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https://www.rtp.pt/acores/cultura/ex-militares-da-guerra-colonial-ainda-sofrem-de-stress-video_68638?fbclid=IwAR1hJBUQx1SW9e731gtXg2p4s7dtofG4_Wa0r-deQ-7jieoVYY9D20m3PA4
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- Infelizmente e, por vezes, nem recebem nada do governo para se tratarem. São ex-combatentes, foram obrigados a irem para a guerra defender o que não era nosso, para depois serem abandonados. Tínhamos aqui na R.Seca , um com graves problemas mentais que amedrontava crianças e até adultos. Até que , não sei se o internaram, mas nunca mais o vi e penso muitas vezes nisso, o que terão feito com um rapaz cheio de vida que a guerra o destruiu. Triste destino.******
leiam esta crónica minha de 2017 chrys c
O PESADO FARDO DA GUERRA COLONIAL, CRÓNICA 178, 4/8/17
Há mais respeito pelas prostitutas do que pelos soldados, furriéis e oficiais milicianos (à força) do exército colonial português, todos escondidos e envergonhados. Na maior parte dos países há uma certa aura de glória, direi mesmo, respeito, pelos bravos que ao longo dos séculos haviam combatido em nome da noção alienígena que é a pátria. Vi paradas monstruosas e centenárias como as célebres marchas dos ANZAC[1] na Austrália. Durante anos, houve respeito pelos bravos vítimas das 1001 guerras americanas no mundo, nomeadamente 2ª Grande Guerra, o massacrado Vietname, Coreia, etc. Como antimilitarista, ferrenho, que sempre fui e recordando como fui obrigado a ir para fora defender um Império que não existia e que, a mim, nada dizia, tenho de admitir que de nada me envergonho nesses anos, em que agi de acordo com a consciência, com a minha ação anticolonial[2] como melhor forma de servir a dita “pátria.”
Mas para todos, mesmo para os que cegamente obedeceram às ordens militaristas e fizeram o que lhes mandavam, até porque não tinham alternativa, creio que lhes deve ser concedido o respeito de que hoje carecem, esquecidos na teia de doenças, alcoolismo, depressão, sem apoios do Estado que os mandou morrer e matar pela pátria. Bem ou mal, fizeram o que se esperava. E vemo-los hoje, sem-abrigo, em famílias disfuncionais, no conluio com os seus segredos de guerra ciosamente guardados, sem catarse possível.
Nos EUA é bem pior, os veteranos de guerra são já uma espécie de escória a varrer para o esquecimento, sob o tapete diáfano de mil e uma guerras sem razão, como se as guerras alguma vez tivessem alguma razão, exceto a perpétua repetição da história dos países. Quando cresci havia respeito pelos veteranos sobreviventes da mortandade na campanha portuguesa na 1ª Grande Guerra, conheci alguns heróis, de medalhas ao peito em marchas da famigerada Liga dos Combatentes (a que pertenci durante anos após o 25 de abril, comprava-se comida barata no “casão”). Hoje, não sabemos quantos são, quantos sofrem, quantos sobrevivem. Nalgumas aldeias e vilas do interior profundo de Portugal alguns autarcas mandaram erigir pequenos monumentos em honra da memória desses bravos, mas regra geral, foram esquecidos e temem falar sobre o tema, ou evitam-no a todo o custo.
Nos Açores, autores trataram o tema em livro: Urbano Bettencourt, Cristóvão de Aguiar, João de Melo, para citar alguns, outros preferem manter um silêncio discreto, tal como o dono do café da esquina, o do restaurante mais acima, o lavrador que vive na outra rua e se recusa a falar do tema e outros de que nem sei a existência. Estava uma pessoa entretida nas lides nos anos 60, a estudar, a trabalhar e mourejar nos campos, nos Açores ou em Trás-os-Montes, ou em outro local e vinha a malfadada mobilização para Angola, Guiné, Moçambique, ou outra colónia e a vida acabava ali, mesmo que voltassem vivos e sem mazelas de vulto. Para muitos, adiava-se a ida enquanto se pudessem continuar os estudos, na esperança infundada de que a guerra colonial acabasse. Para outros era a saída da terrinha natal (e quantas vezes não era esta a primeira vez que saíam do cantinho natal da sua ilha?). Não irei descrever as noções contraditórias que de todos se apoderavam no caminho de ida, na estadia e no possível regresso se não morressem ou não ficassem estropiados, pois isso foi tema de pessoas mais abalizadas. Sei apenas que a mim foi um trauma que gorou os planos de vida, me impeliu para vários planos inclinados e obrigou a agarrar boias de salvação para percorrer o caminho que me trouxe aqui. Há mais respeito pelas prostitutas do que pelos soldados, furriéis e oficiais milicianos (à força) do exército colonial português, todos escondidos e envergonhados. Afinal eram mesmo carne para canhão.
[1] (Australian and New Zealand Corps)
[2] (segundo Ramos-Horta eu era um oficial anticolonialista, in Expresso 28/11/2015).