URBANO BETTENCOURT SANTO AMARO

Urbano Bettencourt
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FONTE DE NOSSA SENHORA

Há uma foto desse tempo em que a água brotava ainda ao som e no balanço de um andamento leve que fazia de “Fonte de Nossa Senhora” um verso de redondilha. Fosse ela a cores, e não a preto e branco como aqui a temos, e veríamos os tons do arco-íris tocar de mistério e sagração os corpos envoltos na nuvem de gotículas em que o jorro se transformara, num efémero duche de Verão irrepetível. Descuidados estão eles e elas, talvez mais elas do que eles, no lado de cá dos vinte anos e num «engano de alma, ledo e cego», ameaçado, todavia, pelos sinais que da outra margem anunciam tempos de fogo e sangue a sul dos trópicos e da sua morte.
Trinta e alguns anos depois dessa água que não incendeia já o ar junto à Fonte de Nossa Senhora, uma foto vem resgatar a memória da inocência perdida nos atalhos do mundo. E lembrar que talvez a pátria se resuma, afinal, à porção de mar que soubermos guardar na concha da mão esquerda e ao punhado de terra onde, à direita, semeias sete grãos de trigo e que, um dia, lançarás ao vento para vir depois cobrir o teu próprio corpo.

Fonte de Nossa Senhora,
no teu silêncio de sala:
minha vida anda perdida
talvez aqui possa achá-la.

…………….
«Santo Amaro sobre o Mar» (desenhos de Alberto Péssimo)

1.ª ed. , 2005; 2.ª ed. 2009 (com arranjo gráfico de Mário leal)

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NEMÉSIO E O DIA DOS AÇORES POR URBANO BETTENCOURT

DIA DOS AÇORES

Esta ave das ilhas, que o nosso olhar surpreende numa língua outra e muito longe do seu chão, vem dos fundos do tempo nemesiano anunciar-nos os seus domínios à beira do Atlântico. Desde o ano de…
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Esta ave das ilhas, que o nosso olhar surpreende numa língua outra e muito longe do seu chão, vem dos fundos do tempo nemesiano anunciar-nos os seus domínios à beira do Atlântico. Desde o ano de…
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URBANO BETTENCOURT [ANGRA, alguns sinais. 10 anos antes do Sismo]

[ANGRA, alguns sinais.
10 anos antes do Sismo]

5.
E chegam os Gronistas com suas artes narrativas de águas turvas. Evoé! Eles pescam à linha ou à coluna, veneram os avanços tecnológicos e vêm-se nas ondas como já outros nos tambores ou nos sinais de fumo até nós se vinham. Ouço-os pela manhã e a cada nova sua mais velho sinto o corpo e a alma bota:

«As multidões abandonam as cidades marítimas onde o progresso sobre vertiginosamente, graças a um moderníssimo sistema de roldanas. É indescritível, caros rádio-ouvintes, o frenesim destas massas possessas e endoidecidas por um visionário que lhes prometeu navios no alto das montanhas. A agência que organiza esta autêntica excursão requisitou civilmente ex-seminaristas, ex-maridos & outras gentes de má fama & condição, ministrou-lhes um curso intensivo para sapadores e ei-los armadilhando os caminhos atrás dos trânsfugas, que deste modo protegem dos tubarões ludibriados.
Notícias de última hora e de fontes normalmente bem conformadas referem que, afinal, não deverá surgir navio algum no alto das montanhas, como, aliás, já tão acauteladamente vaticinara o porta-voz do governo civil. Agora, a multidão reunida no alto da ilha e impossibilitada de regressar, pois a equipa de sapadores morreu quando montava a derradeira mina, vê-se a braços com o problema da subsistência. Algumas pessoas, contra as quais se pronunciou já a Sociedade Protectora dos Anelídeos, têm-se dedicado à apanha da minhoca com que vão engatando os pássaros mais incautos e desprevenidos; outras (a maioria, segundo os censos) aguardam ordeiramente o fim do bloqueio e uma solução miraculosa; outras ainda entregam-se ao amor livre nos intervalos do sono, enquanto um último e reduzido grupo vai roendo o que resta das coxas musculosas da ex-empregada de bar que se suicidou após ter sido engravidada por um destacado membro da Liga para a Defesa dos Bons Costumes.»

(«Algumas das Cidades». Angra: Instituto Açoriano de Cultura, 1995. Capa de Álamo Oliveira)

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EDUARDO BETTENCOURT PINTO

EDUARDO BETTENCOURT PINTO

Na dobra do lençol

Um frescor vem das pedras mais antigas,
as de Maio.
As crianças crescem
com a primavera,
matam a sede com a água das sombras
mais brancas.

Ouves agora a música que resta.
Já altos, contra o azul,
perdem-se os patos selvagens
que imaginas, as borboletas,
o frescor de algumas palavras.

Alguns nomes morrem entre as silvas.
Outros florescem nas tuas mãos

(em «Travelling with shadows/viajar com sombras», 2008)

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PARABÉNS AO “NOSSO” URBANO

Pedro Almeida Maia and 3 others shared a post.

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Letras Lavadas

Parabéns Urbano Bettencourt, o quarto dos 5 premiados com o 1º prémio literário Letras Lavadas. Com a colaboração PEN Açores

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Urbano com segredos e silêncios

Urbano Bettencourt
46 mins

https://www.facebook.com/culturacores/videos/296066644697071/

RUI DUARTE RODRIGUES:

«COM SEGREDOS E SILÊNCIOS»

– A minha evocação de um poeta sereno e discreto.

865 Views
Cultura Açores

Urbano Bettencourt oferece-nos “Com Segredos e Silêncios” de Rui Duarte Rodrigues.

#CreativeEuropeatHome

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ALAMO OLIVEIRA POEMAS VADIOS

(o mais recente livro de Alamo)

ÁLAMO OLIVEIRA

graciosa ilha

chego como as palavras de verão
que se deixam afogar no lago das sombras.
vejo a ilha na concha da mão
dormir sob o cobertor da serenidade.
sento-me ao lado do tempo como
moinho parado à espera que d. quixote
me assalte com a utopia a trote de rocinante.

aqui a vida é a rendeira que se diverte
a prender a morte na sua teia de linho
e caio na ignorância de uma laça perdida.
estou aqui sem ter jeito para ver
quem navega pela penumbra misteriosa do nevoeiro.

às vezes esqueço que não posso ver o mundo
sem arredar a cortina das araucárias.
arredo-a plissada de silêncios
e só uma garça rasga o céu
com a liberdade do seu voo.

ah se a ilha moesse esta solidão
e a desse aos ventos da memória
talvez soubesse o seu nome de forma graciosa
e a inscrevesse como um sonho
que se avista na linha do mar. apenas.

( 2020)

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URBANO BETTENCOURT · (quarentene-se em boa companhia…das ilhas

(quarentene-se em boa companhia…das ilhas)

JOSÉ MARTINS GARCIA:

EXTRATERRITORIAL

da relação entre língua e alma
(obviamente colectiva a última)
há tratados tratantes até ao vómito

se tudo fosse como ficou dito
(a blasfémia científica será menor que a outra)
então eu acataria plácido o meu inferno

a minha alma (egoísmo) não é a língua portuguesa
(embora em português me exprima e desespere)
mas um amálgama de nativos erros

por comparação com o padrão que todo lo manda
(excepto obviamente a transgressão que sou)
erros saborosos que infeliz-dificilmente ressuscitarei

assim ementes podrigos de pecados
ingeirados à bocanha dos jarões
como nasseiquedigas e maroiços basta

(lá se foi o relâmpago isolado
onde fulgiu a ilha e logo o escuro
portuguêsmente me devolve a alma usual)

ah lembro-me de me proibirem o verbo abaniar
tão expressivo dizer atirar para algures
o impróprio objecto isto é menos ũa alma

et puis un jour j’ai lu l’histoire
de la Chèvre de Monsieur Seguin
et puis le matin le loup la mangea

agora ando a ler só notas de rodapé
que em português-inglês já são de pé de página
onde muito aprendo da corrupção anímica

onde se explica que morrer frizado é enregelar de vez
e que o sinó é filho factual do tempero açoriano
onde neve não há nem frizas que se prezem

nem comida encanada nem draivas de bâses
nem bossas de camelo nem dos outros
nem lá os talafones servem pra chamar alguém

chamo a isto uma breve amostragem
da alma (se ela é língua) às postas
e pouco rentável no mercado do saber
(

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