O Coronavírus, a tecnologia e a democracia – Correio do Minho

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Há dias, participei numa iniciativa da Associação Artística Vimaranense.
Moderando um debate, em que participei com João Duque, teólogo e Professor da Universidade Católica, em Braga, e Francisco Teixeira, filósofo e Professor da Universidade Lusófona, no Porto, Rui Dias confrontou-nos com a seguinte questão: “o confinamento está a abalar o apego à democracia e à liberdade?”.
A meu ver, o principal inimigo da liberdade e da democracia, na atual situação de crise de pandemia viral, é a precariedade dos cidadãos.
O maior perigo para a liberdade e a democracia é a pobreza de uma multidão de cidadãos vulneráveis – trabalhadores desempregados e sem comida, empurrados para a miséria. Assim como o é, também, a precariedade dos cidadãos da classe média: móveis, mobilizáveis, competitivos e eficazes, muitas vezes jovens licenciados, mestres e doutores, mas todos sem quaisquer direitos sociais.
Insisti, todavia, num outro ponto. Não deveria tomar-se a nuvem por Juno. A crise da sociedade democrática não foi implantada entre nós pela pandemia viral. Foi a subversão do nosso regime de civilização que desencadeou a crise democrática, e mesmo a crise do humano.
Em século e meio, passámos de uma sociedade da promessa a uma sociedade “em sofrimento de finalidade” (Lyotard); de uma sociedade da palavra a uma sociedade do número; de uma sociedade fundada na história, na memória e no pensamento, a uma sociedade fundada na tecnologia.
É um facto, a mobilização tecnológica já nos havia feito compreender que a ordem no mundo passara a ser ditada pelos mercados económico-financeiros. E também já havíamos compreendido que a metáfora do mercado se aplicava, agora, a todas as dimensões da nossa existência.
Com a vida toda a ser organizada em função de uma competição e de um empreendedorismo qualquer, e com os indivíduos a trabalharem em permanência para a estatística e o ranking, a crise já era uma realidade entre nós, muito antes de o Coronavírus se ter implentado entre nós.
A irrupção do Coronavírus no seio da comunidade humana apenas veio carregar mais nas tintas da nossa precariedade, acrescentando-lhe incerteza e imprevisibilidade em doses colossais. E isso também não é dispiciendo.
Uma vez concluído o debate, desenvolvi este ponto de vista na crónica que acabo de escrever no Correio do Minho.

Em todos os tempos, as comunidades humanas foram confrontadas com duas questões fundamentais. Com o problema da ordem, na tentativa de dar resposta à exigência de viver em sociedade. E com o problema da história, procurando dar conta das…
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Em todos os tempos, as comunidades humanas foram confrontadas com duas questões fundamentais. Com o problema da ordem, na…
Em todos os tempos, as comunidades humanas foram confrontadas com duas questões fundamentais. Com o problema da ordem, na tentativa de dar resposta à exigência de viver em sociedade. E com o problema da história, procurando dar conta das…