a ilha onde os sinos dobram

Views: 0

õ
São Jorge Terra treme, responsáveis preparam retirada de cinco mil pessoas, crise sísmica pode transformar-se em algo pior
Vocês são jornalistas? Desculpem meter-me na conversa, mas também vim para cá por causa dos sismos.” Foi assim que começou o diálogo entre João Fontiela, sismólogo da Universidade de Évora, e o Expresso. Na sala de espera do Aeroporto das Lajes, na ilha Terceira, a mesa inóspita que acabou por servir de base à conversa contrastou logo com o entusiasmo do investigador. Esperávamos pelo avião que nos levaria a São Jorge, a ilha para onde seguiram vários jornalistas e onde se centram as atenções das restantes oito do arquipélago e do país. “Isto é uma oportunidade única, independentemente do que possa ser, é único”, repetiu várias vezes.
João Fontiela trouxe na mala 15 estações sísmicas do Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências de Lisboa, que, com a ajuda de outros dois colegas investigadores, vai instalar por toda a ilha de São Jorge. “Neste momento há sensores na ilha. Os que vão ser instalados agora é que têm uma configuração específica para detetar o empolamento [do solo]. Se as estações GPS se estiverem a afastar entre a parte norte e a parte sul, quer dizer que estamos a ter uma deformação crustal, o magma está a ascender”, explica o sismólogo. Seguiram-se vários minutos de possíveis explicações de cenários que pudessem surgir.
A ATERRAGEM
O voo de Fontiela e do Expresso chegou lotado ao destino, mesmo depois de o Governo Regional desaconselhar as viagens para São Jorge. A trepadeira de folhas verdes de Teresa Andrade sobressai no cinzento do cesto do carro que escolheu para transportar as suas malas. Chega de uma consulta que teve em Lisboa. É algarvia, mas para “fugir do stresse” agarrou-se a São Jorge há três anos. “Vejo esta crise sísmica com naturalidade.” Com semblante sereno, não esconde “preocupação, é evidente, mas já se sabe que a natureza manda mais do que nós”, diz.
Quem trabalha ao sabor do vento e da chuva é Armando Silveira. Encontramo-lo a varrer vigorosamente a calçada de uma das principais ruas do centro de Velas, o concelho mais afetado pela crise sismovulcânica que tomou conta de São Jorge desde o passado sábado. É varredor há 17 anos e radioamador. Dois dedos de conversa depois, precisa: “Veja, sou encartado, falo para todo o mundo”, assegura, mostrando o cartão com o seu nome ao lado da fotografia do Senhor Santo Cristo, de quem diz gostar muito. Sobre os vários abalos que já sentiu só tem falado com os colegas da ilha.
“A gente tem as nossas coisinhas. Até aqui não tive muito medo, o que tenho mais medo é de sair, porque fica tudo para trás, a minha carrinha, as minhas coisas e os animais”, lamenta.
A EVACUAÇÃO
É isso que vai acontecer no concelho de Velas, onde está em curso [à data de fecho deste artigo] uma megaoperação para o evacuar. São, no total, cerca de cinco mil habitantes. Sem conseguir adiantar muitos pormenores, o homem que dá o corpo às balas nesta crise explicou, em traços gerais, como se retira tanta gente de um único local para o outro concelho da ilha. “Velas terá a responsabilidade de abrir os corredores e Calheta de receber as pessoas, onde haverá equipas da Segurança Social, da Ação Social, da Proteção Civil local e da Saúde”, diz Luís Silveira, o presidente da Câmara Municipal de Nelas. A prioridade, durante a retirada, é começar primeiro pelos idosos, crianças, mães e grávidas.
Quando acontecer a evacuação, explicou ao Expresso, esta será anuncia­da na comunicação social, nas redes sociais e nos órgãos oficiais municipais. “Peço à população para se reger por esta informação, porque há muita contrainformação a circular que pode ser alarmista”, adianta. Mas serão os sinos das igrejas a ditar a saída. “Os párocos e as juntas de freguesia estão avisados para tal”, assegura o autarca. Os sinos da igreja vão dobrar ininterruptamente para que os habitantes de Velas abandonem o concelho quando o perigo estiver ainda mais perto.
A autarquia explica que quem tem carro deve seguir nos próprios meios. Quem não tem deve dirigir-se ao ponto de referência da sua freguesia e de lá parte para a freguesia da Calheta, que está preparada para receber os habitantes da freguesia que corresponde à sua. Outra possibilidade é socorrer-se de uma boleia de amigos e vizinhos próximos. A lista das estradas que os habitantes de cada freguesia devem usar está disponível na página de Facebook do município de Velas (www.facebook.com/municipiovelas), especifica o autarca.
Por outro lado, cada pessoa deve ter pronta uma mochila com “uma muda de roupa, os seus medicamentos, uma garrafa de água e um pacote de bolachas”. Há “possibilidade real de erupção”, admitiu o secretário regional da Saúde dos Açores, Clélio Meneses, com a pasta da Proteção Civil.
No jardim do centro de Velas, paredes meias com a Câmara Municipal, a vida prossegue sem pausas. Nas conversas cruzadas que se ouvem, de quem passa ou ali fica, há olhares redobrados a quem ali não costuma estar. Sentadas num dos bancos vermelhos do jardim estão duas amigas. São turistas polacas, estreantes nos Açores e acabadas de chegar a São Jorge para 10 dias de férias. Em inglês, contam ao Expresso que tinham acabado de saber das notícias. “Vamos mudar todos os nossos planos, precisamos de replanear a nossa viagem”, admite uma delas. As duas vão partir de barco para o Faial, ali perto, sem conhecer a ilha que se prepara para voltar a resistir à força que tem dentro de si mesma.
(Sara Sousa Oliveira – Expresso de 26/03/2022)
May be an image of nature
Like

Comment
Share
0 comments