DÚVIDAS FILOSÓFICAS

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Lembro-me de no 11 ano, durante um teste de filosofia, sentir um toque no ombro e ouvir: “o que é que respondeste na terceira?”. Era o camarada da mesa ao lado que queria saber a minha opinião sobre a “alegoria da caverna”. Já o que partilhava comigo a carteira nunca perguntava nada porque, entre outras coisas, filosofava nas horas.
Antes que a professora saísse do efeito dos cogumelos mágicos, consegui dizer-lhe que “estavam todos presos e só viam sobras até que um se safou e percebeu que eram só reflexos da realidade”. Não sei se ajudei muito porque faltava a moral da história.
Mas a narrativa das sombras lembrou-me uma “realidade” que é repetida ad nauseum, por uma minoria, que em tempo de eleicões aumenta os décibeis do chiqueiral para volumes perigosos. Refiro-me ao “vivem à nossa conta” que vem associado ao RSI.
Não sei em que dimensão vivem os meus caros mas, fazendo fé nas estatíticas da Pordata, numa notíca da Lusa reproduzida pelo insuspeito de ser socialista Observador e num texto do José Soeiro no Expresso, a média por indivíduo que recebe o RSI pouco ultrapassa os 100 euros mensais.
Portanto, a primeira sugestão seria a eliminacão do “vivem”. Se é para apostar no jargão populista, incitar ao ódio e dividir ainda mais as classes sociais, sugiro que se aponte um pouco para a luz ao fundo da caverna. “Sobrevivem à nossa conta” parece-me mais adequado. Quase como aquele cartão do Monopólio “você está livre da prisão”, que permitiria que apoiantes do Chega e quicá alguns liberais mais radicais, pudessem largar as correntes e ver para lá das sombras.
Não se vive à custa de alguém com 100 euros. Quanto muito atravessa-se a estrada da sopa dos pobres para 10 refeicões quentes por mês (com alguma imaginacão e sem bifes). Ler a raiva que expressam aos beneficiários desta esmola é algo que me choca.
É sobre esta realidade, sobre estas migalhas, que o PSD aceitou um acordo nacional para que o RSI fosse cortado em 50% no arquipélago dos Acores. O distrito onde, com Lisboa, Setúbal e Porto, mais beneficiários existem.
E a turbe que já é pobre, rejubilou! Pensando que os ainda mais pobres pudessem chegar a miseráveis e com isso, obter alguma justica social. Pergunto-me que efeito terá isto nas urnas para o PSD?
Todo este populismo divide essencialmente as classes mais pobres, os que reclamam a migalha sem pensarem quem lhes anda a comer o bolo por inteiro. Uma pista, não são os beneficiários do RSI.
E este tema, este assunto residual, assume proporcões imensas numa campanha presidencial sem que as correntes que nos prendem a todos, os verdadeiros problemas, sejam por uma vez abordados.
Entre presidenciais, legislativas, autárquicas, regionais e europeias, de entre o rol de perguntas que tenho num papiro há 10 anos, ficaria eternamente grato se um político me respondesse a apenas 4 delas. A saber:
1 – Porque é que num país com a populacão envelhecida, a rede pública de creches não chega a todos como forma de incentivo à natalidade?
2 – Porque é que ao fim de 35 anos na UE, o tecido empresarial continua a procurar o lucro pelo baixo salário e as diferencas entre CEO e funcionário com o salário mais baixo são tão grandes?
3 – O que é que é necessário acontecer para o Estado parar de injectar dinheiro na banca (sem a nacionalizar) e comecar a julgar os autores do roubo?
4 – Em que altura e estágio da selva urbana vamos perceber que deixar o mercado imobiliário regular-se pelos valores dos vistos Gold, só aumentará a construcão nos subúrbios, o trânsito no acesso às cidades e a destruicão da já reduzida qualidade de vida da populacão?
Depois discutíamos outras vinte e lá para a trigésima pergunta pensávamos no RSI.
O abono de família que o governo sueco atribui por cada crianca (em média), mesmo sabendo que pai/mãe algum depende dele para comprar papas, é semelhante ao RSI que aqui se discute. Ninguém se queixa. Mesmo quem não tem filhos. Tal como eu, que apenas necessitei de um hospital duas vezes em 15 anos, fico contente de pagar para quem lá vai todos os meses.
A base de uma sociedade civilizada não é ter um pobre a querer mandar outro para a miséria, a pedido de um rico. É sim, garantir que todos têm um mínimo de dignidade e conforto e que, de alguma forma, a riqueza é distribuida dentro de certos intervalos.
No fundo, é assegurar a progressividade dos impostos e, mais importante, a correcta utilizacão das suas receitas.
Nada aqui é oculto, secreto ou difícil de compreender. E muito menos original. Está provado e comprovado.
Mas enquanto nos ocuparmos com discussões estéreis sobre temas secundários, quase sempre assentes em mentiras, dificilmente saíremos da caverna referida na alegoria.
Enquanto tentava perceber se a frase da imagem pertencia de facto ao Nietzsche, dei com outra bem mais interessante:
“I’m not upset that you lied to me, I’m upset that from now on I can’t believe you.”
Julgo ser este o destino de muitos dos apoiantes do Ventura, quando inevitavelmente perceberem que não há ideologia ou caminho tracado, apenas um projecto de poder pessoal. Os outros, em princípio, ficarão pelas sombras e aceitarão de bom grado o “do be do be do”.
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O CORVO FOI REABASTECIDO

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Fernando A. Pimentel

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A Atlânticoline, S.A. presta o merecido agradecimento à tripulação e a todos os demais colaboradores envolvidos na deslocação do Cruzeiro das Ilhas ao Grupo Ocidental, para realizar, durante o dia de hoje, o transporte de combustível e mercadorias das Flores para o Corvo.

IRLANDA E PORTUGAL ERAM SEMELHANTES ANTES DA TROICA

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Bemmm…. as coisas não são assim tão simples, não há almoços grátis e aqui não estamos a ver estatísticas sociais, mas vale a pena olhar para estes números e para o significado deles.
Image may contain: text that says "Portugal VS Irlanda 5 anos depois da Troika Imposto sobre Lucros 12,5% Taxa marginal de IRS (salário mensal líquido de 1500€) 31,5% 20% Ranking de liberdade económica 37% 72.° Crescimento económico (2016-2018) 20% Salário médio (2017) 6% 2479€ 925€"
Creio que isto diz tudo. Continuem a votar nos mesmos do costume.
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o vírus não os ataca ou há outras razões? pf expliquem…

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Vergonhoso!!!
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Esta foto foi tirada hoje, dia 10 de Janeiro de 2021, no Coliseu do Porto e provoca duas perguntas inevitáveis.
Por que raio de razão o candidato comunista às presidenciais pode juntar centenas de pessoas num comício sem distâncias de segurança e os restaurantes e o pequeno comércio são obrigados a encerrar?
Os comícios são mais importantes do que a sobrevivência dos pequenos empresários e dos seus colaboradores?
Isto é uma falta de respeito a todos os portugueses. Aos doentes de covid, aos que podem vir a ser contagiados por causa disto, aos profissionais de saúde e particularmente aos que estão a ser empurrados para a miséria por serem obrigados a confinar e a encerrar os seus negócios. Miserável!
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hospital de ponta delgada e as suas decisões incompreensíveis

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Antena 1 Açores – Hospital de Ponta delgada não vai assinar o protocolo com o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra que permite a deslocação à Região de especialistas para cirurgias de urologia.
A informação é confirmada pelo Conselho de Admnistração.
Os doentes com tumores malignos que esperam por cirurgia ficam à responsabilidade do único médico assistente de serviço no hospital.
“Por escrito na resposta à Antena 1 Açores, o Conselho de Administração do Hospital de Ponta Delgada assume: não será celebrado protocolo com o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra e que iria permitir a vinda de especialistas à Região para operarem doentes açorianos na especialidade de Urologia.
Diz que há médicos prestadores que se deslocam mensalmente a Ponta Delgada, provenientes do Hospital de Santo António, no Porto. Realizam por rotina cirurgia laparoscópica renal.
Sobre os doentes com tumores malignos em lista de espera, o Conselho de Administração remete a responsabilidade ao médico assistente, que, diz, deve priorizar os casos.
Sobre o caso concreto de um doente com tumor maligno que vai ter que esperar seis meses para ser operado, o Hospital diz textualmente: “compete ao médico assistente priorizar toda e qualquer cirurgia oncológica” e acrescenta: “é esta a prática das especialidades cirurgicas no Hospital de Ponta Delgada e deverá ser também a da Urologia”.
O Serviço de Urologia possui apenas um único especialista. O Hospital diz que é por isso que não estão reunidas as condições para nomear um director de serviço.
Toda esta situação, que se arrasta pelo menos desde Julho do ano passado, já motivou uma vistoria do Colégio da Especialidade. Avelino Fraga deixou claro não ser aceitável que o Serviço funcione apenas com um médico.
Confrontado com tudo isto, o Secretário Regional da Saúde diz que é mais uma das muitas situações que considera “inaceitáveis” por parte do Serviço Regional de Saúde.
Clélio Meneses anuncia por isso que vai dar orientações a todas as unidades de saúde para que sejam céleres na resposta a dar aos utentes.
Recusa que os doentes morram por falta de tratamento.” (CV)
https://www.facebook.com/antena1acores

(jornal das 8.30 dia 11 Jan. 2021)

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O COLAPSO FINAL, PEDRO ARRUDA

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O colapso final
Chegados aqui, ao limiar de um novo confinamento geral e ficcional, só os privilegiados vão efectivamente confinar, já pouco mais há a dizer. O espírito pende cansado sobre si próprio e o pensamento é de exaustão e enfado. É como se toda a estupefação e indignação que carregamos, por quase um ano, fizesse desmoronar o corpo sobre o seu próprio peso.
Já não me aflige a derrota da racionalidade. O bom-senso foi a primeira vítima da Covid. Os governos, todos eles, por esse mundo fora, habituados a tomar decisões apenas para os ciclos eleitorais, viciados em mentir, para mentir a seguir, para esconder a mentira anterior, apressam-se a tomar medidas avulsas, incoerentes, genéricas e generalistas, presos que estão no populista e demagógico enredo das sondagens e dos sound bytes das notícias. Não foi o vírus que tomou conta das nossas vidas e as destruiu, foi o medo do vírus, o medo das imagens dos corredores dos hospitais cheios, como se em cada inverno elas não se repetissem, foi o medo das mortes, como se todos os anos não morressem dezenas de idosos abandonados ao frio e à solidão, foi o medo da nossa própria fragilidade e hipocrisia que nos dominou.
Já não me assusta os devastadores impactos económicos e sociais da miopia dos políticos que, a coberto dos epidemiologistas que renegaram todos os mais básicos princípios da ciência, a dúvida, o questionamento permanente, a aversão ao dogma e à fé, a ciência tornou-se numa nova fé, uma nova inquisição, e decidem confinamentos generalizados sem por um segundo pensarem nas pessoas. Assusta-me como os próprios cientistas não foram capazes de compreender que as suas soluções eram abjectas. como não foram capazes de arrepiar caminho, como por estes dias sugeriu um político, e não ir por aí, porque os custos da solução eram mil vezes piores do que o problema. Aflige-me a ditadura da estatística, dos casos por mil habitantes, das mortes por milhão. o ludibriar permanente e manipulador das estatísticas, dos gráficos, das linhas, as ondas, as vagas imaginárias. A vida como abstração matemática, a sacrossanta vida, como se cada vida não fosse, afinal, uma pessoa, uma forma de amor, como se cada vida que juram querer salvar não fosse, afinal, uma vida que precisa de ser vivida. Como se a própria vida, enfim, não fosse por natureza eminentemente periclitante e efémera. Viver mata! E, o que estamos a fazer é condenar a uma morte solitária e fria aqueles que devíamos estar a aquecer no nosso abraço fraterno e a acompanhar nesta sua última caminhada.
Assusta-me a ideia de que a solução para os problemas humanos é a perda de humanidade. A forma como se abdica da essência do ser humano por um conceito clínico de vida, feita apenas de circulação vascular e cerebral, desprovida de sociabilização e afecto, assustam-me estas visões higienizadas do mundo, em que as pessoas são como ratos de laboratório e as terríveis e profundas desigualdades de um mundo onde uns poucos se podem confinar nas suas casas aquecidas e uns muitos se veem forçados ao trabalho ou à pobreza. Assusta-me como deitamos tão fácil e rapidamente no lixo as nossas liberdades, sem sequer pestanejar nem que por um breve momento de dúvida pelo que de básico e essencial estamos a abdicar e destruir.
Assusta-me, isso sim, as crianças. E, a terrível punição que lhes estamos a impor. O fecho das escolas é uma pena capital no seu futuro, no seu crescimento, nas aprendizagens, nos afectos, é um terramoto brutal e destruidor, enfim, nas suas memórias. E, só Deus e o Futuro saberão o que tudo isto significa no amanhã destas crianças a quem agora roubamos a infância com o medo não da morte, ou do colapso do Sistema Nacional de Saúde, mas com o medo da próxima sondagem ou do resultado da próxima noite eleitoral. Já o disse e volto a dizer, estamos, vai para um ano, a testar soluções genéricas e manifesta e comprovadamente erradas para um problema que felizmente e sazonalmente aflige pouco mais de 2% da sociedade e, com isso, ao mesmo tempo estamos a destruir, sem dó nem piedade, sem um pingo de fraternidade e solidariedade, os restantes 98%. O problema não é o vírus, nunca foi, o problema fomos sempre nós!
You, André Silveira, Gabriela Mota Vieira and 20 others
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  • Falta coragem a esta gentalha que tomou conta dos destinos da Humanidade, passaremos tempos muito difíceis e muito duros com totalitarismos e outros ismos todos pouco toleráveis por culpa dessa gente que decide apenas com o olho nos votos do dia seguin…

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    • Nuno Barata Almeida Sousa

      meu caro duvido que a culpa possa ser exclusivamente assacada ao socialismo mas tudo bem… ✊😁

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Luz do sol destrói coronavírus rapidamente e autoridades mostram resultado de estudo – Pais&Filhos

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A pesquisa, realizada por cientistas americanos, trouxe esperança ao mostrar a aceleração em que o vírus pode morrer quando entra em contato com umidade e calor

Source: Luz do sol destrói coronavírus rapidamente e autoridades mostram resultado de estudo – Pais&Filhos

Vamberto Freitas · Os Dias Da Peste

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Os Dias Da Peste
Uns morrem, outros vendem-se/outros conformem-se e outros esquecem…
Obras de Jorge de Sena: Antologia Poética
Vamberto Freitas
Melhor dizendo, não foi nem é fácil (para nós e para ninguém no mundo) viver o Covid-19 na ilha de São Miguel, e como Leitor de Língua Inglesa durante 29 anos na Universidade dos Açores. Num dia de Março deste ano eu tinha dado as minhas aulas de manhã, e depois desci à baixa de Ponta Delgada com um querido colega e amigo oriundo de Braga, doutorado numa área bem diferente da minha. Durante todos os meus anos naquela instituição de Ensino Superior, um dos dos meus grandes prazeres foi descer à cidade ao lado do jardim da universidade, e depois subir com o mesmo prazer, para as aulas da tarde. Naquele dia, no nosso regresso aos nossos gabinetes ou aulas encontramos um campus muito diferente, muito surpreendente. Quase não havia carros no estacionamento, e apenas víamos um ou dois alunos à distância. Olhámos um para o outroe pergunta-mo-nos: que se passa aqui? Na entrada da nossa faculdade, Faculdade de Estudos Sociais e Humanos saiu um colega de pasta na mão. Olhou-nos surpreendido. Não leram o e-mail do nosso Reitor? Não. Era hora do almoço e descanso. Ele acaba de encerrar a universidade devido à “peste” que agora assola o boa parte do mundo. Ficámos como que atónitos. Diz-nos ele: vão buscar as suas pastas e sigam para casa. Um dia ou dois depois vem a nova ordem ou pedido. A passar de agora, será o ensino à distância. Eu tinha entregue os meus documentos de aposentação definitiva em Fevereiro, mas estava sob contrato até Agosto. E agora? Agora foi toda a ajuda da minha Faculdade e da Reitoria. Faremos o melhor que nos seja possível, mesmo que a maioria dos docentes não estejam treinados para tal tarefa, comunicaram os nossos superiores hierárquicos. Pânico. Tudo viria a correr bem, sem que eu o esperasse, o assunto foi resolvido. Queremos o Vamberto em casa sereno, a ler e a escrever, elefaz parte da história destainstituição, e nunca dela me desligaria. Não se pode pedir mais do que esta cordialidade e profissionalismo, por assim dizer. Medo, ansiedade, paralisia mental, desgosto do fim de carreira que contava com 14 anos de ensino numa secundária no sul da Califórnia (Cerritos High School) e, uma vez mais, 29 anos de Universidade dos Açores, sem mácula e sem nunca rejeitar ou desobedecer à tarefas que me estavam destinadasem todas e quaisquer circunstâncias. Para além do que já disse, são agora as saudades que tenho das minhas aulas, dos almoços com colegas, de entrar no meu gigantesco gabinete, a dor de desfazer todos aqueles anos atirando para fora tudo quanto tinha acumulado, desde ficheiros, capas cheias de anotações, e muitos livros. Levou-me algumas horas durante dois dias a desfazer uma vida que tinha sido pautada pela felicidade, e gostava muitodo meu trabalho com milhares de alunos. Tenho de adicionar isto. Quando chegou à colecção de livros que eu mantinha nas minhas largas estantes fiquei sem saber o que faria. Numa universidade não se queimam livros nem se os manda para o lixo. A minha Presidente da Faculdade entrou no meu gabinete e simplesmente me garantia que iriam todos para o seu próprio espaço de trabalho. Dias depois, tive de entregar a chave da sala que tinha sido o meu desejado reduto de trabalho e alegria. Desci as escadas sozinho com uma lágrima no olho, mas também com o sentido de missão cumprida entre todos que me tinham sido queridos, companhias nos piores momentos de certos dias, meus salvadores quando a inevitável e essencial burocracia me deixava sem habilidade ou saber. A Covid-19 veio-me revelar coisas inesperadas, e muito especialmente momentos de generosidade e cumplicidade.
Agora no plural. Temos a felicidade de viver em ilhas, todos elas, em termos relativos, com baixos índices do Covid-19. Estamos atentos ao mundo, particularmente ao resto do nosso país, e isso provoca-nos muita preocupação. Duas coisas a acontecerem que não nos conforta de modo algum. Primeiro, evitamosviajar para fora, atémesmo para Lisboa ou qualquer outra cidade continental. Segundo, e talvez injustamente, tememos a vida seja de quem for do continente europeu, inclusive do nosso próprio país. Tudo isto está a causar, quanto a mim, e não só, uma certa resistência e desejo de alguns que não nos apareçam por cá. Por certo que o número de casos positivos são menores em todos as ilhas, mesmo em São Miguel, que tem mais de metade da população açoriana. Seja como for, neste momento viajam para as cidades do resto do país quase só os estudantes ou os doentes que lá têm consultas inadiáveis. Quanto aoutros, e volto aqui ao singular, morro de saudades de Lisboa, e principalmente da minha casa na Costa da Caparica. Apesar de ter nascido numa ilha (Terceira) com vivência de quase 30 anos nos Estados Unidos, já me chamaram um “continental” no “exílio”. Exagero, mas nem tanto. Tenho saudades de terra firma e do resto do meu país. Um amigo em Sintra, poeta e escritor, avisa-me que aguente mais uns tempos até que chegue a limpeza desta peste mortífera. Custa-me muito, e logo agora que estou livre para viajar, abrir as minhas outras portas e janelas, ver o céu azul que contrasta com este cinzento quase diário e ameaçador. Para consolo um bocado egoísta, recordo a História e outros séculos ainda muito piores, grafado para sempre no Decamerona meados do século XIV, com todo o humor, riso e “histórias picantes” para se contrapor à morte e terror que ceifou metade da população europeia. Só que não tinham o que hoje temos: o saber científico ou farmacêutico que nos promete salvar a todos em poucos meses.
Como quase todos os outros no mundo, andamos de máscara, que ora tiramos ora colocamos por cima da boca e do nariz. Cenas mais ou menos surrealistas e até cómicas quando amigos íntimos se cumprimentam de cotovelos ou braços. Por vezes confiamos no facto de vivermos em ilhas e quebramos todas as regras. Rimos meio consternados, mas rimos. Tambémtem a ver com confiança no nosso sistema de saúde, tudo tem a ver com uma esperança cega na nossa sobrevivência. Fumo, e por vezes vem a tosse do costume. Tudo mudou. Agora tenho vergonha de me acontecer isso, mas numa terra de desviantes do politicamente correcto ninguém se assusta ou ofende. Diz-me um médico amigo especializadoem pneumologia: já vi tantagente com tantos problemas respiratórios em todas as condições que jã não me preocupo muito. Já agora, avisa-me ele – deixa de fumar para não me dares trabalho ou preocupação no bloco hospitalar a meu cuidado. Yes, doctor. A partir de amanhã será assim. Ele dá à cabeça que sim. Sabe que eu estou a mentir, e manda vir mais um copo, puxa do seu cigarro, e partimos para a política e literatura, futebol e comida regional. Eu cito de imediato o Fernando Pessoa: “Venhao que vier ou não não venha o que não vier”. Viver no medo não só modos saudáveis – nem para a mente nem para o resto do corpo. Covid-19 nos Açores? Tenho muito mais medo dos terramotos vulcânicos ou tectónicos. Esses, sim, são o nosso terror nas ilhas.
_____
Os Dias Da Peste é um livro internacional do PEN (Poets, Essaysts, Novelists/Poetas Ensaístas, Romancistas), uma associação de escritores mundiais, e que está presente em 145 países temtrês línguas paninas:Inglês, Francês e Espanhol. Nestaversão do livro vai incluir a língua portuguesa. Em Portugal tem como Presidente aescritora Teresa Martins Marques. Foi ela que fez questão em estarem presentes, como membros activos e colaboradores, alguns escritores açorianos. Vai ser publicado em 2021.
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envelhecer assim..CLARA FERREIRA ALVES

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Do mural de

Maria Da Graça Furtado

, esta crónica de Clara Ferreira Alves.

“Os velhos estão a morrer. E nem todos de corona. Este final de ano levou mais uns tantos, entre eles o Carlos do Carmo, o príncipe na cidade. Sobra uma mágoa seca, tão seca como aquele fado sem música que o Carlos cantou junto ao caixão do José Cardoso Pires, há muitos anos, e que foi a comovente despedida. Na Biblioteca das Galveias, a biblioteca pública onde José Saramago se refugiava a ler os clássicos enquanto trabalhava num emprego diminutivo, sabendo que havia mais na vida do que gastar as horas sem pensar. A voz do Carlos do Carmo ecoou no silêncio, cantou o fado sem um tremor, num desgosto limpo. Houve quem abandonasse a sala para chorar fora dali. Aquela emoção não podia ser quebrada com choraminguice. Só com a voz. O heroísmo da voz.
A safra deste ano dá-nos certeza de que uma geração ilustre não dobrou o cabo das tormentas. E viveu o último ano da vida numa clausura de pestíferos. Entramos em janeiro, um mês cruel para os velhos, um mês duro e metálico, um mês escarpado e que corta a pele como aço, um mês gelado e indiferente, com medo. Não há pior modo de entrar no ano novo. Toda a gente, naquela altura da vida a que se convenciona chamar “de certa idade”, tem medo. Pode não tomar todas as precauções, por incúria, por bravata, por desatenção ou por falso sentido de segurança, isto não me acontece a mim, mas o medo está lá, acoitado como um animal selvagem na caverna, à espera. Não há sentimento mais fácil de detetar do que o medo. Não são precisas palavras, o medo lê-se no corpo, e lê-se com clareza no corpo dos velhos.
Esta semana, ao visitar um hospital encontrei uma sala de espera cheia de velhos, homens e mulheres, uns mais novos, nos setentas, outros mais velhos, depois dos setentas. Os mais novos estavam sozinhos, e pela posição do corpo nas cadeiras via-se que não estavam confortáveis. O corpo torcido, virado para dentro, procurando ocultar-se. O corpo desconfiado e obrigado a distância. Ninguém falava, agora não podemos falar, o vírus não gosta da mudez e temos de contrariar o vírus. Este e os outros, os do inverno, os da gripe, os rinovírus, esse cardápio de doenças do frio que foram remetidas para plano secundário.
Os mais velhos estavam acompanhados. À minha frente, um homem muito velho seguia com uma mulher mais jovem, mas não jovem, que lhe segurava o braço e vigiava o passo. O velhote caminhava em passinhos trémulos, como uma criança a aprender a andar. Caminhava curvado, e notava-se que a altura do esplendor da vida não tinha sido aquela, tinha sido mais alto, a velhice obrigava-o a curvar-se como um prédio empenado. Os passos eram pequenos, um bocadinho de cada vez, e atravessar a sala tornava-se uma viagem de minutos. A mulher devia ser a filha, a criança que ele educou e da qual cuidou e que agora foi chamada a fazer o mesmo por aquele pai-criança, aquele pai destituído de poder ou controlo sobre o mundo. A inversão é clara, e inevitável.
Um velho tem tantas coisas de criança, incluindo a impaciência e a lágrima fácil. Depois de anos de repressão das emoções por uma cultura que não as aprecia, os velhos choram com facilidade. Mesmo que finjam que não choram. Uma parte dessas lágrimas acresce ao conjunto de indignidades da velhice, o olho húmido perpétuo, outra parte deve ter a ver com a desinibição, e uma terceira com a certeza de que tudo se torna tão difícil com a idade, desde descascar uma laranja a desrolhar uma água das pedras. Os ossos perderam a força e a pele engelhada recusa ficar com tudo a cargo. O corpo deixa de responder às mais pequenas coisas, numa teimosia que obriga a pedir ajuda para atravessar dois metros quadrados.
O poeta T. S. Eliot tem um poema enigmático, “The Love Song of J. Alfred Prufrock”, de 1917, poema do tempo da guerra e da peste, em que Prufrock pergunta se ousará perturbar o universo, se ousará comer um pêssego. E sabe que ao envelhecer enrolará a dobra das calças. “I grow old… I grow old…/ I shall wear the bottom of my trousers rolled.” Tantas interpretações críticas sobre esta “Canção de Amor de J. Alfred Prufrock”. Para mim, e este é o poema preferido, o que aprendi de cor desde que o li a primeira vez, nunca houve outra interpretação. O poema da despedida, o poema do fim das coisas, do fim do amor e do amor do corpo, o poema da memória dilatada pela lucidez, o poema da vida medida em colherinhas de café, a vida de alguém que ouviu o canto das sereias, que não foi o príncipe Hamlet nem estava destinado a ser, e que no monólogo da gloriosa introspeção consegue reduzir as perguntas a uma. Ousarei perturbar o universo?
Ao contemplar os velhos do hospital, o medo dos corpos assustados com a novidade incompreensível da doença que gosta de atacar os velhos, os doentes, os pobres, os fracos, recitei o poema em pensamento. Os livros ainda dão consolo. O medo dos velhos, o medo daqueles olhinhos húmidos atrás das máscaras, analisando o espaço em volta e os perigos que o habitam, o medo dos monstros lunares e marcianos da ficção científica, o medo do que é estranho, é uma crueldade a acrescentar às outras. Não se trata já de enrolar as calças porque a altura diminui, ou de não conseguir comer um pêssego porque escorrega das mãos e os ossos não seguram os sólidos, trata-se de sobreviver à solidão a que este vírus condenou os velhos. A um terror vivido em solitário, atrás de vidros e de janelas e portas, atrás do escudo da proteção a que foram condenados. Conheço velhos que passaram a noite de Natal e a noite de fim de ano sozinhos nas casas. Muito pior do que ver um pêssego escapar das mãos. Pior quando a memória ainda segreda, foste em tempos uma pessoa inteira, tiveste poder sobre ti e sobre os outros, dominaste o mundo com a tua força, mediste a vida em colherinhas de café porque escolheste medi-la assim. E ouviste o canto das sereias. E sabes que não cantarão para ti, escreve Eliot.
Já tivemos outras pestes. No tempo da tuberculose, os doentes refugiavam-se e pensavam em solidão enquanto o mundo lá fora continuava composto. A tuberculose produziu obras-primas da literatura, como “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, e produziu mestres da escrita como Albert Camus, que quando teve tuberculose em novo passou o tempo a ler e assim se fez escritor. Deste vírus, não sairá o génio das artes. A tecnologia instituiu outras formas de comunicação e de pensamento, ou aboliu o pensamento. O telemóvel de última geração não salvará os velhos. Já ninguém lê livros. E a idade não deixa ler. Na solidão das salas e das casas, a companhia que lhes resta, no cansaço do dia, é a televisão. No hospital, no consultório, na espera, lá está ela, a luz azul acesa com pessoas dentro que falam com uma felicidade fingida, infantil, para alegrar os velhos.
Envelhecer assim..”
Envelhecer assim
(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 08/01/2021)
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Apresentação do Livro “Poemas para Macau”, de Cecília Jorge, Fundação Rui Cunha 官樂怡基金會, Macau, January 11 2021 | AllEvents.in

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Apresentação do Livro “Poemas para Macau”, de Cecília Jorge Hosted By Fundação Rui Cunha 官樂怡基金會. Event starts on Monday, 11 January 2021 and happening at Fundação Rui Cunha 官樂怡基金會, Macau, MA. Register or Buy Tickets, Price information.

Source: Apresentação do Livro “Poemas para Macau”, de Cecília Jorge, Fundação Rui Cunha 官樂怡基金會, Macau, January 11 2021 | AllEvents.in