NORBERTO ÁVILA E VICTOR RUI DORES EM 1988

O professor e escritor Victor Rui Dores (graciosense radicado na ilha do Faial) teve a gentileza de enviar-me uma foto de nós ambos, que encontrou no seu arquivo. Ele, de gravador em riste, entrevista-me – diz ele – para o jornal O Telégrafo, da Horta. Isto, em outubro de 1988, num banco da Praça da República. Ora, rememorando acontecimentos vários da minha biografia nesse ano, que eventualmente pudessem ser abordados em tão amistosa conversa, permito-me salientar alguns deles: Escrita de 2 novas peças teatrais – O MARIDO AUSENTE e OS DESERDADOS DA PÁTRIA –; estreia absoluta da tragicomédia D. JOÃO NO JARDIM DAS DELÍCIAS, com encenação de Carlos Avilez, no Teatro Experimental de Cascais; e 1ª edição da comédia VIAGEM A DAMASCO, em Angra do Heroísmo (Secretaria Regional da Educação e Cultura.

Mas Victor Rui Dores dedica-se também à crítica literária, com particular interesse pela produção de origem açoriana. A título de exemplo, transcrevo algumas das suas estimulantes opiniões sobre o meu romance A PAIXÃO SEGUNDO JOÃO MATEUS (Romance Quase de Cordel), publicado em 2011:

“Com mestria, desenvoltura e imaginação criadora assente na magia do verbo, Norberto Ávila recria, neste livro, o falar popular da ilha Terceira, explorando as suas particularidades lexicais e fonéticas.

“ A PAIXÃO SEGUNDO JOÃO MATEUS [ …. ] resulta de uma revisitação e de uma transposição de um texto dramático em verso [ … ] para a presente versão narrativa, o que é passível de colher de surpresa muitos leitores, desde o estilo surpreendente e a inesperada exploração linguística de que o livro dá conta.

“Gostei incondicionalmente da técnica prosódica usada e muito apreciei o referido velho João Mateus, poeta popular da Serreta, narrador, contador de histórias, autor, encenador e mestre de cerimónias (com treino de muitos anos a compor “inredos” para as danças carnavalescas.) [ … ]

“A PAIXÃO SEGUNDO JOÃO MATEUS é isso mesmo: o poder evocativo, a recriação de lugares e atmosferas, a revificação da língua portuguesa, ume escruta que bebe no húmus da nossa condição insular, as bruscas mudanças no embalo da frase, só possível graças ao engenho de um criador de muito mérito. Entre uma tradição e uma modernidade, a obra flui na desordem ordenada que lhe dá a sua espontaneidade, casticismo e naturalidade. Mais do que uma regionalização pela linguagem, há aqui o estado natural da fala – o falar terceirense [ … ].

“Livro sintomático da multividência açoriana, A PAIXÂO SEGUNDO JOÃO MATEUS vale por essa experiência linguística que há muito se não via na produção literária açoriana, e vale, sobretudo, pela profunda humanidade das suas personagens. Eis um grande livro para quem o souber ler.”

VICTOR RUI DORES – A Tribuna Portuguesa, USA (Modesto, Cali.)

Saiba mais sobre A PAIXÃO SEGUNDO JOÃO MATEUS no site em
https://bit.ly/2sDQlaE

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VICTOR RUI DORES

VICTOR RUI DORES
E porque mencionei o seu nome na anterior publicação sobre a ilha Graciosa é justo divulgar a vida e obra deste professor, escritor, actor, encenador, poeta, ensaísta e crítico literário açoriano, que também se dedica à etnomusicologia e aos estudos etnográficos e linguísticos. Cliquem na imagem.

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Victor Rui Dores Victor Rui Ramalho Bettencourt Dores nasceu em Santa Cruz, ilha Graciosa, a 22 de Maio de 1958. É um profess…

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Victor Rui Dores recensão “Com Navalhas e Navios”, do Urbano Bettencourt

 

caro Chrys

De regresso ao Faial, apresso-me a enviar, em anexo, a recensão que acabo de escrever sobre “Com Navalhas e Navios”, do Urbano Bettencourt, e que gostaria que divulgasses no site das Lusofonias. Pode ser?
Obrigado e um abraço de mar

Victor Rui Dores

 

 

Com Navalhas e Navios

ou a poética insulada de Urbano Bettencourt

Cavaleiro andante por amor à literatura, Urbano Bettencourt tem vindo a reabilitar a palavra poética e o sentido mágico do poema em furtivas edições de livros. Neste poeta encontramos o rigor e a busca incessante da palavra exata, única e essencial. A sua escrita, insulada e melancolizada, assenta numa arte poética do equilíbrio formal, da economia do verso bem urdido, da musicalidade aliterativa e da demanda de uma linguagem depurada. Depuração é, aliás, a palavra-chave para se perceber a poesia de Urbano, ele que leva praticamente 50 anos de escrita poética e de poesia publicada.

Possivelmente também por esta circunstância, acaba de ser editado o livro Com Navalhas e Navios (Companhia das Ilhas, 2019), que reúne a poesia (quase) toda deste autor que vive entre a ilha e a viagem. Podemos agora ler, em 160 páginas, o “best of” poético deste picaroto que tem feito um percurso sempre ascendente, pois que, dotado de um profundo saber literário, tem a policiá-lo um grande sentido crítico e de exigência. Isto explica o intenso trabalho que este artesão de palavras, sempre em busca de novas significações, coloca na elaboração dos seus textos.

Com avisado Prefácio de Carlos Bessa, Com Navalhas e Navios dá-nos a (re)descobrir uma poesia de ilhas, lugares, memórias, sombras, afetos e estados de alma. Uma poesia ligada às raízes ancestrais da expressão poética no horizonte da cultura europeia. Isto é, uma poesia da civilização do sul, da expressão erótica, da emoção e da razão. Poesia que é também de denúncia e renúncia (admiráveis os poemas relacionados com a Guerra Colonial) e que age, reage, sonha, pensa, sente e questiona as mitologias do quotidiano. Uma poesia que evoca acontecimentos, pessoas e que estabelece diálogos com outros autores, havendo ainda a considerar alguma ironia q.b. num e noutro poemas.

Assumindo a dupla condição de “marinheiro com residência fixa” e de viajante que argutamente observa o real, Urbano Bettencourt – também narrador de mérito e ensaísta de primeiríssima água – é a indiscutível qualidade da sua poesia.

Horta, 08/10/2019

Victor Rui Dores

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Tanta gente a escrever Açores! VICTOR RUI DORES

Caras e caros amigos

Vai para 30 anos que vou completando e actualizando a minha lista de​​​​​​ autores (a que já chamam de “Victor´s list”) que, em diversos registos, escreveram / escrevem sobre os Açores na perspectiva que explico no texto, em anexo.
Por conseguinte, tomo a liberdade de vos enviar a referida lista, esperando da vossa parte sugestões e contributos.
Agradecido, abraço-vos fraternalmente

Victor Rui Dores

P. S. Lembro-vos que a referida lista não serve propósitos estatísticos. É apenas a minha maneira de calar aqueles que (ainda) desconfiam da existência, nos Açores, de um corpo literário e de uma ensaística de primeiríssima qualidade. São muitos nomes? Claro que são e não estão cá todos… Mas é pela quantidade que se chega à qualidade… Com 20 anos para viver, eu já sou estou a trabalhar para memória futura… É impressionante o número de novos autores que despontaram nos últimos anos!

 

Tanta gente a escrever Açores!

(294 autores)

Há um significativo número de escritores açorianos, cuja maturidade literária só veio a ser adquirida com o advento do 25 de Abril de 1974.

Exceptuando (por questões de índole etária) Armando Cortes-Rodrigues, Vitorino Nemésio, Natália Correia, Dinis da Luz, Francisco Coelho Maduro Dias, Urbano Mendonça Dias, Eduíno Borges Garcia, Amílcar Goulart, Pe. Coelho de Sousa, Manuel Barbosa, Tomás da Rosa, Pedro da Silveira, Dias de Melo, José de Almeida Pavão, João Afonso, Otília Fraião, Luísa de Mesquita, Cunha de Oliveira (Silva Grelo) e Eduíno de Jesus, todos os restantes escritores e poetas açorianos (cujas escritas têm a sua génese à volta do suplementarismo cultural de jornais de Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta) só produziram (ou estão em vias de produzir) as suas obras maiores após a referida data. Exemplos disso mesmo são:

I

Na poesia e ficção narrativa

(174 nomes)

Adelaide Baptista, Álamo Oliveira, Alexandre Borges, Almeida Firmino, Almeida Naia, Ana Ferraz da Rosa, Ana Paula Martins Goulart, Ângela Almeida, António Bulcão, Artur Goulart, Artur Veríssimo, Avelina da Silveira, Borges Martins, Carlos Alberto Machado, Carlos Bessa, Carlos Faria, Carlos Manuel Arruda, Carlos Tomé, Carlos Tomé, Carlos Wallenstein, Carolina Matos, Cisaltina Martins, Conceição Maciel, Cristóvão de Aguiar, Daniel Gonçalves, Daniel de Sá, Diogo Ourique, Eduardo Bettencourt Pinto, Eduardo Ferraz da Rosa, Eduardo Jorge Brum, Emanuel Félix, Emanuel Jorge Botelho, Fernanda Mendes, Fernando Aires, Fernando Lima, Fernando Melo, Fraga da Silva, Gabriela Silva, Heitor Aghá Silva, Hélder Medeiros, Humberta Araújo, Humberta Brites Araújo, Humberto Moura, Isolda Brasil, Ivo Machado, Ivone Chinita, Jayme Velho (pseudónimo de Rui de Mendonça), Joana Félix, João Bendito, João Carlos Fraga, João-Luís de Medeiros, João de Melo, João Pedro Porto, João Teixeira de Medeiros, Joel Neto, José Manuel Gregório Ávila, José Berto, José Carlos Tavares de Melo, José Daniel Macide, Jorge Diniz, José do Carmo Francisco, José Francisco Costa, José Martins Garcia, José Sabino Luís, José Sebag, Judite Jorge, Leonor Sampaio da Silva, Luísa da Cunha Ribeiro, Luís António de Assis Brasil, Luís Fagundes Duarte, Luís Filipe Borges, Luís Mesquita de Melo, Luís Óscar, Luís Rego, Machado Ávila, Madalena Férin, Madalena San-Bento, Manuel Ferreira, Manuel Jorge Lobão, Manuel Machado, Manuel Tomás, Manuel Viana, Marcolino Candeias, Maria do Céu Brito, Maria Brandão, Maria da Conceição Maciel Amaral, Maria das Dores Beirão, Maria Eduarda Rosa, Maria de Fátima Borges, Maria de Jesus Maciel, Maria João Dodman, Maria João Ruivo, Maria Luísa Lobão, Maria Luísa Soares, Marinho Matos, Mário Cabral, Mário Frayão, Mário Machado Fraião, Marta Dutra, Natália Almeida, Norberto Ávila, Nuno Álvares Mendonça, Nuno Costa Santos, Nuno Dempster, Octávio Medeiros, Onésimo Teotónio Almeida, Orquídea Abreu, Palmira Jorge, Paula de Sousa Lima, Paulo Freitas, Pedro Almeida Maia, Ramiro Dutra, Renata Correia Botelho, Ruben Rodrigues, Rui Duarte, Rui-Guilherme Morais, Rodrigues, Rui Goulart, Rui Machado, Sandra Fernandes, Santos Barros, Sérgio Luís Paixão, Sidónio Bettencourt, Sónia Bettencourt, Sónia Sousa, Urbano Bettencourt, Tomás Borba Vieira, Vasco Pereira da Costa, Vasco Rosa, Victor Rui Dores, Virgílio Vieira, entre muitos outros.

E que dizer daqueles escritores luso-descendentes que, sendo de nacionalidade americana e canadiana, escreveram e escrevem sobre as suas raízes açorianas: Alfred Lewis, Art Coelho, Charles Reis Félix, David Oliveira, Don Silva, Erika Vasconcelos, Francis M. Rogers, Frank Gaspar, Frank Sousa, Julian Silva, Katherine Vaz, Rose Peters Emery, Rose Silva King, Thomas Braga, entre outros?

Desenganem-se os que julgam que uma literatura açoriana se faz apenas com os nomes de Antero de Quental, Teófilo Braga, Ernesto Rebelo, Alice Moderno, Florêncio Terra, Rodrigo Guerra, Nunes da Rosa, Manuel Garcia Monteiro, Armando Côrtes-Rodrigues, Roberto de Mesquita e dos já mencionados Vitorino Nemésio e Natália Correia…

II

Na investigação

(120 nomes)

Convirá também não perder de vista aqueles nomes que, a começar por Gaspar Fructuoso (1522-1591), marcaram e marcam presença na investigação histórica, literária, social, política, científica e religiosa dos Açores e que, de alguma forma, contribuem para dar um “corpo” à literatura açoriana: Alberto Vieira, Albino Terra Garcia, Álvaro Monjardino, Ana Isabel Serpa, António Félix Rodrigues, António Ferreira de Serpa, António Machado Pires, António Manuel Frias Martins, Armando Mendes, Pe. António Rego, António Valdemar, Artur Teodoro de Matos, Augusto Gomes, Avelino de Freitas Meneses, cón. Caetano Tomás, Caetano Valadão Serpa, Carla Silva Cook, Carlos Cordeiro, Carlos Enes, Carlos Lobão, Carlos Ramos Silveira, Carlos Reis, Carlos Riley, Creusa Raposo, Diniz Borges, Eduardo Dias, Eduardo Ferraz das Rosa, Eduardo Mayone Dias, Ermelindo Ávila, Fábio Mendes, Fátima Sequeira Dias, Fernando Faria Ribeiro, Ferreira Moreno, cón. Francisco Carmo, Francisco Carreiro da Costa, Francisco Cota Fagundes, Francisco Ernesto de Oliveira Martins, Francisco Gomes, ten. Francisco José Dias, Frederico Lopes (João Ilhéu), Frederico Machado, Gabriela Funk, Gil Montalverne de Sequeira, Helena Mateus Montenegro, João Afonso Dias, João Bosco Mota Amaral, J. Chrys Chrystello, J. M. Soares de Barcelos, George Monteiro, Gilberta Rocha, Gregory McNab, Heraldo Gregório da Silva, Irene Blayer, Jácome de Bruges Bettencourt, Jacinto Soares de Albergaria, João António Gomes Vieira, João Brum, João Saramago, Jorge Costa Pereira, Jorge Forjaz, tenente-coronel José Agostinho, José de Almeida Pavão, José Andrade, José Arlindo Armas Trigueiros, José Bruno Carreiro, José Carlos Costa, Pe. José Carlos Simplício, José Carlos Teixeira, José do Carmo Francisco, José Enes, Pe. José Idalmiro Ferreira, José Guilherme Reis Leite, J. M. Bettencourt da Câmara, José Luís Brandão da Luz, José Medeiros Ferreira, José de Oliveira San-Bento, José Orlando Bretão, José Quintela Soares, Pe. Júlio da Rosa, Leandro Ávila, Lélia Nunes, Liduíno Borba, Luís Arruda, Luís Conde Pimentel, Luís Mendonça, Luís Meneses, Luís da Silva Ribeiro, Magda Costa Carvalho, pe. Manuel Garcia Silveira, Manuel Tomás Gaspar da Costa, Manuel Vieira Gaspar, Maria Alice Borba Lopes Dias, Maria Clara Rolão Bernardo, Maria da Conceição Vilhena, Maria Margarida Maia Gouveia, Maria Norberta Amorim, Mary Theresa Silvia Vermette, Mário de Lemos, Nestor de Sousa, pe. Norberto da Cunha Pacheco, Paulo Henrique Silva, Paulo Meneses, Pedro de Merelim, Ricardo Madruga da Costa, Rosa Goulart, Ruy Galvão de Carvalho, Rui de Sousa Martins, Sérgio P. Ávila, Susana Goulart Costa, Teixeira Dias, Tomás Duarte, Tony Goulart, Valdemar Mota, Vamberto Freitas, Victor Hugo Forjaz, pe. Vital Cordeiro, Vítor Brasil, Yolanda Corsepius, Zilda França, entre outros.

III

Veios temáticos

Falar de escritores açorianos é falar dos retroactivos da memória. A memória da ilha é, ainda e sempre, a temática primeira e privilegiada. A memória da infância insular, a emigração, o devir do tempo, o amor, o mar, a terra, a vida, o sonho e a morte são, por isso, os veios temáticos mais constantes na escrita de autores açorianos. Encontra-se, nos seus livros, uma permanente relação dialéctica entre a ilha e o mundo, funcionando a ilha como uma alegoria ou um símbolo do mundo.

À boa maneira nemesiana, a ilha é materializada não apenas na sua vertente realista, mas, sobretudo, na sua vertente mítica. E isto porque a ilha é a mãe uterina, simbolizando a constante necessidade de um retorno. Daí que, em maior ou menor grau, todos os escritores açorianos dêem conta da ilha (real e/ou transfigurada) enquanto espaço do vivido, do sentido e do evocado.

Por outro lado, há, nas obras de alguns autores açorianos, uma certa concepção anti-clerical (explícita nalguns autores, implícita noutros). A isso não será indiferente o facto de uma grande parte desses escritores terem passado pelos bancos do Seminário… Há uma geração estigmatizada pelos dogmas da religião e da instituição militar. E também pelos dogmas da política, já que o Verão (quente) de 1975 fez escorraçar das ilhas alguns desses autores.

Por isso mesmo, escrever funcionará como uma forma de catarse e de exorcismo da memória. Por exemplo, a memória dolorosa da Guerra Colonial, de cuja experiência alguns escritores (Álamo Oliveira, Cristóvão de Aguiar, João de Melo, José Martins Garcia, Santos Barros e Urbano Bettencourt) souberam retirar o testemunho literário.

Se evolução houve na ficção narrativa açoriana ao longo das últimas três décadas, tal não se verificou apenas a nível de temática, mas sobretudo em termos de processos de escrita. Assim, de um certo neo-realismo ilhado (tardiamente herdado nos anos 50 e 60 por um Dias de Melo), evoluiu-se para um realismo insulado (sobretudo com a geração da “Glacial”), que mais tarde desembocaria nalgumas interessantes experiências do realismo fantástico.

Actualmente verifica-se que, a pouco e pouco, os escritores açorianos vão-se deixando de nebulosidades narrativas e optam decisivamente por uma escrita que parte do eu para os outros. Não prescindindo da sua condição insulada, estes autores têm vindo a abrir-se ao enigma do mundo, numa escrita que busca espaços do universal. Este é seguramente um caminho a ser trilhado. Para que a açorianidade literária não se deixe ficar ensimesmada nas ilhas.

Victor Rui Dores

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Victor Rui Dores Sobre O Século dos Prodígios, a Ciência no Portugal da Expansão, de Onésimo Teotónio Almeida

Vitorino Nemésio (1901-1978) que, em Portugal foi pioneiro do interdisciplinar, definia cultura como “uma perspectiva convergente e unitária de vários ramos do saber”. Está bem patente, nesta afirmação, uma ideia de cultura como diálogo e confronto. Isto é, uma noção de cultura que implica cruzar saberes e campos de pesquisa. Por conseguinte, reflectir sobre cultura […]

Source: Sobre O Século dos Prodígios, a Ciência no Portugal da Expansão, de Onésimo Teotónio Almeida – Tribuna das Ilhas

 

Sobre O Século dos Prodígios, a Ciência no Portugal da Expansão, de Onésimo Teotónio Almeida

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carta (Nova) a Jacques Brel Escrito por Victor Rui Dores

 

CARTA A JACQUES BREL de VICTOR RUI DORES

 

(Nova) carta a Jacques Brel

 

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TI

Peter Café Sport, 25 de Abril de 2018

Meu caro Jacques Brel

Neste espaço de todos os reencontros, sentado à mesa onde tu um dia cantaste, escrevo-te esta carta, com os olhos postos no “gin”, a sede na cerveja e a memória em ti. E isto porque faz este ano 44 anos que, a bordo do teu “Askoy II”, aportaste à Horta acompanhado da tua filha France e da tua companheira Maddly.
Nessa altura, eu ainda não tinha fixado residência nesta cidade, senão, garanto-te, ter-te-ia aberto a porta da minha casa e o meu melhor whisky.
Deixa-me que te diga que foi a partir dos versos das tuas canções que me iniciei na aprendizagem da língua francesa. Sabes, às vezes tenho saudades tuas – eu que nunca te conheci. Mas porque tenho todos os teus discos, e porque vi todos os teus filmes, e porque colecciono todas as tuas fotos, e porque li todas as tuas entrevistas, tenho a impressão, meu caro Brel, que somos velhos amigos, se não mesmo “compagnons de route”…
A verdade é que sempre te admirei e não tenho problema nenhum em te considerar um génio! Porque foste um criador, não um imitador; um poeta, não um versejador. Fizeste da palavra uma arma de arremesso e da música um hino ao amor. Não cedeste, nem te vergaste a coisa nenhuma. Não transigiste com o que era fácil. Desafiaste os poderes. Minaste os políticos. Derrubaste muros de silêncio. Andaste, meu sacana, a brincar com a tropa e com a Igreja e com outras coisas sérias… Zombaste dos burgueses, irritaste os conservadores, gozaste “les flamandes”, inquietaste as senhoras de bem e deste porrada nos cretinos, nos imbecis e nos idiotas… E denunciaste a guerra, a intolerância e a hipocrisia dos homens. E lutaste sempre pela paz, pela liberdade e pela justiça.
Agora sei que o teu coração sangrou pelos infortúnios do mundo. Tu, o controverso, o arrebatado e, por vezes, o violento, fizeste da amizade um padrão de vida. A tua bondade, o teu altruísmo e a tua generosidade não tinham tamanho. Por isso cantaste a dor e a mágoa de todos nós. Cantaste o teu triste e pluvioso Pays bas, revisitaste a tua infância, rasgaste o peito com o Ne me quitte pas, dançaste o Tango fúnebre da tua morte anunciada e a Valse à mille temps da tua bulimia de viver.
Cá por mim não me importava nada de ter sido teu amigo. Para contigo acender cigarros na noite e ser, como tu, um “voyageur perdu”. Sim, daria tudo para viajar contigo para os portos de Amsterdam e do mundo inteiro. Festejar a vida e o amor! Conhecer uma ou outra mulher “belle et cruelle”. Ter-te a meu lado a beber quantidades industriais de cerveja e dedilhar na tua guitarra canções dos nossos 20 anos… Aprender contigo a rimar “tendresse” com “tristesse”, “putain” com “chagrin”, “nuage” com “voyage”, “frontiére” com misére”…
Acima de tudo, gostaria de envelhecer contigo, meu bom Jacques, e, tal como tu, gritar aos quatro ventos: “Quand je serai vieux je serai insuportable”…
Ainda hoje, Brel, sinto uma grande emoção quando oiço a tua voz, tão viva como dantes. Ainda hoje te vejo como um trovador, um Quixote, um sonhador, um poeta! Um poeta com um coração imenso. Um poeta que interpretava a palavra certeira e o silêncio magoado, com gestos cénicos e dançados… E as tuas mãos, Brel, as tuas mãos enormes afagavam os versos e eram a raiva, a ironia, o sarcasmo, a ternura…
Fazes-nos falta, Jacques Brel, porque andamos carenciados de sonho, de amor e de ternura. Tu próprio o disseste: “A canção é um acto de amor, um acto de ternura”. Por isso queremos manter-te vivo a cantar as tuas canções. Foi o que fez o meu falecido amigo Sérgio Luís, teu admirador profundo que traduziu para português todos os teus poemas e criou um blogue sobre ti. Ambos recordámos a tua passagem por esta ilha e fizemos Jaques Brel no porto da Horta para a RTP/AÇORES.
Quando cá estiveste, há 44 anos, a revolução de Abril ainda estava na rua. Chegámos a acreditar em manhãs radiosas, porque “foi bonita a festa, pá”, como cantou, do outro lado do mar, o nosso amigo Chico Buarque. Mas hoje, meu caro, vivemos de resignações televisivas e de outros futebóis e só queremos que “não nos falte o dinheiro para o bife”… (Lembras-te do Zeca Afonso?).
“Em Portugal o mal é ancestral”, escreveu um poeta português que muito te admirou e até copiou alguns dos teus versos: José Carlos Ary dos Santos. E houve um cantor que durante algum tempo viveu aqui no Faial e pretendeu ser o Brel português: Fernando Tordo… Mas a tua voz sempre foi única, exclusiva, inimitável.
Aqui a cidade da Horta também já não é o que era. Quatro décadas depois, temos mais automóveis e menos gente. Mais funcionários públicos e menos povo. Mais crédito e menos dinheiro… Só o Pico à nossa frente é que continua a ser infinitamente belo!
E temos uma Marina onde cabem todos os iates do mundo. O nosso porto continua abrigado e nós continuamos a ser hospitaleiros e cosmopolitas. Só que, “hélas”, a nossa hospitalidadezinha é uma forma de escondermos o nosso provincianismo paroquial… E o nosso cosmopolitismo rima com o nosso ruralismo pequeno-burguês. À bon entendeur…
Para sempre guardarei o teu retrato no fundo do meu espelho.
Adeus, meu doce, meu terno, meu maravilhoso amigo!
Toma juízo, não fumes tanto e volta depressa!
Um grande abraço de mar!

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