VAMBERTOFREITAS. Do Arquipélago De Escritores E Das Suas Vozes

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Sabe bem ler um trabalho nosso glosado por quem muito respeitamos. Vamberto Freitas, crítico, professor, escritor, figura histórica da causa literária açoriana, detém-se, neste texto, na revista Grotta e no Arquipélago de Escritores, gestos ligados desde o início. Com o desenho de uma análise arguta e sabedora, Vamberto assinala o essencial do nosso projecto: a assumida atenção a uma herança literária, com nomes maiores a merecerem outro reconhecimento, dentro e fora, e o acolhimento de penas de lugares cúmplices, onde se pratiquem a melhor literatura e outras artes que, com esta, possam conversar. Queremos prolongar, de modo próprio, com um entendimento próprio, noutro tempo, o histórico, plural e aberto, de suplementarismo literário e os melhores encontros, formais e informais, tidos em chão açoriano, em torno dos livros e do pensamento.
O autor de “borderCrossings – leituras transatlânticas”, já no seu sexto volume, também assinala que um dos movimentos que mais tem marcado uma geração que se julgava que iria cumprir o seu percurso fora dos Açores é o do regresso. Para fazer, para contribuir, à sua maneira, para as possibilidades, nem sempre imediatas, a exigir teimosias várias, da sua terra.
Aqui fica o texto, que não agradeço, porque não se agradecem estas coisas, mas que celebro, sem reservas.
Aqui fica:
DO ARQUIPÉLAGO DE ESCRITORES E DAS SUAS VOZES
“A força dançante das ilhas. Mais do que a melancolia, mais do que a bruma, tão potente quanto o silêncio”.
Nuno Costa Santos, Grotta 5
Não quero que isto seja um relato pormenorizado da revista literária Grotta 5, nem uma nota biográfica sobre alguns dos seus responsáveis, incluindo o seu director Nuno Costa Santos. Escritor de vários géneros, salta da comédia que um dia chamou de melancólica, ainda então residente e actuante a vários níveis em Lisboa, ao marcante romance Céu Nublado com Boas Abertas (2016), entre outros livros e escritos. Divide agora a sua vida entre São Miguel e Terceira, onde passou a residir há alguns anos. Só que ele, juntamente com outros da sua geração açoriana dentro e fora do arquipélago, representa algo que considero de quase extraordinário entre nós. Filhos e filhas destas ilhas, a sua ida para o Continente começa em diferentes faculdades, e parecia que, logo de início, quanto às suas carreiras na nossa capital, provavelmente julgávamos que iriam até ao fim da idade ou dos projectos culturais que uns e outros tinham escolhido ou abraçado. Os sinais contrários começaram desde logo, no entanto, a demonstrar algo de diferente. Ora na sua escrita – o singular confunde-se aqui com o plural – ora nos seus regressos constantes, tanto a “realidade” vivida cá dentro como nos seus chamamentos na escrita ocupam o centro dessas obras, algumas das quais já ombreiam com o que de melhor temos produzido ao longo de décadas, os seus nomes são já conhecidos entre o nosso público leitor mais atento em qualquer parte do país, e ainda entre outros no além-fronteiras, se é que esta expressão continua a significar alguma coisa. Já destaquei muitos desses outros escritores e jornalistas, mas é sobre Nuno Costa Santos que agora escrevo por ser emblemático, repito, de alguns outros que saíram e regressaram pessoalmente ou através da palavra simbólica que os remete às suas origens atlânticas, configurando com os que nunca partiram um espaço vital, digamos assim, no nosso extenso cânone das artes em geral. O presente número da Grotta é um eloquente testemunho dessa herança em constante movimento, o passado nunca esquecido dá lugar não a qualquer ruptura, antes é uma continuidade que não pede desculpas a ninguém quando, mesmo após o que acabo de afirmar, caminha necessariamente por outras vias, visões e entendimentos da sua própria experiência, essa que, por falta de imaginação, dizíamos ser a “pós-modernidade”. Afinal era tão “pós” como era “o fim da história” de Francis Fukuyama. Mais uma generalização ou duas sobre este tipo de publicações literárias não-institucionais: aparecem e desaparecem com certa frequência ao longo de toda a nossa história, mas quase todas deixam-nos memória firme, tornam-se referências essenciais ao que noutros tempos também se denominava Tradição artística, e não só na literatura nos seus géneros principais. Foram essas e estas revistas, assim como os suplementos culturais inseridos nos jornais diários e de periodicidade diversa, nas palavras de outros estudiosos, as nossas outras “universidades”. Foram e são-no.
O Arquipélago de Escritores tornou-se um grande encontro literário açoriano há cinco anos, e as suas inúmeras sessões contam com escritores vindos de vários países, de Portugal continental e de várias ilhas e comunidades espalhadas por quase todos os continentes. A cada ano, presta homenagem a um escritor, dando-lhe a honra da abertura do evento, com uma entrevista directa e alongada perante o público em geral, seguida eventualmente por outra entrevista conduzida especificamente para a revista, que dá voz e comemora a chamada vida da mente, desde a literatura contemporânea a praticamente todas as artes, sem sequer deixar de fora a caricatura amiga de outros nomes. Grotta 5 traz-nos Álamo Oliveira, o poeta, romancista, dramaturgo e ensaísta que da Ilha Terceira vê o mundo tão perto como a sua própria casa no Raminho, tal como em tempos estava situada em Angra do Heroísmo. Tudo o que eu poderia adicionar aqui sobre este autor maior seria redundante. As suas palavras, escritas ou ditas em circunstâncias mais ou menos formalizadas, tornam-se frequentemente um ponto de partida para alguns de nós. Como algumas outras palavras, representam o mais profundo sentido da geração que o acompanha na sua insistência de ver a própria literatura como sendo a memória identitária – não tenhamos medo da palavra – de todo um povo, acto ou qualidade que poderá nunca ser a sua intenção, mas assim é, creio, recebida e interiorizada pelos seus melhores leitores. Para ele os Açores são muito mais do que as nove ilhas, são continentes inteiros, são vidas consonantes com as mais longínquas e diferenciadas línguas e geografias. Uma revista cujo espaço está preenchido, página a página, narrativa a narrativa, poema a poema, fotografia a fotografia, ilustração a ilustração com os mais distintos novos e não tão novos nomes lusíadas e “estrangeiros”, é essa fonte de “astúcia” e, uma vez mais, “memória” literária em busca da História e do lugar que cada um ocupa no teatro global de tragédias e triunfos.
“Ler Álamo Oliveira – escreve Nuno Costa Santos na introdução à entrevista da Grotta 5 – é um desfrute. Porque a sua escrita é uma iguaria rara que junta estilo, lirismo e humor. A sua obra já não cabe numa badana. Mas isso não será motivo para nos perdermos. O leitor ainda não iniciado pode respigar um livro do autor ao acaso e encontra motivo para a fruição – e os volumes têm sido editados e reeditados pela Companhia das Ilhas. Cada um traz qualidades e pertinências. Nas ficção fixa-se em grande temas sociais, muitas vezes ligados à difícil condição económica açoriana na segunda metade do século XX. Na poesia, agora reunida, quase na totalidade, no volume Versos de Todas as Luas, pisa o chão diverso do seu planeta mais íntimo. Nos textos sobre arte a sua argúcia e o seu bom gosto cruzam-se de um conhecimento formado à conta da curiosidade”.
Os nomes dos colaboradores de Grotta 5 são muitos para que eu os inclua todos nesta página. Como a maioria das revistas do género no nosso país, esta não fica a dever nada no seu formato e estilismo gráfico, mas isso não me impede de compará-la, com gosto e admiração, a outras que tenho desde sempre na minha estante, vindo logo em primeiro lugar a mítica The Paris Review, americana, e a Granta, inglesa, desde há algum tempo com uma versão portuguesa, que na nossa língua também não reconhece geografias estranhas nem escritos alheios às nossas vivências e criações sem horizontes. Diga-se o mesmo da LER, noutros registos e projecções literárias, e na qual Nuno Costa Santos colaborou, com todo o seu humor, como “Provedor do Leitor: Ou Como Fazer Amigos Na Literatura”. Que isto acontece em ilhas com as nossas dimensões é outro sinal de que a casa do nosso ser (passe aqui a paráfrase) também se estende muito para além do azul do mar e do verde dos campos e florestas. Aliás, essa visão tem como uma das suas traves-mestra uma das melhores literaturas de língua portuguesa, que muita perplexidade tende a causar aqui por perto, dentro do próprio arquipélago e no resto do país em terra um pouco mais firme. Tudo isto já não nos causa complexos interiores de qualquer espécie. As nossas portas foram e estão sempre abertas, quer falem de bruma quer escrevam em versos ou prosa bem urdida por mestres de qualquer idade. Convencidos? Não. Só parte integrante do melhor que em toda a parte, por um meio ou outro, se faz em todas as línguas e recantos do mundo.
O escritor Diogo Ourique, autor do romance Tirem-me Deste Livro (2019), é responsável pela coordenação editorial da revista Grotta. Tem igualmente um pé em Lisboa e outro na Terceira. Estes têm sido os anos dos nossos melhores regressos e vozes.
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Grotta: arquipélago de escritores 5, Direcção de Nuno Costa Santos, Ponta Delgada, Publiçor/Letras Lavadas Edições, 2021-2022. Publicado na minha coluna “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 24 de Junho, 2022.
Do Arquipélago De Escritores E Das Suas Vozes
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A força dançante das ilhas. Mais do que a melancolia, mais do que a bruma, tão potente quanto o silêncio. Nuno Costa Santos, Grotta 5 Vamberto Freitas Não quero que isto seja um relato pormenorizad…
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