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Num dos vídeos publicados por Carrie Madej, a osteopata norte-americana alerta para o perigo de a vacina mRNA poder “alterar o ADN humano” o que, argumenta agora o utilizador do Facebook, permitirá transformar o ADN “literalmente numa linha celular única que pode ser patenteada por empresas”. E acrescenta ainda: “Uma vez injetadas, as linhas de células humanas irão tornar-se propriedade passível de patente das empresas de biotecnologia”. E não fica por aqui: “Esta é a forma definitiva de escravidão humana e atualmente está a ser ordenada através do medo e da coerção.” Argumentos ficcionados? Sim.
Na realidade, o que se passa está bastante longe de poder transformar o ADN do ser humano “numa linha de células humanas que podem ser patenteadas por empresas”. É verdade que, das centenas de vacinas que estão a ser desenvolvidas, segundo a última atualização da OMS, algumas dezenas usam a tecnologia mRNA, entre elas a da Moderna, que já se encontra na fase III, com o objetivo de ser testada em cerca de 30 mil voluntários nos Estados Unidos da América. Mas isso não é sinónimo de alteração do ADN humano. É certo que é a primeira vez em que está a ser testada em humanos uma vacina com recurso a esta tecnologia, mas o código que é modificado é o de uma molécula da bactéria e não do ser humano.
O mecanismo mais tradicional por trás do desenvolvimento de uma vacina é usar o próprio vírus ou bactéria — numa versão não ativa ou atenuada — para que o organismo da pessoa possa reagir e responder à infeção. No caso da vacina que está a ser testada pela farmacêutica Moderna ou pela Pfizer, não é o agente da doença que é introduzido através da vacina, mas sim uma molécula geneticamente modificada que irá produzir uma determinada parte do microorganismo e estimular a produção de defesas contra o agente infeccioso. Essa é, aliás, de acordo com a OMS, uma das vantagens desta vacina. Eliminando a necessidade de inserir o agente infeccioso no corpo humano, é ainda mais fácil de produzir em larga escala que as restantes soluções em desenvolvimento. Ainda que seja a primeira vez que está a ser testada em humanos, este tipo de vacinas já foram utilizadas para conferir imunidade contra outras doenças em animais.
À Associated Press, Brent R. Stockwell, professor de biologia e química da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, explica que as vacinas com tecnologia MRNA funcionam através da introdução de uma molécula de RNA mensageiro no corpo. Esse processo dá origem à resposta das células, que produzem uma proteína semelhante a uma das proteínas virais que compõem o Sars-Cov-2, responsável pela Covid-19.
“As suas células imunológicas reconhecem a proteína viral e geram uma resposta imunológica contra ela, principalmente pela geração de anticorpos que reconhecem a proteína viral”, explicou o especialista à AP, acrescentando que há preocupações com as vacinas mRNA: “Nomeadamente, o grau, a duração de proteção e possíveis efeitos secundários.” Mas, garante Stockwell, “a modificação do ADN não é uma delas [das preocupações]”.
Já o pneumologista na Cleveland Clinic, Dan Culver, rejeita completamente a ideia de que uma vacina mRNA possa alterar o ADN humano. “Isso não pode mudar a sua composição genética”, afirmou o médico. “O tempo que esse RNA sobrevive nas células é relativamente curto, [apenas] algumas horas. O que realmente faz é colocar uma receita na célula que vai produzir proteína durante algumas horas”, esclareceu.
Já o investigador Mark Lynas, do grupo Alliance for Science da Universidade Cornell, afirmou à Reuters que “nenhuma vacina pode modificar geneticamente o ADN humano”.
“Isso é apenas um mito, muitas vezes difundido intencionalmente por ativistas antivacinação para gerar deliberadamente confusão e desconfiança”, afirmou o especialista. Cornell acrescenta que “a modificação genética envolveria a inserção deliberada do ADN estranho no núcleo de uma célula humana” e que “as vacinas não fazem isso”. “As vacinas atuam treinando o sistema imunológico a reconhecer um elemento patogéneo, quando ele tenta infetar o corpo”, reforçou.
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