OSVALDO CABRAL A EMPRESA ROBUSTA

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“”
Estávamos em pleno Verão de 2018 e a canícula interfere sempre com o raciocínio de qualquer um, com particular incidência na classe política.
A propósito de uma audição parlamentar – a milésima para mostrar trabalho -, já nem me lembro de que área, mas provavelmente daquelas que se faziam ao sector público sem nunca resultar em nada, demonstrei como algumas empresas públicas regionais estavam a enganar os contribuintes, publicando notícias que davam conta de lucros nos seus relatórios anuais.
Caíram-me em cima com artigos assinados pelas habituais “Popotas” lambidas do Vice, negando as evidências, como se negassem a época do ano em que a constelação Cão Maior alcançava uma posição central no céu, o que correspondia aos dias mais quentes do ano no hemisfério norte, conhecidos como “dias de cão”.
Bastava olhar para os inúmeros subsídios, pomposamente denominados de “contratos programas”, atribuídos ao longo do ano àquelas empresas, para se perceber que era impossível dar lucro.
Tudo contas de mercearia.
A Azorina era uma delas.
Recebia dinheiro público a rodos e, no final do ano económico, fazia a festa.
Na tal comissão parlamentar foi mesmo dito, imagine-se, que era uma empresa “sólida, estável e robusta”!
Nunca tivemos acesso, por inteiro, à canícula cor de rosa dessas fabulosas contas lucrativas, por maior esforço e pedidos que fizéssemos.
Era uma fábula natalícia bem escondida.
Apenas soubemos de uma auditoria do Tribunal de Contas
(TC) à Azorina, em 2016, onde já se concluía que ali havia marosca.
Segundo o TC, no recrutamento dos trabalhadores, a Azorina “não tinha promovido a prévia divulgação pública das ofertas de trabalho, não tendo adotado mecanismos transparentes de contratação de pessoal que assegurassem a igualdade e não discriminação dos candidatos a emprego”.
Era tudo ao molho e fé… nos amigos.
No dizer politicamente correcto do TC, “na sua maioria, os contratos de prestação de serviços celebrados pela Azorina foram precedidos da realização de procedimento por ajuste direto, no regime simplificado”.
Por outras palavras, uma fábrica de boys and girls, com dois administradores a ganharem 80 mil euros!
Pelo meio, uma enorme trapalhada com trabalhadores do Jardim Botânico da Horta e outra, ainda maior, com o ingresso de sete trabalhadores da ARENA “com base em motivos que não permitem sustentar a medida”.
Enfim, um forrobodó.
Agora, finalmente, tivemos acesso às contas certinhas.
É mais um dos muitos esqueletos a sair do armário.
E o panorama é este: a Azorina vivia, de facto, dos inúmeros Contratos-Programa que estabelecia com o Governo Regional, constituindo estas injeções de capital a parte mais significativa da sua receita.
Estas transferências, entre 2016 e 2020, totalizaram mais de 14 milhões de euros (14.148.539 euros, exactamente)!
Quanto aos seus anunciados lucros, constata-se, entre 2016 e 2020, que são tendencialmente negativos, não se verificando, pela análise dos Relatórios e Contas, qualquer melhoria substantiva: em 2016: -318.000 euros; 2017: -451.000 euros; 2018: +94.136 euros; 2019: +268 654 euros e 2020: 831 659 euros.
Ou seja, um total de mais de 1,2 milhões de resultados negativos acumulados.
Mas há mais: à data de hoje, o passivo bancário está próximo dos 6 milhões de euros!
É a isto que aqueles senhores chamavam de empresa “sólida, estável e robusta”.
Espero que a canícula não volte a interferir com o raciocínio das “Popotas”.
(Osvaldo Cabral – Diário dos Açores de 08/12/2021)
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SANTANA CASTILHO A CRISE DA DOCÊNCIA

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O que poucos decidem que Portugal seja é o que Portugal é
O aumento continuado das responsabilidades e exigências que caem sobre os professores, devido à acentuada transferência para eles de funções sociais que pertenciam anteriormente à comunidade social e às famílias, sem as necessárias adaptações organizacionais compensatórias, tornou extremamente penoso o exercício da profissão. Dizer que a profissão docente está em crise passou, assim, a lugar-comum, sendo que as respectivas condições de trabalho (violência, esgotamento físico e psicológico) são as causas que mais contribuem para o acentuar dessa crise. E dentro delas, o peso da burocracia ocupa, talvez, o lugar cimeiro. Quantos cidadãos terão uma noção aproximada da quantidade de planos e relatórios inúteis que os professores são obrigados a produzir, com enorme prejuízo da sua responsabilidade primeira, que é ensinar? Muito longe de ser exaustivo, porque há mesmo muito mais, deixo um pequeno registo exemplificativo: Plano Anual de Actividades (PAA); Plano Plurianual de Actividades (PPA); Projecto Educativo de Agrupamento (PEA); Plano de Acção Estratégica (PAE), no quadro do Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar (PNPSE); Plano de Ação para o Desenvolvimento Digital da Escola (PADDE); Projecto Curricular de Turma (PCT); Plano de Turma (PT); Plano Educativo Individual (PEI); Plano de Melhoria (PM); Plano de Recuperação de Aprendizagens (PRA); Relatório Técnico-Pedagógico (RTP); Relatório Individual das Provas de Aferição (RIPA); Relatório de Escola das Provas de Aferição (REPA); Relatório Crítico do Director de Turma (RCDT); Relatório Final de Execução de Actividades (RFEA). A última desta torrente pútrida de toleimas foi a moda da filosofia “Ubuntu”, alma mater de mais um plano: o Plano 21|23 Escola+. Cansados com esta amostra? Imaginem os professores, com a totalidade!
A malícia política que semeou obstáculos no trajecto profissional dos professores exprime bem a falta de decoro a que chegámos: cerca de cinco mil docentes, apesar de terem cumprido todas as exigências estatutárias (avaliação positiva, com observação directa de aulas, quando exigida, e formação contínua) estão impedidos de progredir aos 5.º e 7.º escalões, graças à existência das famigeradas quotas administrativas, que o Governo discricionariamente fixou. Muitos destes, por terem menções classificativas máximas, estariam a salvo do primeiro expediente arbitrário. Então, criou-se um segundo, mais miserável que o primeiro: em cada escola, só um limitado número de professores pode ter nota máxima; assim, concluído o processo, a classificação de muitos é aviltantemente reduzida, para cumprir a vontade de sucessivas pilecas políticas. Do mesmo passo, e na sequência da subtracção de vários anos de serviço efectivamente cumprido, temos hoje outros milhares de professores que já deveriam estar em escalões muito acima daqueles em que se encontram. Naturalmente que daqui resulta uma injusta penalização remuneratória, designadamente com considerável impacto negativo no cálculo das suas pensões de aposentação.
As análises que muitos fazem sobre a situação descrita, alegando que “nem todos podem chegar a generais”, ignoram que, enquanto são gritantemente diferentes as funções de um soldado e de um general, as funções de um professor do 1º escalão são exactamente iguais às funções de outro, do 10º. Fica assim actual, 120 anos depois, o que Eça de Queirós escreveu: “O que um pequeno número de jornalistas, de políticos, de banqueiros, de mundanos decide no Chiado que Portugal seja, é o que Portugal é.”
Faz-se muito e do melhor no sistema nacional de ensino. Infelizmente, sem o apoio de quem o governa. A dedicação, a entrega e o amor aos alunos são o apanágio dominante do espírito de missão da maioria dos professores. Apesar disso, são alvo de ataques sucessivos, como se a culpa do que corre mal lhes pudesse ser imputada.
Os professores estão saturados da natureza arrogante deste Governo, da incompetência do ministro da Educação, de obedecer à anormalidade normal, a ordens e modas imbecis, vindas ora do autoritarismo central, ora do caciquismo local. O sistema colapsará se não se alterarem drasticamente as políticas educativas.
In “Público” de 8.12,21
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Most relevant

  • Maria João Dias

    Este texto define a razão da nossa úlcera gástrica, do nosso desespero silencioso, da nossa morte lenta em plenas funções. Está aqui bem espelhada e resumida, a nossa situação miserável como professores, exercendo todos dias e a todas as horas, as funções que rodeiam os alunos e as suas famílias. É um processo que se vai revelar catastrófico pois o cansaço e a exaustão já são claros na maioria de nós. Fazemos o melhor que podemos, só não sabemos por quanto tempo mais o conseguiremos fazer. Acabem-se com as grelhas e as aferições de tudo e todos. Os resultados finais em detrimento do processo de ensino e aprendizagem. Acabe-se com metas num mundo em que não chegamos todos ao mesmo sítio e à mesma hora.
    A escola precisa de ser simplificada para que a importante tarefa de ensinar volte a ser a prioridade.
    Basta! Pum! Basta!
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  • José Rodrigo Coelho

    E ainda falta dizer tanto mais (…)!!
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  • Luísa Andrade Laíns

    Verdade professor. Ainda acrescento a avaliação por competências de acordo com o Projeto MAIA para se alcançar o famoso Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória. 😳
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  • Marta Cunha Caldeira

    É a burrocracia. E depois, o que realmente interessa, ocupa uma fracção do tempo. A malta assobia para o lado, uns ignorantes da condição, outros porque dá sempre jeito ter um bode expiatório. As famílias demitem-se diariamente do seu papel activo rei…

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  • Cristina Filipe

    Eu que o diga!!! Sou o verdadeiro exemplo desta estupidez! Tanto que já me estou a tornar numa pessoa desagradável!!!
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  • Susana Correia

    Obrigada, professor. Vou partilhar.
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  • Susana Guerra

    Perfeito como sempre!
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  • Anabela Prates

    (In)felizmente descreveu a nossa realidade diária. 😞
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  • Teresa Joaquim

    100% de acordo. O texto espelha com toda a veracidade a situação atual da educação e dos professores
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Governo dos Açores adquiriu antigas instalações da Cofaco na Horta – Jornal Açores 9

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“Hoje assinámos a escritura de compra a venda dos imóveis da Cofaco, que já estão a ser vistoriados pelo LREC [Laboratório Regional de Engenharia Civil] e por empresas para levantamento topográfico,” explicou aos jornalistas o secretário regional do Mar e das Pescas, Manuel São João, após a assinatura da escritura, no Cartório Notarial da Horta. […]

Source: Governo dos Açores adquiriu antigas instalações da Cofaco na Horta – Jornal Açores 9

Tomás Quental · O que é o PS nos Açores?

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O que é o PS nos Açores?
O Partido Socialista nos Açores, estranhamente, decidiu suicidar-se politicamente, depois de ter sido afastado do poder regional. Não aguentou a pancada. Em vez de reorganizar-se, rejuvenescer-se e recuperar os bons ideais originais, em grande parte há muito colocados no fundo da “gaveta”, o Partido Socialista desistiu e abandonou os verdadeiros socialistas açorianos. Isso ficou claro nas últimas eleições autárquicas, em que perdeu o lugar primeiro que detinha no conjunto das autarquias açorianas. No município de Ponta Delgada, o maior do arquipélago, então, o desastre foi total. Mas o Partido Socialista não aprendeu a lição. De modo algum! Prepara-se para novo e ainda mais clamoroso desastre nas próximas eleições legislativas nacionais antecipadas, com os propostos representantes para a Assembleia da República. Falta ao Partido Socialista nos Açores dirigentes como os saudosos Francisco Macedo, Angelino de Almeida Páscoa e Avelino Rodrigues, a cujas memórias presto a mais sentida e justa homenagem. Já soube o que era o Partido Socialista nos Açores, mas actualmente não consigo entender o que seja.

uma civilização americana antiga

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In Southern Illinois, situated along the Mississippi River in Collinsville, an ancient settlement that we call Cahokia rose to great power between 800-1200 CE. Nicknamed America’s Forgotten City or The City of the Sun, the massive complex once contained as many as 40,000 people and spread across nearly 4,000 acres. The most notable features of the site are hand-made earthen mounds which held temples, political buildings, and burial pits.
Cahokia Mounds of Illinois: An Unparalleled Native American City
BRINGSIDE.ME
Cahokia Mounds of Illinois: An Unparalleled Native American City
In Southern Illinois, situated along the Mississippi River i

A democratização da pobreza segundo Alfredo Flores

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A democratização da pobreza segundo Alfredo Flores não é bem assim!
Há uma velha canção nem sei se radical se idiota que diz que a Revolução não é um jardim de flores de rosas enfim
Portugal terá algo como 878 anos ( à volta de …) e nunca por nunca foi um país rico mas foi sempre um “país outro” nascido com Templários contra um dos 2 papas de então assim como contra um castelhano imperador esse sim poderoso riquíssimo e decididamente expansionista
Não Portugal não nasceu porque um filho bateu numa mãe ( duvidosamente é filho dessa mãe) mas sim a partir de um projeto de uma parcela de uma das elites dominantes a Templária aliada a elites locais
O projeto foi o Expansionismo luso que a destruição pelo tal Filipe francês dessa parcela forçada a recuar do centro para a periferia lusa até reforçou!
O luso processo nunca foi simplista nem fechado em si na Lusitana tribo mas garantidamente foi um processo aberto onde uma burguesia judaica aceitou miscegenizar com as comunidades cristã islâmica até uma expulsão que só sucedeu ali por voltas de 5 de Dezembro de 1496 ( Portugal chegou ao Congo por voltas de 1482, cerca 14 anos antes note-se) e como se sabe só parcelarmente dados a alheira e os cristãos novos sendo que os que saíram geraram o futuro rival que foi a Holanda mas valendo ser o primeiro passo do empobrecimento
Em 1580 o Portugal reino foi tomado pelo “vizinho do lado” e o empobrecimento de Portugal vive o seu segundo passo de empobrecimento
O terceiro grande passo dá-se no tempo em que um odiado mestiço ( por o ser) o marquês de Pombal punha em causa o desgraçado negócio da escravatura ( 1.o no mundo dito civilizado de então) e dinamizava a industrialização mas sendo forçado a responder ao terceiro processo de empobrecimento ( o terramoto de 1755)
Em 1807 dá-se o quarto processo de empobrecimento com as invasões primeiro francesas e depois britânicas que espoliaram como puderam o país mas sobretudo o tornaram ideologicamente dependente dos dois impérios o britânico e o francês
O quinto processo de empobrecimento surge com a I guerra mundial bem em cima da lusa luta de libertação contra o monarquismo vaticanista o que originou a fascização salazarenta
Esta é o sexto processo de empobrecimento ( pobretes analfabetos e alegretes) que gerou um império de pés descalços já sem a primeira jóia da coroa o Brasil 1822 que permitiu que Portugal chegasse ao 25 de abril com 2 milhões de emigrantes no mínimo 60 km de autoestradas em 48 anos de fascismo umas ridiculas 20 mil empresas ( todas nascidas só depois da autorização do salazarento e seus capangas) sem habitação adequada sem água sem luz sem aquecimento e a maior taxa de analfabetismo da Europa em concorrência com a Grécia
Ainda assim Portugal que entregou de borla as colónias aos soviéticos e americanos ( quem geria em 1979 os angolanos petroleos ? Esse império do mal estadounidense de mãos dadas com o sol da vida soviético!) Mas conseguiu integrar 500 mil cidadãos brancos mulatos e negros
Em 1983 depois do desastre sacarneiristabalsemista ( por onde ficou a marinha mercante lusa?) o país estava na banca rota e um bloco central maçonico la abriu uma janela mas a porta da CEE foi entregue ao opusdeista Cavaco silva e assim nasceu o pobretismo esmoler vaticanista que ainda hoje se mantém com as inovações que foram o SNS e recentemente o crescimento acelerado do SMN
Como se vê o Alfredo Flores tem muito a ler …( e havia bem mais a escrever como a destruição do sindicalismo anarco sindicalista pelo fascismo salazarento.. )
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solmar passa a pingo doce, com a venda da finançor à jerónimo martins

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Aleluia já existe pingo doce nos Açores.
Marisa Raposo Curadora and 26 others
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  • Sérgio Paulo Carvalho Meneses

    Aonde está o Pingo Doce ?
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  • Marcia Resendes

    Em santa maria amanhã abre o pingo doce
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  • Leonia Maria Carreiro

    Sol mar…
    São Gonçalo
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  • Gabriela Ferreira

    Não há pingo doce e sim artigos do pingo doce no solmar. ☺️
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  • Vera Teles

    Santa Maria 🤷‍♀️
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  • Luís Faleiro

    Cadeia Lidl é que nos faz falta. Na Madeira vão abrir 3 em 2023. Nós por cá, ficamos a ver navios, como sempre.
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  • Luis Franco

    Já não era sem tempo, Ilha de Santa Maria, foi a 1ª a sofrer esta grande alteração, São Miguel será a próxima. Jerónimo Martins já detém capital todo do Sol-Mar. Vamos ver se as promoções irão ser as mesmas inclusive o cartão Poupa Mais
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    • César Freitas

      Luis Franco o cartão poupa mais é original do Pingo Doce, suponho que as poupanças sejam as mesmas de agora. Esse cartão é aplicado nos Sol Mar porque o grupo Jerónimo Martins detém justamente o capital, como referiu, para além da marca branca do Sol Mar ser Pingo Doce.
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      • 22 m
  • Mário Pastorinho

    Já se sabia que o Solmar ia passar a Pingo Doce aquando da aquisição da Finançor pela Jerónimo Martins.
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  • Leonor Rebelo

    Faz falta na Terceira
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CHINA EM ÁFRICA

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A propósito do artigo do WSJ sobre a Guiné Equatorial (“China seeks first Military Base on Africa’s Atlantic Coast…”) sinalizado por Carlos Gaspar, aqui: https://www.wsj.com/…/china-seeks-first-military-base… –, recordo o meu texto de 2016:
LIÇÕES E SOMBRAS DA CHINA ou KISSINGER, EÇA E OS AÇORES, em “Os Sinais da Escrita” (09.10. 2016):
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poemas dedicados a timor no dia em que a indonésia invadiu

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pintura de margarida bem madruga, oferta ao cnrt, timor-leste, 1999

 

 

 

 

 

 

 

timor excertos d epoesia dedicada a timor do livro CRÓNICA DO QUOTIDIANO INÚTIL DE CHRYS CHRYSTELLO, 40 anos de vida literária 2011 ed calendário de letras v n gaia.

 

547. eleições sem lições em timor, 8 julho 2012

 

díli 23 setembro 1973

cheguei hoje a timor português

a vinda marcará a minha vida para sempre

sem o saber nunca mais nada será igual

o futuro começa hoje e aqui

entrei no tempo da ditadura

sairei na democracia adiada

 

na bagagem guardo sabores,

imagens e odores

sonhos de pátria e amores

divórcios e outras dores

 

cheguei sem bandeiras nem causas

parti rebelde revolucionário

tinha uma voz e usei-a

tinha pena e escrevi sem parar

pari mais livros que filhos

para bi-beres e mauberes

 

48 anos de longo inverno da ditadura

24 de luta independentista

agora que a lois vai cheia

e não se passa na seissal

já maromác se apaziguou

crescem os lafaek nos areais

perdida a riqueza do ai-tassi

gorada a saga do café

resta o ouro negro

para encher bolsos corruptos

sem matar a fome ao timor

 

perdido nas montanhas

sem luz, água ou telefone

repetindo gestos seculares

mascando sempre mascando

o placebo de cal e harecan

mas com direito a voto

para escolher quem o vai explorar

sob a capa diáfana da lei e ordem

do cristianismo animista

 

oprimido sim

mas enfim livre.

 

 

548. queria ser toké 11 julho 2012

 

eu queria ser toké e contar o que vi

desde que partiste em 1975

 

queria saber falar

dar os nomes os locais e os atos

de todas as atrocidades, violência e mortes

que testemunhei mudo na minha parede

 

eu queria ser toké e escrever tudo

 

queria contar o que não querem que se saiba

queria contar o que não queriam que se visse

queria contar os gritos que ninguém ouviu

 

queria ser água e apagar os fogos

que extinguiram a nossa história

como se não fora possível reconstruí-la

 

queria ser pássaro e levar nas asas

todos os que foram chacinados

violados, torturados e obnubilados

voar com as crianças que morreram de fome

as mulheres tornadas estéreis

 

tanta coisa que queria dar-te timor

e não posso senão escrever palavras

lembrar teu passado heroico

sonhar futuros ao teu lado

 

 

549. alucinação na areia branca (timor) 11 julho 2012

 

era maio em 1975

havia luar na areia branca

sem ondas na ressaca

caranguejos azuis na fina areia

baratas voadoras à frente dos faróis

eram pequenos os lafaek e raros

quase se ouviam os corais a falar

 

ao longe sem luzes em díli

o escuro dos montes

 

entre nós e o ataúro

deslizavam barcos espiões

antecipavam a komodo

ensaiavam invasões

 

corri a alertar

ninguém quis ouvir

escrevi e denunciei

chamaram-me alucinado

 

nunca imaginei o genocídio

 

 

 

 

 

 

550. timor nas alturas 15 julho 2012

 

queria subir ao tatamailau

pairar sobre as nuvens

das guerras, do ódio, das tribos

falar a língua franca

para todos os timores

 

queria subir ao matebian

ouvir o choro dos mortos

carpir os heróis esquecidos

 

queria subir ao cailaco e ao railaco

consolar as vítimas de liquiçá

beber o café de ermera

reconstruir o picadeiro em bobonaro

tomar banho no marobo

ir à missa no suai

buscar as joias da rainha de covalima

passar a fronteira e voltar

chorar todos os conhecidos e os outros

 

e quando as lágrimas secassem

à minha palapa imaginária regressaria

à mulher mais que inventada

um pente de moedas de prata ofertaria

vogando nas suas ribeiras e vales

sussurrando no espesso arvoredo

desaguando no vale de vénus

 

nos seus beiros navegaria

ao ataúro e ao Jaco rumando

desfrutando a paz e as belezas ancestrais

ouvindo os tokés e as baratas aladas voando

os insetos projetados contra as janelas

atraídos pela luz do petromax

 

a infância e a juventude são como uma bebedeira

todos se lembram menos tu

 

551. lágrimas por timor, até quando? 16 julho 2012

 

confesso sem vergonha nem temores

hoje os olhos transbordaram

lágrimas em cascata como diques

pior que a lois quando a chove

 

o coração bateu impiedoso

os olhos turvos a mente clara

as mãos trémulas de impotência

 

nas covas e nas valas comuns

muitos se agitaram com a morte gratuita

 

mais um casal de pais órfão

mais um filho varado às balas

sem razões nem justificações

 

poucas vozes serenas se ouviram

velhos ódios, vinganças acicatadas

o povo dividido como em 1975

 

sem alguém capaz de congregar o povo

sem alguém capaz de governar para todos

sem alguém acima de agendas pessoais

sem alguém acima de partidos

 

temos de ultrapassar agosto 75

udt e fretilin

a invasão indonésia e o genocídio

 

faça-se ou não justiça

é urgente um passo em frente

 

é urgente alguém com visão

um sonhador, um utópico

um poeta como xanana já foi

 

alguém que ame timor

mais do que ama suas crenças

mais do que ama suas ideias

mais do que ama sua família

 

talvez mesmo uma mulher

sensível e meiga

olhar almendrado

pele tisnada

capaz de amar

impulsiva para acreditar

liberta de injustiças passadas

solta de ódios, vinganças e outras

capaz de depor as armas

todas e liderar.

 

 

578. eu canto do maio, maio 1, 2013

 

eu canto do maio as mortes inúteis

os deportados para timor

o sangue derramado

tudo o que se pedia eram 8 horas

de trabalho, descanso e recreação

 

eu canto do maio a memória de 1886

do degredo, do cárcere, das torturas

das manifes proibidas, das bandeiras

vermelhas do sangue inocente

sem olhar a partidos nem a pessoas

 

apenas o direito inalienável

ao trabalho, ao descanso, à recreação

 

para que os novos fascistas de hoje

não roubem essas memórias

esses direitos, essas lutas

eu canto do maio o dia do trabalhador

hoje desempregado, sem-abrigo, doente

nos novos gulags e campos de concentração

sem grades nem gás mortal

 

 

608. eleições 29 jul 2013

 

era tempo de eleições

políticos vinham e prometiam

a populaça aplaudia

acenava e acreditava

 

 

depois de contados votos

os políticos desapareciam

junto com as suas promessas

e o povo esquecido esperava

assim crendo na democracia

uma pessoa, um voto, uma promessa

repetiam a antiga escravatura

acreditando serem livres

 

 

610. história timor, 29 jul 2013

 

primeiro veio a polícia

expulsos estudantes “ocupas”

 

depois vieram bulldozers

assim acabou o hotel resende

 

era história em díli

e um povo que destrói

não merece o seu futuro

mas ganhou condomínios de luxo

 

 

 

685 dili inundado, 6, fevº 2016

 

maromác zangou-se

as ribeiras transbordantes

em dili nada mudou

tudo alagado como dantes

 

décadas depois

nem os milhões do petróleo

dominam as águas

passados quarenta anos

sem dinheiro para voltar

dominam-me as mágoas

 

a minha saudade

rima com verdade

 

 

 

 

634. guerra colonial, moinhos, 20/8/2013

 

há várias catarses

para a guerra colonial

escrever livros

tornar-se alcoólico

ser antissocial ou violento

eu apenas mudei de nome

e de nacionalidade

e nunca escreverei

uma palavra que seja

sobre esse inferno

não posso perder mais tempo

com essa trampa.

449. EROS nos jardins de leste Díli, Timor, novembro, 25, 1974

 

 

 

os corpos se venderam por dez réis de nada

 

assim me serviam do que criam inútil

 

e se davam

 

fáceis e apáticas

 

faziam amor como quem respira

 

isto é

 

o ritmo cósmico da órbita do poema

 

descrevia uma sinusoide irregular

 

e de tanto engravidarem

 

sentiam na carne

 

o vício de todas as necessidades

 

e de tantas fomes acalentarem

 

o instinto as aguilhoava

 

nascituras

 

logo então vitimadas

 

 

-EROS senhor e amo nos jardins de leste

 

 

pequenas

 

saracoteantes

 

delicado delinear de dietas forças

 

figuras de cabaia e lipa[1]

 

 

dos agrestes picos montesinos

 

às planuras

 

frágeis ninfas

 

que o sol em nascendo vê primeiro”

 

diac ca lai? la diac malai[2]

 

e a gente compra

 

Escudo ihra – Né

 

la cói! ata! lima

 

cabeça búlac! menina lá diac… ossam báric

 

loro mai massimida

 

os lábios de carmim de viva cal e da harecan

 

haneçam maliri.[3]

 

 

 

 

 

 

 

431. V. TIMOR Díli, Timor, setembro, 20, 1973

 

 

timor cresceu cercado

 

lendas que a distância empolgou

 

o sonho

 

a quietude

 

as 1001 noites do oriente exótico

 

o sortilégio dos trópicos

 

para o europeu

 

chegar era já desilusão

 

desprevenido

 

sobrevoa estéril ilha

 

montes e pedras

 

agreste paisagem sulcada

 

leitos secos

 

abruptas escarpas

 

terra sem marca de homem

 

esparsas cabanas de colmo

 

será isto timor?

 

o avião desce o vazio em círculos

 

em vão os olhos buscam a pista

 

por trás de um montículo imprevisto

 

se vislumbra o “T

 

e a torre de controlo dos folhetos de propaganda

 

nunca existiu

 

a alfândega é o bar

 

a sala de espera

 

sob o zinco e o colmo

 

isto é baucau

 

aeroporto internacional

 

a vila salazar dos compêndios

 

que a história esqueceu

 

uma turba estranha se amontoa

 

à chegada do cacatua-bote[4]

 

o patas-de-aço

 

esta a cerimónia sagrada do deus estrangeiro

 

descendo dos céus

 

dia de festa para os trajes multicoloridos

 

o contraste do castanho de sóis pigmentados

 

cinco da matina

 

e é já o pó e o calor

 

o espanto mudo nas bocas incrédulas

 

as formalidades aqui com sabor novo

 

espera lenta e compassada

 

séculos de futuro por viver

 

antes que ele venha

 

antes não venha

 

num barracão zincado uma velha bedford

 

de carga com caixa fechada

 

vidros de plástico sob o toldo puído

 

pomposo dístico colonial

 

carreira pública baucau-dili

 

picada em terreno plano

 

mar ao fundo

 

baucau

 

cidade menina por entre palmares

 

densa vegetação tropical

 

connosco se cruzam estranhos homens de lipa[5]

 

galo de combate ao colo

 

entre torsos e braços nus

 

das ruínas do mercado se evocam

 

desconhecidos templos romanos

 

estrada n.º 1 até dili

 

sulcam-se abruptas as encostas

 

ao mar sobranceiras

 

ali se adivinham cristais multicolores

 

em lugar de pontes se atravessam ribeiras

 

enormes

 

leitos secos

 

o tempo as converteu em estradas de ocasião

 

pedregoso solo

 

cores indefinidas

 

castanhos e verdes

 

palapas [6] dissimuladas na paisagem

 

imagens tristes de pedras e montes

 

baías primitivas

 

inconquistas

 

praias de despojos e conchas

 

paraísos insuspeitos

 

as gentes de sorrisos vermelhos

 

assusto-me

 

não é sangue nas bocas gengivadas

 

masca, mescla de cal viva e harecan[7]

 

placebo psicológico da alimentação que falta

 

um sorriso encarnado esconde a fome

 

súbito

 

por paisagens que só a memória

 

sem palavras descreverá

 

eis dili

 

a capital

 

larguíssima avenida semeando o pó nas palapas

 

casas de pedra com telhados de zinco

 

na ponta leste chinas e timores

 

partilham a promiscuidade da pobreza

 

dili

 

plana e longa

 

a vasta baía antevendo imponente

 

o ataúro ilha

 

um porto incipiente

 

a marginal desagua no farol

 

construções coloniais pós 1945

 

da guerra que ninguém quis

 

dos mortos que os japoneses quiseram

 

da neutralidade do país mãe calado e violado

 

albergam chefes de serviço

 

altas patentes militares

 

sem guerras para lutar

 

sem movimentos libertadores das gentes

 

 

 

quinze quilómetros de asfalto

 

três casas dantes da guerra grande

 

aeródromo em terra batida

 

um jipe de afugenta búfalo

 

a rua comercial atravessa dili senhora

 

de leste a oeste

 

espinha dorsal

 

o centro

 

o palácio das repartições

 

do governo

 

perto um museu

 

o seu nome ostenta o vazio

 

riquezas sem fim

 

seus governadores exportaram

 

patriotas

 

colonizadores de séculos com nada para mostrar

 

um museu morto

 

dois sinaleiros nas horas de ponta

 

ociosos às portas dos cafés

 

à noite transfiguram-se

 

os bas-fond

 

o texas bar

 

da prostituição às slot machines

 

o submundo

 

a vida underground

 

afogar esperanças em álcool

 

sonhos há muito perdidos nunca sonhados

 

restaurantes poucos

 

melhor comida a chinesa

 

bares espalhados pela cidade

 

militares e álcool para calar distâncias

 

um portugal dos pequeninos

 

longínquo

 

cada vez mais

esquecido

 

nunca

 

perdido.

 

 

 

1973 numa cidade sem vida

 

morrendo nas cinzas próprias de cada noite

 

por entre o silêncio e a voz triste dos tokés[8]

 

o calor putrefacto

 

por entre o voo alado das baratas gigantes

 

carros poucos

 

de dia só do estado

 

motocicletas pululam por entre viaturas oficialmente pretas e verdes

 

esperando mulheres de oficiais

 

às portas dos cabeleireiros

 

do liceu

 

militares a pé

 

em berliets ou unimogs

 

chineses muitos

 

 

 

dili é isto

 

a desolação

 

na parte alta da cidade o complexo militar

 

barracas insalubres

 

sob a sombra dos hospitais

 

um civil um militar

 

fresco e verdejante vale

 

triste esta cidade

 

pretensamente euro-africana

 

palapas marginando ruas

 

nelas vive o timor

 

sem água nem luz

 

dez ou quinze filhos

 

que importa

 

a miséria é só uma e a mesma?

 

 

 

esta “a terra que o sol em nascendo vê primeiro”

 

 

 

aqui as imagens

 

e são já história

 

não se repetirão

 

 

 

aqui não daremos testemunho

 

como transfigurar

 

colónias pacíficas

 

em palcos de guerra.

 

 

 

 

433 I BUCÓLICA BOBONARIANA-I Bobonaro, Timor, novembro, 23, 1973

 

 

 

a colina à esquerda ergue-se mansamente

 

sem pressas

 

caminha do mar

 

reproduz-se altiva

 

pico agreste me vigia

 

não há vegetação

 

nem sinais de gente

 

(terá emigrado daqui a seiva?)

 

as rochas puras ainda

 

primitivas

 

nascituras

 

erguidas por ciclópicas mãos

 

do fundo dos mares

 

quedaram-se ostensivas

 

desafio de nuvens eternas

 

arbustos pequenos

 

insignificantes como as gentes

 

misturados na paisagem

 

espraia-se na vastidão o olhar

 

(começa em mim)

 

e só montes

 

pedras

 

horizonte

 

e eu aqui fechado

 

cercado

 

ilha de mim próprio

 

o vale profundo

 

(talvez abismo, talvez acusação)

 

resisto

 

diviso emaranhado das brumas

 

ciscos amarelos

 

(segredam-me são casas de gente)

 

 

ENTÃO PARTO.

 

 

sem hesitar cavalgo

 

pedras

 

ribeiros

 

encostas

 

subo

 

desço

 

torno a subir e nada destrinço

 

insensível à rude beleza

 

atinjo inóspito cume

 

estranhamente plano

 

nele plantaram casas

 

cinco

 

seis

 

uma ao centro

 

lulic[9] dizem-me

 

baixo-me e entro

 

teto erguido a pique

 

muro de pedra a tocar baixo sobrado

 

térreo madeirame trabalhado segue as vigas

 

quadros sacros

 

sol

 

elementos

 

animais

 

no andar elevadiço

 

um lar entesourado em morada última

 

assusto-me

 

em volta ósseas relíquias

 

cheiro imenso a fumigação

 

 

 

saio

 

 

 

respiro ar puro

 

sacrossanto

 

das montanhas cercanias

 

 

 

uma laje quadrada

 

uma placa ereta

 

tipo tumular

 

flores murchas e perdidas

 

casas sem muros

 

no andar térreo

 

animais se abrigam

 

por cima pessoas se alojam

 

deitadas

 

a nascer

 

a cozinhar

 

a comer

 

a dormir

 

a morrer

 

 

 

quando as chuvas tombam

 

e o colmo amolece

 

quando o sopro do vento vem

 

rasgando a mirrada pele

 

quando maromác[10] se zanga

 

nascem surdos lamentos

 

ninguém ouvirá.

 

 

 

olhei

 

vi gente

 

acocorada

 

semidespida

 

esquelética

 

nuas crianças

 

algumas do colo a mim chegaram

 

sorrindo orgulhosas da sua alva pele

 

pedindo as fotografasse

 

tartamudeavam malai[11] como quem se afirma

 

compreendi esse estranho orgulho

 

ilegítimo

 

mulheres se alugam para não perecerem

 

da fome vil

 

quando novas servem de pasto

 

a abutres forasteiros

 

depois

 

escavacadas

 

descarnadas

 

desdentadas

 

mascando infindáveis sementes

 

esboçam sorrisos

 

para a objetiva acusadora e cúmplice

 

 

 

não mais suportei este dantesco inferno

 

saí

 

acenei

 

 

 

voltei as costas

 

voltei ao exílio

 

 

 

  • ENOJADO -.

 

 

 

 

450. O TETO DO MUNDO Díli, Timor, dezembro, 3, 1974

 

 

como romper as palavras?

 

o som e o lamento do ai-tassi

 

sagrado lenho

 

em ti se moldaram

 

faces e rugas milenárias

 

caminhos de teto do mundo

 

nas mãos vazias viaja o passaporte

 

para que não sucumbas hoje

 

há muitas mortes nos amanhãs

 

teus pés ligeiros voam vinte quilómetros

 

o cacho solitário que colheste

 

bananas com que não matas as fomes

 

enganas malai com parco lucro

 

escudo lima[12]

 

e teu rosto infantil e puro

 

sorria

 

vendeste a sobrevivência duma semana

 

caminhas curvado e galgas montanhas

 

teus os reinos de Railaco e TataMaiLau[13]

 

por isso retornas e teu sorriso é jovem

 

na cal e harecan misturas o prazer e o engano

 

também teu estômago sorri confiante

 

também tua a linguagem do corpo

 

no regresso de braços dolentes

 

firme em teu braço direito

 

o teu combate de penas

 

pobre mercador de ilusões em galos de luta

 

acaricias teu ganha-pão

 

teu desporto

 

e apostas

 

mais

 

sempre mais

 

são tuas as lágrimas

 

a revolta e a derrota

 

é teu o sangue e o alimentaste

 

guardas o estilete acerado

 

não decepou medos

 

são tuas as planícies e as ribeiras

 

as torrentes inundaram o arrozal

 

levaram pontes e caminhos

 

e tu ris do grande engenheiro malai

 

como do búfalo do china luís

 

navegando rumo à liberdade

 

nem pensas na tua

 

das árvores pendem camarões doces do rio

 

e o pequeno jacaré

 

faz o cruzeiro oceânico Ribeira de Seiçal-Dili

 

maromác[14] sabe

 

maubere é diac [15]e vai passar

 

esse o lado outro do abismo.

 

 

 

 

434. A LEPRA Díli, Timor, dezembro, 3, 1974

 

 

 

eu vi-os

 

de olhar gasto e gestos caídos

 

vinham com neves eternas nos cabelos

 

enxada às costas

 

vergados ao peso de séculos

 

maltrapilhos

 

descalços

 

rotos

 

bronzeados por sóis perdidos

 

na memória dos tempos

 

uma grande fome para contar

 

e o silêncio sem fim

 

de todas as solidões

 

 

falei-lhes

 

acenaram sem se deterem

 

cadência de autómatos

 

sem vontade

 

explicaram por gestos

 

o que presumi sorriso

 

onde só havia gengivas descarnadas

 

informes

 

perguntei

 

donde vinham

 

de que estranha guerra

 

sobreviviam

 

sem abrandarem a insólita marcha

 

puxaram da bia sem idade

 

acenderam-na na concha dos dedos recurvos

 

suspiraram

 

fundo

 

como jamais ouvira

 

era um sopro indefinido

 

murmurado

 

amargo

 

 

 

entretanto havíamos chegado

 

povoado estranho

 

sem gente

 

nem cães

 

ladrando em redor

 

casas estranhas

 

elevações de colmos

 

suspensas de estacas

 

mudas

 

sem janelas

 

nem portas

 

um silêncio velho de morte

 

 

 

deixar a alma

 

deste ritmo

 

parar

 

 

deixar o instante

 

deste tempo

 

renascer

 

eterno

 

 

 

esta a proposta

 

inicial

 

iniciática

 

até lá, como?

 

 

 

 

433.II BUCÓLICA BOBONARIANA Bobonaro, Timor, novembro, 23, 1973

 

 

 

(permaneci calado

traído por pensamentos galopantes

onde as mulheres

cadê as crianças?

que gente esta

donde vem?

que peso arrastam

penosa

mecanicamente?)

 

 

 

ao longe divisei um ancião

 

vergado como uma aduela

 

corri para ele

 

inspirou-me medo

 

fez um gesto vago

 

um arremedo

 

a suster-me

 

estaquei a distância

 

nem um pássaro riscava a muda quietude do céu

 

 

 

tremi

 

como se de súbito

 

me penetrassem

 

as respostas todas

 

 

 

virei costas

 

e corri

 

corri

 

corri

 

 

 

e aqui estou

 

hoje

 

a dar-vos conta

 

do que vi.

 

 

 

 

 

452. MEMÓRIAS Díli, Timor, abril, 13, 1975

 

 

 

ave louca

 

sinusoide voo

 

rias-te

 

nem sabíamos o quê

 

de quê

 

era já o fumo

 

olhos e mãos

 

baças mãos

 

gestos nunca antes inventados

 

sabíamos do tempo a imponderabilidade

 

a curva obscena dos corpos

 

na posse do mundo estávamos e éramos

 

coloridos e diáfanos

 

queimávamos identidades

 

alguém cantarolava palavras

 

desconexas

 

inúteis

 

carícias

 

premeditadamente esquecidas

 

ela se levantou

 

a víamos como se não fosse

 

isto é

 

criada no instante mesmo

 

hesitante

 

avançava pela janela

 

ninguém a abrira

 

seria talvez noite

 

transcendental o país

 

bebedeiras de amor

 

roteiros estelares

 

no suor do regresso

 

como se nunca partiras

 

no sorriso distante

 

nos teus lábios

 

cresceram da criança os olhos

 

encheu-se a sala de frágeis gestos

 

alguém ousara!

 

na rua um escape no silêncio do grito

 

a regra é saber que horas são

 

ou medo

 

a vertigem

 

a regra do pavor

 

o voo de ficar

 

céleres que nem imagens

 

falam de nós

 

no teto branco ou nu

 

ou somos

 

desirmanados no frémito que nos invade

 

a resposta recusada

 

texto ou resumo

 

a vida violada.

 

 

 

 

451. PORQUE JOVENS Bali, dezembro, 3, 1974

 

 

 

eram jovens

 

por isso partiam

 

nas mãos os cravos

 

nos lábios mil sangues

 

por florescer

 

os corpos amadureciam quando matavam

 

pilhavam

 

violavam

 

era o fogo das balas

 

as granadas

 

o napalm

 

a carne para canhões

 

 

 

porque jovens

 

cantavam impolutos

 

e as mãos decepavam

 

a saudade desilusionada

 

irmãos todos

 

fratricidas

 

o papão fantoche do governo

 

lhes ensinara o decálogo de guerra

 

indesejada

 

 

 

porque jovens

 

partiam obrigados

 

nos sonhos

 

armada a verdade

 

vulcões por semear

 

sangrando campos

 

estiolavam

 

eram os braços emigrados

 

era a fome

 

eram soldados

 

era o povo

 

porque soldados e povo

 

partiam

 

levavam ódios insentidos

 

cumpriam destinos alheados

 

nos lábios as palavras

 

e eram amor

 

o alfabeto dos oprimidos

 

para uso interior

 

lá onde os regulamentos não mandam

 

pelo caminho

 

eram a voz e a bandeira

 

o povo sorria às armas

 

libertado caminhava

 

no braço armado do povo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

443. Post-scriptum (a andré breton)

 

 

 

como num mundo

 

outro

 

em mim

 

aguda memória

 

inenarrável

 

caminho no fogo das mãos

 

é nossa a estrada

 

alheios

 

os calendários o negam

 

no vento da derradeira galáxia

 

nascitura terra

 

fálica linguagem

 

precipitamos cegueiras

 

violento abismo

 

 

  • momento zero na viagem do corpo-

 

 

fomos a lava e o magma

 

ébrios

 

exaustos

 

incendiário batismo bíblico

 

construímos a casa e as areias

 

nove

 

para ti

 

eram os meses infenecidos

 

hoje

 

palavras intimidadas

 

seminolentes

 

cerne de alquimias

 

para quê crer

 

utopias suicidas

 

o país o decepam

 

apáticos

 

direi mesmo

 

apátridas

 

resignados

 

assistimos

 

gerámos a hidra

 

agnósticos

 

incréus

 

expectamos

 

das cinzas

 

das ruínas

 

obnubiladas memórias

 

aqui começa

 

a medieval noite

 

silêncio de vivos com morte nos olhos.

[1] saia de tecido colorido, típica de Timor, de origem malaia, e que é usada enrolada à cintura, descendo até aos tornozelos

[2] Em Tétum no original

[3] Em Tétum no original

[4] cacatua-bote ou patas-de-aço eram designações dadas pelos timorenses aos aviões

[5] lipa, saia de tecido colorido, típica, de origem malaia, os timorenses usam-na enrolada à cintura descendo até aos tornozelos.

[6] casas cónicas, quadradas ou rectangulares em colmo

[7] folha de planta semelhante à do tabaco

[8] espécie de lagarto sonoro, cuja idade se determinava pelo número de vezes que emitia o som toké.

[9] lúlic significa sagrado em tétum

[10] o equivalente a deus em língua tétum

[11] designação dada aos brancos pelos timorenses

[12] o equivalente a cinco escudos em moeda de timor

[13] picos mais altos de timor, rondando os 3 mil metros de altitude

[14] maromác o equivalente a deus em língua tétum

[15] maubere é diac, o timorense é bom, coisa boa

 

José Carlos Costa Barros conquista Prémio LeYa 2021 com “As Pessoas Invisíveis” – SIC Notícias

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O anúncio foi feito na sede do grupo LeYa depois de dois dias de reuniões do júri ao qual presidiu Manuel Alegre.

Source: José Carlos Costa Barros conquista Prémio LeYa 2021 com “As Pessoas Invisíveis” – SIC Notícias