722. as inundações em díli (ao luís takas cardoso)

  1. as inundações em díli (ao luís takas cardoso)

 

segunda feira de pascoela

tiraram as pulseiras eletrónicas

estamos em liberdade condicional até nova ordem

quero sair à rua conversar com os peixes falantes

das últimas chuvas em timor

nas ruas e estradas que já não há

nas palapas que a correnteza levou

país de ricos cheio de pobres

estradas que vão reconstruir

e os desprovidos a viver ao relento

desta vez a culpa não é do malai

como em 1973 quando houve inundações

 

queria ver o governo a distribuir riqueza

do petróleo e do gás para todos

para terem casas, água, luz, saneamento

para não construírem nas encostas despidas

nas margens das ribeiras que se fazem rios

na costa de marés cheias devastadoras

 

escrevi em 1972 que era preciso um poeta

para ministro das finanças

tu meu caro luís takas Cardoso

és o meu indicado

para dar alforria aos pobres

iluminar as palapas

educar os analfabetos

matar a fome nas montanhas

criar o país que tantos sonhamos

 

chrys c (inédito)

poesia em dia de aniversários

721. à ni

 

ni 66 anos de vida,

 

25 anos de casados, 26 anos de partilhas 3.4.2021

 

eram catos eram cardos

vidas antigas, pesados fardos

eram espinhos eram picos

tua memória de saltos hípicos

de vidas esfrangalhadas e desperdiçadas

fizeste juras de amor encarniçadas

 

eram catos eram cardos

nem todos os gatos são pardos

deles fizeste orquídeas e cravos

de teus beijos guardo os travos

 

eram catos eram cardos

a tuas promessas de brocados

do teu sorriso fiquei escravo

sem apelo nem agravo

 

eram catos eram cardos

entoei poemas de bardos

cantarolámos primaveras e verões

em mui tórridos serões

 

sem arrependimentos nem dores

preservamos nossos amores

em versos de rimas tortas

abrimos todas as portas

(inédito)

2020 maria nobody rtp 1 no parque terra nostra

poema aqui 509 maria nobody

vídeo

poema de chrys chrystello, composto por ana paula andrade e interpretado magistralmente por helena castro ferreira

2 poemas desta data noutras eras

469.1. dia de enganos, abr 1, 1976

 

nesse dia acordou irritado

logo por azar estremunhado

notaria a seu lado

a mulher

morta há dez anos

os ossos espalhados pela cama

pressupunham

aqui e além

um certo descuido

mas que diabo!

voltou-se para a janela

tentando adormecer uma vez mais

invariavelmente o fazia em dias como aquele

foi então

atiraram a bola à vidraça

o quarto ficou estrelado

mil sóis recortavam-se no ladrilhado

esforçou-se por manter a calma

ocultou a face no travesseiro

agarrou a almofada

freneticamente

num esgar sensual

ao longe tiniam campainhas

não havia dúvidas

iria ser um dia mau

decidiu-se a folhear o matutino

recusou-se a acreditar

limpou os óculos

estava lá

sem engano possível

em título de caixa alta

em editoriais se consagrava

o sonho supremo da humanidade

por decreto presidencial

dum senhor que ninguém elegera

ia ser promulgada e publicada

no diário da governação

com força institucional

 

A D E M O – C R A – C I A

 

em termos mui solenes

o governo advertia

dentro de 24 horas

em cerimónia apropriada

nascia a democracia

e zás! nem quis ligar a televisão

quieto e calado tresleu

era demais!

violento choque!

democraticamente

sem se dar conta

caiu para o lado com um baque surdo

morreu na cama

e em jejum

democrata de nascença.

 


469.2. le poisson d’avril, abr 1, 1976

 

 

(hoje, todos os jornais cumpriram

nem uma só mentira se imprimiu

era a verdade toda

a do sonho não vivido

talvez possível

em letras garrafais

 

  • HOJE DIA NACIONAL DE ENGANOS É LÍCITO DIZER A VERDADE –

proclamava o editorial)

a duas colunas no canto esquerdo

a páginas quinze

era minha a foto e o nome

nem me impressionou!

ri mesmo com desprendimento

negra cruz encimava frontispício

dizeres os do costume

a missa presente no corpo do finado

hora a habitual

na residência

o féretro sairia para jazigo familiar

lembram-se de cada!

(claro que me importei quando o padre disse

que ELE me chamara à sua presença)

todos compungidos

choravam rezas e eulogias

vestiam negro

exceto as flores

e as palavras vazias

adivinhei um sorriso dissimulado

nos lábios da viúva

andei por aqui e ali

ouvindo este e aquele

pediam à minha alma

que os libertasse

queriam alívio

disfarcei-me por entre sombrias colunatas

e fugi

 

 

(ainda hoje me procuram!)

 

 

 

 

 

 

poema A arte de Deus

Source: Facebook

https://www.facebook.com/photo?fbid=260101562396002&set=a.251810519891773

 

A arte de Deus

Deus mandou as abelhas polinizarem
Uma a uma, todas as flores
Seus mandamentos, fala dos homens se amarem
Ele criou um arco-íris de chuva, sol e cores
Fez a água translúcida e pura
Poderosa, fonte de vida
A flor de laranjeira cheirosa, sedutora alvura
E a poesia, fê-la sentida
Deus criou os ribeiros, os rios e o mar
Criou os céus, os animais, os aromas
Deu aos Homens a capacidade de falar
Muitos e diferentes idiomas
Num ventre abençoado e fecundo
Deus confia toda a sua esperança
Fez das mulheres, mães do mundo
E a alegria da vida, cada criança
Ele criou-nos tão diferentes
Como peças de um puzzle infinito
E a cada diferença que aceitas e sentes
Torna-se o mundo mais bonito
Deus criou um mundo exclusivo
Em constante rotação
E deu a cada ser vivo
O pulsar majestoso d’um coração
Fez a noite p’rá Lua ser vista
E fez o dia com sol e calor
Deus é de todos, o mais talentoso artista
A arte e Deus é o amor!

Sandra Fernandes, 

Mulher POEMA


Todos os direitos reservados

* Foto retirada da net 

See less
Sandra Fernandes and 7 others
Like

Comment
Share

Comments

o buraco negro da mudança de hora

720. o regresso 28.3.2021

 

tenho em mim todo o tempo do mundo

percorro calendários sem dias nem meses

a minha ampulheta tem a duração das estrelas

vagueio em cósmicas andanças

moldei o tempo e o espaço

em buracos de minhoca azul

como einstein previa

vórtices acelerados

viajo por estrelas e nebulosas

em túneis do hiperespaço

buracos negros de singularidade

matéria comprimida a tamanho zero

e mesmo quando na terra a hora muda

regresso sempre aos açores

 

inédito cqi vol6

viva Ferlinghetti

LAWRENCE FERLINGHETTI
(24.03.1919 – 22.02.2021)
NAS MAIS GRANDIOSAS CENAS DE GOYA
Nas mais grandiosas cenas de Goya parece-nos ver
os povos do mundo
no preciso e primeiro momento em que
conquistaram o título de
«humanidade sofredora»
Contorcem-se nas páginas do álbum
num acesso de raiva
da adversidade
Empilhados
gemendo com bebés e baionetas
sob céus de cimento
numa paisagem abstracta de árvores explodidas
estátuas curvadas morcegos asas e bicos
patíbulos escorregadios
cadáveres e órgãos carnívoros
e todos os monstros finais e tão gritantes
da
«imaginação da catástrofe»
são tão sangrentamente reais
que é como se existissem realmente
E existem mesmo
Só a paisagem é que mudou
Estão ainda perfilados ao longo das estradas
pejadas de legionários
moinhos falsos e galos dementados
São as mesmas pessoas
apenas mais longe de casa
em estradas largas com cinquenta faixas de rodagem
num continente de cimento
espacejado a maciços de cartazes
que ilustram imbecis ilusões de felicidade
A cena mostra menos carros com condenados
mas mais cidadãos mutilados
em automóveis pintados
com números de matrícula muito estranhos
e motores
que devoram a América
May be an image of one or more people and text
You and 1 other
2 comments
Like

Comment
Share
Comments
  • Active
    cópia deste exemplar levei-o para timor e anda comigo até hoje
    • Like

    • Reply
    • 1 m
  • Active
    ele, ginsberg e daniel filipe nunca me abandonaram
    • Like

    • Reply
    • 1 m
Convidado pelo poeta norte-americano Jack Hirschman, participarei, hoje à noite, na sessão de homenagem a Lawrence Ferlinghetti, que tive a fortuna de conhecer em Lisboa, no dia em que completaria 102 anos. Este será o texto que irei ler em português. O poeta norte-americano Scott Edward Anderson lerá o mesmo texto em inglês. É uma honra enorme participar neste evento.
For Lawrence Ferlinghetti
As you used to say, Lawrence, love is hard to come by when you are older and, …

See more
May be an image of 1 person and text that says "REVOLUTIONARY POETS BRIGADE presents an online chnijpun poetry reading In Celebration of Lawrence Ferlinghetti on his 102nd Birthday March 24th, 2021 1:00pm PST Zoom Link Below http://0swb.om.s/8670442 Hosted by Jack Hirschman"
Eunice Brito, Maria Cantinho and 47 others
11 comments
5 shares
Like

Comment
Share
Comments
View 1 more comment
  • Belo texto e muitos parabéns pelo convite, Luís! A que horas são as nossas, Luís?
    1
    • Like

    • Reply
    • 1 h
    • Edited