os contadores de mortos

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Era uma vez…
Era uma vez um reino liliputiano, vassalo de um senhor feudal, onde os pirilampos cintilavam dia e noite e eram de plástico, onde os gambuzinhos eram todos solteiros, as bruxas eram fervorosas beatas, os anões eram grandes e bêbados, as fadas eram todas mancas, os coelhos eram cor-de-rosa e as maçãs não caíam…voavam!
Nesse reino havia uma arte que se chamava – Contadores e apontadores de mortes – porque nesse tempo morría-se…
No final de cada ano saía um jornal onde se dava conta do total das mortes e das suas diferentes causas. Engraçado era que, quase dava vontade de pôr em causa o salário dos contadores e apontadores de mortes, porque apenas variavam umas décimas entre as alínias do ano antecedente que rezava assim:
– 2% – por acidente
– 2,5% por homicídio
– 0,5 % por suicídio
– 25% por doença súbita
– 30% por doença prolongada
– 40% por uma outra doença que especificavam como – gripe
Não, não estava contemplada a mortalidade infantil derivada da interrupção de gravidez, nem como causa ou…tout court. Nem mortes por deficiente ou carente nutrição e menos por ingestão de remédios, se bem que no domínio do senhor feudal esta última tivesse honra de alínia e fosse contabilizada com um valor intermitente na razão de 20%… talvez nessas terras os habitantes tivessem mais poder de compra… Quem sabe?
Entretanto no pacato reino liliputiano surgíu um intruso metafísico, misterioso, assassino impacável e silencioso que alterou o status e o métier dos contadores e apontadores de mortes.
Nesse ano todos os habitantes do reino liliputiano morriam por via do intruso.
Os habitantes do reino liliputiano começaram então a pensar na morte… E depois de pensar em colectivo, chegaram à conclusão que todos tinham aprendido a ser prudentes, que as pistolas, ao invés de um chaço de chumbo embebido num casulo pontiagudo de latão, disparavam intrusos que, magoavam muito menos e não matavam embora desmoralizassem muito… Realizaram igualmente que aquelas doenças atléticas ou molengonas que, apesar de tudo, lhes pesavam na alegria de viver, tinham desaparecido trazendo à liça uma milagrosa benesse genética até então adormecida. E repararam que aquela gripe ranhosa tinha desaparecido.
Então no seu introspecto colectivo decidiram que se mandassem o intruso para canto… não morreriam.
No entretanto o intruso que se mantinha de medo, medrava, medrava, medrava…
Mas os habitantes do reino liliputiano entusiasmados com a dedução, prezaram o trabalho, a amizade e a alegria. Trabalharam, trabalharam, deram abraços e beijos, fizeram liliputianinhos, dançaram, cantaram…viveram! E semearam, cada um uma flor em toda a linha da fronteira. E o reino víu-se cercado de luz, côr e alegria. E o intruso que se alimentava de medo e tinha medrado… medrado… foi apanhado de surpresa e nem tempo ou agilidade teve para fugir. Definhou, mirrou….mirrou e morreu! E nesse ano, foi a única morte anunciada pelos contadores e apontadores de mortes!
Em seguida os habitantes do reino liliputiano, por unanimidade, decidiram abolir a morte e enterraram-na num campo muito… muito grande coberto de papoilas. E os hospitais transformaram-se em pombais, os sanatórios em albergues para as amantes do rei, os manicómios em criações de borboletas da raínha, o ministério da saúde em fábrica de anedotas, a faculdade de medicina em fábrica de tesouras e corta-unhas, as farmácias em mercearias, as fábricas de remédios passaram a produzir artigos de retrosaria, os médicos transformaram-se em professores de história, os enfermeiros em alfarrabistas, os psicólogos em monitores de canto, os psiquiatras em calistas, os legistas em fotógrafos de moda, os delegados de informação médica em moços de trolha e…os agentes funerários em plantadores de árvores porque nesse ano ninguém morreu.
E os contadores e apontadores de mortes ficaram eternamente à janela. A ver se alguém morria…
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Sobre CHRYS CHRYSTELLO

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção da AICL
Esta entrada foi publicada em AICL Lusofonia Chrys Nini diversos. ligação permanente.