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REQUIEM PELO DN

ZÉ | Conheço o Zé Ferreira Fernandes desde o dia em que ele entrou na redação do “Tal&Qual”, já na Rodrigo da Fonseca, vindo salvo erro do “Ponto”, um semanário de vida efémera e onde, julgo, o Zé terá dado os seus primeiros passos como jornalista. Dado os primeiros passos e, diga-se em abono da verdade, também dado nas vistas, com aquela sua boa prosa, inteligente, irónica, divertida e que tantas vezes nos soava como música. Acho que isso terá acontecido no inicio de um mês de Dezembro, já não sei de que ano, já que o primeiro “serviço” que lhe destinaram, foi a meias comigo, neste caso concreto irmos contar aos leitores a romagem ao túmulo de Francisco Sá Carneiro no Alto de S. João, por ocasião de um aniversário da sua morte.
Ao longo dos tempos em que estivemos juntos no “Tal&Qual”, e em que ele se foi se foi afirmando como um dos bons repórteres cá do burgo, tivemos as nossas desavenças e pegas, umas mais fortes e duradouras, outras mais fugazes e parvas – não fosse este doce “feitiozinho” com que ambos fomos brindados pela tal Mãe Natureza.
Voltámos a encontrar-nos em Luanda, na “sua” Luanda, em 1992. Não tivemos que fazer as pazes, até porque de todo não estávamos em guerra, mas acho que foi ali, no meio do conflito entre o MPLA e a Unita, que enterrámos alguma desconfiança que podia existia entre ambos, ou seja o nosso “machado de guerra”. Lembro-me bem das notáveis descrições e pequenas histórias de Luanda e das suas gentes que tive a sorte de escutar ao Zé Ferreira Fernandes, ao nível de um “Carnaval do Fogo” que nove anos mais tarde o Ruy Castro iria publicar sobre o Rio.
Voltámos a estar juntos fora de Portugal anos mais tarde, desta feita em João Pessoa – ele como enviado do “Diário de Notícias”, eu a coordenar uma campanha ao governo da Paraíba. E foi ali, num momento que foi difícil para mim, que percebi de que “massa” o Zé era feito, da sua recusa em hipotecar uma amizade por uma “notícia fácil” e no fundo sem interesse, que outro senão a de lhe render os aplausos dos invejosos do costume. Outros não teriam hesitado – mas ao revés…
Nestes anos fomos cruzando-nos por aí, vendo-nos aqui e além, como das vezes que veio a Cascais, uma vez debater com o Ruy Castro a “crónica jornalística”, outra falar e “ver”, a meias com o Hélder Costa, o Maio de 68 meio-século depois.
Hoje soube que o Zé tinha deixado a direção do “Diário de Notícias”, jornal que, já em “estado de coma”, tinha há dois anos e pouco aceite dirigir e tentar “salvar” após ter estado nas mãos de autênticos “carniceiros” como um que, vindo do mundo da bola, o tratou como se uma bola se tratasse – com os pés…
Ao longo este seu “consulado”, o Zé soube recuperar algum do prestigio que o “DN” perdera nos últimos anos, soube fazer com que o matutino da Avenida da Liberdade (que já não é nem diário, nem matutino, nem sequer é da Avenida da Liberdade..) voltasse a mostrar o encanto e o “peso” que conquistou ao longo de décadas, e teve o dom de fazer com que voltasse a contar.
Hoje, a saída do Zé Ferreira Fernandes da direção do “DN”, depois de recebê-lo moribundo, tem um na prática um claro significado – venha quem vier, sucedam as remodelações que sucedam: a morte daquele que foi o grande jornal português.