A última vez que entrei no Hospital do Divino Espírito Santo(HDES), em Ponta Delgada, foi há anos… Acompanhava um familiar na urgência.
Enquanto esperava, uma beldade local exigia ser “antendida” de imediato. E gritava, informando os plebeus que o marido era um médico especialista “importante e da casa”. Para espanto um enfermeiro explicava: ”os da casa têm prioridade”. E a beldade, de facto, passou à frente das outras pessoas. Sem critérios para além do estatuto “VIP”.
Falei e escrevi, na altura, sobre o assunto com quem de direito. O relato da minha experiência(banal) tinha sempre concordância e gargalhadas. “De facto a gaja é boa como o milho”. Mas se “a gente aperta, ainda é pior. Os gajos vingam-se!”
E durante vinte anos o PS tentou fazer do hospital um modelo de gestão “baseado” na lealdade política. Resultados? O benefício da medicina privada que tem o lucro como prioridade. Ou seja: governos que tinham medo e temor reverencial dos médicos, nomeadamente os que imaginam ser a prioridade de um hospital. E utentes abandonados à sua sorte. E esperar, para quem é pobre, dois anos por uma consulta do especialista importante…
Com o auxílio de muita comunicação social (dominada pelo PS, depois dos anos em favor ao PSD), as listas de espera, a prepotência política na gestão da saúde, o caos, as notícias foram, curiosamente, raras. Notas de rodapé. Até um médico, condenado em tribunal por crimes horríveis contra crianças, continuou durante anos no sistema de saúde público regional! E o silêncio.
O modelo de gestão é simples de explicar. Tem conhecimentos, dinheiro ou seguro pago com impostos? Sim? É já hoje, no privado. Não? É esperar. O silêncio cúmplice fez escola. Durante anos. Fazer do HDES uma espécie de SATA da saúde foi o objectivo de vários governos. “Todos ao monte e fé em Deus”!
E, sem surpresa, nos últimos dias, reparo que alguma “comunicação social” de São Miguel “descobriu” o hospital. Decidiram, entre outras coisas, dar voz a um “linchamento” da Presidente do Conselho de Administração. O que se terá passado?
É obviamente uma questão política. E da sobrevivência da tradição. E da função da prática da medicina. Como escrevi em outro lugar: quem se mete com o “velho” modelo de “gestão hospitalar”do PS, aperfeiçoado pelos governos do Vasco Cordeiro, leva e quem se mete com os interesses da medicina privada local – coutada do PS actual – também leva. O que está em causa é se um hospital público dos açorianos existe, directa ou indirectamente, para servir a medicina privada e o lucro ou se existe para servir os doentes dos Açores?