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VASCO PEREIRA DA COSTA APRESENTA DIMAS SIMAS LOPES

Versão Online

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Caro(a) amigo(a) do Museu de Angra do Heroísmo,

O Museu de Angra do Heroísmo promove no próximo sábado, 7 de setembro, pelas 21h30, o serão literário Poemas Lidos e Histórias que não se Escrevem, que contará com a presença de Vasco Pereira da Costa.

A iniciativa integra-se no âmbito do programa de dinamização da exposição de pintura Mar | Matéria | Material em que são apresentadas obras deste intelectual, poeta e artista plástico terceirense.

Patente até 15 de setembro, na Sala Dacosta, Mar | Matéria | Material dá conta de múltiplas formulações matéricas que são resultado da experimentação de técnicas apreendidas por Vasco Pereira da Costa num périplo por museus e centros de arte contemporânea de diferentes partes do mundo, sendo, contudo, bem visível à ligação à Ilha e ao Mar, que marca igualmente a sua produção poética.

Na ocasião, será lançado o livro O Rapto de Dimas Simas Lopes, que reinventa a história de uma família, numa narrativa polifónica, em que a focalização dos acontecimentos vai alternando entre as diferentes personagens, de forma a refletir os seus anseios, angústias e vivências e a compor simultaneamente um retrato da sociedade insular em que se inserem.

A apresentação da obra estará a cargo de Vasco Pereira da Costa para quem, neste romance “Dimas expande a ilha até aos horizontes impossíveis e, através de uma linguagem colhida do real, redime a insularidade penitente ao proclamar o júbilo da vida.”

Dimas Simas Lopes, médico cardiologista e artista plástico, natural da ilha Terceira, publicou já Sonata para um Viajante, em 2012 e Porto do Mistério do Norte, em 2015.

Melhores cumprimentos,

Maria Fagundes

Secretariado

REGIÃO AUTÓNOMA DOS AÇORES

SECRETARIA REGIONAL DA EDUCAÇÃO E CULTURA

DIREÇÃO REGIONAL DA CULTURA

Museu de Angra do Heroísmo

Ladeira de S. Francisco

9700-181 Angra do Heroísmo

Tel: +351 295 240 800 Fax: +351 295 240

Esta mensagem é enviada para drchryschrystello@gmail.com de acordo com a legislação Europeia em vigor sobre o envio de mensagens comerciais, ao abrigo da Directiva 2000/31/CE do Parlamento Europeu e Relatório A5-0270/2001 do Parlamento Europeu, e não pode ser considerado “SPAM”, pois está claramente identificada pelo seu emissor. Ao abrigo da Lei 67/98 de 26 de Outubro, o destinatário poderá a qualquer momento proceder à rectificação ou cancelamento dos seus dados, conforme o disposto nos artigos 10º e 11º. Se desejar remover o seu email clique aqui.

© 2019 Museu de Angra do Heroísmo, Todos os direitos reservados

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Pedro da Silveira. Quando ser poeta era outra coisa

  • Alguns de nós já o sabiam.
    Mas é sempre bom que alguém o repita em voz alta: «Pedro da Silveira é um grandessíssimo poeta» (Diogo Vaz Pinto).

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À memória de Garcia Lorca, um poema de Armando Côrtes-Rodrigues

À memória de Garcia Lorca, um poema de Armando Côrtes-Rodrigues

Eu estava à beira-mar,
– Inda não te conhecia –
eu estava à beira-mar
cismando, naquele dia.

Cismava em terra de Espanha
– inda não te conhecia –
em prantos, gritos, em ais
da guerra que lá havia.

Bem quisera não pensar…
– Inda não te conhecia –
mudar rumo ao pensamento
bem quisera… e não podia.

Era uma tarde serena,
– Inda não te conhecia –
Falava comigo o mar;
Meu coração não ouvia.

Era uma tarde tão calma,
– Inda não te conhecia –
Que tudo quanto se olhava
Tinha um ar de poesia.

Em vão olhavam meus olhos…
– Inda não te conhecia –
Minh’alma não atentava
Na beleza do que via.

Falava uma voz chorosa,
– Inda não te conhecia –
voz que vinha lá do longe,
tal a de alguém, que morria.

Voz cansada, angustiada,
– Inda não te conhecia –
Suspensa na vaga sílaba
Dum verso, que não dizia.

E uma angústia me tomava…
– Inda não te conhecia –
Lentamente, tristemente,
Meu coração oprimia.

(Tudo era paz dentro em mim…
– Inda não te conhecia –
Corria-me a vida branda,
Brandamente me corria.)

Que dor então era esta,
– Inda não te conhecia –
Cruel e funda e profunda,
Que dentro de mim crescia?

Tinha os olhos rasos d’água
_Inda não te conhecia –
E, sem saber bem porquê,
Só da minha dor sabia.

Tão estranha e singular…
Inda não te conhecia –
Nunca senti dor igual
À da tarde desse dia.

Passaram anos, passaram…
– Inda não te conhecia –
A causa daquela dor
Nem eu sei quem ma daria!

Mandaram-me livros de longe,
– Inda não te conhecia –
Eram livros do Brasil
Que a amizade me escolhia.

Abri-os! Li-os, reli-os…
– Inda não te conhecia –
E só depois entendi
Que tudo, o que então sofria,

Nessa hora tão distante,
– Inda não te conhecia –
Fora a dor da tua morte,
Meu irmão na Poesia.

Armando Côrtes-Rodrigues

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Os infortúnios da poesia António Guerreiro

Os infortúnios da poesia
António Guerreiro

Há dias, recebi por correio electrónico uma newsletter – uma “Folha”, como vinha intitulada – da Companhia das Ilhas, uma editora muito activa e de muito mérito, criada e dirigida pelo poeta Carlos Alberto Machado, sediada na Ilha do Pico. Começava a “Folha” com um lamento: “Talvez um dia se faça uma lista de livros silenciados pelo jornalismo cultural e pela crítica literária no Portugal democrático. O nosso O Nome do Mundo 1969-2019, de José Amaro Dionísio (Junho de 2019) será um desses livros”.
A formulação encerra um pequeno equívoco, ao sugerir que há uma vontade programada de silenciar alguns livros, muito especialmente os de poesia. Ora, esse silenciamento activo até pode existir em certos casos (tendo então o valor de um gesto crítico), mas nem sequer chega a produzir qualquer efeito porque não se distingue de um silêncio muito maior, involuntário, acrítico, coercivo e anónimo: é o silêncio passivo e tão naturalizado que já ninguém dá por ele, a não ser uma pequeníssima minoria, a que está sujeita grande parte da produção literária (e também ensaística), sendo a poesia a principal vítima. Tirando este pormenor, não tão pequeno como isso, estou inteiramente de acordo com a
abertura desta newsletter: é lamentável e preocupante que um livro, que reúne a obra (já
anteriormente reunida, mas agora acrescentada com mais material) de um grande escritor como é José Amaro Dionísio não se dê por ele, nem sequer nas livrarias. Se me é permitido prolongar de maneira muito imediata este lamento da Companhia das Ilhas, escolheria ainda outro exemplo, um livro de poesia também recente, de um poeta estreante, que não deveria jamais ficar submerso no silêncio. Refiro-me a Spinalonga, de Amândio Reis (Língua Morta).
Todos aqueles que de uma maneira ou de outra prestam atenção às coisas da literatura sabem bem como, desde há alguns anos, está a ser recitada no debate público uma oração fúnebre pela morte da crítica literária – uma morte ao retardador, um último sopro que nunca chega verdadeiramente ao fim e tem assim um aspecto fantasmático. Por isso é que dá origem à melancolia e não ao trabalho de luto.
Na perspectiva de uma teoria crítica da história, as coisas são muito mais complicadas e não podem
ser vistas apenas à luz das circunstâncias do nosso tempo. Essa perspectiva, encontramo-la num ensaio de um obscuro romântico alemão, chamado Carl Gustav Jochmann, intitulado Os Retrocessos da Poesia, que quase ninguém conheceria hoje se Walter Benjamin não o tivesse desenterrado num artigo que foi publicado em 1939 na Revista de Investigação Social, o órgão da chamada Escola de Frankfurt. Segundo Benjamin, Jochmann, no seu ensaio, abrange “a história da humanidade, dos tempos primitivos até um futuro longínquo. Neste lapso de tempo, a poesia nasce e perece”. Mas o que significa
exactamente este declínio? A tese de Jochmann é a de que nos povos primitivos a poesia tem um valor, uma função e uma influência que se perdem à medida que a totalidade das crenças e do saber de um povo, de que ela é depositária, dá lugar a uma racionalidade que separa o saber em muitos ramos especializados. Este ponto de vista ajuda-nos a perceber que os declínios e silêncios da poesia, em particular, e da literatura, em geral, precisam de ser compreendidos não apenas pelas contingências históricas de curto prazo (as circunstâncias do presente), mas por um movimento histórico-cultural de longo prazo.
Baudelaire foi o poeta moderno que mais profundamente interrogou as novas condições a que a poesia está sujeita, tanto do lado da produção como da recepção. Devemos lê-lo para perceber que as sombras não surgiram recentemente e é preciso que os balanços e diagnósticos desencantados do nosso tempo, quanto à situação nada próspera das coisas da poesia, sem anular as responsabilidades do presente, saibam perscrutar um horizonte muito mais longínquo.

Público, Y, 16 de Agosto de 2019

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LUANDA RECITAL DE POESIA

 

COMUNICADO DE IMPRENSA

“CAMÕES/CENTRO CULTURAL PORTUGUÊS”

RECITAL DE POESIA

HOWL (UIVO)

Três poetas norte-americanos,

Maya Angelou, Walt Whitman e Allen Ginsberg

declamados por José Luís Mendonça

13 de Agosto de 2019 (3 feira) no Camões/Centro Cultural Português

No dia 13 de Agosto de 2019 (3ª feira), pelas 18H30, o Camões /Centro Cultural Português vai acolher um RECITAL, onde JOSÉ LUÍS MENDONÇA vai declamar poesia de três grandes nomes da literatura norte-americana, nomeadamente, Maya Angelou, Walt Whitman e Allen Ginsberg.

Num contexto onde ainda escasseia literatura mundial, José Luís Mendonça pretende, com este Recital inédito, dar a conhecer ao público interessado e principalmente às gerações mais novas, um pouco da poesia de outras nações e povos, começando pela dos Estados Unidos da América do Norte, a menos conhecida e divulgada em Angola.

Maya Angelou nasceu em St. Louis, Missouri, Estados Unidos, no dia 4 de Abril de 1928. Nascida Marguerite Ann Johnson, Maya era o seu nome de infância e Angelou foi o apelido de um de seus maridos. Exerceu diversas profissões, desde actriz até condutora de autocarro. Actuou nos movimentos de Martin Luther King e Malcolm X. Nos anos 60 viveu no Egipto e no Gana, trabalhando para os movimentos de direitos civis.

Maya publicou dezenas de coletâneas de poemas. A sua consagração literária, no entanto, aconteceu com o livro de memórias “I Know Why the Caged Bird Sing” (Eu Sei por que o Pássaro Canta na Gaiola), de 1969, no qual relata a infância traumática após sofrer um estupro aos oito anos, pelo namorado de sua mãe. O livro tornou-se no primeiro best-seller de não ficção escrito por uma afro-americana.

Convidada com frequência para participar de eventos oficiais, a sua posição como uma das personagens mais importantes da cultura americana foi consolidada quando recitou seu poema “On The Pulse of Morning” na posse do presidente Bill Clinton. Maya Angelou faleceu em Winston-Salem, na Carolina do Norte, Estados Unidos, no dia 28 de maio de 2014.

Walt Whitman (1819-1892) é normalmente considerado o mais importante poeta americano do século XIX. Publicou a primeira edição de sua principal obra, Folhas de Relva, em 1855. Durante a sua vida, Whitman publicou novas edições do livro, terminando com a nona edição, ou edição do “leito de morte”, em 1891-1892. O que começou como um livro pequeno de 12 poemas, tornou-se, no final de sua vida, um compêndio de quase 400 poemas. Whitman considerava cada versão como um livro próprio e distinto e alterava o respectivo conteúdo continuamente, adicionando novos poemas. Deu nomes diferentes e renomeou antigos, reagrupando-os várias vezes, até 1889.

Irwin Allen Ginsberg (1926-1997) foi uma das figuras mais importantes da chamada “Geração Beat”, um grupo de artistas que se manifestava contra os padrões convencionais de vida americanos na década de 1950.

Em 1956, o autor lançou “Uivo e Outros Poemas”, uma obra que entrou para história. O grande poema em prosa “Uivo” (Howl), que fala, entre outras coisas, da destruição causada pelo capitalismo nos Estados Unidos, tornou-se o manifesto da Geração Beat.

JOSÉ LUÍS MENDONÇA nasceu em Angola, em Novembro de 1955, na Comuna da Mussuemba, Município do Golungo Alto.

Licenciado em Direito, jornalista e poeta. Director e Editor-Chefe do Jornal CULTURA, quinzenário angolano de Artes & Letras.

Tem uma vasta obra de poesia e prosa publicada e já conquistou vários prémios, designadamente, Prémio Sagrada Esperança, em 1981.

Prémio Angola Trinta Anos, em 2005. Prémio Notícias Gerais da Lusofonia – Concurso CNN Multichoice Jornalista Africano, em 2005. Prémio Nacional de Cultura e Artes na categoria de Literatura, pela singularidade do seu estilo e valor cultural das temáticas tratadas, em 2015.

Camões/Centro Cultural Português Luanda, 6 de Agosto de 2019

Recital Poesia JOSÉ LUÍS MENDONÇA DECLAMA POETAS AMERICANOS – 13.08.2019 – CONVITE.jpg

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quando fui hippie – a velhice é feita de memórias como estas de Bali

a propósito desta música, dos anos 80, que devem ouvir antes de lerem o resto…

https://www.facebook.com/watch/?v=1790156457663031

recordo a minha estadia por Bali, 1974 e 1975, onde comprei um restaurante, vivi e estive quase a ficar a viver para sempre recordo esta descrição poética

467. bali (fev. 10, 1976) (em anexo)

I

tapem depressa esse sol imenso

apaguem o cinzento em todas as nuvens

consumam o ar respirável e grátis

(se ainda restar)

abatam a machado o castanho

das árvores verdes

drenem rios e mares

se ainda impolutos

nas pradarias plantem de concreto

gaiolas de gente

ocultem céus sob ondas esfumosas e azuláceas

(talvez grisalhas)

embalem-nos com místicas melopeias

estrídulos klaxons e apitos

ultra e infrassons

metálicos

mecânicos

como o homem

cantem do aço as palavras

de titânio

e do urânio façam diálogos atómicos

(sem esquecer plutónio, árgon e os outros)

escavem galerias subterrâneas

labirínticas

por fim

(se houver quem o faça)

semeiem cabeças de mulher

nos caules peciolados

o kif

o hash

o peyote

viagens de mescalina ao centro do mundo[1]

delirem com wakeman

os cogumelos mágicos

gigantes do riso

sem vontade nem siso

sensações novas por inventariar

seis horas sob chuva cósmica

celeste mergulho de cadentes estrelas

mil sóis

o ritmo primário

a cadência beat

memória ancestral

poesia mística de pedras por decifrar

o voo atávico

alento último no suor dos corpos

dança da chuva em trajo de circunstância

vindos de nem-eu-sei donde

marte, talvez

fantasmas antigos

soletram segredos esquecidos

castelos sem tempo

alquimias sem espaço

olhos dilatados nas lonjuras

lágrimas aceradas

espadas de gelo

sem medos

onde o cruzeiro do sul?

perguntam duas virgens

(fiz-me desentendido)

voguei no vento sobre as areias

ali mesmo

caminhámos séculos

até ao fim das bocas

esperma salgado

púbicas efluvescências

II

Já destruíram a face ao planeta! – exclamo

pássaro algum entoou o cântico da meia-noite

é dia

esquecido de mim

perdido sem lembranças

ou nome

ou nexo

o sexo viril

húmido

pendente

de tuas ancas descarnadas

vagina sem dono

no pomo desta maçã

percorro deltas de fomes infenecidas

farejo bosques que urbe alguma sepultará

cerca da fogueira

teus ossos me ardem

remoçaste um parto louco

sedes irreprimidas

III

ANIMALS!

sussurra incrédulo o gordo careca

agita branco de raiva (ódio?) seu panamá

nasty pigs!

rosna a dona do pekinois rançoso

espojavam-se nas rochas

sem dunas

vasado o sémen no útero peregrino

gemia sussugante wonder alice

nas maravilhas do meu país

nuas órbitas

olhos e phallus

plástico transistor aos sapatos da jovem

sem pés

vozear rítmico do kecak[2]

balinês de nove séculos

woodcarven e batiks[3]

bikinis por vender

pele tostada e suja

ávidos de americanos turistas

o pregão infantil

o coloquial regateio do preço

ridiculamente pequeno

dez vezes menor

o exorbitante exagero do trabalho

dez vezes mais gratuito

duas notas de dólar por mil sorrisos

cheias mãos de antiquário

comprador de almas

sem sonhos

IV

longe o surf

o vulcão silente de kintamani

corais

tubarões

pesca artesana

a sombra supersónica dos jumbos

milhares flutuantes

vómito infrene de gente

esvaziar o bojo e (re)partir

busca antiga de sentir novo

despir dos hábitos a gravata

férias sem rosto

historietas futuras

tédio adiado

burguês camuflado às flores

camisa, shorts e soquetes

chapéu de palha e sombrinha

óculos fumados e charuto apagado

embuste inexperienciado

o juro da alienação quotidiana

salário vitalício

a casa

a sagrada família

esta a pausa breve

fotos instantâneas a três cores

souvenirs de imitação

bagagens de bugigangas

gorjetas também.

V

no colmo da cabana o fumo denso

balbuciar desculpas

correr nu pelo palmar

beber o coco e o leite

shiskebab de formiga[4]

vegetais

soja

chilli[5]

vinho de arroz, chau ming e vantans[6]

ninhos de andorinha

acorda amor!

buddha sticks[7]

ácidos paranoicos

cogumelos azuis

tão só para ti

paola

a chinesa nascida em itália

trincava bikkies[8]

marcello dormia com a heroína

bíblico moisés afagava em tróia

helena

jimmi hendrix em intravenosa experience

bev

a ruiva pintava originais de cetim

dick era ainda um dealer

foragido mas feliz

cérebros vazios

mas cheios

tão cheios

alheios

conversas jamais acabadas

empolgantes

no limiar infinito do genial

corpos balanceando cadenciados

afagos breves

sôfregos e sensuais

bebedeiras de suor sem calendário

cá fora o bailado sagrado de homens deuses

o self stabbing dos kris na carne crua[9]

terrífico ritual sem sangue nem dor

entre o êxtase e o clímax

caiem redondos de morte

atores da vida amadores

sacro licor os eleva de novo

investem frenéticos

descontrolados

oito possantes mãos os sustêm

macabro e belo espetáculo do barong[10]

iniciática peregrinagem

bali – a ilha

banjal tegal-buni o templo

civilização século XI

mescla hindú-nésia

kuta beach a praia

ngaben a cerimónia ao entardecer[11]

liberta do corpo a alma

a procissão

as flores

a grande festa da morte

oferendas na torre crematória

barcos cortejam as cinzas na noite

este o paraíso e já perdido

início?

fim?

viagem louca

a fome gelada de katmandu

o desprezo total em goa

lentos estádios da libertação

ardentes delírios tropicais

desconexa a fluente discursividade

arrastando da febre o esqueleto

comer sem fome

o gado-gado[12]

shop-suey

cap cay[13]

VI

janine a louca se masturba no térreo adobe da prisão

contrabando de narcóticos

denúncia premeditada

despeitado amante javanês

regressará num bemo[14]

quinze lugares sentados

três os meses em atraso

amigos em trânsito

ávidos dentes nos perama’s cakes[15]

árida sede dos Pernod’s à Poppies[16]

joe cocker era tema no estrado

a dutch princesa olhava altiva

sotaque rolado

juntos entoamos hinos odiosos

à europa distante

brian parodiava liverpool mineiro

chegando bliss e o seu petiz-lord

(made in grosvenor – londres

em buckingham um queer

marido e M.P. [17])

vestia 1920’s com capeline

abominava libras sem ouro

como quem despreza

katut lembrava o mote

alguns saíam em curta trip[18]

“please! no gettin’ loaded on poppies!”[19]

serviam um meat taco[20]

pineapple sundae[21]

sorriam-me “cum çtáz amigu”

e mais não sabiam

george encolhia ombros

lembrando a posse

resignada e terna joanne

dezoito apenas

brisbane [22]no início

topless e scarf [23]ao vento

rãs coaxavam no lago de nenúfares

ginsberg (alan) incómodo e desconhecido[24]

barry bongo[25] a tiracolo na guitarra

gestos adocicados

lenço cache-nez

kebaya antígua[26]

púrpura e cetim

barry mckenzie

vinte filmes épicos

dez mil cervejas

uma austrália de compêndio

alice springs e o deserto vermelho[27]

clare declamava shakespeare sem saber

VII

mais tarde houve luar em legian

margret falava de sindicalismo ACTU[28]

petiscando friend noodles[29]

éramos como jovens e ingénuos

helen ansiava banguecoque em reforços

vinte quilos de thai

bob hope cocada[30]

todos pintávamos em silêncio

infernos de dante

o allighieri

viver num losmen[31] é regressar

à amizade original

ao sabor de início de mundo.

VIII

noutra qualquer manhã

domingo

javanese dudes[32] excursionavam

pele alvar

kamera ao peito

flashes ao pôr-do-sol

como japoneses que não eram

anette a vegetariana

fugia da praia

imaginando-me russo branco

num curto intervalo de calendários

amor com caráter de despedida

ao canto chorava um xilo(bambu)fone

uncle sam perdia ao xadrez

desatento espreitava-nos.

IX

quando as chuvas voltaram

fomos a bangli

no sopé do vulcão

o lago e a negra lava

fazia frio

disfarçados de turistas

ma non troppo

ouvíamos um classical[33] tão americano

arengava anticomunismo[34]

anti-isto

anti-aquilo

(não mais me falaria

odiava desertores

antes isso!)

lascivo

comia os cabelos encarnados

do último tango em paris[35]

zanguei natalie f.

um nome francês e sardas verdes

xaile nos ombros nus

unhas lilás e preto

e branco e azul ou

saudades de torremolinos

olé!

julie

hospedeira pan-am

fornicava no lençol de flanela

intenso aroma evolava do chilum[36]

um casal de múmias ocidentais regateava estatuetas falsas

clapton matava o sheriff[37]

na esquina em frente um teatro de sombras

big fatty mardej mercadejava sarongs[38]

a pequena dayú comia babi kecap[39] em molho doce

karen acenava um adeus

até à coroação no nepal[40]

(e do futuro

uma voz gritava

era assim naquele tempo)

amarelecido retrato

tombou a meus pés

incomodado levantei-me

e saí.

[1] Rick Wakeman’s “Voyage to the centre of the earth”

[2]Kecak peça do folclore típico balinês (Bali, Indonésia) pronuncia-se kétchak

[3] woodcarven, arte escultural em madeira talhada e lavrada minuciosamente

batik, tipo de impressão a cores em tecidos, própria de Bali.

[4] espetadinhas de formiga assadas na brasa.

[5] especiaria muito picante à base de piri

[6] chau ming, massa alimentar chinesa, mais fina que esparguete

van tan, folhados fritos, típicos aperitivos chineses

[7] marijuana enrolada em pauzinhos atados e dopada em ópio

[8] diminutivo australiano para biscoitos

[9] Kris – adaga longa e recurvada. self-stabbing – autoflagelação com adaga.

[10] peça do folclore místico de Bali, séc. IX-XII

[11] cremação

[12] gado-gado, pronunciado gádú-gádú, salada vegetal típica da indonésia

[13] shop suey e cap cay (pron. tchá- tchái) comida típica chinesa, pequenos aperitivos feitos de legumes e vegetais em fogo forte.

[14] pronunciado bímo, transporte colectivo: pequena carrinha motorizada, com caixa fechada para passageiros, com capacidade de 6 a 15 pessoas, num espaço mais conducente ao transporte de quatro adultos.

[15] bolos de banana típicos do restaurante Perama.

[16] Poppies, bar mais conhecido e mais internacional de Kuta Beach, Bali, no início da década de 70. Arrasado em 1980 para dar lugar a mais um complexo turístico.

[17] queer – homossexual. M.P. membro do parlamento inglês.

[18] viagem em jargão de droga

[19] por favor não fiquem ‘pedrados’ no poppies.

[20] meat taco, enchilada, pão com carne á moda mexicana

[21] espécie de gelado ou sorvete de ananás

[22] importante urbe na costa nordeste da Austrália, capital do estado da Queenslândia

[23] topless – sem a parte superior (top) do bikini. scarf – lenço para o cabelo, cachecol, véu.

[24] alan ginsberg, poeta norte-americano, controverso e radical, famoso a partir dos anos 50.

[25] personagem típica de filmes australianos da década de 70, personalizando um australiano, mediano, e diferente dos restantes, europeizados.

[26] cabaia típica, originária da índia

[27] única cidade do interior desértico da austrália, no território norte, em pleno grande deserto vermelho.

[28] a central sindical australiana, Australian Confederation of Trade Unions

[29] massa alimentar chinesa, tipo esparguete que pode ser liso e chato ou muito fino, e servido em tipo sopa com vegetais, carne ou mariscos ou como prato principal acompanhado por vegetais, mariscos ou carnes

[30] thai , bob hope, dope – droga, marijuana da tailândia enriquecida com coca, ou mesclada com ópio

[31] losmen, casa comunitária: espaço habitacional aberto onde residiam os turistas mais económicos em bali, na década de 70

[32] saloios da ilha de java.

[33] típico, no pior sentido.

[34] a norte-americana e sul-vietnamita saigão cairia em 1975 nas mãos dos vietcongues, e estava assediada naquela época da guerra

[35] alusão sexual ao filme de marlon brando e maria schneider “o último tango”

[36] cachimbo cónico para fumar marijuana

[37] Eric Clapton “I shot the sheriff” LP 461 Ocean Boulevard

[38] vestido típico, tipo saia indiano e balinês

[39] pronunciado bábi kétchap carne de porco frita

[40] 11 fevereiro 1975, coroação milenária do rei do nepal

bali (doc word)

 

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1 poema por dia chrys (Timor)

 

547. eleições sem lições em Timor, 8 julho 2012

dili 23 setembro 1973

cheguei hoje a Timor português

a vinda marcará a minha vida para sempre

sem o saber nunca mais nada será igual

o futuro começa hoje e aqui

entrei no tempo da ditadura

sairei na democracia adiada

na bagagem guardo sabores,

imagens e odores

sonhos de pátria e amores

divórcios e outras dores

cheguei sem bandeiras nem causas

parti rebelde revolucionário

tinha uma voz e usei-a

tinha pena e escrevi sem parar

pari mais livros que filhos

para bi-beres e mauberes

48 anos de longo inverno da ditadura

24 de luta independentista

agora que a Lois vai cheia

e não se passa na seissal

já maromác se apaziguou

crescem os lafaek nos areais

perdida a riqueza do ai-tassi

gorada a saga do café

resta o ouro negro

para encher bolsos corruptos

sem matar a fome ao timor

perdido nas montanhas

sem luz, água ou telefone

repetindo gestos seculares

mascando sempre mascando

o placebo de cal e harecan

mas com direito a voto

para escolher quem o vai explorar

sob a capa diáfana da lei e ordem

do cristianismo animista

oprimido sim mas enfim livre.

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blogue noticioso do Chrys um australiano açorianizado

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