Tomás Quental · As razões de tanto “ódio”

As razões de tanto “ódio”
O dr. Vasco Cordeiro, antigo presidente do Governo Regional dos Açores, presidente do PS-Açores e líder parlamentar socialista na Assembleia Legislativa Regional, é um homem honesto e uma pessoa estimável. Eu ouvi com todo o interesse a entrevista que deu à RTP-Açores. Ele disse, nomeadamente, que o que une os cinco partidos que apoiam o actual Governo Regional é o “ódio ao PS”. Sim, tem razão.
Mas o dr. Vasco Cordeiro parece que ainda não reflectiu sobre a razão ou razões por que se criou tanto “ódio ao PS”. Aqui é que está o principal problema. E a razão ou razões de tanto “ódio ao PS” foram os muitos anos da política socialista de “quero, posso e mando”, em que o PS se transformou em “dono disto tudo” nos Açores, ignorando muitas vezes a oposição e afastando-se também muitas vezes da sociedade, dos seus problemas e das suas necessidades.
O PS começou muito bem, mas acabou mal. O mesmo já tinha acontecido com o PSD. O PS, quando chegou ao Governo Regional, ao fim de muitos anos de governação social-democrata, foi fantástico: abriu a sociedade, trouxe ar político novo, apostou em novos sectores económicos, incrementou novas dinâmicas sociais, realizou obras públicas muito importantes e investiu mais na Educação, entre outras ações. Mas depois, lamentavelmente, foi piorando com os anos, cometendo muitos erros, nomeadamente com projectos sem sentido numa Região Autónoma de limitados recursos financeiros. Dois exemplos apenas: gastou muitos milhões de euros numa “Casa da Autonomia” e num “Centro de Artes Contemporâneas”, que nunca serviram nem servirão para nada, enquanto os hospitais regionais estavam e estão na penúria de meios técnicos e de recursos humanos. Isso não é socialismo democrático: é, sim, má governação!
O PS perdeu a maioria absoluta nas últimas eleições legislativas regionais porque, depois de um início muito bom, acabou governando encerrado em si mesmo, afastado do interesse colectivo, com as suas elites manifestando muitas vezes arrogância política e falta de humildade democrática, como pensando que o poder seria eterno. Enganaram-se!
O dr. Vasco Cordeiro disse, também, que a actual solução política e governamental açoriana, assente em cinco partidos que até já se criticam no parlamento regional, não tem consistência suficiente para ter um projecto de futuro para os Açores. Partilho da mesma opinião. De resto, há secretários regionais, após três meses de serem empossados, parece que não sabem ainda que são governantes, porque não dão qualquer sinal de ação. Devem estar a desinfectar os gabinetes, talvez, porque trabalho não se vê nada. Mas também aqui há um aspecto que o dr. Vasco Cordeiro, apesar de ser um homem inteligente, parece que ainda não percebeu: a “geringonça” açoriana permitiu, pelo menos, abrir a janela da democracia açoriana para entrar ar político novo. A Assembleia Legislativa recuperou o seu papel central, contra a governamentalização que existia do regime autonómico regional. É preciso mais? Com certeza que sim. Então, se o PS, que continua a ser o maior partido no arquipélago embora com maioria relativa no parlamento, quer recuperar a confiança maioritária dos açorianos e das açorianas, tem que se refundar, reorganizar e purificar, recuperando os ideais iniciais, de progresso, justiça social e democracia, longe do “quero, posso e mando” que o caracterizou durante muitos anos.
O PS, se se mantiver como está, com as mesmas ideias e as mesmas práticas, até com dirigentes que cada vez que falam – não me refiro ao dr. Vasco Cordeiro, como é óbvio – só arranjam mais anti-corpos para o partido, então vai continuar por muitos anos na oposição, apesar de a “geringonça” açoriana muito dificilmente conseguir um patamar de maior progresso e de maior felicidade para todos os açorianos e para todas as açorianas, porque faltará sempre a consistência suficiente para um projecto de longo alcance, mesmo com a boa vontade, a competência e a honestidade de vários governantes actuais.
Jorge Rebêlo, Maria Das Neves Baptista and 29 others
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osvaldo cabral Plano de Recuperação e Resiliência

O povo tem razão: o que nasce torto tarde ou nunca se endireita.
O Plano de Recuperação e Resiliência nasceu torto pelas mãos do Governo de Vasco Cordeiro, mantém-se torto no Governo de José Manuel Bolieiro e, mais grave, parece que vai mesmo ser aplicado à imagem e semelhança da sua mediocridade.
Este Plano faz parte da estratégia europeia para a recuperação da economia nos países membros.
A Portugal, incluindo as duas Regiões Autónomas, caberá uma verba de 13,842 mil milhões de euros.
O Governo da República destinou, inicialmente, um valor da ordem dos 649 milhões de euros para os Açores, mas depois voltou com a palavra atrás e inscreveu apenas 580 milhões na proposta que foi lançada à consulta pública e que terminou no dia 1 deste mês.
O Governo de Vasco Cordeiro, sem dar cavaco a ninguém, distribuiu o montante que nos cabe por vários sectores, sendo que o sector da administração pública abocanhou as maiores fatias, o que diz bem sobre como pensava o governo anterior em recuperar a economia regional: atirar dinheiro para cima dos mesmos, os que se governam à custa do orçamento público.
O actual governo, apanhado a meio desta trapalhada, em vez de reformular o Plano, desculpou-se com a falta de tempo para não atrasar a aprovação do documento e deixou-o ficar como estava.
É um disparate pegado, porquanto o Plano foi posto à consulta pública, por obrigação e precaução da Comissão Europeia (por saber o que é que casa gasta), pelo que a região tinha oportunidade, até ao passado dia 1 de Março, para corrigir e alterar o que muito bem entendesse.
Pelo meio surge a polémica sobre a falta de 140 milhões de euros que tinham sido acordados entre o Governo Regional anterior e o da República.
Vasco Cordeiro e Sérgio Ávila viram-se obrigados a explicar como tinham chegado ao referido acordo, depois de se terem estendido ao comprido ao exigir do actual governo regional explicações para a falta da verba retida em Lisboa.
O governo de Bolieiro não quis ficar atrás e comete outro disparate ao escrever esta semana a António Costa exigindo a reposição dos 140 milhões “que se destinam às empresas”.
Como?! Às empresas?
E porque não à administração pública?
Por que razão as empresas, o sector produtivo, já de si penalizado num Plano mal feito, é que devem ser penalizadas e não o sector público?
Ou seja, se não forem repostos os 140 milhões, são as empresas que vão “gramar” e a administração pública, os lobbies do costume, fica intacta.
Este governo parece guiar-se pela máxima de querer “fazer sempre o mesmo esperando resultados diferentes”.
Está visto que este Plano não vai resultar, porque foi idealizado por políticos, congeminado em gabinetes de políticos e vai acabar por ser distribuído pela clientela política.
No meio de uma crise social e económica como a que estamos a enfrentar, quando as famílias açorianas, empresas e trabalhadores precisam de tantos recursos para recuperarem da enorme pancada desferida por esta pandemia, por que cargas de água este Plano destina mais de 100 milhões de euros para uma coisa chamada “transição energética”?
Pior do que não ter a noção das prioridades regionais, é a percepção gravíssima de que isto está em roda livre e não existe na região nenhum mecanismo de controle e fiscalização para os milhões que vêm por aí fora.
Já bastou o Plano ter sido elaborado nas costas da população e dos parceiros sociais (por isso a Comissão Europeia obrigou a efectuar uma consulta pública), precisamos agora de criar um mecanismo independente, com personalidade sérias e fora dos círculos da política, para fiscalizar a distribuição dos fundos.
À semelhança do proposto a nível nacional, devemos criar uma plataforma pública, tipo Portal da Transparência, para sabermos para onde estão indo os fundos, como são aplicados e quais os resultados.
O actual governo deve deixar-se deste comodismo e desculpas esfarrapadas em não querer alterar o Plano e pôr-se a mexer um bocadinho mais para termos uma verdadeira recuperação e resiliência, criando riqueza e empregos nesta região, em vez de engordar o monstro da administração pública regional.
Como se viu ainda esta semana, vai prosseguir com a asneira do governo anterior em atirar mais dinheiro para empresas falidas e arruinadas, como a Sinaga, como se esperasse resultados diferentes.
Ainda vai a tempo de acordar e de nos livrar de mais pesadelos.

(

Osvaldo Cabral

– Diário dos Açores de 03/03/2021)

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  • Osvaldo Cabral faz lembrar o Pe. António Vieira e o seu famoso sermão Pregar aos Peixes. A diferença é que António Vieira obteve resultados, conseguindo que os nativos do Brasil fossem poupados. Neste caso os tubarões comeram os peixes antes do sermão…

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  • Prioridade número um dos políticos de fantochada: serem reeleitos. Como é que se ganham eleições numa região com um elevado número de funcionários públicos e elevada abstenção? Investindo na administração pública.…

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às armas

Chico às armas, às armas
Francisco César exaltou-se. O que é sempre um acontecimento. Um Francisco César sereno amedronta, no seu brilhantismo oratório. Mas um Francisco César zangado assusta, pelo desassossego que causa nas agulhas de todas as estações de observação sismológica da Região.
Com a sua voz poderosa e o seu timbre longamente masculino, ambas as características fruto de herança genética que muito rogamos nunca se perca, haja as descendências que houver nos anos vindouros, denunciou, em plenário da Assembleia, que o governo mandou polícia para Rabo de Peixe, com “metralhadoras apontadas à população”. E acrescentou “como foi vesível”.
Assim mesmo, com e, não foi erro meu. Visível é uma coisa que a vista alcança com facilidade. Vesível é uma coisa que só Francisco vê mas que, depois de gritada, pretenderia todos tivessem visto.
Veio logo a Associação Sindical da PSP denunciar tratar-se de uma falsidade e exigir retratações ao ilustre deputado. Levantaram-se vozes de protesto nas redes sociais. Francisco defendeu-se nas mesmas. Que o sindicato da PSP tem um dirigente do PSD. Vejam como uma letra faz toda a diferença. E manteve a sua. Só não via quem não queria. Bocas suplicantes de crianças, histerias de pânico de suas mães, fugas de barco e de mota dos machos, e a PSP a avançar sem dó nem piedade de metralhadoras apontadas. Tudo imensamente vesível para ele, continuando invisível para nós, Chico a reescrever o “Ensaio sobre a cegueira”.
É tempo de nos perguntarmos como foi possível chegarmos a este ponto. De termos rapazes carreiristas espalhados por todas as ilhas a desempenhar altos cargos, sem que a gente saiba bem como chegaram a tais cumes.
Imagine o leitor que tem uma empresa e precisa de um empregado. Aparecem-lhe candidatos com qualificações académicas e experiência profissional. Preferiria escolher o candidato que só tivesse a escolaridade obrigatória e nunca tivesse trabalhado na vida?
Continue a imaginar o leitor: é membro de um júri para selecionar candidatos num concurso para preenchimento de uma vaga no sector público. Rasgaria os currículos dos mais capazes, preferindo um que só soubesse mandar bitaites?
Creio que a resposta em ambas as hipóteses é óbvia, para a larga maioria.
Mas gostaria que o leitor imaginasse que é dirigente de um partido político. Aparece-lhe um rapaz sem estudos, ou que interrompeu os estudos que estava a desenvolver, sem nunca ter trabalhado ou dado provas públicas da sua competência. Com certeza poderá o leitor admiti-lo no partido, afinal é um direito que assiste ao rapaz. Mas metê-lo em listas de candidatos a eleições? Não será um risco tremendo de o partido ter fraca votação?
Se aceitarmos o princípio de que, para gerir a coisa pública, aquele que a tal se candidata tem de ter dado provas da sua capacidade para gerir a sua vida privada, a resposta é clara. O rapaz que complete o seu curso, vá trabalhar, prove que é capaz, e depois a gente conversa…
Só que o PS partiu durante muitos anos do princípio contrário, de que qualquer um serve. E aí os temos, os rapazes, deputados, governantes, presidentes de câmaras municipais, sem nunca terem gerido nada mais para além de paleio.
Claro que têm de estar desesperados. O que vão fazer, se lhes faltar uma carreira de mama? Assim sendo, desatam a atacar, a escrever para os jornais, a inventar factos, só para eles “vesíveis”.
Cabe a todos os cidadãos conscientes usar o seu voto para repor a ordem natural das coisas. Que os filtros que existem noutros domínios, nas empresas privadas e na contratação pública, passem a existir igualmente na participação política. No fundo, como foi durante muitos anos: que os rapazes cresçam e depois apareçam.
António Bulcão
(publicada hoje no Diário Insular)
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OSVALDO CABRAL O pior da política

O pior da política
Esta semana assistimos a episódios que são o pior do que há na política e nos políticos.
O caso das verbas do Plano de Recuperação e Resiliência destinadas aos Açores revelam uma mesquinhez vingativa por parte do Governo da República que é inqualificável.
Está já provado, através de documentação facultada por Vasco Cordeiro, que publicamos ontem neste jornal, que o Governo da República se tinha comprometido com o anterior Governo Regional a transferência para os Açores de 649 milhões de euros, correspondendo a 5% do pacote indicativo de Portugal a preços constantes de 2018.
Como a execução do programa ocorre nos próximos cinco anos, o valor é actualizado conforme o momento da elaboração dos programas comunitários, pelo que se chega aos tão falados 720 milhões de euros, nas contas do líder do PS.
O que é que o Governo da República fez?
Depois do compromisso assumido, sem mais nenhuma explicação, publica os valores da proposta preliminar do PRR e para os Açores estão destinados… 580 milhões de euros!
É uma diferença de 140 milhões de euros que se esfumaram num ápice.
E qual é a explicação?
Vasco Cordeiro revela que o seu governo escreveu uma carta a perguntar, mas 40 dias depois ainda espera pela resposta.
Esta semana o deputado Paulo Moniz fez a mesma pergunta ao Ministro do Planeamento, numa audição na Assembleia da República.
Nelson de Souza, à semelhança dos seus colegas ministros trapalhões, meteu os pés pelas mãos, mostrou-se incomodado e não soube explicar, mentindo que os 580 milhões foram sempre a verba acordada.
Este são os factos.
O episódio é revelador do pior que temos na política à portuguesa.
O PS dos Açores e o seu líder estiveram bem ao denunciar a tramóia dos seus colegas da República, mas estiveram mal ao não explicar o processo todo quanto interrogaram o Governo Regional sobre a falta dos 140 milhões, sabendo informações que o comum dos mortais desconhecia.
O PS dos Açores devia denunciar publicamente todo este triste episódio quando ainda era governo e não agora.
E devia ser o primeiro a apresentar um voto de protesto no parlamento açoriano contra a atitude vergonhosa do Governo de António Costa, que já vem sendo costumeiro a anunciar milhões para os Açores e, depois, faltar aos compromissos assumidos.
Tudo isto não augura nada de bom para o que vem aí, sobretudo com o futuro envelope financeiro do novo quadro comunitário de apoio.
(

Osvaldo Cabral

– Diário dos Açores de 28/02/2021)

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  • E depois destas voltas todas voltamos ao princípio…
    O anterior governo estando em gestão obviamente não ia apresentar protesto nenhum…
    O actual governo, demonstrando bem a competência que o caracteriza, nem sequer se apercebeu do assunto ficando ev…

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  • Resumindo, o PS nacional trama o PS regional, que depois empurra para o atual GRA, lavando as suas mãos do problema.
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Associação Sindical da PSP contesta declarações de Francisco César – Açoriano Oriental

A Associação Sindical dos Profissionais da Polícia emitiu um comunicado, ao final da tarde de hoje, acusando Francisco César de prestar declarações incendiárias sobre a atuação da Polícia de Segurança Pública na vila de Rabo de Peixe.

Source: Associação Sindical da PSP contesta declarações de Francisco César – Açoriano Oriental

Relações familiares no Governo de António Costa envolvem 50 pessoas e 20 famílias – O Jornal Económico

Uma contagem anterior apontava que existiam 27 pessoas e 12 famílias no poder, mas nos últimos dias vieram a público mais nomes, catapultando o número para 50 pessoas e 20 famílias, mais um ex-casal.

Source: Relações familiares no Governo de António Costa envolvem 50 pessoas e 20 famílias – O Jornal Económico

QUALIFICAÇÕES DUVIDOSAS

Ricardo Branco Cepeda

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9m
“Hernâni Ricardo Costa é o novo presidente do Conselho de Administração do Instituto Regional de Ordenamento Agrário. Tem experiência como gestor comercial numa discoteca da Ribeira Grande e num grupo açoriano que detém a Salsicharia Ideal…”
Açores: Uma discoteca e um talho no CV do nomeado para o Instituto Agrário
SABADO.PT
Açores: Uma discoteca e um talho no CV do nomeado para o Instituto Agrário

os 4 moscateiros (Terceira) ANTÓNIO BULCÃO

Os 4 moscateiros
O karaoke deu palco aos desafinados. Cada desafinado sente-se estrela quando escolhe a sua canção no menu, agarra o microfone e vai soletrando a letra que aparece no ecrã, tentando acertar nas notas, sem consciência de que está a cantar uma coisa totalmente diferente do original.
Mas é, de certa forma, a democratização da performance musical. Quem afina, canta para públicos, quem desafina canta para os amigos, até para desconhecidos, imaginando-se Tina Turner ou Bruce Springsteen quando geme que é simplesmente the best ou dança in the dark.
O facebook e outras redes sociais abriram espaço para a opinião. Noutros tempos, quem sabia escrever produzia livros, publicava artigos nos jornais. Hoje o que não falta é gente que sabe muita coisa e quer partilhar o seu ponto de vista com toda a gente.
Mas, pode-se dizer, é a liberdade de expressão no seu expoente máximo. Com erros ortográficos, com opiniões muitas vezes sem sentido ou mesmo ofensivas para a honra e consideração de terceiros, lá vai mais um post, dentro de caixinha, fora de caixinha, a cores ou a preto e branco. Depois é só esperar likes, comentários, carinhas a rir, outras furiosas.
Quem gosta de escrever geralmente publica num jornal a sua opinião. E muitas das opiniões que enchem o facebook dificilmente seriam aceites na mais humilde redação.
Ao longo dos anos, sobretudo depois do 25 de Abril, muitos foram os articulistas a deixarem a sua marca nos jornais açorianos. Mas, a partir de certa altura, começaram a surgir escribas ligados aos partidos, produzindo em geral artigos sem grande sabor, sendo que toda a gente já sabia, pela assinatura, o conteúdo dos mesmos.
Mas, depois das eleições de outubro do ano passado, assistimos a uma nova moda: os deputados do PS, eleitos pela Terceira, decidiram começar a escrever todas as semanas. Dividindo pastas entre eles, Educação para o professor, Saúde para o enfermeiro, problemas sociais para a empresária sobretudo dedicada à política na maior parte da sua vida activa e bordoada geral para o que, não fosse a política, estaria desempregado.
Tudo estaria bem se, antes de entrarem para a vida política, ou até depois, enquanto o PS foi governo, tivessem povoado as páginas dos jornais. Seria apenas, nesse caso, a continuação de uma actividade cívica que é sempre louvável – participar na vida colectiva destas ilhas, dar a sua opinião, discutir em praça pública o seu ponto de vista.
Só que não foi o caso. Não me lembro de nenhum escrito assinado pelo especialista em saúde e, muito menos, do expert em educação, sendo que os dois restantes só muito esporadicamente apareceram nestas páginas. Perguntei-lhes, há semanas, o que querem com esta invasão. Nenhum me respondeu.
Tiro, então, as minhas conclusões. Ou antes não sabiam escrever. Ou sabiam, mas não tinham ideias. Vêm agora defender tudo o que podiam ter feito enquanto foram poder e malhar nos que querem governar. Chamam-lhe… oposição. Mas não pensem que as pessoas são tolas. Porque não são.
Ninguém julgue, no entanto, que preferiria deixassem de escrever. Que passei a ser contra a liberdade de expressão. Muito pelo contrário. Porque a vossa fraca escrita e a vossa ausência de ideias dificilmente convencerão alguém. Falta-vos a forma, para além da substância.
E se apenas conseguis escrever enquanto oposição… que nunca mais parem.
António Bulcão
(publicada hoje no Diário Insular)
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  • E é assim que se escreve, é assim que se mostram factos. Uma boa argumentação, com cabeça e conhecimento.
    Só podia ser o Professor Bulcão!
    Quem fala/escreve assim não é gago!!