28 ANOS APÓS SANTA CRUZ 2

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Antonio Sampaio added a new photo to the album Timor-500Anos-40Anos Reportagens e Entrevistas.

Santa Cruz foi há 24 anos. Há uns nomes mais conhecidos que outros. Hoje a Agência Lusa conta duas histórias de dois nomes menos conhecidos.

O segundo é Zeferina dos Santos.

Temático Timor-Leste – Timor-Leste: O sangue de Santa Cruz que mancha a camisa branca com pintas de Zeferina (C/ VÍDEO E FOTO)

*** Serviço vídeo disponível em www.lusa.pt ***

*** Por António Sampaio, da agência Lusa ***

Díli, 11 nov (Lusa) – À primeira vista poderia parecer um pano vermelho que lhe cai ao longo do peito até às mãos, mas rapidamente se percebe que o vermelho, afinal, é sangue e que começa mais acima, na cara de Zeferina dos Santos.
Está encostada à parede do interior da capela do Cemitério de Santa Cruz, camisa branca com pintas pretas – ainda que grande parte manchada de vermelho -, mangas até ao cotovelo e o cabelo a aparentar estar apanhado.
Na imagem que registará para sempre essa manhã fatídica de 12 de novembro de 1991, o elemento mais poderoso da fotografia nem é o sangue que cobre o rosto, a roupa e os baços de Zeferina. São os olhos.
Não chora e, se acaso chorou, o sangue lavou-lhe as lágrimas. A raiva que se poderia esperar, agora que se interpreta a imagem 24 anos depois, não está presente. É antes um olhar quase vazio, ausente, resignado.
Esse olhar não mudou ainda que a jovem de 25 anos de então seja hoje uma mãe de sete filhos que está “contente pela independência”, como explica à Lusa numa conversa no Arquivo e Museu da Resistência Timorense (AMRT) em Díli.
A imagem é de Max Stahl e tornou-se um dos retratos mais poderosos do massacre de Santa Cruz.
Não o maior mas certamente o mais importante massacre da história da ocupação indonésia de Timor-Leste. As imagens do jornalista inglês fizeram do mundo testemunha para o que a resistência dizia há 16 anos, gritando praticamente sem ser ouvida.
“Houve missa na Igreja de Motael e depois fomos a Santa cruz. Quando chegámos ao cemitério houve muita confusão e alguns cá fora começaram a dizer que tínhamos que entrar. Ouvi tiros, caí e caíram muitas pessoas por cima de mim. Fiquei cheia de sangue”, recorda.
“Sim. Pensei que ia morrer. Perdi os sentidos. Ouvi os tiros e pensei que ia morrer. Quando caí perdi a consciência”, relembra, falando em tétum, uma das duas línguas oficiais de Timor-Leste. A outra é o português.
Zeferina, sobrevivente de um massacre que ceifou mais de 250 timorenses (e o neozelandês Kamal Bamadhaj), conversa encostada à cronologia que mostra a história da luta pela independência de Timor-Leste nas paredes do AMRT.
A sua imagem é um dos símbolos mais poderosos da mostra, por cima das imagens, em vídeo, recolhidas também por Max Stahl e que passam, ininterruptamente, num pequeno ecrã ao seu lado: o som da sirene, em ‘loop’, a acrescentar ainda mais dramatismo ao momento que, dizem muitos, mudou a história de Timor-Leste.
“O sangue é das outras pessoas que caíram por cima de mim. Quando acordei vi que estava uma camioneta para atirar para lá os mortos. Levantei a cabeça e um dos militares, apontou-me a arma e disse-me para me levantar”, explica.
“Levantei-me devagar e o militar deu-me pontapés com as botas”.
E de novo o olhar. Agora mais destemido, porque Zeferina não se arrepende de lá ter estado. Nem de desafiar as irmãs.
“Quando estava a sair de casa as minha irmãs proibiram-me de ir, mas estava decidida, tinha que sair. Quer morresse quer não”, diz.
É difícil ver as imagens? “Sim, custa muito. Penso que poderia ter morrido”.

ASP // EL
Lusa/Fim

http://noticias.sapo.tl/portugues/lusa/artigo/19955165.html

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28 ANOS APÓS SANTA CRUZ . TIMOR

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Antonio Sampaio added a new photo to the album Timor-500Anos-40Anos Reportagens e Entrevistas.

Santa Cruz foi há 24 anos. Há uns nomes mais conhecidos que outros. Hoje a Agência Lusa conta duas histórias de dois dos nomes menos conhecidos.

O primeiro é Saskia Kouwenberg.

Timor-Leste: Imagens do massacre de Santa Cruz sairam escondidas dentro de roupa interior

*** Por António Sampaio, da agência Lusa ***

Díli, 11 nov (Lusa) – Dois dias depois do massacre de Santa Cruz, a 14 de novembro de 1991, Saskia Kouwenberg coseu duas cuecas uma à outra, arranhou o interior do nariz até chorar e deixou cair sangue no tecido, que escondia um documento vital.
A ‘bolsa’ improvisada pela holandesa, manchada de sangue, tinha no seu interior a cassete com as imagens do massacre no cemitério de Santa Cruz, recolhidas pelo jornalista inglês Max Stahl e que, para muitos marcaram um momento de viragem na questão de Timor-Leste.
Foi uma medida preventiva. Saskia Kouwenberg, que aceitou pela primeira vez contar a história, explicou à Lusa que o conteúdo da cassete que transportou de Díli tinha que chegar às televisões de todo o mundo.
Pensando que a sua bagagem poderia ser revistada – e contando com os eventuais preconceitos muçulmanos caso isso acontecesse -, Kouwenberg, que conversou com a Lusa pela rede social Skype, a partir de Amesterdão, queria garantir que as imagens não seriam descobertas.
“Pedi a um jornalista que me arranjasse agulha e linha. Eu uso sempre cuecas enormes. Confortáveis mas enormes. Arranhei tanto o nariz que até chorei. E enchi as cuecas de sangue, e depois cozi duas e meti a cassete lá dentro e fui para o aeroporto”, recordou.
Envolvida no movimento pacifista da década de 1980 teve o primeiro contacto com os timorenses em Darwin, norte da Austrália, para onde se mudou com o marido no início dos anos 1990.
A proposta visita de uma delegação parlamentar portuguesa a Díli, em outubro de 1991 fez aumentar o interesse à volta da situação em Timor. Como a visita coincidia com uma viagem que Saskia e o seu marido na altura, Russell, deveriam fazer à Europa, decidiram incluir uma passagem por Díli.
“Na altura disseram que ia ser muito difícil entrar, que não íamos conseguir. Mas conseguimos entrar. Só que a visita da delegação acabou por ser cancelada e tudo entrou em colapso”, recorda.
O Governo indonésio rejeitou a inclusão na delegação – de que fariam parte 12 jornalistas – da jornalista australiana Jill Jolliffe, considerada próxima da resistência, e Portugal recusou manter a visita se esta fosse excluída.
“Isso gerou pânico em Timor. Muitas pessoas e muitos jovens tinham-se preparado para visita e queriam, a todo o custo, falar com eles”, recorda Saskia, uma dos sete ou oito estrangeiros que estavam em Díli na altura.
A tensão aumentou e a 28 de outubro tropas indonésias e elementos pró-integracionistas atacaram um grupo de jovens que estava na Igreja de Motael a preparar manifestações para receber a delegação parlamentar, de que resultou a morte do jovem pró-independentista Sebastião Gomes e do pró-integracionista Afonso Henriques.
A 12 de novembro realiza-se uma missa e cerimónia em homenagem de Sebastião Gomes e milhares de pessoas dirigem-se de Motael até ao cemitério de Santa Cruz.
Durante o percurso alguns abriram cartazes e faixas de protesto. As forças indonésias respondem com extrema violência, matando mais de 250 pessoas.
Um ativista neozelandês, Kamal Bamadhaj, foi morto, dois jornalistas foram espancados, os americanos Amy Goodman e Allan Nairn, e as imagens foram registadas pelo jornalista inglês Max Stahl.
Nesse dia Saskia estava como uma grande dor nas costas, que praticamente não a deixava movimentar-se. Gravou algumas imagens, ainda na igreja, e regressou ao Hotel Díli, onde estava hospedada.
“Quando saí de novo vi que a cidade estava praticamente deserta e comecei a perguntar o que tinha acontecido. Estavam pessoas escondidas em vários locais que disseram que tinha acontecido algo muito mau”, contou.
“Nessa noite falei com o Max que disse que tinha escondido o filme no cemitério. Ele foi lá busca-lo e, depois a questão era quem tirava o filme de Timor. Eu ofereci-me porque não tinha sido vista em Santa Cruz”, explica.
Primeiro tentou com o Relator Especial da ONU para Direitos Humanos e Tortura, Pieter Kooijmans, que estava em Díli a quem pediu se podia levar a cassete.
“Ele disse que não. Estava borrado de medo. Falei também com a Embaixada holandesa. Ninguém acreditava que isto tinha acontecido”, disse.
Retirar a cassete com as imagens de Timor-Leste, recorda, foi uma espécie de “filme B” que começa no aeroporto onde chega, no dia seguinte, com o seu marido e o americano Steve Cox, e é informada de que o voo estava cheio.
“Eu corri para o avião a dizer que tinha que sair. Os militares tentaram tirar-me das escadas. Estava aos gritos. E enquanto isto estava a decorrer o Kooijmans passou por mim e fez que não me conhecia”, disse.
“Depois de muitos gritos e discussão deixaram-me entrar com o Steve Cox e o Russell. E quando chegámos vimos que havia mais lugares vazios. Foi uma situação muito tensa”, disse.
Os seus companheiros de viagem saíram em Kupang, Timor indonésio, e Saskia continuou até Bali onde se misturou com turistas enquanto esperava ligação para Jakarta.
Ali, depois de uma conversa de uma hora entre o embaixador e as autoridades indonésias, acabou por passar pela zona VIP, sendo levada para um quarto na missão diplomática de onde não pode sair.
“Eles insistiam que eu entregasse tudo o que tinha comigo. Diziam-me que eu não ia conseguir sair com o filme. Pensei e dei-lhes um pacote que disse que só podiam entregar ao charge d’affairs – que eu sabia que estava fora. Eles pensaram que era a cassete mas era só uma cópia do livro Exodus”, conta, sorrindo.
Coze as cuecas e prepara-se para nova viagem para o aeroporto antes do voo para Amesterdão. Apesar do medo e de mais negociações com as autoridades indonésias é levada de carro à porta do avião e embarca, sem que a sua mala seja sequer revistada.
“Passam quatro dias entre sair de Díli e estar em segurança. Na Holanda tive que dar o filme aos donos que tinha contratado Max Stahl. Eu queria que o filme fosse transmitido nessa mesma noite porque ainda havia a controvérsia porque a Indonésia negava que tinha havido um massacre em Timor”, disse.
“Eles insistiam que as imagens eram para usar num documentário. E eu recusei-me a entregar a cassete. Pedi primeiro à televisão holandesa que fizesse uma cópia. E essas foram as imagens transmitidas na noite de sábado 16, cinco dias depois do massacre”, recorda.
Um momento crucial para Timor-Leste, quer pelo reconhecimento internacional que o problema assumiu mas, destaca, pelo impacto que as imagens tiveram em Portugal.
“Até Santa Cruz havia tanta negação na comunidade internacional sobre o que estava a acontecer. E aqui tínhamos um exemplo em que os indonésios diziam que nada tinha acontecido, e as imagens mostraram o contrário, que algo grande tinha ocorrido”, disse.
“Essas imagens fizeram uma grande diferença especialmente em Portugal. Porque as pessoas na capela e no cemitério estavam a rezar em português. E em poucos dias todas as casas em Portugal acenderiam velas por timor, comprometendo-se a não abandonar Timor de novo”, afirmou.

ASP // EL
Lusa/Fim

http://noticias.sapo.tl/portugues/lusa/artigo/19935973.html

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28 ANOS APÓS SANTA CRUZ, DÍLI, TIMOR

-1:50

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Claudio Savaget Timor-Leste

AGORA EM DÍLI
Vigília no Cemitério de Santa Cruz.

Nesta terça-feira, 12 de novembro, milhares de pessoas vão participar de uma grande marcha para lembrar os 28 anos do Massacre do Cemitério de Santa Cruz. As imagens gravadas pelo jornalista Max Stahl foram exibidas em todo o Mundo e alertaram para a tragédia humanitária que acontecia em Timor-Leste. Foi o começo do fim da ocupação Indonésia.
Imagens: Equipe do CAMSTL-Centro Audiovisual Max Stahl Timor-Leste.

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Austrália acusada de censura a livro sobre história de Timor-Leste

O Ministério dos Negócios Estrangeiros australiano está alegadamente a tentar censurar partes do primeiro de dois volumes da história de operações militares australianas em Timor-Leste, o dedicado à Interfet, segundo a imprensa australiana.

Source: Austrália acusada de censura a livro sobre história de Timor-Leste

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Official history of Australia’s East Timor operations on ice amid censorship claims

 

SMH.COM.AU

‘Beyond the pale’: Official history of Australia’s East Timor operations on ice amid censorship claims

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A legacy project of former prime minister Tony Abbott – an exhaustive official history of Australia’s military operations in East Timor, Afghanistan and Iraq – is in danger of collapse amid claims that bureaucrats are trying to censor its first volume.

The history of Australia’s peacekeeping operations in East Timor was expected to be published two months ago but has been stymied by what sources described as unprecedented resistance from the government, especially Marise Payne’s Department of Foreign Affairs and Trade.

Then prime minister John Howard farewells Australian soldiers heading to East Timor in September 1999.
Then prime minister John Howard farewells Australian soldiers heading to East Timor in September 1999.CREDIT:AP

The Australian War Memorial’s official historian Craig Stockings – who is the lead author on the East Timor volume – is said to be “very frustrated” by the delays and major changes demanded by bureaucrats, and threatening to resign.

While it is routine for government departments to provide feedback on publications such as this, a senior figure with direct knowledge of the project said DFAT’s objections were “beyond the pale”.

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Multiple sources, including one who worked on the volume, said the government wanted major changes to the draft to water down revelations about the actions of Australian officials and the Indonesian military during the deployment in 1999 and 2000.

As written, the history could anger the Indonesians and humiliate senior Australian bureaucrats “who in hindsight look overly accommodating of Indonesia and its actions”, according to an academic source with knowledge of the project.

“It counteracts the triumphant post-event narrative and it shows some unpleasant truths. There is concern about just how brutal and frank the judgments are on what transpired,” the source said.

“Craig is a historian with a reputation for integrity and he is not prepared … to mince words.”

Another source suggested the government was worried the publication might dissuade Indonesia from co-operating in efforts to tackle people smuggling.

A DFAT spokesperson said the department had worked with the War Memorial on the project since 2016, providing access to its classified records and making its staff available for interview.

“We have provided comments to the War Memorial and will continue to engage constructively on all the Official History volumes,” the spokesperson said.

Them prime minister Tony Abbott and Brendan Nelson pictured together in 2014.
Them prime minister Tony Abbott and Brendan Nelson pictured together in 2014.CREDIT:ANDREW MEARES

The official history of East Timor operations was commissioned by Mr Abbott in 2015 along with other volumes covering Australia’s operations in Afghanistan, Iraq and the Middle East. The 2015 budget contained almost $13 million for the project.

Professor Stockings – who served in the International Force East Timor (INTERFET) deployment in 1999-2000 as a junior officer – was appointed as official historian the following year, by which time Malcolm Turnbull was prime minister.

At the time, War Memorial director and former defence minister Brendan Nelson said of the appointment: “As Australians, we are fortunate to live in a free society, with a stable government and a privileged way of life. It is these very freedoms that the servicemen and servicewomen who represented us in Iraq, Afghanistan, and East Timor served to protect. For that, we must honour them, and this official history series, led by Dr Stockings, will do just that.”

Asked about the conflict with the government regarding the East Timor project, Dr Nelson said he had “no comment to make”. Professor Stockings was also approached for comment.

Major General Peter Cosgrove, right, commanded the Australian-led INTERFET deployment to East Timor.
Major General Peter Cosgrove, right, commanded the Australian-led INTERFET deployment to East Timor. CREDIT:AP

Brad Manera, senior historian at the Anzac Memorial in Sydney, said he had no direct knowledge of the project’s current status but Professor Stockings and his team were “historians that Australia can be proud of”.

“So if they’re being censored there’s something fundamentally wrong with the way we as Australians relate to the truth and the past,” he said.

“There’s absolutely no doubt they want the story to be told in a way that does our veterans proud but also does not censor the way we see ourselves.”

September marked the 20-year anniversary of INTERFET’s deployment to East Timor, commanded by then major general Sir Peter Cosgrove, prior to the arrival of United Nations peacekeepers.

Researchers had access to highly-classified documents including transcripts of meetings with the Indonesians and East Timoreans. They interviewed Australian departmental staff and Indonesian generals, among others.

Emeritus Professor of history Peter Dennis, who said he edited parts of the volume but had no involvement in or knowledge of its status, noted the publication was lengthy and government approvals often took a long time.

He said projects of this nature regularly diverted from what was originally expected. “Any history that anyone writes – it doesn’t always turn out the way people expect it to, in any situation.”

Mr Abbott declined to comment. Last month, Veterans Affairs Minister Darren Chester announced Mr Abbott’s appointment to the Australian War Memorial’s governing council, filling a vacancy left by the death of acclaimed author, historian and former editor of The Age, Les Carlyon.

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Património de Influência Portuguesa Palácio das Repartições Cidade de Dili – Timor

Património de Influência Portuguesa
Palácio das Repartições
Cidade de Dili – Timor
Equipamentos e infraestruturas.

O atual edifício do Palácio do Governo ou das Repartições é assim designado por nele se concentra‐ rem vários serviços públicos e como forma de o distinguir da residência do governador, situada na zona suburbana de Lahane. Fronteiro à Avenida Marginal de Díli, foi erigido na década de 1950, no âmbito do plano de reconstrução levado a cabo pelo governo português na sequência da devastação de que o território timorense fora vítima no decurso da Segunda Guerra Mundial.
O palácio constitui um cenário de frente urbana sobre uma praça cerimonial virada ao mar. Essa função, com usos, funções e cargas simbólicas próprias, precedeu a praça urbana formal. Esta, quando foi desenhada e assumida, replicou simbolicamente a Praça do Comércio de Lisboa, com estátua do Infante D. Henrique ao centro e tendo por limites o Palácio do Governo pelo sul, o mar pelo norte, o Quartel de Infantaria pelo poente e um vazio arborizado a nascente. Formalmente, o edifício recorre ao modelo espalhado pelo império durante a década de 1950. Construção tradicional portuguesa em dois pisos, com telhados de quatro águas e beirados, enfatizando a frente com arcada ao nível da praça e varanda com colunata de pilares e cobertura plana em placa de betão. Ao centro da composição, enfatizando o eixo de simetria, os três arcos centrais e o correspondente troço da varanda superior são porticados citando um peristilo, encerrando‐se a varanda e apresentando três vãos de peito eixados pela arcaria.
Curiosamente, o palácio é composto não por um, mas por três corpos, sendo os laterais ligeiramente reduzidos na sua extensão em relação ao corpo central, pois apresentam quinze arcos (três centrais e seis laterais de cada um dos lados), enquanto o corpo central apresenta dezassete (três centrais e sete laterais de cada um dos lados). Neles os pórticos de peristilo em cada eixo são menos enfáticos, pois mantêm a continuidade da varanda e não ultrapassam a cota do beirado, o que acontece apenas no corpo central.
Todos os corpos se desenvolvem para o tardoz em corpos secundários, perpendiculares ao plano da fachada e também de dois pisos, despidos dos elementos arquitetónicos que compõem a fachada principal, tais como arcarias, varandas e pórticos, apresentando‐se na sua simplicidade formal como elementos que estruturam, enquadram e apoiam, em termos funcionais, as áreas mais representativas que ocupam a frente da praça.
No período que antecedeu a independência de Timor, foram ali instalados os serviços da Missão das Nações Unidas para Timor‐Leste, mais conhecida pelo seu acrónimo inglês UNAMET, sendo o local refúgio de muitos timorenses durante o período de violência que se seguiu ao referendo de 30 de agosto de 1999. Posteriormente, o edifício seria sede da sucessora da UNAMET, a Administração Transitória das Nações Unidas para Timor‐Leste (UNTAET), que cessaria funções em 2002 com a independência. Presentemente, o edifício é a sede do Governo, retomando as funções iniciais de edifício sede do poder político.
Edmundo Alves e Fernando Bagulho
(in HPIP – Património de Influência Portuguesa)

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Património de Influência Portuguesa Centro de Saúde de Dili – Timor

Património de Influência Portuguesa
Centro de Saúde de Dili – Timor
Equipamentos e infraestruturas

O Centro de Saúde de Díli começou a ser construído em 1954, ao abrigo do I Plano de Fomento Ultramarino (1953-1958) para o território de Timor. O projeto inicial, solicitado pelo Governador de Timor, foi realizado, no Gabinete de Urbanização do Ultramar, pelo arquiteto José Manuel Galhardo Zilhão e remetido para a colónia, em 1952, juntamente com outros estudos preliminares de equipamentos para implantar em Díli. Seguindo-se à elaboração do Plano Geral de Urbanização de Díli (1951), estes estudos e projetos urbanísticos e arquitectónicos demonstravam a vontade do Governo em investir na reconstrução da capital que, à época, ainda se encontrava em ruínas, por consequência da ocupação japonesa durante a II Guerra Mundial, e que carecia dos equipamentos mínimos fundamentais para o seu funcionamento.
O projeto do Centro de Saúde previa a construção de dois edifícios: um corpo principal, reservado para consultórios e serviços de farmácia, e um anexo para funcionar como depósito e garagem. O edifício principal desenvolve-se a partir de uma planta em V que, no cruzamento das duas alas, desenha a esquina entre a antiga Rua Formosa (atual Avenida Cidade de Lisboa) e a Travessa da Bé-fonte. A entrada abre-se no ponto de encontro das duas fachadas compostas por galerias exteriores e protegidas, da incidência solar, por meio de grelhas. Em 1956, parte da verba do Plano de Fomento foi direcionada para a construção do edifício de anexos: um corpo de formato alongado disposto perpendicularmente ao limite da rua. Em 1966, de acordo com o relatório de execução do Plano Intercalar de Fomento, o anexo seria adaptado para funcionar como farmácia do Estado. Em 1957, foi atribuída verba para construção de um centro materno num edifício independente, posicionado na continuidade da ala norte-sul do edifício principal, de desenvolvimento ao nível do rés-do-chão por meio de uma planta em H, apresentando fachada tripartida, orientada para a travessa. Em 1959, neste último edifício instalou-se a Missão de Combate às Endemias que acabaria por sofrer adaptações, em 1969, para funcionar como Delegacia de Saúde.
Isabel Boavida
(in HPIP-Património de Influência Portuguesa)

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BAUCAU TIMOR PATRIMÓNIO ARQUITETÓNICO PORTUGUÊS

Património de Influência Portuguesa
Mercado de Baucau – Timor
Equipamentos e infraestruturas
De uma monumentalidade invulgar em Timor, cuja arquitetura colonial não prima nem pela riqueza nem pela originalidade, o Mercado de Baucau foi erigido por iniciativa do tenente Armando Eduardo Pinto Correia, administrador daquela circunscrição entre 1928 e 1934.

Inaugurado em outubro de 1932, o mercado, cujas dimensões mereceram a crítica de organismos governamentais, que consideraram a obra opulenta e excessiva, insere‐se num vasto plano de construção de edifícios públicos promovido por Pinto Correia, que contemplou a construção de duas residências para o administrador – uma em Baucau e uma outra em Venilale – as instalações da Secretaria da Circunscrição e Junta Local, bem como um conjunto de escolas, erigidas nas principais povoações da região.

De desenho afrancesado, ao modo como nas academias europeias se desenhavam os pavilhões para feiras e exposições agrícolas na transição entre os séculos XIX e XX, o Mercado de Baucau adquire uma escala inesperada no lugar, pelo carácter leve do edifício e pelo modo sábio como é implantado na transição entre colina e várzea, definindo um plano superior onde se desenvolve o mercado, com arcada em todo o perímetro e um plano inferior que constitui uma espécie de praça pública celebrativa, contemplativa do edifício e por ele dominada.

A diferença de cota entre os dois planos é assumida por embasamento cego e de massa, com escadaria monumental de dois braços, nascendo junto a cada torreão e terminando na linha de transição da colunata com o volume dos arcos centrais. Ao centro, entre as duas escadas e reforçando o eixo central da composição, aparece um portal encimado por frontão aberto ladeado por um par de colunas com capitel fitomórfico, sacralizando a depuração do embasamento com a introdução de um elemento arquitetónico requintado que confere ao lugar uma serenidade mais própria do templo.

Encima o embasamento a construção leve do mercado propriamente dito, composta pela galeria semicircular com colunata e arquitraves no intercolúnio, dois torreões nas extremidades e arco triunfal ao centro, com dois arcos menores laterais ao modo serliano, cuja unidade e leveza é acentuada pela caiação a branco. No coroamento da grande massa do embasamento, na cobertura da galeria da colunata e nos torreões, existe uma balaustrada também caiada a branco que acentua o ar leve e suspenso do edifício, delimitando‐o por uma espécie de delicado véu que desce até ao solo nas guardas das escadas, com balaústres e pilaretes nas transições dos planos inclinados e de nível.

Também nesta obra se sentiram os efeitos de uma campanha de obras transfigurante e descuidada, que eliminou a diferenciação de massa entre o embasamento e o corpo superior do mercado. Eliminou‐se o portal inferior com frontão e colunas, o que destruiu a finura da composição, substituindo‐a por um paredão caiado que banalizou a escadaria trocando monumentalidade por grandeza e, como se não bastasse, enfeitou‐se todo o sistema de arquitrave reta no intercolúnio da colunata superior com arcos lobados que transformam o edifício.
Edumundo Alves e Fernando Bagulho
(in HPIP – Património de Influência Portuguesa)

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