aposentados Yvette Centeno

Voltando ao que é a questão, no caso dos aposentados:
Falei do horizonte que se vai esvaziando.
Primeiro temos um sentimento de alívio, que bom, não temos compromissos a respeitar, só os que desejarmos, a liberdade finalmente existe, é concedida, poderemos viver como quisermos.
Contudo, não é o que parece, essa liberdade total. É mesmo perigosa: acordamos e dizemos hoje vou ao cabeleireiro, ou vou ao cinema, ou vou almoçar com amigos, ou ver uma exposição – seja o que fôr, hoje é o dia em que plenamente sinto que quero ir, fazer o que me apetece, sou livre e vou.
Tanta liberdade é enganadora.
Chega o momento fatal em que podemos, se quisermos, mas devagar fomos deixando de querer. Hoje não, irei antes amanhã. E em cada manhã a vontade é menor. Acordamos, e o que queremos é mesmo sair da cama mais tarde. Só os remédios com horas certas nos obrigam (aí está uma restrição à liberdade). Uma vez a pé, seguem-se os rituais, tomar o pequeno almoço, ler jornais, (até que se ficará devagar a ler só os cabeçalhos) tomar banho, vestir, etc.Abrir a televisão ainda é gesto normal. Mas pode ser substituído pelo computador, ou tm. e o facebook. Chega o momento de programar o dia. Perdeu-se a vontade, o sofá, sem mais, é cada vez a opção mais cómoda. Não, não é hoje, hoje não faço nada, faço horas, talvez apareça alguém, filho ou neta (o) escolho uma série na tv.
Sim, nesta velhice dos aposentados livres de compromissos, a cada dia que passa a liberdade é maior, é total e mortal. Ir perdendo a vontade, disto e daquilo é um sinal. Descobre-se que tem de ser alguém próximo a dar por isso e obrigar. Mas sabemos que há cada vez mais idosos vivendo sozinhos, entregues a si próprios e a uma liberdade total que os matará a prazo.
Cristina Carvalho and 32 others
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  • Maria Bento

    “O sonho comanda a vida.”
    Enquanto a esperança não morre, continuamos a sonhar.
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    • 4 m

crónica de José Soares

 

Transparência José Soares

O egoísmo em tempos de pandemia

 

Se o mundo rico quisesse, todas as máscaras cairiam em 24 horas.

Se os países privilegiados, cujo desperdício é incalculável, quisessem, a miséria seria reduzida à sua insignificância e o número de crianças que morrem pela fome diariamente, desaparecia da noite para o dia. (Em cada 4 segundos, morre um infantil algures no mundo, por falha alimentar).

Mas isso seria se os países mais ricos quisessem.

Desde os primórdios da sua caminhada bipedal que o homo erectus tem evoluído e transformado ao longo de milhões de anos. Na verdade, ossadas encontradas em 2001 por uma equipa de cientistas liderada pela paleontóloga francesa Brigitte Senut e seu colega geólogo Martin Pickford na parte central do Quénia, em Tugen Hills, foram datadas em mais de seis milhões de anos (entre 6.2 e 5.8 milhões de anos) e denominado “Orrorin tugenensis” ou com a alcunha de “Millenium Man”. Trata-se do nosso parente pro-humano mais antigo até agora encontrado. As suas ossadas demonstram que já caminhava de pé, característica única do animal humano.

Depois deste muito distante dia em que pulamos das árvores para o chão, temos sofrido uma genial lapidação dada pelo Universo e que ainda não terminou. E talvez por isso mesmo, ainda soframos deste egoísmo que reside dentro de cada um de nós, que nos ajuda, simultaneamente, a sobreviver às mais adversas situações e ao mesmo tempo nos remete à indiferença para com o nosso semelhante.

Conhecemos o vocabulário: Solidariedade; Ajuda; Irmandade; Igualdade e tantas outras palavras que os nossos modernos neurónios são capazes de acumular numa base de dados imensa. Mesmo assim, falamos e falamos… algumas pequenas ações aqui e ali… e pronto. Satisfaz-nos o ego e continuamos na habitual rotina dos tempos, sem agir de forma profunda, com a eficácia que seria já exigida diante dos fatos que continuam a envergonhar-nos.

Se os multimilionários contribuíssem com alguns milhões de vacinas para os que nada têm, as vidas humanas de todo o planeta ficariam a ganhar.

Mas parece que ainda falta um longo trabalho ao Universo até irradiar o egoísmo do ser humano.

E mesmo com este egoísmo, falta a verdadeira vontade. Falta aquela palavra que faz a diferença: OUSAR. Ter a ousadia de enfrentar colossais interesses financeiros que, contribuindo parcialmente para o bem de alguns, sacrifica de forma selvática, primitiva e inumana toda uma maioria de irmãos e irmãs que padecem de mão estendida e despidos de dignidade, característica esta atribuída ao atual Homo Sapiens Sapiens.

E pela ironia da tese do “filho pródigo “ a necessidade premente de vacinas neste momento, é exatamente no continente onde saíram os primeiros humanos que depois se espalharam, povoaram e multiplicaram pelo mundo: A África. Nesta pátria humanitária, neste continente onde muitos dos atuais países ricos fizeram fortuna escravizando e explorando as suas populações e onde os seus atuais líderes parecem (salvo raras exceções) não ter ganho ainda a coragem de defender os seus povos da continuada exploração agora mais viciada por longos vícios de corrupção e, novamente, egoísmo puro e duro.

O alastramento global desta e doutras epidemias, nos dias de hoje, onde as maravilhas tecnológicas e científicas estão cada vez mais ao serviço da Humanidade, deve conduzir os povos a uma entreajuda indispensável ao bem-estar de todo o ser humano.

 

 

lusologias@gmail.com

 

a crónica de SANTANA CASTILHO

Três, de tantas páginas que devíamos virar
Talvez não seja estranho que os partidos políticos se tenham identificado, embora cada um a seu modo, com a mensagem de Ano Novo de Marcelo Rebelo de Sousa. Bem vistas as coisas, já antes do Natal a reacção foi de bonomia, quando Marcelo, deselegantemente, nos mandou ter juízo, enquanto deambulava pelo comércio de Braga, a perguntar o preço do bacalhau e a comprar meias. Num discurso equívoco, o que disse agora sobre as eleições e sobre o desejável funcionamento da AR foram banalidades. Mas os partidos políticos gostaram. Falou de virar a página, sem dizer para onde. Mas os partidos gostaram. Talvez porque se preparam, em campanha, para nos dizer pouco sobre tantas páginas que o país gostaria de ver escritas, de modo claro.
Vejo uma sociedade cada vez mais complacente perante a perspectiva de ser cuidada em vez de se cuidar. Sei que o medo é um dos instrumentos mais poderosos para condicionar o comportamento humano, particularmente quando as questões em presença são de saúde. Mas é tristemente limitado o futuro de uma sociedade que aceita trocar viver por existir e liberdade por segurança. Esta é uma página que devia ser virada.
Falamos muito de descentralização e partição de poderes, como necessidades fundadoras das democracias mais sólidas. Mas, paradoxalmente, aceitamos, por via de uma tecnologia digital de que nos tornámos escravos, a concentração de todos os poderes em meia dúzia de organizações globais. Cada vez mais, televisões e jornais promovem o que o monoscópio da globalização e do mainstream permite ver, quando o seu papel deveria ser o de ampliar o ângulo de visão, já que globalização é uma coisa e universalismo é outra, bem diferente. Eis uma segunda página a virar.
A terceira página é a da Educação. Sobra a evidência de que os actuais responsáveis foram, mais do que incompetentes, perniciosos, porque contribuíram para que a escola de que o país carece fosse desaparecendo todos os dias. Se Tiago Brandão Rodrigues e João Costa tivessem consciência e soubessem, ao menos, o que os alunos não sabem, sentir-se-iam culpados por terem promovido, com a falácia das aprendizagens essenciais e o logro criminoso da falsa inclusão e do falso sucesso, um preocupante crescimento de jovens descerebrados e sem esperança, marcados pelo desconhecimento e pela imaturidade. A palavra educação só devia evocar a ideia de evolução, que não de involução. Mas foram de involução os últimos dois anos, pelo menos, com 21,9% (Eurostat) das nossas crianças em risco de pobreza ou exclusão social. Nas mochilas dos nossos alunos estão hoje muitos traumas provocados pelos confinamentos, pelas quarentenas, pelo ensino à distância, numa palavra, por uma escola distante e incompleta.
Abundam os estudos (vide, por outros, “Efeitos da Pandemia Covid-19 na Educação: Desigualdades e Medidas de Equidade”, do CNE) sobre os efeitos do SARS-CoV-2 nas aprendizagens dos alunos e sobre a escassez de professores. Faltam os compromissos políticos claros para resolver esses e demais problemas.
Urge reverter as alterações sem sentido no normativo da carreira docente e a catadupa de malévolas iniciativas políticas para dividir os professores, a par da anulação de direitos, que culminaram com o congelamento de salários, primeiro, e o inominável apagamento do tempo de serviço já prestado, depois. Os professores precisam de tempo para além das suas actividades lectivas. Tempo para refletir sobre a arte de ensinar e para continuar a sua formação, lado a lado com os mais experientes. Tempo para actualizar a sua formação científica. Tempo para dedicar aos seus filhos e à sua família, tão importantes como os filhos dos outros e as famílias dos outros. Os professores não podem ser meros funcionários de uma sorte de repartições públicas, a que se assemelham hoje as escolas.
Se os protagonistas não mudarem, a sociedade continuará a ser formatada para olhar para a classe docente como geradora de despesa e não como alvo de um investimento necessário para o futuro melhor de todos. Se os protagonistas não mudarem, serão reforçadas as tendências para os autoritarismos de que já tivemos demonstração abundante.
Precisamos de reconstruir o sistema de ensino. E o papel que o próximo ministro terá na tarefa reside na capacidade de envolver nessa reconstrução professores, pais e alunos.
In “Público” de 5.1.22
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