40 anos/Timor-Leste: Maggiollo Gouveia,

Antonio Sampaio
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Lusa – Dias das Independências
40 anos/Timor-Leste: Maggiollo Gouveia, um dos nomes mais polémicos da história timorense recente
*** Por António Sampaio, da agência Lusa ***
Dili, 23 nov (Lusa) – Quarenta anos depois de ser morto em Aileu, a sul de Díli, Maggiollo Gouveia continua a ser um dos nomes mais polémicos da história recente de Timor-Leste, aplaudido por uns e considerado responsável pela guerra civil por outros.
Uma polémica que se sente tanto em Timor-Leste como em Portugal, como evidenciou a troca de críticas que em 2003, 28 anos depois da sua morte, marcou a decisão do Governo português de lhe conceder um funeral com honras militares.
Maggiollo Gouveia foi executado na vila de Aileu, a sul de Díli, nos últimos dias de 1975 já depois da invasão indonésia de Timor-Leste, que tinha ocorrido no dia 07 de dezembro, mas o debate tem sido tanto sobre a sua morte como sobre o que aconteceu desde agosto desse ano.
Talvez o momento mais marcante da vida de Maggiollo Gouveia tenha sido a 12 de agosto de 1975, quando o tenente-coronel vai à Rádio Díli anunciar que deixa o comando da PSP na capital timorense e que abandona o exército português: fá-lo, explica, por “verdadeiro amor” à verdade, a Timor-Leste, a Portugal e à União Democrática Timorense (UDT), que defrontou a Fretilin na guerra civil timorense.
A 21 de agosto, e com a decisão ainda a gerar perplexidade e confusão entre portugueses e timorenses em Díli, Maggiollo Gouveia é preso pela Fretilin.
A família recebe, em outubro e novembro, através do Vaticano, quatro cartas, mas as notícias cessam até junho de 1976 quando o bispo de Díli escreve a Maria Natália Gouveia para a informar que o marido tinha sido fuzilado.
Nessa carta o bispo citava um antigo preso, o administrador do concelho de Maubisse, Lúcio da Encarnação, que contou que Maggiollo Gouveia fora executado juntamente com “50 a 60” outros prisioneiros, “entre 9 e 15 de dezembro”, na estrada Aileu-Maubisse.
Foi morto depois de rezar o terço “de joelhos em terra” e de declarar: “Morro por Timor. Morro pela minha pátria e pela minha fé católica. Podeis disparar”.
Paulo Portas – cuja presença e declarações nas cerimónias fúnebres de 2003 foram fortemente contestadas por individualidades como Vasco Lourenço, Mário Soares e Ana Gomes – disse na altura que “era tempo” de prestar uma homenagem “ao ser humano que sofreu em condições terríveis, ao português ímpar que morreu acreditando em Portugal, ao oficial do Exército português que não conjugou o verbo abandonar, mas sim o verbo ficar”.
Reagindo na altura à decisão do Governo português, o ex-primeiro-ministro timorense Mari Alkatiri, teceu em entrevista à Lusa algumas das críticas públicas mais duras de sempre contra Maggiollo, acusando-o diretamente de ter iniciado a guerra civil que conduziu ao “holocausto” em Timor-Leste.
“Não compreendo como uma pessoa que tenha renunciado à sua condição de militar e tenha participado tão ativamente num conflito, tenha iniciado o conflito que conduziu Timor-Leste para uma situação de holocausto, durante 24 anos, possa hoje em dia ser quase considerado um herói nacional”, afirmou à Lusa em Díli.
“Na altura era chefe da polícia em Timor-Leste e foi praticamente com o seu apoio que a guerra começou em Timor-Leste. Abriu as portas da sede da polícia e entregou-se às forças da UDT”, afirmou.
Questionado diretamente pela agência Lusa sobre as condições em que morreu e se a sua execução foi ordenada pela liderança da Fretilin, Mari Alkatiri garante que as instruções “foram totalmente contrárias”.
Para Mari Alkatiri a explicação da execução do militar português deve-se a “ódios pessoais”, naturais tanto pelo papel de Maggiollo Gouveia no conflito como pela natureza “confusa” do próprio conflito em Timor-Leste.
Mari Alkatiri considera não haver informações precisas sobre os autores da execução, que considera terem já falecido, referindo no entanto que uma das teorias até lhe imputava diretamente responsabilidade.
“Até houve uma notícia a dizer que tinha sido eu. Só se tivesse uma grande pontaria para, de Maputo, acertar aqui na cabeça do Maggiollo em Aileu”, refere Alkatiri que partiu de Timor-Leste três dias antes da invasão indonésia, a 04 de dezembro de 1975.
Um dos primeiros documentos sobre a morte de Maggiollo Gouveia é assinado em 1976 por Costa Gomes, chefe do Estado Maior das Forças Armadas, que na altura considera que o ex-militar morreu em consequência de “uma situação de extrema perigosidade equiparável à do serviço de campanha e de manutenção da ordem pública”.
Foi Rui Pena, ministro da Defesa do governo de António Guterres – que autoriza a transladação dos restos mortais de Timor-Leste – que em 2002 determina a prestação das honras militares.
ASP // JMR
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