URBANO BETTENCOURT · Carta para Fatima Bettencourt

Carta para Fatima Bettencourt
Cidade da Praia

Fátima,
A mensagem vai assim em formato de carta & tal, apenas para me desculpar pela demora em dar notícia dos teus «Sonhos e Desvarios», cuja leitura acabei há bastante tempo.
À medida que fui prosseguindo compreendi o que me tinhas dito em mensagem anterior, ao afirmares que tinhas saído da tua zona de conforto.
Na verdade, vejo que te deslocaste de contexto e espaços, ao encontro de outras gentes e de outros quotidianos, com as incidências muito particulares de uma «modernidade urbana» e das suas vidas miúdas – o contencioso entre o indivíduo e o poder, os equívocos e conflitos daí resultantes, o atrito por vezes violento entre a liberdade e as convenções sociais, o desajustamento em relação a uma realidade cujos contornos já não quadram bem com um conjunto de valores adquiridos e tidos por imutáveis.
Mas surpreendeu-me principalmente a estratégia narrativa utilizada com o recurso ao sonho como outro plano do «real» – por vezes em antecipação, mesmo que incompreensível a um primeiro momento e em conflito com os dados observados, outras vezes o sonho como matéria integral da narração. O que daí resulta é uma oscilação de fronteiras entre a realidade e a imaginação que se tem dela, o lugar instável do leitor perante um universo narrativo desta natureza, em que mesmo o insólito e o estranho são apresentados num registo de perfeita «naturalidade». E nada disso anula o olhar lúcido sobre a realidade actual, as suas incongruências e desvarios; antes, a convoca e a representa nos seus paradoxos e arbitrariedades, com a sua violência sobre os cidadãos, num discurso a que não falta, às vezes, a dimensão irónica e que se mantém sempre dentro de um tom «tranquilo» que não deixa, por isso, de ser menos eficaz na denúncia social. Neste aspecto, «Em trânsito» é a todos os títulos uma narrativa notável, digo eu, mesmo que o teu coração de narradora possa ter outras preferências.
Por tudo isso (e também pelo que aqui se poderia dizer ainda) vão os parabéns deste mano do Norte – mano nas letras e também no sobrenome comum trazido da Normandia por um antepassado remoto «de cuyo nombre no quiero accordarme.»
Grande abraço do Urbano

Ponta Delgada, 29 de Outubro de 2019

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URBANO 2019 EM REVISTA

2019. E AGORA EU

Andei muito por ai, durante este ano, à conta de textos e projectos alheios (Pedro da Silveira e J. H. Santos Barros, entre os nomes já desaparecidos)
.
Mas 2019 deixou-me também algumas realizações mais pessoais. Do que em termos poéticos ficou impresso vai abaixo o registo: entre a edição da minha poesia nos Açores e nas Canárias e a participação nas colectâneas «A Garganta Inflamada» (Companhia das Ilhas) e «Arca» (Ediciones del Pampalino, Canárias) para a qual levei as cabras cabo-verdianas, de que Noé se tinha esquecido.

Nenhum homem é uma ilha, escreveu John Donne; prefiro pensar que cada homem é a confluência de muitas ilhas. Por isso, o meu abraço de gratidão a todos os amigos que me possibilitaram a colheita deste ano.

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Património Literário Açoriano | Urbano Bettencourt

A consideração da literatura numa dimensão patrimonial assenta, de modo geral, em dois aspectos que relevam da sua natureza enquanto processo individual  e social também. Em primeiro lugar, o poder…

Source: Património Literário Açoriano | Urbano Bettencourt

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RECEITAS PARA FRITAR A HUMANIDADE

E mais este.

RECEITAS PARA FRITAR A HUMANIDADE

«Sendo os pedagogos indivíduos fanaticamente apostados em fritar a humanidade, nada mais delicioso do que saber-se que um pedagogo caiu na frigideira.» (p. 19)

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José Martins Garcia: REVOLUCIONÁRIOS E QUERUBINS

José Martins Garcia:
REVOLUCIONÁRIOS E QUERUBINS

Os textos de J. Martins Garcia «eram, na altura, politicamente da mais bárbara incorrecção» , escreve Fernando Venâncio, que leu o livro duas décadas mais tarde para descobrir que «estas crónicas de José Martins Garcia são, mesmo vinte anos depois, talvez sobretudo vinte anos depois, um assombro»

(Fernando Venâncio, «Maquinações e bons sentimentos – crónicas literárias». Porto, 2002)

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Comments
  • Gil Reis Admirável. PARABÉNS Amigo pela continuidade dessa sensibilidade e pelo respeito e admiração pelos outros. Não é para TODOS. O meu respeito e sobretudo a minha admiração
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