Uma conversa franca
O professor avisou os alunos, logo no início da aula: iam receber a visita de um deputado. Que se portassem bem os meninos e meninas, não é todos os dias que tinham a honra de ver a poucos metros alguém tão importante.
Quando o representante do povo entrou, os jovens ficaram com a boca aberta. Muito prezado, com um fato à medida, uma gravata sóbria mas lindíssima, os sapatos parecendo comprados na véspera, sim senhor, ali estava sem dúvida uma pessoa bastante importante.
E o sorriso franco? E os braços abertos como quem quer abraçar a turma toda? E a voz serena mas muito bem timbrada? Credo, o homem era um espectáculo.
– O que quereis ser quando acabarem o secundário? – entrou bem o deputado, “breaking the ice”, como hoje se diria. Os alunos entreolharam-se. Era sempre uma pergunta difícil. Embora alguns já tivessem ideias definidas sobre o seu futuro, dizerem-no quase firmava um compromisso, preferiam um “ainda não sei”, fosse para os mestres, fosse para aquelas senhoras que estudam vocações. O deputado seguiu outro caminho. Para ele, para a frente é que era…
– Algum de vocês gostaria de ser professor?
Nenhum dedo se levantou. Algumas cabeças ainda se viraram, à espera de verem um indicador perdido no ar, mas nada. O deputado insistiu:
– E médico? Ou advogado? Engenheiros?
Aqui já houve alguma reacção. Três viam-se a construir, duas a tratar de maleitas, outro a defender criminosos. Mas o deputado rapidamente percebeu que os jovens queriam fazer perguntas, mais que responder às dele. Pôs-se à disposição, também como se muito se diz hoje.
– O senhor o que faz?
– Sou deputado, como sabem…
– Sim, mas qual é a sua profissão? Se deixar de ser deputado, o que vai fazer?
– Sou político profissional.
– Mas quais são as suas habilitações?
– Tenho o 12º ano.
– E nunca trabalhou em nada?
– Não, sempre ambicionei ser político e consegui.
– E ganha bem?
– Ganho de acordo com o meu estatuto…
– Sim, mas quanto é, para a gente ter uma ideia? Ganha mais que o nosso professor?
O professor ficou embaçado. Os alunos estavam a ser impertinentes. Já com muitos anos de ensino, levava para casa mil e poucos euros. Tentou mudar de assunto, para não ofender o deputado.
– Isso agora não interessa… Querem saber mais coisas ou ficamos por aqui?
– Quanto é que o professor ganha? – insistiu o tal que queria ser advogado.
– Mil e tal euros, líquidos… Estás satisfeito?
– Não senhor. Gostava de saber quanto ganha o senhor deputado. É mais ou menos a mesma coisa?
– Não – respondeu o deputado – ganho mais do dobro.
– Ah, então já sei o que quero ser quando for grande.
– Mas não querias ir para Direito?
– Queria, mas depois desta conversa mudei de ideias. Quero ser político profissional.
A sala encheu-se de dedos no ar e de “eu também”.
O deputado decidiu retirar-se rapidamente, com um balbuciado “até breve”. Mas ainda conseguiu ver, pelo canto do olho: o professor também tinha o dedo no ar…
Post Scriptum – dedico esta crónica:
1 – A todos os meus alunos que querem ter as maiores qualificações académicas e, posteriormente, uma profissão que os realize e permita concretizar sonhos.
2 – A todos os deputados e deputadas que cumprem um serviço público, suspendendo as profissões que desenvolviam antes de eleitos, com a certeza de que, findo o seu mandato, não ficarão no desemprego.
3 – Aos ex-deputados e deputadas que estão desempregados, por terem julgado (mal) que podiam passar a vida toda numa carreira que não o é.
4 – A um professor que assina os seus escritos como “deputado do PS na ALRA”. Aconselho vivamente a leitura da sua última crónica, publicada neste mesmo jornal no dia 5 do corrente mês. Se é mesmo o que pensa, o que escreveu e publicou, ainda bem que foi para deputado. Porque nem quero imaginar os conselhos que daria como professor aos seus alunos.
António Bulcão
(publicada hoje no Diário Insular)