequena” (33 x 25cm), e de “um modelo várias vezes repetido, quer por Jorge Afonso, quer pelo seu genro Gregório Lopes, que lhe sucedeu como pintor régio”. E se lhe reconhece “qualidade”, entende que “não muda grande coisa na história da pintura portuguesa”.
Acresce que este Cristo terá sido pintado com o intuito expresso de ser oferecido ao novo aliado cristão dos portugueses na África Oriental, já que, adianta ainda o director do MNAA, ele consta de uma lista de objectos a enviar para a Etiópia que se conserva na Torre do Tombo.
O antropólogo Manuel João Ramos, que a maioria dos portugueses conhecerá melhor pela luta que há muito vem travando contra a sinistralidade rodoviária – é o fundador e presidente da Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados, ACA-M —, tem a mesma opinião que Caetano, com o qual, aliás, trabalhou num malogrado projecto de exposição que traria a Portugal um importante conjunto de arte sagrada etíope, e que teria no Kwer’ata Re’seu uma peça central.
É um quadro que vai para a Etiópia na primeira embaixada europeia formal dos tempos modernos a um país africano e que ali se torna um ícone real”
Manuel João Ramos, antropólogo
“É um quadro que vai para a Etiópia na primeira embaixada europeia formal dos tempos modernos a um país africano e que ali se torna um ícone real”, sublinha o antropólogo, lembrando que os próprios Descobrimentos “nasceram da ideia de contacto com o Preste João”.
Visões inconciliáveis
No entanto, se é difícil sobrestimar o simbolismo histórico e político desta pintura — ainda que materialmente semelhante a muitas outras tábuas renascentistas ao gosto flamengo que abordam o tópico do Cristo sofredor —, Manuel João Ramos alerta para o facto de o culto da obra original, e uma certa ideologia da conservação que lhe está associada, não ser necessariamente tão consensual na Etiópia como na Europa.
No seu livro Histórias Etíopes (Tinta-da-China, 2010), o investigador defende que os responsáveis pela política cultural e os sacerdotes e fiéis da Igreja Ortodoxa mantêm perspectivas “inconciliáveis” no que respeita à arte sacra. “Para que um ícone mantenha viva a sua força evocativa, dizem os padres, deve ser repintado quando as cores esmorecem; mas a pática de repintar imagens do século XVII com tinta de esmalte brilhante horroriza, vá-se lá saber porquê, os patrimonialistas.” Ou seja, acrescenta, “quanto mais a cópia for actualizada, mais a presença divina estará assegurada”, mas, “para o Ministério da Cultura, obediente aluno da UNESCO, cada repintura atenta contra o interesse nacional que constitui o fluxo proveniente do turismo cultural”.
Embora seja uma boa tábua do século XVI, a sua excepcionalidade justifica-se mais pela história que lhe está associada”
Raquel Henriques da Silva, historiadora de arte e museóloga
A devolução do Kwer’ata Re’seu seria provavelmente acolhida como um grande acontecimento político e cultural na Etiópia, e uma evidente mais-valia para o turismo, mas isso não implica que os fiéis reconheçam no ícone uma autenticidade superior às suas muitas cópias contemporâneas, já que na tradição ortodoxa, explica o antropólogo, o único retrato original de Cristo, do qual provêm todos os outros, é o que S. Lucas teria pintado a partir do seu modelo vivo.
A historiadora de arte e museóloga Raquel Henriques da Silva, que esteve envolvida na iniciativa de classificação da pintura quando dirigia o então Instituto Português de Museus, também defende que o Estado deve adquirir a pintura, quer por lhe parecer o mais correcto quando classifica uma obra que o proprietário quer vender (desde que o preço seja razoável), quer pelo “raríssimo pedigree histórico” do Kwer’ata Re’seu. “Embora seja uma boa tábua do século XVI, a sua excepcionalidade justifica-se mais pela história que lhe está associada”, ajuíza. “Dava uma exposição fantástica.”
Manuel João Ramos, que chegou a tentar organizar essa exposição, acha que também daria “um livro ou um filme”. E talvez se possa acrescentar um álbum de banda desenhada ao estilo do criador de Corto Maltese, Hugo Pratt, autor de As Etiópicas.
O PÚBLICO tentou, sem êxito, contactar a actual proprietária do quadro, e procurou também saber junto do Ministério da Cultura, igualmente sem respostas até ao momento, se uma eventual compra da pintura está a ser ponderada.
Manuel João Ramos nota que a entrega da pintura à Etiópia teria ainda a vantagem de poder ser feita sem as tensões que o debate em torno da restituição de património costuma gerar. “A discussão destas coisas em Portugal envolve sempre emoções que têm que ver com o período colonial, mas não houve colonização portuguesa na Etiópia”, um país que nunca foi, aliás, colonizado por nenhuma potência europeia, se exceptuarmos a sua efémera ocupação pela Itália fascista de Mussolini.
Se o Kwer’ata Re’seu está hoje fora da Etiópia, a responsabilidade parece ser exclusivamente britânica. Portugal não o roubou, ofereceu-o. Talvez possa voltar a fazê-lo.
Pode ser arte de 1 pessoa
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Ana Maria Nini PV Botelho Neves and 35 others

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Carlos Fino

Apesar de algumas repetições, penso que o tema é suficientemente importante para justificar a publicação deste texto do Público. Conto sempre com a compreensão de quem lê e que saibam distinguir o trigo do joio.
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