Salazar e o poema da merda

João Simas shared a post.
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Zé Maria Oliveira

Já ouviram falar do “poema da Merda”???
Uma delícia…
Da autoria do poeta
João Vasconcelos e Sá, foi lido durante um jantar, no Carnaval de 1934, na presençade um Ministro da Agricultura – Leovigildo Queimado Franco de Sousa.
Ao Excelentíssimo Senhor Ministro da Agricultura

Exposição
Porque julgamos digna de registo,
a nossa exposição, Sr. Ministro,
erguemos até vós humildemente,
uma toada uníssona e plangente,
em que evitámos o menor deslize,
e em que damos razão da nossa crise.
Senhor, em vão esta província inteira,
desmoita, lavra, atalha a sementeira,
suando até à fralda da camisa.
Mas falta-nos a matéria orgânica precisa,
na terra que é delgada e sempre fraca.
A matéria em questão, chama-se caca.
Precisamos de merda, senhor Soisa,
e nunca precisamos de outra coisa…
Se os membros desse ilustre Ministério
querem tomar o nosso caso bem a sério;
se é nobre o sentimento que os anima,
mandem cagar-nos toda a gente em cima
dos maninhos torrões de cada herdade,
e mijem-nos também, por caridade…
O Senhor Oliveira Salazar,
quando tiver vontade de cagar,
venha até nós, solicito, calado,
busque um terreno que estiver lavrado,
deite as calças abaixo, com sossego,
ajeite o cu bem apontado ao rego,
e como Presidente do Conselho,
queira espremer-se até ficar vermelho.
A nação confiou-lhe os seus destinos…
Então comprima, aperte os intestinos.
e ai..se lhe escapar um traque não se importe…
quem sabe se o cheirá-lo não dará sorte…
Quantos porão as suas esperanças
num traque do Ministro das Finanças…
e também, quem vive aflito e sem recursos,
ja nao distingue os traques, dos discursos…
Não pecisa falar, tenha a certeza,
que a nossa maior fonte de riqueza,
desde as grandes herdades às courelas,
provem da merda que juntarmos nelas .
Precisamos de merda, senhor Soisa,
e nunca precisamos de outra coisa,
adubos de potassa, cal, azote;
tragam-nos merda pura do bispote,
e de todos os penicos portugueses,
durante pelo menos uns seis meses.
Sobre o montado, sobre a terra campa,
continuamente eles nos despejem trampa.
Ah terras alentejanas, terras nuas,
desesperos de arados e charruas
quem as compra ou arrenda ou quem as herda
sempre a paixão nostálgica da merda…
Precisamos de merda senhor Soisa,
e nunca precisamos de outra coisa…
Ah, merda grossa e fina , merda boa,
das inúteis retretes de Lisboa.
Como é triste saber que todos vós
andais cagando, sem pensar em nós…
Se querem fomentar a agricultura,
mandem vir muita gente com soltura…
Nós daremos o trigo em larga escala,
pois até nos faz conta a merda rala…
Ah, venham todas as merdas à vontade,
não faremos questão da qualidade,
formas normais ou formas esquisitas.
E desde o cagalhão às caganitas,
desde a pequena poia, à grande bosta,
tudo o que vier a gente gosta ,
Precisamos de merda, Senhor Soisa ,
e nunca precisamos de outra coisa…

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Expresso | Palavra de Autor #14: “Salazar injetava-se com frequência” com um opiáceo “primo” da heroína

O Eucodal, medicamento injetável usado por Hitler para ganhar vitalidade, nomeadamente no discurso eufórico em que convenceu Mussolini a manter o apoio à Alemanha, durante a II Guerra Mundial, também foi usado por Salazar. O seu nome aparece registado no diário do ditador português em abril de 1956 e até à publicação de “A Queda de Salazar – O Princípio do Fim da Ditadura” (Tinta da China, 2018) desconhecia-se tal facto. A descoberta foi feita pelos jornalistas José Pedro Castanheira, António Caeiro e Natal Vaz, e é apenas uma das novidades avançadas pela investigação que deu origem ao livro. Neste episódio de Palavra de Autor, podcast sobre livros do jornal Expresso, os três jornalistas leem passagens do livro e conversam com Cristina Margato, revelando a face menos visível do ditador que tanto tempo governou Portugal

Source: Expresso | Palavra de Autor #14: “Salazar injetava-se com frequência” com um opiáceo “primo” da heroína

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Salazar, o fascismo por ele mesmo

O fascismo por ele mesmo: António Salazar

Posted: 03 Jan 2019 07:24 AM PST

Sob o poder salazarista, Portugal perseguiu opositores, torturou civis nas colónias portuguesas e fechou fronteiras até a década de 1950, quando o regime já entrava em crise

Opera Mundi publica, nesta semana, um especial sobre fascismo – contado pelos próprios fascistas. São discursos e entrevistas de Adolf Hitler (Alemanha), António Salazar (Portugal), Francisco Franco (Espanha), Rafael Videla (Argentina), Benito Mussolini (Itália), Emílio Garrastazu Médici (Brasil) e Philippe Pétain (França) que mostram como estas figuras pensavam as sociedades que governavam e justificavam os atos de seus regimes.

António de Oliveira Salazar(1889-1979), nasceu em Santa Comba Dão, Portugal, em uma família simples de trabalhadores rurais. Na juventude, fez seu primeiro contato com os estudos de ciências econômicas e financeiras, até, em 1914, ingressar no curso de Direito na Universidade de Coimbra. Próximo a assuntos políticos, foi eleito deputado em 1921, no momento em que a república vivia um período de instabilidade. Em 1926, Portugal sofre um golpe militar que põe fim ao governo republicano e Salazar assume a pasta das Finanças. Em 1932 o regime chega ao fim e o Salazar assume como primeiro ministro, cargo que viria a ocupar por 36 anos, durante o período denominado Estado Novo Português.

Assim que assumiu, o ditador estabeleceu uma nova Constituição e determinou a legalidade de um único partido. Sob o poder salazarista, Portugal perseguiu opositores, torturou civis nas colônias portuguesas e fechou fronteiras até a década de 1950, quando o regime já entrava em crise. Apartir dos anos 1960, areação das colônias ao domínio português encabeça a derrocada do Estado Novo, quando Lisboa perde territórios reconquistados pela Índia e enfrenta uma série de conflitos de independência em Angola e Moçambique. Salazar deixa o cargo em 1968 após sofrer um derrame. Com a ditadura em franco enfraquecimento, morre dois anos depois, sendo sucedido por Marcelo Caetano, que conduziu o governo em declínio até a Revolução dos Cravos, em 1974, que encerrou os 48 anos de ditadura, restabeleceu o pluripartidarismo e acabou com o instrumento de repressão do antigo governo.

Três anos antes de deixar a politica por problemas de saúde, após anos de liderança autoritária e com o regime próximo do fim, Salazar discursou durante a posse da Comissão Executiva da União Nacional, em 18 de Fevereiro de 1965. Em uma espécie de panorama de seu governo, o discurso “Erros e Fracassos na era política” reafirma a natureza fascista dos ideais salazaristas.

 

Erros e fracassos da era política(18/02/1965)

Meus Senhores:

Tomou posse nova Comissão Executiva da União Nacional e eu dispenso‑me de louvar os que saem e de apresentar os que entram. Embora coisa devida e justa sabe-se que é sempre assim, o que tira às palavras parte do seu valor. Peço‑lhes por isso desculpa que me será concedida, havendo coisas de alguma importância a dizer.

I

A reorganização faz-se num ano crucial da vida política, não porque terminem as guerras do Ultramar, pois que os inimigos que as fazem e os que as sustentam, declaram, quererem continuar a perturbar a vida e o trabalho alheios; não porque tenha de haver eleições de deputados; ainda que relevantes como são sempre; mas especialmente porque novo corpo eleitoral tem de reunir-se para escolha do chefe do Estado e de toda a Nação portuguesa. Seja qual for a evolução dos acontecimentos, não pode haver dúvida de que é nos sete anos a seguir que por imperativos naturais ou políticos se não pode fugir a opções delicadas, e, embora não forçosamente a revisões, à reflexão ponderada do regime em vigor. E é nas mãos do chefe do Estado que virão a pesar as maiores dificuldades e da sua consciência que dependerão as mais graves decisões.

O que é um regime político? Um regime político é a definição dos órgãos da soberania, do modo como se constituem, participam do poder e colaboram para o bem comum da sociedade civil. É também a enumeração daqueles direitos que as leis hão de respeitar no homem e, no nosso caso, ainda a enunciação de princípios morais, sociais e econômicos que se julgam úteis para dar estabilidade à vida do conjunto humano e imprimir à vida nacional uma finalidade. O que quer dizer que um regime pode ser também uma política e não apenas uma constituição. O nosso é uma coisa e outra.

Ora nós quisemos dar ao país, assolado pelas devastações da sua anarquia, um regime novo; mas muitos dos nossos homens públicos, educados na filosofia política do século XIX, têm-nos considerado sempre um governo à espera de eleições “livres” para uma “assembleia constituinte” que vote “nova Constituição” e com ela garanta ao povo “todas as felicidades”. De modo que se verifica o seguinte: abolidas neste País as instituições tradicionais, não se encontra de 1820 a 1926, através das Constituições, Carta Constitucional e Atos Adicionais à Carta, entre revoluções, golpes de Estado, ditaduras ou vida constitucional, não se encontra regime, dizia, de que possa afirmar-se ter vivido ao menos os quarenta anos que para o ano perfaremos. Ao mesmo tempo, nenhum foi tão estável, tão pacífico e eficiente como o atual. E daí provir o absurdo de o provisório ser mais duradouro que o definitivo e o temporário mais estável que o consagrado para a eternidade.

A mim o que mais me admira é não se haver estudado a razão desta sorte de contrassenso. A vida das sociedades humanas está sujeita a evolução, embora mais lenta do que geralmente se cuida, quando atentamos nas suas estruturas fundamentais. Acontece, sim, que à superfície de vez em quando se levantam ondas que mais chamaríamos modas ou efervescências de opinião, destinadas a cair e a acalmar-se, se não se lhes dá a razão de ser da própria vida política, como tem sido muitas vezes o caso. De modo que o essencial é descobrir as linhas mestras da vida nacional que possam adaptar-se, sem se quebrarem, às contingências dos tempos, e definir a orientação que se lhes há de imprimir, e muitas vezes não é mais que a linha de continuidade de um sentimento coletivo. Assim os regimes se firmam e perduram na medida em que refletem os homens e as Nações – tão diversas umas das outras! – perfilham as aspirações comuns e suprem mesmo deficiências da coletividade.

Se a experiência vale alguma coisa, devíamos tirar daqui uma ilação. A força pode fazer revoluções, mas não pode só por si mantê-las sem o apoio da consciência nacional. A ideia de que a Nação está hoje cloroformizada pelo medo ou por uma espécie de avitaminose política é incompatível com o entusiasmo e a confiança com que se bate em três territórios ultramarinos. Mais correto é pensar que, independentemente dos governantes, sujeitos a deslizes e deficiências na orientação dos negócios públicos, se encontrou uma fórmula conforme ao modo de ser da coletividade e que a todos permite viver em paz e progredir. É de aconselhar que não se substitua enquanto se revelar eficaz e esteja confiada a quem na mais alta magistratura a possa defender e fazer cumprir.

Estas considerações deviam bastar para serenar os ânimos inquietos, exageradamente preocupados com as eleições de deputados que este ano se hão de também realizar.

A União Nacional apresentará, como de costume, as suas listas e é de crer que elementos políticos de oposição ao regime, depois de alguns terem aproveitado o período eleitoral na criação de um clima subversivo, também apelem para o sufrágio popular. Mas terão aqui dificuldades, porque representam o passado, e este, se infeliz, não dá garantias suficientes de aliciar o crédito público. Alguns poderão apresentar-se conto a radiosa esperança do futuro, mas também estes têm “passado”, ainda que fora de Portugal, e o comunismo é neste País tão antinacional e anticristão que uma Nação que se bate a defender a sua integridade territorial e moral não o apoia, não o suporta, não pode reconhecê-lo dos seus.

Não há mesmo possibilidade de as oposições gizarem programas para o futuro imediato, salvo o que nós próprios temos definido já. Há poucos dias tive a oportunidade de ler o documento em que numerosos democratas solicitavam autorização para a celebração, de prever ruidosa, – do 31 de janeiro na cidade do Porto. Na exposição faz-se acerada crítica da Administração e do Governo, apontando os vários problemas em que a atuação ou se verificava errada, ou claramente deficiente. E os autores não tiveram trabalho a documentar os seus assertos, pois se limitaram, para cada assunto, a citar as passagens correspondentes de discursos proferidos na Assembleia Nacional. Nós conhecemos os riscos das transcrições fora do contexto, mas posso glosar o facto em meu proveito. Há anos já o Doutor Marcelo Caetano, então ministro da Presidência, fazia notar encontrarem-se mais diferenças ideológicas entre os membros do Governo do que algumas vezes entre representantes de partidos diferentes. Foi exata a observação e o facto apontado que a confirma quer dizer duas coisas: a primeira é que, salvaguardada a unidade no essencial, não nos afrontam as correntes de pensamento que se manifestem acerca dos problemas nacionais e das suas possíveis soluções; a segunda é que entre nós o deputado é livre a discutir e a votar, o que não acontece nos regimes partidários, em que a disciplina não pode deixar de ser considerada fator essencial à coesão das forças políticas. Por isso, do outro lado do regime, os que pretendem combater-nos não dispõem de grandes possibilidades.

II

Apesar de confiante na experiência e conhecimentos das pessoas mais diretamente encarregadas da ação política, não quero deixar de referir-me à atmosfera mundial e doméstica em que a mesma se desenvolverá.

Vivemos uma época que, apesar de uma verdadeira explosão científica e correspondente progresso em numerosos sectores da vida, se apresenta excessivamente perturbada na consciência dos homens e dos povos. Esta perturbação resulta de se terem rompido, com a Segunda Grande Guerra, numerosos equilíbrios sobre que assentavam a vida social e as relações dos Estados, e também das ideias admitidas para a criação da sociedade futura. O mal vem, portanto, dos factos e das situações criadas e também dos erros de julgamento e de pensar que nos invadiram e constituem veneno corrosivo da ação.

Hitler prometia com a sua vitória a paz para mil anos; perdida a guerra, veio prometê-la a ONU, tanto no seu ideário como no jogo das suas engrenagens, para prazo indefinido. Pois está sendo difícil encontrar lugar na terra onde não alastrem guerras e conflitos de toda a ordem. Ou não soubemos estabelecer e garantir a paz ou estamos equivocados quando a pensamos para sempre possível entre os homens e as Nações.

Aumentam extraordinariamente no mundo, com o trabalho e os recursos da técnica, os produtos para as necessidades do homem; talvez pudéssemos dizer que para todos bastariam, em nível modesto de vida. Pois a pobreza parece apertar cada vez mais aflitivamente os homens e há miséria por toda a parte, mesmo no seio dos países mais desenvolvidos e ricos. E assim parece que ou nos extraviamos no supérfluo em detrimento do necessário ou o nosso coração se perde nos seus anseios de generosidade e não descobre a fórmula de distribuição de bens que acabe coara os pobres na terra – se é possível acabarem na terra os pobres.

Nos povos estabilizados de velha civilização, nos povos que diríamos a caminho de um equilíbrio sadio ou nos que iniciam a vida como Estados independentes, repetem-se sem descanso as invocações democráticas, os apelos à liberdade e à igualdade dos homens, à soberania do povo, à omnipotência justiceira e criadora do voto, à outorga deste até ao limite extremo de “um a cada cabeça”. Pois no funcionamento das instituições políticas, assistimos ao mesmo tempo ao envelhecimento dos princípios que foram dogmas para nossos avós, e depois de século e meio de domínio nos legam uma sociedade moral e politicamente degradada. Ao aconselhar, quase diríamos, ao impor a todos os povos essas instituições e princípios, ou nos enganamos sobre o absoluto do seu valor ou nos iludimos sobre a precariedade das soluções que se encontraram para os realizar. Isto é, depois de milênios o homem conclui não saber governar-se nem poder governar-se sem respeitar o primado da autoridade e da justiça. Ora estas limitam, só porque existem, a liberdade e a igualdade; e da trilogia revolucionária de 89 a única invocação que parecia realizável na sua plenitude – a fraternidade será sacrificada ao egoísmo dos homens e ao materialismo da vida.

Todos terão notado entrar-se numa época em, que a política está a ser dirigida pela economia. E, ainda que estejamos no começo da sua influência, já deslizes se notam de profunda repercussão na vida das Nações. Está generalizada a ideia, que supomos errada, de que todas as sociedades humanas podem, começar o seu desenvolvimento econômico pela industrialização e que o grau de industrialização atingível é igual em todos os povos. Errou-se na avaliação dos capitais disponíveis para o desenvolvimento do mundo e nalgumas partes se houve de voltar atrás em programas ambiciosos de créditos e subsídios, para não se alterar a estabilidade econômica e financeira dos países doadores. Errou-se ao considerar que a economia se pode basear não no trabalho próprio, não na técnica própria ou importada, mas na generosidade alheia e em outros valores morais para que incessantemente se apela. A luz que intensamente se projeta na vida material, no desenvolvimento econômico, nos aumentos indefinidos dos níveis de vida vai deixar na obscuridade toda a parte espiritual do homem, do que me parece dever esperar-se o tempo materialista por excelência, a época dos povos ricos sem alma.

Disse que a economia tende a dirigir a política; mas a técnica, essa, quer substituí-la. Ora, sendo a política indispensável ao governo dos povos, o facto só pode verificar-se se a técnica for em si mesma uma política. Pergunto se é. O avanço das ciências aplicadas aos processos de trabalho abriu à produção e ao funcionamento dos serviços larguíssimas perspectivas. Isso é bem, pelas facilidades que cria e a maior produtividade que dá ao trabalho, e representa um benefício inestimável, dados os aumentos da população e a crescente complexidade da vida. É duvidoso que possa ir além disto; é sobretudo pernicioso que se tenda a converter o homem em engrenagem da própria técnica, que é para onde se caminha. Até aqui a política definia o que devia fazer-se; a técnica ensinava como se devia fazer. Mas se à técnica, conduzida pela ambição do desenvolvimento econômico, mediante o aumento da produção, cabe pronunciar-se sobre a ordem das realizações e sobre a orientação da vida social, é ela também competente para traçar uma política, e nós sabemos bem que ideologia em tais termos a inspira. Tem de salvar-se o homem, da tentação do abismo. Ele continuará a apresentar-se-nos como ser moral por excelência, embora com necessidades materiais, o que significa haver outro mundo, dever haver outro mundo para além daquele que a técnica e a economia podem criar.

Um dos fenômenos mais embaraçantes do mundo de hoje é a crise do direito internacional que uns observam como herança da sua civilização e outros desprezam para se instalarem, a seu gosto na terra. O alargamento da comunidade internacional não devia ter-se processado à margem da preparação dos Estados para aceitarem e cumprirem as normas que regulam por consenso geral ou por convenção expressa a vida de relação entre as nações; mas seguiu-se orientação oposta com o princípio da universalidade de todas as organizações internacionais, como se o registo de admissão equivalesse à garantia de observância das normas que as regulam, o que está demonstrado não ser exato. A Organização das Nações Unidas tem feito – pecaminosamente – o máximo por condescender com práticas aberrantes e até com a defesa de supostos interesses de muitos países irrequietos e ambiciosos contra os legítimos direitos de outros. Apesar disso, o desequilíbrio das situações apontadas é de tal ordem que nós o podemos ver na base dos numerosos conflitos que se espraiam pelo mundo. O princípio de que nas épocas de crise a lei internacional é para cada Estado a que serve o seu interesse, sem respeito pelo direito alheio, lançou-nos no caminho das grandes confusões e dos máximos perigos.

Nesta ligeira referência a factos e erros da nossa era que a tornam desassossegada e infeliz, não podemos esquecer o maior de todos – a África em fogo.

O nosso ministro dos Negócios Estrangeiros tem feito numerosas exposições sobre a política externa nas quais os problemas de África e do Ultramar português têm tido o merecido relevo. Eu próprio me recordo de haver exposto com alguma largueza o enquadramento da nossa política ultramarina tanto na evolução contemporânea de África como no nosso direito constitucional e na política interna. Não me repetirei; atualizarei apenas as situações, referindo-me aos factos mais recentes.

Malgrado os esforços da Organização da Unidade Africana, são cada vez mais vincadas as divisões e incompatibilidades que uns aos outros opõem os países daquele Continente. Vários ao sul do Equador dão mostras de não confiar no desinteresse dos árabes que se propõem conduzi-los. Por outro lado, estes e alguns outros pretendem chefiar a revolução africana, não já e apenas no sentido da independência dos territórios coloniais, mas no da adoção de uma política, ideológica e economicamente sustentada pelo bloco comunista. A revolução de Zanzibar e a formação da União com o Tanganica cavaram urna brecha difícil de colmatar. Particularmente por ali, mas também pela costa ocidental, entram as ideias, os homens, as armas que se propõem atingir o coração de África, para o domínio comunista desta.

Como nenhum país africano tem ao presente desenvolvimento econômico e social que permita a realização do comunismo, o apoio do referido bloco representará sobretudo a substituição das posições ocidentais, no que respeita à Europa, e um perigo para a independência da África no que respeita àquele Continente. O chamado socialismo africano não pode ser mais no nosso tempo que a expropriação e em muitos casos a espoliação dos bens, meios de trabalho e empreendimentos que os europeus ali fizeram surgir. O racismo negro, no que tem de irredutível cora a presença do branco, pode ser visto como a explosão duma incompatibilidade étnica, um desagravo ou um desforço, mas, aos olhos de muitos agitadores, é também uma operação econômica, aliás fracamente reprodutiva pela dificuldade de organizar o trabalho e manter o nível da produção com, elementos locais.

Assim as nações europeias que cederam as posições políticas mas entendiam que, apesar de tudo, lhes seria possível continuar a guiar os povos africanos independentes, pela superioridade da técnica, pela força do capital emprestado ou gratuitamente cedido, pelo brilho da cultura, têm de haver-se agora com concorrentes difíceis e estranhos ao Continente africano que, além de implicações econômicas e políticas, comprometem a obra ali empreendida.

Há semanas a esta parte elementos subversivos vindos do Tanganica, diretamente ou através do Malawi, romperam em Moçambique com as ações anunciadas de sabotagens e morticínios dos portugueses negros. Tentam que os casos da Guiné e de Angola se repitam ali com o auxílio e colaboração do Tanganica, embora até ao presente sem intensidade comparável aos primeiros, porque nos encontraram preparados e atentos. Constituindo aquele território um Estado membro da Comunidade britânica, somos levados a crer que a Inglaterra, sem falar em obrigações de alianças, entende não estar em condições de dizer uma palavra de moderação a um membro da Comunidade que se comporta tão ao arrepio da correção jurídica e política devida a Estados vizinhos. Em compensação a defesa contra ataques, protegidos nos países de onde partem, começa a ser aceite pelas potências, como comportamento normal e inteiramente justificado.

Este o teor em que vai o mundo e é dentro deste quadro que havemos de defender os territórios nacionais. É uma pena que os três milhões e meio de contos gastos anualmente nesta defesa, além dos muitos centos de milhares que as grandes Províncias despendem com o mesmo fim, não possam ser aplicados aqui e lá em estradas, portos, escolas, hospitais, aproveitamento de terras, instalação de indústrias ou exploração de minas. Com tais somas se podia fazer a relativa felicidade de muita gente em vez de lhe perturbar e sacrificar a vida, alimentando a – vaidade de ideólogos ou de aventureiros que um dia sonharam com impérios afinal inacessíveis às suas ambições.

Estas importâncias assim gastas nas províncias ultramarinas não serão mal-empregadas? O problema não pode pôr-se-nos assim, mas só em face da imperiosidade do dever político e das possibilidades nacionais. O cumprimento do dever não tem de ser contabilizado; as possibilidades são as do nosso trabalho que, se tiver de ser mais penoso e longo, o será sem hesitações.

Sei que em espíritos fracos o inimigo instila um veneno subtil com afirmar que estes problemas não têm solução militar e só política e que todo o prolongamento da luta é ruinoso para a Fazenda e inútil para a Nação. Eu responderei que o terrorismo que somos obrigados a combater não é a explosão do sentimento de povos que, não, fazendo parte de uma nação, conscientemente aspirem à independência, mas tão-só de elementos subversivos, estranhos na sua generalidade aos territórios, pagos por potências estrangeiras, para fins da sua própria política. Como elementos alheios à coletividade nacional estiolar-se-ão no momento de lhes ser recusado o território em que se organizam, e treinam, o apoio político recebido e os subsídios cru armas e dinheiro. De modo que a tal solução política, se não prevê a desintegração nacional (que todos fingem repelir), não se encontra em nós próprios mas nos países vizinhos, aos quais, pelos meios ao nosso alcance, possamos ir fazendo compreender melhor os seus deveres de Estados responsáveis para conosco e para com uma pobre gente que estupidamente se faz sacrificar a interesses alheios. Mas neste entendimento a defesa militar é o único meio de chegar à solução política que no fundo é a ordem nos territórios e o progresso pacífico das populações, como o vínhamos prosseguindo.

Vamos em quatro anos de lutas e ganhou-se alguma coisa com o dinheiro do povo, o sangue dos soldados, as lágrimas das mães? Pois atrevo-me a responder que sim. No plano internacional, começou por condenar-se sem remissão a posição portuguesa; passou depois a duvidar-se da validade das teses que se lhe opunham e acabaram muitos dos homens mais responsáveis por vir a reconhecer que Portugal se bate afinal não só para firmar um direito seu, mas para defender princípios e interesses comuns a todo o Ocidente. No plano africano, quatro anos de sacrifícios deram tempo a que se esclarecesse melhor o problema das províncias ultramarinas portuguesas, a diversidade das instituições criadas em séculos naquele Continente e os ganhos ou perdas, em todo o caso as dificuldades que a independência, tão ambicionada por poucos, trouxe a todos os mais e os dirigentes não sabem ainda como resolver. Assim, bastantes povos africanos nos parecem mais compreensivos das realidades e mais moderados de atitudes. Eis o ganho positivo desta batalha em que – os portugueses europeus e africanos combatemos sem espetáculo e sem alianças, orgulhosamente sós.

III

Agora umas palavras sobre o ambiente político interno que adivinho denso e carregado de dúvidas e preocupações. Eu compreendo isso e, ao aflorar certas causas da perturbação mundial, de algum modo e em parte o explico também. Devido a jogo inextricável de interdependências, uma parte da vida da Nação sofre as pressões externas – doutrinárias, econômicas ou políticas – a que não tens possibilidade de esquivar-se. E assim, correndo mal os tempos no mundo, difícil seria que pudessem correr aqui inteiramente bem. Mas, além disso, temos causas privativas de mal-estar.

Enfrentamos guerras no Ultramar que não se sustentam nem hão-de vencer sem sacrifícios de sangue e de dinheiro. Por isso os impostos tiveram de ser agravados e é ainda possível que, nas vastas reformas publicadas, algumas incidências não realizem a justiça e por isso mesmo não correspondam à vontade do legislador.

Uma série de maus anos agrícolas havia de saldar-se por perdas vultosas tanto para o proprietário da terra como para o agricultor. Atravessamos um ano excepcionalmente seco que prenuncia, a continuar assim, urra estio sem águas de rega e graves dificuldades no abastecimento para o próprio consumo corrente. A indústria, que trabalha ao abrigo das irregularidades climatéricas, tem-se multiplicado e progredido satisfatoriamente, mas, devido ao excesso de população que trabalha nos campos, o progresso daquela não beneficia proporcionalmente os homens da terra que se refugiara na emigração, aliás em desordem muitas vezes e em excesso injustificado, originando crises de mão-de-obra em vastos setores rurais. O abastecimento público tem podido manter-se em termos quase normais, mas muitos preços têm subido, com os correspondentes gravames para as economias mais débeis.

Quando estes fenómenos se verificam e nestas proporções, a população tem a tendência para intensificar e acelerar pressões no sentido de ver aumentadas as remunerações do trabalho, pensando esquivar-se às dificuldades comuns. A experiência largamente vivida pelos povos é a da inutilidade ou nocividade desses remédios, porque as altas salariais se refletem nos preços e estes no valor da moeda, tudo voltando ao começo. A obra de maior vulto realizada pelos Ministros das Finanças dos últimos quarenta anos foi exatamente conseguir manter o equilíbrio financeiro e a estabilidade monetária, que estão na base do nosso progresso e é necessário conservar para podermos subsistir; e por esse motivo, salvo nos casos de ajustamentos impostos por imperiosa justiça, não devemos aceder à onda de aparentes facilidades que aliviam o dia de hoje, comprometendo o futuro. A mim se me afigura especialmente absurdo que, tendo como Nação, de fazer face a maiores despesas, queiramos sempre, na imitação desequilibrada de modas alheias, ganhar mais e desejemos ao mesmo tempo trabalhar menos.

Durante a última grande guerra me aconteceu algumas vezes receber altas personalidades britânicas para negócios graves, e notar-lhes o fato velho, coçado, fimbriado nas mangas. Chegava a comover-me observar esses sinais de pobreza que não havia pejo em mostrar, porque representavam afinal o sacrifício conscientemente feito ao fim supremo da luta em que a sua nação se empenhara. Sei que não estamos em termos comparáveis e talvez por essa razão não vemos isso aqui, antes em certos casos o espetáculo da riqueza que se alardeia e quase afronta pelo exagero com que se manifesta. Por mim desejaria que fôssemos mais modestos e, sobretudo nestes momentos de crise, mais discretos também.

O facto de ter-se anunciado e começado a executar um plano que se chamou de reconversão agrária, alertou a muitos, porque não foram inteiramente compreendidos os fins, os métodos, as cautelas a ter na longa transição: nada, a não ser a incompreensão, devia causar receios ao nosso meio agrícola. Eu sou um rural e, embora em situação diferente, vivi duas guerras, uma em que interviemos ativamente nos quadros de uma aliança, outra em que não batalhamos, mas houvemos que organizar a defesa nos quatro cantos do mundo. Daí vem compreender o campo e conhecer as necessidades vitais que o campo tem de satisfazer. Independentemente do que se possa chamar a poesia campestre, que atrai os sorrisos um tanto desdenhosos da economia industrial, por mim, e se tivesse de haver competição, continuaria a preferir a agricultura à indústria; mas se quereis ser ricos não chegareis lá pela agricultura, ainda que progressiva, e industrializada, neste País de solos pobres e climas vários. A terra é humilde, tanto que se deixa a cada momento pisar; o trabalho da terra é humilde, porque o homem a cultiva, humildemente debruçado sobre as leivas; o fruto do trabalho ria terra é pobre porque está rio início de um ciclo de operações comerciais ou industriais destinadas a valorizá-lo ou a enriquecê-lo. Assim a faina agrícola, sujeita à torreira do sol ou à impertinência das chuvas, é acima de tudo uma vocação de pobreza; mas o seu orgulho vem de que só ela alimenta o homem e lhe permite viver. Quando se governa um país, e se nos deparam os mercados difíceis, os mares impraticáveis, as bocas famintas sem saber de onde há-de vir um bocado de pão, a terra pobre, a terra humilde sobe então à culminância dos heroísmos desconhecidos e dos valores inestimáveis.

Ao afirmar-se a necessidade de corrigir o fácies agrícola do País, alargando a floresta às serras nuas e aos campos que cobrimos de searas pobres, não se pensou em desertar da cerealicultura, mas na possibilidade de ter searas mais rendosas ou culturas mais ricas noutros terrenos e deixar ao mesmo tempo que as árvores cresçam onde o trigo não grada. Deste modo mais intensa florestação do País não significa a diminuição das culturas, o êxodo dos trabalhadores, o abandono do pão que cultivamos, aliás, sem grandes condições para isso, e teremos de pagar, mesmo se caro, como quem paga um seguro de guerra.

Tem-se falado muito nos defeitos da nossa estrutura agrária, que são evidentes e mais evidentes se tornarão a todos os interessados na medida em que pudermos corrigi-los. Mas, talvez por não termos bem definido os termos da questão fundamental que é a relação da cultura com a propriedade, houve sobressaltos injustificados, pois logo se enxergaram repercussões na pequena horta familiar ou na herdade extensa de bem equilibrada cultura. Isso nasceu do amor à terra que gira no sangue das nossas veias, mas não se justificava nem em face das intenções nem de quaisquer providências tomadas.

Grandes e pequenas coisas se têm acumulado a empecer-nos o caminho, umas apenas na imaginação sobressaltada, outras nos factos reais da vida. Mas o que houver, que rever-se há-de sê-lo, não na precipitação, mas na calma do nosso melhor entendimento.

IV

Compreende-se bem que, neste emaranhado de problemas e de soluções possíveis, de adversidades que nos chovem como castigo do céu e de dificuldades nascidas da política mundial, seja fácil criar aqui dentro ambientes de dúvida e de perturbação. Disse que uma parte da vida nacional flui das interdependências externas; mas outra parte, a mais importante e grave, somos nós a determiná-la, a tomar dela a responsabilidade plena. E um povo que toma, diante de, si mesmo e à face dos imperativos da sua história, a decisão viril de resistir, porque sabe que precisa de resistir para sobreviver, há-de tirar desta mesma decisão as forças necessárias para enfrentar as dificuldades. Penso assim que o Ultramar não pode ser para nós fonte de desânimos, mas, ao contrário, do mais sadio optimismo.

Além dos portugueses de África que combatem nas fileiras ou defendem portuguesmente naquelas terras as suas aldeias e lavras, teremos já entre nós dezenas de milhares de homens e, não sei quando, centenas de milhares que viveram nos matos, se arriscaram nos mares e nas selvas, jogaram a vida pela Pátria e viram no Ultramar projetada a Nação na sua verdadeira grandeza. Que podem significar para estes homens umas oposições que conspiram com o comunismo em, Paris ou em Argel para lhe entregar Portugal, ou aquelas, mais moderadas embora, que se limitam a ver se podem conquistar o poder, sabendo todos, pela imprecisão da sua linguagem, que perder a batalha aqui ou lá é tudo a mesma coisa? E não estaremos nós à altura dos que se batem, não só por eles e por nós, mas pela justiça que nos assiste e pelo bem dos povos a que nos devotamos?

Quando a União Indiana se apossou de Goa, o que internacionalmente se concluiu foi que obteve minas ricas de ferro e manganês e ficara com um porto como não havia outro em todas as suas costas; e parece não ter acudido à mente de ninguém que havia ali também, uma alma e uma cultura indo-portuguesa, amorosa criação de quatro séculos e meio de trabalhos e sacrifícios. Pois por este motivo já quase não trabalham as minas, nem se desenvolve o porto de Mormugão; e a União Indiana, para aumentar de uma polegada o seu imenso território, forjou, cravando-o no seu seio, mais um fator de divisão na profunda divisão que a agita. Nunca houve tantos portugueses nem tão elevado sentimento português em Goa a enfrentar autoridades tirânicas, no mesmo território que a hipocrisia de muitos diz “libertado da opressão” portuguesa.

Esta lição que o mundo agora colhe do nosso sofrimento, não queremos que levianamente a tire dos outros territórios que constituem a Nação portuguesa. Mas este não querer tem um segredo que é sabermos bem, porque nos batemos, isto é, as razões da nossa luta nacional.

Humildemente confesso não ter conseguido em tantos anos duas coisas que aliás se me afiguravam essenciais: convencer os governos de que precisavam de um apoio político para a sua ação e de que esse apoio só podia advir-lhes da União Nacional; convencer a União Nacional de que a formação política não pode ser abandonada a acasos de leituras ou de influências familiares mas a uma doutrinação sistemática e persistente.

Em face de nós só dois agrupamentos levam na devida conta a formação dos seus adeptos – a Igreja e o comunismo. Embora, conforme a frase de Tertuliano, a alma humana seja naturalmente cristã, desde sempre entendeu a Igreja não poder existir sem uma doutrinação ativa que ilustrasse os entendimentos no dogma, e afeiçoasse as consciências às práticas da sua moral. Assim a Igreja pode cristianizar a nação e pode até cristianizar o Estado; e parece-me dever ficar por aí, pois não pode substituir este nem conduzir os negócios daquela na ordem material ou profana. E se, esquecendo amargas experiências históricas, se sentisse tentada a intervir na ação política, não devia fazê-lo, porque, à medida que vemos materializar-se a vida, se torna mais e mais absorvente a missão espiritual da Igreja.

O comunismo que também quer ser à sua moda religião, trabalha como uma igreja, doutrinando e formando os seus adeptos, com largueza de meios e base científica dignos da melhor escola, mas tão eficientes que, sendo a doutrina comunista antinatural, mesmo contra a natureza consegue fiéis que se lhe entregam inteiramente e por ela morrem, se necessário.

Na carência a que me referi e no que é essencial, o que nos tem valido é o fundo ainda consistente da lusitanidade, as lições da história e o exemplo dos seus valores, a sã tradição de nossos maiores que os acontecimentos políticos dos últimos séculos não conseguiram obliterar. Mas para conquistar uma adesão firme, formar um soldado de uma causa desinteressada, granjear-lhe a dedicação incondicional, é precisa a ação constante de uma doutrinação esclarecida. Quando o inimigo sentiu que organizações nossas podiam ser o fermento duma nova sociedade ou forças de estabilização necessária na época agitada em que se tem vívido, logo iniciou a campanha necessária ao seu descrédito. E muito bem, diante da nossa indecisão, porque ele sabia o que lhe convinha e nós dávamos provas de ignorar o de que tínhamos necessidade.

Pois bem, se o Centro de Estudos Políticos que existe aqui fizer irradiar de si a luz que ilumine, o calor que aqueça sobretudo as almas jovens, naturalmente generosas e sedentas, nós podemos estar certos de que não serão abalados os alicerces nem com eles o futuro desta Nação.

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FASCISMO E SALAZARISMO, Luís Campos e Cunha

Tem razão no que diz, mas não refere um aspeto importante, que é o da tradição da oposição (de tendência democrática ou não) durante boa parte do séc. XX se considerar antifascista: podia não ser o fascismo das definições, mas era “o nosso fascismo, um fascismo português”…

«POLÍTICA
Fascismo e salazarismo
Luís Campos e Cunha
9/11/2018

Salazar não era revolucionário como o fascismo, era conservador. Era mesmo avesso ao progresso industrial, era reacionário, via a felicidade do povo na ruralidade: cada família com a sua junta de bois

Foi Salazar um fascista? A resposta é, historicamente, não. Mas precisa de qualificativos e muitas justificações. Num momento em que todos falam que o fascismo está de volta, vale a pena pensar, é útil rever o que se entende por tal. Há hoje claros perigos de movimentos racistas, nacionalistas e não democráticos: é o fascismo de novo?

A palavra fascismo pode, para simplificar, ter um significado popular, jornalístico, politiqueiro, ou ter um significado histórico ou académico.

No sentido da luta política de muitos dos comentadores nos jornais, fascista é um tipo de direita com relutância para aceitar o Estado de Direito. Sem necessidade de ir para exemplos do mundo de hoje mais extremados (Maduro, Putin ou Duterte), há exemplos atuais com matizes mais suaves, em todo o caso graves: Trump nos Estados Unidos, Orbán na Hungria, Erdogan na Turquia ou o recém-eleito Presidente do Brasil, apenas para citar alguns.

Estes são todos fascistas para os comentaristas dos jornais ou candidatos a políticos da esquerda menos interessante. Neste sentido popular (e popularucho), também Salazar era um fascista.

Do ponto de vista mais histórico, então a conversa é bem diferente. O fascismo é uma corrente política, de há cerca de 100 anos, que se caracterizava por traços bem claros.

Desde logo, e em primeiro lugar, os fascistas tomaram o poder com base num partido de massas e com ações violentas e bem organizadas. Alguns usaram eleições para chegar ao poder (para logo as desprezar), mas o poder absoluto passou pela brutalidade de um partido com grande base popular: um partido de massas. A violência passava por organizações à margem do Estado e da lei. Neste aspecto, os fascistas dos anos 20 não eram muito diferentes dos comunistas dos anos 40 ou 50.

Ora, Salazar nunca teve um partido de massas, nunca conquistou o poder com ações de violência nas ruas. Desde logo quis (re) construir o Estado acabando com grupos ilegais e perigosos de arruaceiros herdados da I República. Foi tudo ao contrário. O poder foi-lhe proporcionado, em 1928, pelos militares do golpe de 1926. Os militares, não sabendo o que fazer, chamaram Salazar para ministro das finanças porque tinha escrito umas coisas… Daí em diante, Salazar foi construindo o seu poder com paciência para chegar, mais tarde, a Presidente do Conselho. É um trabalho nos bastidores e não na rua, tinha uma ideia para o País e quem tem um olho em terra de cegos pode ir longe. E foi.

A União Nacional, mais tarde criada, era um clube de amigos, caciques locais e bajuladores. Nunca um partido de massas, nem sequer um partido na acepção atual.

Segundo, Salazar abominava os grandes comícios, contrariamente a Mussolini que usava as massas como a fonte do poder. Salazar discursava a contragosto para mais de umas dezenas de pessoas, com base num texto escrito (em excelente português, saliente-se). E, nesses casos, fazia-o para explicar o que fazia, para onde ia o País em contraste com a balbúrdia e a violência da Primeira República.

Terceiro, enquanto Mussolini, Hitler ou Franco discursavam e apareciam em público em trajes militares, Salazar nunca o fez. De facto, a desconfiança de Salazar em relação aos militares é de salientar, tanto mais que a sua fonte inicial de poder foi o grupo militar de 1926. Mas Salazar tinha, nas altas patentes militares dos anos 30, oficiais que haviam combatido ao lado dos ingleses na Grande Guerra ou que fizeram demasiados golpes na I República; ou seja, gente imbuída de uma tradição militar e política em que ele não confiava. Talvez por isso, cedo chamou para o Governo o Capitão (ou já seria Major?) Santos Costa que passou a mandar no Exército (hoje seria um escândalo).

Tudo isto era contrário ao que se vivia em Itália ou na Alemanha da época. As relações entre o Nazismo e o Exército alemão davam para muito, mas fiquemos por aqui.

Em quarto lugar, o fascismo era uma força revolucionária, idolatrava as máquinas e o desenvolvimento que elas traziam. Pensava o futuro das economias com base na indústria. Salazar era exatamente o contrário.

Salazar não era revolucionário como o fascismo, era conservador. Era mesmo avesso ao progresso industrial, era reacionário. Salazar via a felicidade do povo na ruralidade: cada família com a sua junta de bois, com um hectare de terra e uma pequena casa. Era avesso ao mudar dos tempos e à liberdade de costumes que despontava, naturalmente.

Em quinto lugar, os fascismos europeus eram expansionistas e queriam criar impérios. Salazar, pelo contrário, bastava-lhe conservar o império que tinha herdado da História. Também aqui a diferença é abissal e com implicações várias na sua política internacional. Não acicatar os alemães nem perder a proteção dos ingleses.

Em sexto lugar, Salazar era religioso. Nunca saberemos quão católico seria, mas era o suficiente. O Fascismo (e o Nazismo bastante pior) era ateu e idolatrava a guerra e o “progresso”. Nada disso encontramos em Salazar.

Por último, o fascismo era racista e o nazismo ainda mais brutalmente o foi. Salazar era um paternalista em relação a África e aos africanos. Não podemos esquecer que o primeiro americano negro a entrar na universidade de brancos nos Estados Unidos data de 1962 e tal causou o caos nalgumas zonas da América. Contrariamente, nos anos 50, já os (mais tarde) líderes dos movimentos de independência tinham estudado em Lisboa. Agostinho Neto e Amílcar Cabral são disso exemplos. Mais ainda, logo no início das leis contra os judeus na Alemanha, Salazar instruiu o seu embaixador em Berlim para avisar, de forma diplomática, mas muito clara, que nas leis portuguesas não havia distinções raciais desse tipo, pelo que a aplicação de certas leis alemãs não poderia contar com a colaboração das autoridades portuguesas. Por outras palavras, judeus não poderiam ser extraditados por esse facto, porque Portugal não saberia distingui-los de outro alemão qualquer. E assim foi durante a II Grande Guerra que se seguiu.

Em conclusão, Salazar sujeitou à repressão do regime quem ativamente se lhe opunha, o que faz dele um ditador. Mas não instituiu a pena de morte; se e quando matou foi um assassínio e não a coberto da lei. A PIDE perseguia os portugueses ativos do reviralho, mas ficou a anos-luz da Gestapo. E também não usou a Mocidade Portuguesa (ou mesmo a Legião) para chacinar os eventuais não apoiantes do regime, nem tão pouco usou a fúria das massas para aniquilar quem não o apoiava. Implantou (lentamente) a censura como forma última de controlar o pensamento. As universidades eram para as elites porque Salazar era um político declaradamente anti-democrático. E era um conservador (diria, reacionário) no sentido próprio do termo. Mas também nisso o salazarismo era o contrário do fascismo.

Hoje, quando falamos de fascismo em relação a movimentos não democráticos, devemos colocar o ênfase na sua ação anti-liberal; o nosso objetivo último não são as eleições, mas deve ser sempre preservar a liberdade, tanto individual como cívica. E aí, infelizmente, estamos a viver um período muito duro.

A liberdade corre risco de ser posta em causa pelo resultado de eleições reconhecidas como livres, em que as próprias eleições são o instrumento para aplicar políticas contra o estado de direito e a liberdade, abrindo caminho a formas de “democracia iliberal” e a novos déspotas.»

https://observador.pt/opiniao/fascismo-e-salazarismo/

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Vida Extra | Este era o maior segredo de Salazar. Revelamos a droga que o ditador tomou durante 22 anos

O Vida Extra publica em exclusivo um excerto de “A Queda de Salazar: O princípio do fim da Ditadura”, de José Pedro Castanheira, António Caeiro e Natal Vaz (Edições Tinta da China). O livro chega às livrarias esta sexta-feira

Source: Vida Extra | Este era o maior segredo de Salazar. Revelamos a droga que o ditador tomou durante 22 anos

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«Poema de Fernando Pessoa: ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR

transcreve-se de diálogos lusófonos

 

«Poema de Fernando Pessoa:

ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR
António de Oliveira Salazar.
Três nomes em sequência regular….
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.
……
Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.
Oh, c’os diabos!
Parece que já choveu…
……
Coitadinho
do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho…
Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.
Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.
Mas enfim é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.

s.d.
Da República (1910 – 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. – p. 349.
1ª publ. in Diário Popular , Lisboa, 30 Maio e 6 Junho 1974 . inc? CF. lello – fotoc»

http://arquivopessoa.net/textos/4357

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__._,_.___

Enviado por: Margarida Castro <[email protected]>


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Madeleine Albright: ″Salazar não era fascista″

A ex-secretária de Estado dos EUA vai publicar o livro Fascismo – Um Alerta. Não esquece Trump, fala de governantes que pisam o risco, como Erdogan ou Maduro. Quanto a Salazar, diz que “não era fascista, via o nazismo como imoral e desconfiava da democracia”.

Source: Madeleine Albright: ″Salazar não era fascista″

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o casal que Salazar e Mao separou

«Aida Franco Nogueira mostra-me a foto dos avós maternos. Uma lindíssima jovem portuguesa e um atraente diplomata chinês, com o cabelo puxado para trás graças à brilhantina, que tinha vindo em missão a Lisboa. Otília Machado Duarte e Wang Shuyao. Conheceram-se numa festa, dançaram toda a noite, apaixonaram-se e casaram-se, alheios à diferença de culturas, embora ele ser católico tenha facilitado o sim. O retrato a preto e branco, agora protegido por uma moldura de vidro, exibe um pequeno rasgão, como que a relembrar que passou quase um século desde aquela inesperada paixão em Lisboa na década de 1920 que acabou por se transformar numa história trágica de separação, com a política a ter muitas culpas.

Apanhado na China pela invasão japonesa e pela guerra civil entre nacionalistas e comunistas, o casal teve de se separar. Wang foi mesmo preso, mas ainda conseguiu enviar Otília e as duas filhas, Vera e Teresa, para o Japão, como refugiadas. Seguiram-se décadas de separação, e Otília, professora de Francês, morreu sem nunca reencontrar o marido. Vera, a mais velha das filhas, foi quem um dia conseguiu ir a Xangai rever o pai, já muito frágil. Como o destino fez que a luso-chinesa se casasse com Alberto Franco Nogueira (que viria a ser ministro dos Negócios Estrangeiros), enquanto Salazar e Mao viveram e Portugal e a China estiveram de relações cortadas, nada pôde ser feito. Foi preciso acontecer o 25 de Abril e voltarmos a ter representação diplomática em Pequim para que uma filha e um pai separados há 35 anos se revissem.

“A minha mãe estava emocionadíssima com a viagem à China. Mas ela, com a dignidade habitual, nunca mostrou exuberância nos sentimentos, percebe? Nunca chorou, nunca riu, mas estava emocionada, claro! E eu, à pressa, arranjo dois álbuns das minhas filhas – o da Filipa foi um bocadinho maior porque ela já tinha 14 meses e mais fotografias do que a Joana que nascera havia três meses. A minha mãe levou em 1981 esses álbuns para mostrar as bisnetas. Ele nunca as conheceu, nem a mim”, conta Aida, sentada num sofá numa salinha cheia de fotografias de família, várias dos já três netos. Numa estante alguns livros de encadernação antiga que pergunto se eram do pai, advogado como ela, mas que afinal pertenceram ao avô paterno, juiz. A conversa é num sétimo andar no Restelo, no mesmo prédio onde Alberto Franco Nogueira e Vera Wang Franco Nogueira viveram.

Pai e filha falavam em mandarim

É um tema delicado de conversa para Aida. A voz por vezes embarga-se e os olhos chegam a lacrimejar. A mãe morreu há poucos dias, o pai faria 100 anos neste dia 17 (e vai haver uma cerimónia no Ministério dos Negócios Estrangeiros). Diz-me que quase tudo o que está a contar foi o que ouviu da mãe, que nem sempre sabe as datas certas. Agradeço-lhe ter aceitado contar o episódio do reencontro de Vera Wang (é assim que Aida acha que faz sentido a mãe ser referida nesta reportagem) com o pai chinês, depois de uma hesitação há quase três anos quando a contactei pela primeira vez depois de descobrir a comovente história no livro Em Torno da China, as memórias diplomáticas de João de Deus Ramos. Como primeiro diplomata português nessa Pequim capital da República Popular da China, chegado em 1979, João de Deus Ramos esteve com Vera e o pai. “Um senhor muito distinto, mas que evidenciava claramente que a vida tinha sido dura para ele”, relembra agora o embaixador, figura importante nas negociações para a transferência de Macau para a China em 1999.

“Nós nunca pudemos comunicar com o meu avô e o meu pai, sobretudo no período em que foi ministro, teve de ter todas as cautelas para não se fragilizar nem a ele nem ao país. Mas às vezes, chegadas não sei de onde, com imensos carimbos, recebíamos cartas do meu avô. Tinham conselhos para a minha mãe, mas não sei bem o quê, estavam em chinês. Eram baseadas na filosofia chinesa de vida”, relata Aida, que conta que a mãe falava cinco línguas, incluindo chinês e japonês. No livro de memórias, João de Deus Ramos diz ter conversado em francês com o antigo diplomata da República da China e que ficou surpreendido por pai e filha falarem em mandarim.

Aida pede-me desculpa para atender um telefonema. Está a preparar a missa de 30.º dia da mãe. Durante a conversa o telefone dá sinal mais algumas vezes. Ainda há gente a querer apresentar condolências. Como mulher do mais emblemático ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar, Vera Wang era uma figura muito conhecida, mas a filha gosta que se lembrem dela não só como a viúva de Franco Nogueira mas também como a fundadora da Academia de Música de Santa Cecília. Mostra-me alguns álbuns de família. Num deles, de folhas já a soltar-se, está uma foto de Vera, talvez com uns 3 anos (nasceu cá em 1927).
Uma luso-chinesa em Tóquio

Depois de se casar em Portugal, o casal Wang foi para a Bélgica. Ele era diplomata da República da China, fundada por Sun Yat-Sen e depois presidida por Chiang Kai-shek. Na derradeira guerra civil chinesa, já depois da Segunda Guerra Mundial, o generalíssimo foi derrotado por Mao Tsé-tung e refugiou-se em Taiwan em 1949, onde continuou a reivindicar ser o legítimo governante de toda a China. Ainda hoje a pequena ilha aloja a República da China, mas os nacionalistas do Kuomintang estão na oposição e há um crescente sentimento independentista na população, que apesar de ser de cultura chinesa aprecia o sistema democrático que ali vingou depois da morte de Chiang. Os líderes de Pequim só admitem, porém, a solução da reunificação, como aconteceu com Macau, portuguesa desde o século XVI, e com Hong Kong, colónia britânica de 1841 a 1997.

Há num dos álbuns muitas fotografias de Aida, tiradas em Richmond Park, quando Franco Nogueira esteve colocado como diplomata em Londres no final dos anos 1950. Aproveito para pedir a Aida que me conte como se conheceram os pais, que é outra das histórias míticas da nossa diplomacia, durante muito tempo relembrada por quem fazia carreira no Palácio das Necessidades. Ri-se. É uma recordação feliz, que lhe agrada contar um pouco como terá ouvido tantas vezes contada pelo pai e pela mãe: “O meu pai é colocado no Japão em 1946, como representante de Portugal junto do alto-comando liderado pelo general MacArthur. Na altura os Estados Unidos ocupavam o Japão, que em agosto de 1945 se tinha rendido depois das bombas atómicas. Ele vai alojar-se em Tóquio no hotel onde viviam os estrangeiros não americanos. E ninguém fala nada que ele entenda e vice-versa. Mas percebem que é português e vão buscar a minha mãe. E aparece ela e a minha tia pequenina, com 10 anos ou coisa parecida. É no Japão que começa o amor deles e no Japão casam-se e ficam mais oito anos.” Mas faltava a autorização de Salazar para que um diplomata pudesse casar-se.

O sim de Salazar ao casamento

“Houve uma peripécia: o meu pai, como diplomata português, não podia casar-se com quem lhe apetecesse. A autorização estava difícil porque naquela altura o meu pai não tinha nenhum contacto com Salazar, não o conhecia. A autorização é pedida, mas demora. Salazar exigiu ver uma fotografia da minha mãe porque alguém terá dito que era uma jovem comunista, revolucionária e aventureira e que não devia ser dada a autorização. O Salazar, com aquela calma dele, pede para ver a fotografia e quando a viu autorizou o casamento. Simplesmente, a minha avó Otília estava, por causa da demora, a tratar da viagem de regresso a Portugal, dela própria e das filhas. A viagem veio e as três embarcaram para Portugal, a caminho primeiro de Macau e, num dos portos em que o navio atracou, chega de repente um telegrama com a autorização do casamento e a minha mãe pegou nas suas coisas e voltou para o Japão. Só vêm para a Europa oito anos depois. Regressam para um posto para Londres e ficam aqui pouco tempo – o tempo de eu nascer, porque eu nasci aqui. Depois foram para Londres, tinha eu 9 meses”, acrescenta Aida, hoje com 63 anos. Portanto, Vera, que saíra de Portugal com uns 3 anos, regressa mais de 20 anos depois. “Não tinha qualquer memória do que era Portugal e quando chega o português dela não era muito bom, apesar de já estar a melhorar. Mas o hábito dos meus pais era falar em inglês. Só mais tarde é que começaram a falar em português. E quando o meu pai se torna ministro dos Negócios Estrangeiros e ela acaba por ter um protagonismo público, aí já fala português corretamente.”

Ministro entre 1961 e 1969, com Salazar e depois, por pouco tempo, com Marcelo Caetano à frente do governo, Franco Nogueira teve de lidar com um período de grande isolamento internacional de Portugal, que se esforçou por contrariar, sobretudo junto dos países da NATO. No arquivo do DN são muitas as fotografias suas com líderes internacionais, destacando-se uma na Casa Branca com John Kennedy, a 7 de novembro de 1963, duas semanas antes do atentado em Dallas. Considerado um liberal na juventude, Franco Nogueira foi-se tornando mais conservador ao longo dos anos, mas mesmo Francisco Seixas da Costa, da geração de diplomatas que surgiu logo a seguir à revolução, reconhece o brilhantismo intelectual. E, diz ao DN, valoriza o antigo MNE por ter sabido rodear-se “para a “missão impossível” que fora defender o patético colonialismo tardio de Salazar, de muitos daqueles que eram, de facto, grandes funcionários das Necessidades, a esmagadora maioria dos quais viria a transitar, com escassos sobressaltos, para o tempo democrático”. Já o antigo ministro chegou a ser preso depois do 25 de Abril e Aida recorda-se de ser acordada em casa por militares com G3 em punho. “Senti o frio do cano da arma encostado à pele”, diz.

Constrangido durante uma década de tentar qualquer contacto com a China comunista enquanto chefiava a diplomacia do Estado Novo, já em 1979, quando João de Deus Ramos se instalou em Pequim, nada impedia Franco Nogueira de aceitar ajuda dos antigos subordinados (como era o caso do encarregado de negócios com cartas de gabinete) para tentar encontrar o sogro. E foi assim que chegou a licença das autoridades chinesas para a viagem de Vera Wang. Mao já morrera e Deng Xiaoping estava prestes a iniciar as reformas económicas, mas ainda era uma China pobre aquela que a luso-chinesa vai encontrar quando viaja em 1981, lá ficando um mês.

“A minha mãe contou-me algumas coisas bastante chocantes. Aliás, quando fez a mala ela sabia que o pai não tinha nem dinheiro nem roupa nem casa, não tinha nada, porque na China era assim, tinha um fato para o verão, um fato para o inverno, um pijama para o verão e um pijama para o inverno, acabou”, relembra Aida. Que prossegue com o relato daquilo que viu e ouviu: “Era arriscado, mas mesmo assim, à cautela, levou algumas peças, uma camisa, umas calças, um pijama, mas nada de valor. Levou três ou quatro peças de roupa. Levou aquilo com que podia ajudar o pai sem ser ostensiva, sem ser revistada e presa também. Depois, para não ser muito ostensiva, teve muito cuidado nas roupas que levou, umas simples calças e uma blusa, de uma cor só. Mas sentiu a mudança dos tempos. Apesar de tudo ela sentiu que a ajudaram, se eles não quisessem que ela fosse lá não deixavam.” Foi mais ou menos um mês que a filha passou na China com o pai. Conta ainda Aida que o avô tinha voltado a casar-se e que tinha uma filha jovem, engenheira. E que “ter conseguido ser professor, depois de todas as humilhações sofridas pelos letrados durante a Revolução Cultural, significava que se tinha conseguido reerguer”. Mostra-me mais algumas fotos da mãe. “Era bem bonita, não era?” As fotografias respondem por si, mas quem conheceu Vera Wang fala também de uma autoridade natural. João de Deus Ramos recorda-se de um jantar em Lisboa em 1968, na legação da República da China, em que “a mulher do ministro, num tom firme mas cândido”, o aconselhou “a usar os pauzinhos chineses”. E recorda que Salazar tinha grande admiração por esta pequena luso-chinesa de personalidade forte a ponto de se “darem como deus com os anjos”, sublinha o antigo administrador da Fundação Oriente.

Hoje com 76 anos, o nosso diplomata pioneiro em Pequim diz que se recorda bem do pai de Vera, que surgiu vestido tão pobremente que pediu desculpa. Pediu para ver os livros de João de Deus Ramos “e confessou que há muito não via tantos livros ocidentais”. A ida à capital foi uma exceção, pois a maior parte do tempo foi passada em Xangai, onde, sublinha Aida, a mãe foi obrigada a procurar um hotel pois não a deixaram ir para a casa onde o pai vivia.

A despedida de pai e filha foi definitiva ao fim daquele mês de reencontro e muitas emoções. Wang Shuyao, que já deveria andar na casa dos 80, morreu “talvez uns cinco anos depois”, diz Aida, que passou a receber cartas em inglês. Numa delas, que me relê em voz trémula, o avô aconselha-a “a viver perto da água e a olhar para o mar”.

A notícia da morte “veio com fotografias dele morto. Alguém comunica, não se sabe bem quem, eu pelo menos não sei. Alguém comunica e manda umas dez fotografias da cerimónia em que ele está morto numa bancada de pedra.” Não é coisa para se pôr num álbum de família, mas Aida conta que estão guardadas, “muito bem guardadas”.»

DN.PT
Vera Wang era filha de um chinês e de uma portuguesa. Com o pai preso na China, refugiou-se no Japão. Conheceu lá Franco Nogueira, futuro MNE de Salazar, e casaram-se. Só depois do 25 de Abril conseguiu rever o pai. Quem conta agora a história é Aida, a filha.
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