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RECONSTRUIR PONTES PARA O MUNDO LUSÓFONO

Joao Paulo Esperanca shared a memory.
1 hr

Escrevi há dois anos:
«Há quem acredite em “450 anos de ocupação e colonização brutal”. Estão enganados nos números, evidentemente. Timor convive com a cultura, religião e língua portuguesa há cinco séculos – foi essa influência que criou uma nação em TL com uma identidade distinta da dos povos de Timor Ocidental, das Flores, de Solor, de Róti, etc – mas a ocupação colonial existiu durante uma fracção desse tempo; por exemplo quando Dampier passou algum tempo em Lifau (que era então a “capital”) só encontrou lá três brancos, dos quais dois eram padres. É um insulto aos guerreiros timorenses de antigamente acreditar que esses três portugueses estavam a fazer uma ocupação e colonização brutal!… Mesmo durante a brutal conquista de Celestino da Silva as tropas portuguesas e moçambicanas de que dispunha eram relativamente reduzidas, mas teve nas suas campanhas 60 000 aliados timorenses, que não eram uma massa amorfa de guerreiros sem cérebro, o que significa que a História não é um conto de fadas de ogres contra unicórnios cor-de-rosa. Espera-se dos académicos, em especial, alguma objetividade.»

Porque vem a propósito, reproduzo aqui um texto (versão portuguesa) que escrevi há 10 anos, no jornal “Lia Foun”:

«RECONSTRUIR PONTES PARA O MUNDO LUSÓFONO
Timor é indiscutivelmente parte do espaço pluri-continental de convivência multissecular a que se chama actualmente a lusofonia. Essa convivência ao longo dos séculos não foi sempre pacífica, e seria uma falsificação tentar fingir que houve apenas partilha e amizade nas relações que se foram estabelecendo entre os muitos povos que habitam as terras lusófonas, porém a História é o que é, e o legado dos conflitos e alianças que se sucederam através de muitas gerações é hoje principalmente uma memória de caminhos percorridos em conjunto (ainda que muitas vezes um dos caminhantes estivesse na posição de opressor e outro de oprimido) e gostos, vivências e sensibilidades com muito em comum. Simplificando exageradamente a mensagem, digamos que o mundo lusófono é como uma grande família: apesar dos diferendos, rixas, abusos de autoridade, diferenças de opinião e de opções de vida, maneiras distintas de gerir a própria casa, revoltas e reconciliações, a verdade é que é muito difícil renegar a família, e saber onde estão as nossas raízes e os nossos ramos ajuda-nos a levar a vida para a frente com passos mais firmes.
A CULTURA TIMORENSE MODERNA É MESTIÇA
O historiador Geoffrey Gunn escreveu que “existem duas nações crioulas na Ásia do Sudeste, as Filipinas e Timor-Leste”, explicando que “as comunidades crioulas reflectem uma cultura híbrida que vão da cozinha ao vestuário, religião, transferências linguísticas e musicais”. Tenho dito em diversos lugares que acho que ele tem toda a razão. Estes países foram colonizados por Espanha e Portugal, respectivamente, e por isso foram expostos a um tipo de colonialismo com uma filosofia bastante mais assimilatória, nomeadamente ao nível cultural, do que a de outras potências coloniais europeias, tendo como resultado a criação de verdadeiras sociedades mestiças euro-asiáticas. Enquanto os holandeses, nas ilhas do que viria a ser a Indonésia, se preocupavam mais com os seus interesses mercantis, durante muito tempo não incentivando quaisquer iniciativas de proseletismo religioso nem de difusão da língua neerdandesa, os portugueses e espanhóis tinham a conversão ao catolicismo dos povos com que contactavam ou que conquistavam como uma das prioridades da sua política ultramarina. Os seus interesses económicos e geo-estratégicos eram indissociáveis do esforço de expansão da sua religião. Por isso o Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494, tinha a benção do Papa da época – segundo este acordo Portugal e Espanha, nações pioneiras na expansão marítima, haviam dividido entre ambos todo o mundo até então desconhecido dos europeus, e reclamavam para si o direito de conquista de qualquer terra ou povo que cada um encontrasse na sua metade, sendo parte do contrato que deveria proceder-se à conversão dos nativos ao catolicismo (depois a entrada em cena dos holandeses, ingleses, franceses e outros estragou os planos de hegemonia de portugueses e espanhóis). Como resultado desta ideologia colonial a influência cultural portuguesa, e principalmente a da Igreja católica de matriz portuguesa, foi provavelmente o mais importante factor de conformação da cultura timorense moderna. As grandes religiões dominantes no resto da Ásia, nomeadamente o hinduísmo, budismo, taoísmo e islamismo, quase não tocaram Timor. E o catolicismo aqui é historicamente, e também no imaginário colectivo dos timorenses, um legado português. Seria um erro pensar que a fé católica é menos sincera devido à importância que continuam a ter as crenças e práticas religiosas animistas. A religiosidade popular não segue os cânones teológicos do Vaticano, seja em Timor ou noutros lugares do mundo, como bem sabe quem, como eu, vêm do meio do povo. Em Portugal, velha nação católica que conseguiu a independência há mais de oito séculos, a fé na Igreja mantém-se até hoje nos meios rurais ao lado da crença em bruxas e lobisomens, esconjuros e maus-olhados, e ainda se realizam muitas cerimónias cuja origem é na realidade pagã. O que acontece em Timor é que a maior parte dos timorenses vive simultâneamente em esferas culturais que ora se sobrepõem ora se mantém separadas: acredita-se ao mesmo tempo no poder protector do ‘birun’ abençoado pelo lian-na’in do cnua dos avós e no do crucifixo que se leva na corrente pendurada ao pescoço ou da imagem de Santa Bakhita que vai pregada na camisola. Fazem-se as cerimónias animistas tradicionais aquando das colheitas, mas também se reza na missa para que a terra seja fértil e generosa. A religião tradicional costuma manter-se no entanto em círculos mais restritos (o cnua, o suco, a região vizinha de certa montanha, os reinos unidos por certa aliança sagrada, o grupo etno-linguístico…) e as subtilezas desses rituais não são conhecidas ou compreendidas pelos timorenses de outras regiões. Um lian-na’in fataluco, p.ex., pode ser respeitado por um timorense baiqueno ou tocodede pela autoridade e poderes que lhe reconheçam mas o que ele diz nas suas orações passa-lhes completamente à margem. A religião católica, pelo contrário, é supra-região, os rituais são partilhados pela grande maioria dos timorenses e estes sentem que fazem parte do todo nacional dos crentes; se os rituais tradicionais específicos de cada comunidade separam, os rituais católicos unem. Noutros países de tradição católica vieram a surgir nos tempos modernos movimentos culturais seculares que, ainda que tivessem raízes na cultura influenciada pelo catolicismo dos seus países, representavam um corte com ela, mas em Timor-Leste o embrião de um tal movimento no final do período colonial português foi extinto pela invasão indonésia, já que quase todos os que poderiam ser os seus teóricos e impulsionadores foram mortos pelos ocupantes, de forma que é também essencialmente católica a cultura urbana e das elites intelectuais do país. Podemos dizer que as pessoas em Timor têm as suas crenças religiosas organizadas como os nomes: muitos têm um nome autóctone, “gentio”, que só é usado no âmbito restrito da sua família ou cnua, ou grupo etno-linguístico; depois têm um nome de estima, diminutivo ou hipocorístico do nome de baptismo segundo as regras fonológicas do tétum ou proveniente de uma palavra tétum, que podem usar também na família, mas tem uma abrangência social maior, incluindo os colegas da escola ou trabalho; por fim, têm um nome oficial português e cristão, que é de utilização obrigatória em situações públicas mais formais. Não há um dos nomes que seja mais correcto ou “timorense” do que os outros, cada um deles é a resposta “timorense” adequada para âmbitos sociais específicos. De forma que quase todos os timorenses têm nomes oficiais portugueses. Mesmo a maior parte dos membros da minoria timorense de etnia chinesa usa hoje um nome oficial português (não esqueçamos que a paranóia estatal indonésia anti-comunista fazia equivaler identidade chinesa a simpatia por Pequim, e aprovou mesmo em 1966 um regulamento, posto em prática no ano seguinte, coagindo os indonésios de origem chinesa a adoptar nomes que soassem mais indonésios). Os chineses timorenses fizeram de resto o mesmo que a população autóctone das montanhas fez: tendo que optar por uma das religiões reconhecidas pelo Estado indonésio escolheram em massa aquela que sentiam mais próxima, o catolicismo. Quando os portugueses saíram de Timor em 1975 os católicos não chegavam a um terço da população, hoje quase toda a gente é católica. A maior parte dos timorenses cumpre assim durante a vida uma vasta gama de rituais que lhes foram transmitidos pelos portugueses. As festas de casamento são semelhantes às que se faziam em Portugal e os pares dançam como ainda se dança nos bailes das aldeias portuguesas. Quando morre um familiar anda-se um ano vestido de preto em sinal de luto como os portugueses. No Domingo de Ramos as pessoas vão benzer o ramo que depois penduram dentro de casa para afastar as desgraças e o mau-olhado, tal como é tradição em Portugal. No dia dos Fiéis Defuntos vai-se acender velas no cemitério e rezar aí pelas almas dos entes queridos já falecidos, tal como fazem as famílias portuguesas. Os timorenses benzem-se quando se admiram ou assustam com alguma coisa, como fazem os “avós” em Portugal. Vem da língua portuguesa uma parte enorme do vocabulário do tétum praça, língua franca de Timor, língua nacional e língua co-oficial. Até muitos dos palavrões que os timorenses usam quando se zangam são portugueses! Esta cultura mestiça euro-asiática moderna marca a diferença e a maneira específica de os timorenses se afirmarem no contexto regional. Está aí a raiz da nacionalidade leste-timorense. Os leste-timorenses são-no porque são diferentes dos indonésios, dos australianos e de outros povos da região. São leste-timorenses por causa da sua História e da sua Cultura!
PRECISAMOS DE UMA ESTRATÉGIA PARA A TELEVISÃO E OUTROS MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DE MASSAS
Apesar do tudo o que foi dito não se pode pensar que a cultura timorense, ou de qualquer nação, é um produto acabado, imutável. A ligação histórica com o mundo lusófono precisa de ser potencializada, promovida e aprofundada, nomeadamente no que se refere aos produtos culturais e de comunicação social consumidos pelas massas. Não se tem feito muito neste campo. O Lia Foun é uma das poucas, pouquíssimas, excepções, já que é o único jornal inteiramente bilingue, com uma equipa de jovens tradutores e jornalistas que demonstram pela sua própria existência que o português começa a não ser em Timor uma língua “de velhos”.
Todos sabemos que a língua portuguesa e o tétum são as línguas oficiais de Timor-Leste, cada uma com o seu próprio papel. Nota-se porém que o acesso da população em geral, e dos jovens em particular, ao contacto com a língua portuguesa é ainda muito reduzido, mesmo nos âmbitos mais formais (escola, inter-acções com a administração) que seriam aqueles onde mais naturalmente poderia ter lugar. Depois de seis anos do fim da ocupação indonésia, é pouco ainda o consumo da cultura popular de massas de origem lusófona em Timor, nomeadamente no que se refere aos programas televisivos. A música lusófona que se ouve nas festas de casamento é resultado da procura dos consumidores locais e mais um testemunho da ligação de Timor com esse universo, mas não tem sido ainda alvo de uma política coordenada de apoio a essa tendência. Há ainda assim alguns sinais de esperança, como a recente iniciativa, plena de sucesso, e apoiada pelo BNU e a Fundação Oriente, de organização de um festival da canção na televisão em que os jovens concorrentes imitavam estrelas da música, com uma das duas canções interpretadas a ser obrigatoriamente em língua portuguesa. A juventude (que é a esmagadora maioria da população no país) vê VCDs e DVDs piratas com filmes anglo-saxónicos legendados em indonésio, e as famílias timorenses de todas as classes sociais esforçam-se para comprar uma antena parabólica para poderem assistir em casa às telenovelas indonésias ou brasileiras, mexicanas e venezuelanas dobradas em língua indonésia. Alguma da programação da RTP Internacional que é retransmitida na frequência da RTTL é pouco apelativa para o público timorense (inclui coisas como o telejornal da ilha da Madeira, que só será interessante para as comunidades de emigrantes madeirenses espalhadas pelo mundo…), e sendo exclusivamente falada em português é de difícil compreensão para o público local. A realidade dos lares timorenses é que há pouquíssimos jovens a assistir aos programas da RTP aqui retransmitidos.
Na sociedade moderna, não há como não ter em consideração o papel da televisão e as vantagens que podem surgir da sua utilização com objectivos educativos. Assim, parece-me que seria importante criar uma Unidade de Tradução e Legendagem de Materiais Audiovisuais, que trabalhasse com programas televisivos falados em português legendando-os em tétum, tornando-os assim atractivos para o público timorense. A escolha de programas a traduzir ficaria inteiramente ao critério das autoridades timorenses e portuguesas, mas eu recomendaria que se apostasse em programas de ficção para o grande público (uma telenovela, p.ex.), de forma a cativar o interesse das pessoas. Teria seguramente um efeito muito positivo se conseguissemos sentar as famílias timorenses em
frente à televisão a ouvir duzentos episódios de uma telenovela em português e a ler em tétum correcto as legendas, em vez de ouvirem duzentos episódios de uma telenovela falada em indonésio… Para marcar simbolicamente o arranque de um projecto desse género talvez fosse possível a RTP conseguir autorização para a legendagem em tétum e exibição na RTTL de um filme com conteúdo histórico relevante como “Capitães de Abril” de Maria de Medeiros. Entretanto ia sendo treinada uma equipa de timorenses do género da que existe no Lia Foun, composta por jovens, que viessem a poder assegurar no futuro sozinhos esse trabalho.
A reestruturação feita recentemente na televisão de Timor-Leste parece-me bastante positiva, e é de saudar o aparecimento de blocos noticiosos em língua portuguesa, mas se vier a ser possível ter telejornais timorenses falados em tétum com legendas em português e falados em língua portuguesa com legendas em tétum isso será seguramente mais um passo em frente.
É FUNDAMENTAL INVESTIR NOS JOVENS
Existe uma razão para eu insistir tanto no envolvimento de jovens. Um estudo recente do Ministério da Saúde citado pela Lusa mostrava que a taxa de fecundidade actual em Timor-Leste é a mais alta do mundo, um terço das mulheres timorenses com idade entre os 20 e os 35 anos engravida todos os anos. A taxa de crescimento populacional anual é de 3,9 por cento e prevê-se que se não houver alterações ao estado de coisas actual a população pode duplicar de 18 em 18 anos. O sistema de ensino timorense debate-se com a falta de professores qualificados para ensinar a língua portuguesa ou em língua portuguesa, e muitos dos que ainda vai havendo estão já próximos da idade da reforma. Timor-Leste é um país de crianças e jovens. Se não dirigirmos a maior parte dos nossos esforços para essas faixas etárias estaremos condenados ao fracasso. Mas isto sempre fazendo uma utilização racional dos recursos humanos existentes. Por exemplo a maior parte dos professores vindos de Portugal está hoje empenhada na formação de professores timorenses, em vez de desbaratarem recursos ensinando directamente nas escolas secundárias com resultados pouco significativos – isto parece-me uma mudança muito positiva em relação aos tempos iniciais. Defendo a aposta nos jovens, não apenas porque é deles o futuro, mas também porque os timorenses que aprenderam a língua portuguesa antes da invasão indonésia são já lusófilos e desempenham já o seu papel nos diversos lugares em que trabalham. Não me parece que fosse muito útil andar a retirar todos os melhores professores das escolas onde desempenham com profissionalismo o seu labor na difusão da língua portuguesa, privando assim os seus alunos da possibilidade de terem acesso a um ensino com qualidade, para os colocar noutra posição para a qual poderiam até nem estar vocacionados. Parece-me melhor optar por formar mais profissionais, jovens de preferência, e dar-lhes visibilidade para provar que as novas gerações também conseguem aprender português quando decidem empenhar-se nisso.»

Esperança, João Paulo T. – Reconstruir pontes para o mundo luzófono/ Harii fali ponte sira ba mundu luzófonu, in: «Jornal Lia Foun», Díli (Timor-Leste), Edições Média Alta,Lda, ano 0 (28), 23 de Setembro de 2005, p. 14-15

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TIMOR DO DESAPARECIMENTO DO ARBIRU AO MOTIM DE UATO-LARI 1959

CONTINUANDO…

Há a tendência para, quando alguém está a passar por maus momentos, em vez de o animarem, tentarem reerguê-lo, procuram inventar e pô-lo mais para baixo. Ou, pelo contrário, quando uma pessoa está desfrutando de numa boa situação, a inveja suplantar tudo o que será razoável e até serem inventados episódios, que não são mais que mentiras e acabam por evoluir em disparatados boatos, crescendo sempre com mais hipotéticos pormenores. E Díli era fértil em ‘estórias’, que não eram da carochinha e atacavam, sem respeito nem pudor, a respeitabilidade de gente honesta.
Do mesmo modo, alguém que não mostrou competência para resolver determinada situação, tem que arranjar subterfúgios e pormenores, a fim de dissimular e camuflar a sua incapacidade. Ou que quis ocultar pormenores de algum deslize, fazer com que outrem venha a ‘pagar as favas’.
Um dos boatos mais conhecidos, e que hoje já é uma lenda, foi o desaparecimento do navio ‘O Arbirú’, afundado por uma ‘tromba marítima’, no Mar das Flores, e que não sei porque motivo (julgo que, talvez, por uma questão de seguros), o governador e a PIDE/DGS, de conluio, não permitiram que o chefe dos Serviços Metereológicos falasse com o único sobrevivente da tragédia, o Paulo do Rosário, assim como criaram uma incrível anedota, ou que teria sido um ataque da FRELIMO (porquê?) ou de piratas javaneses ou de contrabando de armas. Não atinjo qual seria a intenção do Governador, mas parece-me entender a posição do inspector da polícia, querendo mostrar serviço, que não aparecia, tal como fizera com o anterior governador, levando-o a cometer vários erros crassos, envolvendo a alfândega, com ‘estórias’ de contrabando de armas, quando, repetidamente informávamos que a alfândega abria todos os caixotes, e seria impossível que alguém fosse tão estúpido que pretendesse passar armas por ali, quando tinha um litoral imenso sem qualquer fiscalização. Mas o boato cresceu, com gente que viu o navio em Hong-Kong e em Díli, outros viram passageiras do navio em Bali… e até o Paulo do Rosário ter vindo até Lisboa, a fim de ser interrogado.
Desculpem-me, desviei-me do meu assunto habitual, ao verificar que, ao querer aproximar-me, tanto quanto possível da verdade, ela poderá estar longe do que se passou. Já me disseram que, o que eu tenho escrito, vale zero, porque tudo já teria sido estipulado, em 1960, pelos EUA, a Austrália e a Indonésia. No que eu não acredito, tal como “a guerra do Ultramar” ter tido início em Timor, em 1959, com a revolta em Viqueque/Uato Lari/Uato Carbau, com fim à independência, porque, tendo conhecimento de quase tudo o que se passou, porque convivia diariamente com os oficiais milicianos, e sabia perfeitamente que, naqueles tempos, os timorenses não sonhavam com independência e, somente alguns, industriados pelos militares indonésios que haviam pedido refúgio em Oé-Cusse, se atreveram a tentar revoltar-se com vista à integração na Indonésia, com a ‘ajuda’ do então cônsul indonésio em Díli — o Sr. Nazwar Jacub Sutan. E, tanto assim aconteceu que, enquanto que, em Díli, a 3 de Junho, se iniciaram, com grande alvoroço e estrondo, as prisões de supostos implicados, somente naquela região oriental, a 7 daquele mês, os refugiados indonésios deram início à revolta.Foi enviada para Baucau, uma pequena força, constituída pelo tenente Ferreira, o furriel Pires e nove praças timorenses, os quais, juntamente como administrador Artur Marques Ramos, que conseguira, milagrosamente, sair de Viqueque com a família, para lá voltaram, por estrada, com mais timorenses, europeus e chineses, com algumas armas e munições. No entanto, devido ao pouco conhecimento do que se passava naquela região, foi enviado para lá, no dia 9, mais um certo número de militares comandados pelo cap. Manuel João Fajardo, que passado alguns dias, nada adiantava e se lamentava de que já havia dois ou três dias que não tomava banho. Entretanto, vários arraiais fiéis tinham sido levantados mas como o impasse em Viqueque continuava, foi enviado o cap. Barreiros, o qual, entendeu que não substituía o colega e apenas o coadjuvava. E logo mandou atacar Uato Lari a ferro e fogo, embora alguém o tivesse tentado impedir de resolver aquela ‘guerra’ de maneira tão drástica, implorando-lhe que houvesse fé, porque deveria haver ainda gente viva. Em uma semana tudo se resolveu rapidamente, de tal modo que, a 20 daquele mês, uma ‘Companhia Destacada’ aéro -transportada de Goa para Baucau, em aeronave pilotada por Solano de Almeida, que já estivera em Timor, — e em que, muitos deles, eram meus conterrâneos — ficam verdadeiramente decepcionados, por, em vão, indagarem… “onde está a guerra” ?

Amanhã continuarei com a matéria anterior, pois hoje despistei.-me, ao ler que o presidente da Fretilin, Xavier do Amaral proclamava, à plebe, sua ouvinte, que abriria o Tata-Mai-Lau e de lá jorraria imenso ouro, assim como encomendara uma máquina de fazer notas, e já ninguém teria que trabalhar.
No entanto, no seu manual político, a Fretilin chamava a atenção para o “RACISMO”, quando o seu presidente Xavier, em entrevista ao ‘Diário de Notícias’, declarava que ele é que era “puro” e os Carrascalões eram mestiços e o Xanana era misto de misto; que o partido protegia a agricultura porque eram um país de camponeses e o povo timorense tinha fome de tudo, quantitativa e qualificativa, e o regime colonial só protegia a agricultura de exportação, —embora saibamos que muitos patrões, quando queriam dar da sua comida aos seus empregados, eles preferiam o seu milho, arroz ou mandioca —, não percebendo que as exportações, principalmente do café, eram necessárias, para poder haver importações. O presidente Xavier do Amaral não deve ter percebido bem, quando eu lhe contei que, enquanto eu estive ausente em Portugal, tinham importado cerveja estrangeira, com base num decreto que dizia, mais ou menos o seguinte: “que em casos graves de carestia de alimentos para a população, poderia ser importado, livre de direitos, quantidades determinadas do mesmo, num prazo fixo, depois de ouvido o Conselho do Governo.” Penso que não era a cerveja que faria parte da alimentação da maior parte dos timorenses.
E, como me já me adiantei mais do que pensava, fico por aqui.

MAS… haverá mais, assim eu tenha saúde.

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OCUPAÇÃO INDONÉSIA E MORTE EM tIMOR

«Um académico australiano defendeu em entrevista à Lusa que a morte de mais de 200 mil timorenses nos primeiros anos de ocupação indonésia foi a maior perda de vida relativa à população desde o holocausto.
“Sabemos que em alguns acampamentos onde as pessoas eram colocadas, a taxa de mortalidade era de entre 1.5% e 8% por mês, durante 19 meses consecutivos”, disse o investigador australiano Clinton Fernanes.
“Uma mortalidade que representa a maior perda de vida relativa à população deste o holocausto. A melhor estimativa é de que tenham morrido mais de 204 mil pessoas no período entre maio de 1977 e outubro de 1979”, refere.
Cólera, disenteria e diarreia foram as principais causas de morte nos acampamentos criados depois dos bombardeamentos para onde foram colocadas as pessoas que “já estavam fracas por causa da pouca comida” e que tinham fugido das montanhas, rendendo-se, depois do bombardeamento intenso das forças indonésias.
Ex-militar australiano e responsável pela Timor Desk a partir de 1998, Clinton Fernandes esteve destacado no Australian Army Intelligence Corps (AUSTINT) e é atualmente professor de Estudos Políticos e Internacionais na Universidade de NSW-Camberra, tendo publicado vários artigos e livros sobre Timor-Leste.
Numa entrevista alargada com a Lusa, Fernandes — que deverá no próximo ano publicar um livro sobre o genocídio indonésio — recordou os primeiros anos da ocupação indonésia de Timor-Leste, depois da invasão de Díli, que começou a 07 de dezembro de 1975.
Baseando-se em documentos oficiais, Clinton Fernandes disse que “nos primeiros seis dias depois da invasão, a Indonésia mal conseguiu passar de Díli”, com a Fretilin a “usar morteiros e `snipers` [atiradores] para travar os indonésios que tiveram dificuldade em descarregar o seu equipamento”.
Porém, depois de conseguirem sair de Díli, “num espaço de três meses todas as principais localidades estavam controladas pela Indonésia, com a resistência a controlar o interior montanhoso e as zonas rurais”, acrescentou.
A grande mudança ocorreu depois das eleições indonésias de maio de 1977 quando a administração norte-americana de Jimmy Carter decidiu aumentar o fornecimento de munições e armamento para as forças indonésias, especialmente a força aérea, explicou.
“Isso permitiu à Indonésia bombardear e lançar napalm. Os documentos que tenho mostram o uso de napalm”, disse.
“A Fretilin ainda tinha uma sociedade a funcionar nas montanhas, mas os ataques aéreos forçaram a rendição de muitas pessoas que desciam às vilas e ficavam depois em campos”, referiu.
Locais de “trânsito” onde “colaboradores da Indonésia identificavam as pessoas da Fretilin ou mulheres e filhas de pessoas da Fretilin que eram depois transformadas em escravas sexuais”.
O resto, disse, “ficavam em campos de reassentamento, locais sem condições sanitárias, com uma epidemia de cólera e fome induzida pelos militares”, referiu.
Uma situação, disse, da qual a Austrália “tinha conhecimento detalhado” ainda que, nos anos seguintes, especialmente desde 1980, tenha deixado de ter tanto interesse por Timor-Leste que passou a ver como “uma qualquer outra província indonésia”.
“A Timor Desk foi fechada no final de 1979. Os seus últimos relatórios foram feitos depois da morte de Nicolau Lobato. O último oficial da Timor Desk foi o capitão John Florent, conhecido como Pepe”, adiantou Clinton Fernandes.
“O seguinte fui eu próprio, e isso só ocorreu poucos dias depois da queda de Suharto em maio de 1998 quando nos mandaram reativar a Timor Desk”, considerou.
Fernandes recorda que a Desk Timor esteve ativa e com conhecimento detalhado das condições em Timor-Leste e das operações militares indonésia até 1980, mas que depois “a Austrália deixou de se focar no assunto”.
“O que aconteceu nos [anos] 80 havia muito pouco interesse ou conhecimento porque Camberra considerava o assunto fechado”, enfatizou.
O académico explica que, para Camberra, “a resistência tinha sido derrotada, em termos de guerra convencional” e que deixou de haver razão para “a recolha de informação sobre as operações indonésias”.
“Não havia interesse em análises do ponto de vista de direitos humanos. Nos serviços de inteligência isso não interesse assim tanto. Pequenas operações de infantaria, ou atos de terror e de execução não dizem nada que interesse aos serviços emergência”, comentou, lacónico.
Quando ele próprio assumiu as funções na Timor Desk pegou em algumas fotos com atos de tortura supostamente cometidos em Timor-Leste e que mostrou a uma oficial superior.
“Ela olhou par elas e disse: provavelmente falsas. E não lhes deu mais do que uns segundos de atenção. Um total desinteresse no que estava nas fotos. Parecia a tortura e o assassínio de umas jovens timorenses e esta oficial não sentiu qualquer interesse. Há uma ausência de preocupação sobre o que possa estar a ocorrer noutros locais”, considerou.
“Empatia não é o ponto mais forte do sistema. A atitude geral é de que isto é um problema de outros. Um grupo de estrangeiros a matar outro grupo de estrangeiros”, disse.»

Enorme ”dejá vú”, 40 anos depois. Ainda continua vivo na memória o dia em que fomos ”forçados a rendição” ficando ”depois em campos”…

“A Fretilin ainda tinha uma sociedade a funcionar nas montanhas, mas os ataques aéreos forçaram a rendição de muitas pessoas que desciam às vilas e ficavam depois em campos”(…)

RTP.PT
Maioria de mortes na ocupação indonésia de Timor-Leste foi em acampamentos revela académico Lusa28 Jun, 2019, 07:40 | Mundo Um académico australiano defendeu em entrevista à Lusa que a morte de mais de 200 mil timorenses nos primeiros anos de ocupação indonésia foi a maior perda de vida rel…
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TIMOR E A NOVA DILI QUE NUNCA O FOI

Rui Sá Pinto Correia replied to a comment on a post from 2 July 2016.

A 5 de Abril de 1946, Oscar Freire de Vasconcelos Ruas, encarregado do governo, determina após aprovação do Ministro das Colónias, que a capital de Timor seja transferida para Cutulau.
Esta transferência pretendia solucionar a necessidade de resolução dos problemas de saúde que caracterizavam Dili, reconhecidamente insalubre e a situação de ruína em que ficara a cidade depois da ocupação nipónica, para uma região de melhor clima onde se pudesse construir de raiz uma nova capital.
A mudança de localização da capital nunca se viria a realizar, por se terem de imediato mobilizado os recursos e meios para a recuperação das infra-estruturas existentes em Dili, deixando sem sentido a proposta de edificação de uma Nova Dili, remetendo assim este projecto para o esquecimento.

Esta é a segunda tentativa de reconhecimento do local a que se referiam.
Na lista de locais com este nome surgia próxima a Díli a aldeia de Cutulau no vizinho Municipio de Liquiçá, Posto Administrativo de Bazartete.
Em verdade viria a perceber que Nova Dili estava projectada para esta outra Cutulau, mais proxima a Díli, no Posto Administrativo de Laulara, Aileu.

Ruy Cinatti, a Cutulau se referiria na sua obra poética (Para uma corografia emotiva de Timor, 1946-1972)

Cototalu – cidade,
toda a cumeada.
Cidade sonhada
que nunca existiu.

Cotolau – ó ermo
de eucaliptos pretos
de ramadas altas
e crepes de líquenes!

Cotolau – a pedra
da inauguração,
encontrei-a eu,
coberta de musgo.

Cotolau – ó sonho,
por quem estás de luto?
Podem indicar-me
onde é Nova Díli?

Cotolau – deserto.
Fui a Cotolau
e trouxe de lá
braçadas de lírios!

“Nova Díli, o grande sonho do governador Óscar Ruas (1946-50) que nela via a futura cidade residencial, não passou de um sonho assaz custoso em dinheiro e esforço. O fitogeógrafo E. Meijer-Drees, dos Serviços Florestais holandeses, depois indonésios, dizia-me, opondo-se, de certo modo, aos desejos do governador, que, de facto, não se morreria de malária, como em Díli, senão de pneumonia, ou de acidentes de viação. O sítio, por lindo que o seja, não tem condições urbanísticas, por se reduzir quase que exclusivamente a uma faxa e cumeada desprovida de água, e com a base das nuvens baixas descendo a níveis inferiores na época das chuvas. Daí, as pneumonias – clima frio e húmido, que os liquenes denunciam, e também ventoso – e os acidentes de viação – declives muito pronunciados, quase abruptos mesmo, imersos em nevoeiro durante, pelo menos, quatro meses por ano, embora com abertas matutinas.”

(Paisagens Timorenses com vultos, Ruiy Cinatti, Relógio D’Água, 1996)

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Comments
  • Ricardo Antunes Rui, chegaste a localizar o local exato? E a pedra de inauguração, de que fala o Cinatti?
    • Rui Sá Pinto Correia Ricardo Antunes, encontrei o local sim, conforme indicação dos locais, mas ninguém me conseguiu referir onde se encontrava a pedra de lançamento da nova capital. Um dia se quiseres podemos voltar lá.

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tradições guerreiras em Timor

Caveiras inimigas ornamentando a tranqueira do major Quei-Mau em Bela-Hitu (antigo comando militar do Súru)..
– antes de 1943 …

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  • Hernani Tavares Está no livro TIMOR quatro seculos de colonização Portuguesa do Cap. José S. Martinho publicado em 1943. Tenho este livro que era pertença do meu saudoso sogro Carlos Macedo da Silva.

    Mario InglesMario Ingles replied

    4 replies 11 hrs

  • José Bárbara Branco A decapitação dos inimigos mortos nas lutas entre os reinos era (é?) uma prática ancestral em Timor e naquela parte do sudoeste asiático. Esta fotografia (1909, Album Carlos Leitão Bandeira) na região de Maubara é elucidativa:
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  • José Bárbara Branco Recentemente, durante a guerra civil timorense e posteriormente, durante os primeiros anos da ocupação indonésia, a prática de decapitação dos vencidos ou prisioneiros foi denunciada (Human Rights Violations in East Timor, East Timor International Support Center, (1990?), Victoria, Austrália). Fotografia datada de 1981:
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