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16.7.19 PG GLOBAL

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Análise: teste de mísseis da China serve de alerta para inferioridade dos EUA

Posted: 16 Jul 2019 12:05 AM PDT

Recentemente, a China foi acusada pelo Pentágono de realizar múltiplos testes de mísseis balísticos antinavio no mar do Sul da China.

Caso realmente tenha ocorrido os supostos testes de mísseis da China na região do mar do Sul da China que estava fechada por um Aviso aos Aeronavegantes (NOTAM), então, isso teria sido uma mensagem clara aos EUA, afirma o analista de defesa e editor sênior da revista The Diplomat, Ankit Panda.

O analista também declarou que o míssil de médio alcance DF-21D ou uma versão antinavio do míssil de médio alcance DF-26 teria sido utilizado durante os supostos testes, além de ter sido um alerta aos norte-americanos sobre a capacidade e preparo da China, “para colocar em risco as embarcações norte-americanas nas águas disputadas”.

Além disso, os asiáticos teriam mostrado aos norte-americanos que mesmo a carga útil convencional pode servir para anular a vantagem dos EUA.

Os mísseis chineses DF-21D e DF-26 possuem um alcance estimado de 1.500 e 4.000 quilômetros, respectivamente, o que serviria para manter os grupos norte-americanos vulneráveis na região.

“Uma das mensagens que o míssil pode ter tentado transmitir é que já é tarde demais para os EUA alcançarem um nível significativo”, escreveu Panda.

No dia 2 de junho, durante um comunicado oficial sobre as reivindicações do lançamento de mísseis, um porta-voz do Pentágono afirmou que as ações chinesas eram “contrárias à sua pretensão de trazer paz à região” e que os “atos coercivos” como esses serviam para “intimidar” os vizinhos de Pequim.

O analista, por sua vez, acredita que, embora a “demonstração de capacidade” da China não fosse suficiente para dissuadir Washington em suas operações de “liberdade de navegação” na região estrategicamente importante, os testes “sublinharam que uma nova estratégia no mar do Sul da China está ganhando forma”.

Entretanto, um porta-voz do Ministério da Defesa da China afirmou que havia organizado exercícios de tiro próximo à ilha de Hainan, mas enfatizou que os relatos de testes de mísseis “não estão de acordo com os fatos”.

Vale destacar que a situação no mar do Sul da China é uma grande fonte de tensões entre Pequim e Washington. Além disso, a China, juntamente com outros países, como Filipinas, Vietnã, Brunei, Malásia, Indonésia e Taiwan reivindica por ilhas na região.

Enquanto que os EUA empreendem missões regulares de “liberdade de navegação”, envolvendo navios de guerra para demonstrar que Washington não aceita as reivindicações chinesas.

Sputnik | Foto: © AP Photo / Xinhua, Wu Dengfeng, File

China encontra nova ‘arma’ para contra-atacar norte-americanos

Posted: 15 Jul 2019 11:48 PM PDT

As autoridades chinesas alertam seus cidadãos que pretendem viajar aos EUA para avaliarem os prós e contras antes de tomar a decisão.

O Ministério das Relações Exteriores da China, em conjunto com o da Cultura e Turismo, publicaram recentemente advertências sobre os perigos que os chineses podem enfrentar nos EUA, como violência e roubos nas ruas, entre outras coisas.

Além disso, emitiu uma advertência semelhante àqueles que pretendem estudar nas universidades norte-americanas.

Com o início da guerra comercial entre os dois países, os estudantes chineses reclamaram das dificuldades em obter o visto norte-americano, sendo que alguns foram até impedidos de completar o curso, pois não conseguiram renovar seus vistos.

Isso porque, em outubro do ano passado, a Administração de Trump emitiu instruções às embaixadas norte-americanas para endurecerem a política de vistos para os estudantes chineses, principalmente para aqueles que estudam tecnologias.

No entanto, recentemente, em Osaka, o líder norte-americano assegurou que os EUA querem mais estudantes chineses em suas universidades, afirmando que ele ainda espera que os chineses permaneçam nos EUA após concluírem seus estudos.

Isso poderia significar um degelo nas relações entre os dois países. Por outro lado, Trump é movido por ideias puramente pragmáticas. A China é o maior provedor de estudantes estrangeiros para as universidades norte-americanas, que cobram valores altos. Sendo assim, perder uma fonte de ingressos estáveis terá um grande impacto, comentou Wang Xiaofeng, do Centro de Investigação dos EUA da Universidade de Fudan, com sede em Xangai.

“Primeiramente, a América é um ponto de atração para os estudantes da China. (….) Nos últimos anos, o número de chineses que vão aos Estados Unidos para estudar tem vindo a aumentar progressivamente”, disse Wang Xiaofeng.

“Uma pessoa que vai a um acampamento de verão por um período curto paga vários milhares ou mesmo dezenas de milhares de dólares; e aqueles que vão para estudar por um período longo, pagam entre 50.000 e 80.000 dólares por ano. Há muitos destes estudantes”, ressalta o especialista.

“Sendo assim, nesta área, os EUA possuem um claro superávit no comércio com a China. Depois da advertência emitida pelas autoridades chinesas, a indústria turística norte-americana, supostamente receberá muito menos ingressos”, alertou.

Para muitos países, os turistas chineses são o motor mais potente do crescimento econômico. É estimado que o fluxo turístico proveniente da China possa chegar a 200 milhões de pessoas até 2020.

“A China é um grande mercado para os EUA. No entanto, a indústria turística dos EUA não depende tanto da China […]. Além disso, alguns cidadãos chineses planejaram suas vidas para estudar nos EUA, e não mudarão tudo agora. De fato, houve casos de ataques armados nos EUA, inclusive nos campus universitários. Além disso, foram os EUA que reforçaram os controles para os cidadãos chineses, então, a advertência é como uma represália”, opinou o especialista.

Segundo o Escritório Nacional de Turismo e Viagens dos EUA, em 2018, o número de turistas chineses no país caiu 5,7 %.

Sputnik | Foto: © AFP 2019 / Wang Zhao

A dívida da China e a próxima crise financeira internacional

Posted: 15 Jul 2019 11:37 PM PDT

O colapso inesperado do Baoshang, um pequeno banco chinês da Mongólia Interior, focou subitamente a atenção na fragilidade do maior e menos conhecido sistema bancário do mundo e nos «bancos-sombra».

António Abreu | AbarilAbril | opinião

A China no centro da próxima crise das dívidas?

Em alguns meios tem circulado a ideia (para não dizer palpite) de que a elevada dívida da China em todos os sectores, no estado e governos regionais, no governo, família, etc., apontaria para que a China fosse o centro da próxima crise das dívidas mundiais.

Porém, a grandeza desta dívida não constitui o quadro completo de condições das quebras de activos. O serviço da dívida é fundamental e, por sua vez, também o são os níveis de preços e a receita das vendas de produtos que geram a receita com a qual a dívida é paga. A China demonstrou disposição e tem recursos para absorver o não cumprimento de contratos ou de obrigações dentro dos respectivos prazos.

Isto é, não é o peso da dívida que é, por si só, fundamental. É verdade que a quantidade de dívida e a qualidade dessa dívida são importantes. Mas a capacidade de «pagar» a dívida (pagando também os juros quando devidos) é igualmente crítica. E essa capacidade de «serviço» depende, por sua vez, dos activos de caixa próximos disponíveis, o que depende da manutenção dos níveis de preços e níveis de vendas (ou seja, receita) e retornos de activos de caixa próximos para efectuar os pagamentos. Os vários termos e condições associados ao serviço também podem ser críticos.

O norte-americano Dr. Jack Rasmus desenvolveu três equações em anexo no seu livro Fragilidade Sistémica na Economia Global, escrito em 2016. Elas consideram o papel da dívida em relação à capacidade de pagar a mesma e os vários termos, condições e cláusulas que podem estar associados ao serviço da dívida1.

Rasmus continua a desenvolver e a actualizar essas equações, usando a análise de dados na rede para encontrar as verdadeiras relações múltiplas entre governo, famílias, empresas, dívidas bancárias, dentro de cada um desses sectores da economia (governo, família, negócios), e o grau de causalidade entre os níveis da dívida, a qualidade da dívida, o rendimento disponível para o serviço da dívida e os termos e condições do financiamento da dívida.

Se a dívida da China é muito elevada, a da Europa é ainda superior. A dívida da China pode ser maior em termos absolutos, mas a capacidade de serviço da dívida da Europa, após oito anos de recessão dupla e crescimento quase estagnado, continua mais fraca do que a capacidade da China de garantir o serviço da dívida. E há que ter em conta também países emergentes como a Argentina, a Turquia, o Paquistão ou a Índia, que tem um problema muito sério com os seus «bancos-sombra», termo atribuído ao economista Paul McCulley2 para descrever um grande segmento de intermediação financeira, que é conduzido fora dos balanços dos bancos comerciais regulados e outras instituições depositárias, definindo os bancos-sombra como «intermediários financeiros» que realizam funções de banca «sem acesso à liquidez do banco central ou garantias de crédito do sector público».

Este mercado também prospera no ambiente financeiro de baixas taxas de juros nos grandes países industrializados, que leva os investidores a buscar rendimentos mais elevados. As capacidades do serviço da dívida podem ser ainda mais fracas do que a da Europa.

O Baoshang Bank e as causas da crise bancária na China

O colapso inesperado, no final de Maio, de um pequeno banco chinês da Mongólia Interior, o Baoshang, ocorrido de surpresa, focou subitamente a atenção na fragilidade do maior e menos conhecido sistema bancário do mundo, o da República Popular da China (RPC). Então, pela primeira vez em três décadas, o Banco Popular da China (BPC) e os reguladores bancários do Estado tomaram conta de um banco insolvente. Fizeram-no aparentemente para enviar uma mensagem aos outros bancos para que eles passassem a controlar melhor os riscos dos empréstimos que realizavam. Ao fazê-lo podem ter detonado o colapso de um dos maiores e mais obscuros sistemas bancários do mundo – os bancos regionais e locais mal regulamentados da China, às vezes chamados de bancos-sombra. Tratam-se de bancos pequenos e médios, pouco regulados, que não fazem parte da grande banca estatal.

Os activos totais dos bancos-sombra pequenos e médios da China foram estimados como aproximadamente iguais aos dos quatro grandes bancos estatais regulados, o que poderia arrastar-se numa crise generalizada. Por isso Pequim entrou tão rapidamente para conter o Baoshang. O Banco Baoshang parecia saudável, mas o choque da insolvência criou uma crescente crise de risco nos mercados de empréstimos interbancários da China, não muito diferente das fases iniciais da crise interbancária de hipotecas subprime de 2007 nos Estados Unidos. E isso forçou o BPC, o banco nacional, a injectar milhares de milhões de yuans, até este momento equivalentes a 125 milhares de milhões de dólares, e a emitir uma garantia de todos os depósitos bancários para conter os receios.

O problema é que a China assumiu um dos mais impressionantes esforços de construção e modernização da história humana em apenas mais de três décadas. Cidades inteiras, dezenas de milhares de quilómetros de via férrea de alta velocidade, portos de contentores mecanizados, como nenhuma outra nação tinha feito na sua história. E tudo em dívida. O serviço dessa dívida dependeu de uma economia cujos lucros cresceram continuamente. Se a contracção da economia começasse, as consequências seriam incalculáveis.

Agora, como a economia está claramente a desacelerar, há investimentos arriscados em todo o país que entram subitamente em insolvência e os credores olham novamente para os riscos de novos empréstimos. O sector automobilístico está em queda acentuada nos últimos meses, o mesmo acontecendo com outras indústrias. Para piorar, uma grave epidemia de Febre Suína Africana está a dizimar o elevado número de porcos da China, levando a uma inflação alimentar de quase 8%. Neste quadro, o BPC está tentando, corajosamente, evitar imprimir mais dinheiro, o que criaria mais inflação e enfraqueceria o Renminbi, podendo provocar uma nova bolha financeira.

Neste quadro não é positiva a dependência da China dos mercados financeiros globais do dólar em milhões de milhões de dólares de dívida num momento em que as receitas de exportação em dólar estão a cair mesmo antes das tarifas da guerra comercial dos EUA. Se a China estivesse isolada da economia global como na década de 1970, o Estado poderia simplesmente lidar com os problemas internamente, acabar com os empréstimos insolventes e reorganizar os bancos.

Os riscos interbancários são pouco claros. O problema com os empréstimos que estão implícitos nesses números é que os créditos emitidos pelos bancos-sombra são mal controlados e agora enfrentam o não cumprimento de contratos generalizado e falências de empréstimos de alto risco que fizeram. O colapso do Baoshang Bank subitamente voltou todos os olhos para esses riscos.

Os grandes bancos hesitam em continuar a emprestar aos pequenos bancos através do mercado interbancário, forçando as taxas de empréstimo a subir. As garantias do BPC de que o caso do Baoshang é «isolado» não são susceptíveis de tranquilizar. A Bloomberg estima que, nos primeiros quatro meses de 2019, as empresas chinesas não pagaram cerca de 5,8 milhares de milhões em títulos domésticos, mais de três vezes o valor do ano anterior3.

As autoridades de Pequim, incluindo o BPC, deixaram claro, ao longo destes meses, que querem reduzir os empréstimos arriscados emitidos por bancos-sombra locais e outros países, para controlar a situação. No entanto, não será fácil restringir os empréstimos bancários locais de risco sem provocar uma onda de falências na economia chinesa em desaceleração.

Como resultado do inesperado colapso do Baoshang, o mercado de empréstimos interbancários da China está subitamente em crise.

Dificuldade em prever a crescente instabilidade da economia global

Tal como a economia contemporânea não conseguiu prever o crash de 2008-09 e sobrestimou a breve recuperação subsequente, os economistas de hoje não estão a conseguir prever com precisão a desaceleração do crescimento económico global, a fragilidade crescente e, portanto, a crescente instabilidade na economia global. O livro de Jack Rasmus oferece uma explicação alternativa, porque a economia global está a desacelerar a longo prazo e a tornar-se mais instável.

As políticas até agora fracassaram e a próxima crise pode ser ainda pior que a de 2008-09. A fragilidade sistémica «está enraizada em nove principais tendências empíricas: desaceleração do investimento real; desvio em direcção à deflação; explosão de dinheiro, crédito e liquidez; níveis crescentes de dívida global; mudança para o investimento financeiro especulativo; reestruturação dos mercados financeiros para recompensar os rendimentos do capital; restrição dos mercados de trabalho a menores rendimentos salariais; o fracasso das políticas monetárias do Banco Central; e ineficácia das políticas fiscais».

Tudo isto resulta de fragilidades nos balanços financeiros, do consumidor e do governo, exacerbando-se mutuamente – criando uma força maciça centrípeta que desagrega e rasga o todo. Este livro esclarece como o sistema de preços em geral, e os preços dos activos financeiros em particular, se transformam em forças fundamentalmente desestabilizadoras sob condições de «fragilidade sistémica». Por isso, o sistema global, tornou-se, nas últimas décadas, dependente e até viciado em injecções maciças de liquidez, com políticas fiscais contraproducentes, exacerbando a fragilidade e a instabilidade sistémica. A incapacidade dos autores dessas políticas em compreender como mudanças fundamentais na estrutura da economia capitalista global do século XXI, em particular nas estruturas financeiras e do mercado de trabalho, tornam a economia global mais frágil sistemicamente, só podem impulsioná-la para instabilidades e crises mais profundas.

Notas:

1.Jack Rasmus, Systemic Fragility in the Global Economy, Clarity Press (2016). Rasmos é autor de outros livros sobre os EUA e a economia global, incluindo Epic Recession: Prelude to Global Depression (2010) e Obama’s Economy: Recovery for the Few(2012), ambos da Pluto Press, e de um programa alternativo para a recuperação económica: An Alternative Program for Economic Recovery, Edição do autor (2011). Tem um programa semanal de rádio, Alternative Visions, na Progressive Radio Network. Jack Rasmus é conselheiro económico de Jill Stein, candidata presidencial do Partido Verde dos EUA, e integra o seu ministério «sombra» (Green Shadow Cabinet) como «presidente da Reserva Federal dos EUA». Escreve quinzenalmente para a teleSUR TV da América Latina, para a Z Magazine, Znet e outras publicações impressas e electrónicas. O seu sítio na rede é https://jackrasmus.com/.

2.Paul Allen McCulley é um economista americano e ex-director da financeira PIMCO, empresa que deixou em 2010 para aderir ao Global Interdependence Center, um think tank destinado a promover o desenvolvimento global e o comércio livre. Criou os termos «momento Minsky» e «sistema bancário paralelo», que ficaram famosos durante a crise financeira de 2007-2009. É um convidado habitual da CNBC e da Bloomberg para comentários sobre investimentos. Para os «bancos-sombra» e «sistema bancário sombra» ver as ligações em «Shadow Banking», na Bloomberg, e na entrada «Sistema bancário sombra», na Wikipédia.

3.«Banking in the Shadows», Bloomberg.

Chomsky mergulha na estratégia de Trump

Posted: 15 Jul 2019 01:46 AM PDT

Para o intelectual dissidente, há uma lógica brutal na aparente loucura do presidente. Reeleger-se, tirando proveito do declínio do debate público nos EUA; e liderar a direita global — único caminho para manter a supremacia de Washington

Entrevista a C.J. Polychroniou no Truthout | Outras Palavras | Tradução: Inês Castilho

Não é tarefa fácil dar sentido à política exterior atual dos EUA. Trump é violentamente imprevisível e desprovido de qualquer tipo de coerência em sua visão das relações internacionais, parecendo acreditar que só se exige “a arte de negociar” para transformar “inimigos” em amigos. Entretanto, desde sua ascensão ao poder, o fim da hegemonia dos EUA tornou-se visível.

Na entrevista exclusiva a seguir, Noam Chomsky – um dos críticos mais sagazes da política exterior dos EUA no pós-guerra – ilumina esta política, inclusive as relações de Trump com os líderes da Coreia do Norte, Rússia e China, assim como o chamado “Plano de Paz do Oriente Médio” deles.

Em 2016, Trump chamou a política exterior dos EUA de “um desastre completo e total”, alegando que os governos anteriores na era pós-Guerra Fria eram guiados por expectativas irrealistas que prejudicaram os interesses nacionais do país. Desde que assumiu, ele tirou Washington de uma série de acordos internacionais, exigiu que nações aliadas paguem por proteção e buscou promover os interesses econômicos dos EUA por meio de tarifas e protecionismo. Essas ações levaram muitos analistas a falar numa nova era das relações norte-americanas com o mundo. Qual a sua visão disso tudo?

Um dos comentários mais pertinentes que vi sobre a política exterior de Trump é de um artigo do The New Republic escrito por David Roth, editor de um blog de esportes: “O espetáculo de analistas e líderes de opinião analisando as ações de um homem sem competência ou capacidade de análise é uma sátira corrosiva – menos por causa de quanto essa análise falhou do que por causa de quão é deslocada. Não há nada para analisar, nenhum significado oculto ou elisões táticas ou uma lenta campanha estratégica”.

Isso parece preciso. Trata-se de um homem, afinal, que descarta a informação e análises de seu enorme sistema de “inteligência” em favor do que ocorre no programa Fox e Friends, onde todos lhe dizem o quanto o amam. Com todo o ceticismo devido à “inteligência”, é pura loucura.

E isso continua, de modo quase surreal. Na recente conferência do G20, perguntaram a Trump sobre a declaração de Putin, de que o liberalismo do Ocidente está obsoleto. Trump deve ter pensado que estava falando sobre a Califórnia: liberalismo a oeste… “Putin vê o que está acontecendo. E eu suponho, se você vê o que se passa em Los Angeles, é tão triste; e o que está acontecendo em São Francisco e algumas outras cidades governadas por um grupo extraordinário de pessoas à esquerda”.

Perguntaram-lhe por que só os EUA estão se recusando a se juntar ao G20 no compromisso de enfrentar o aquecimento global. Respondeu elogiando a qualidade do ar e da água dos EUA, aparentemente não entender a diferença.

É difícil encontrar um comentário sobre política exterior que destoe dessa norma impressionante. Os esforços para enxergar uma estratégia global coerente parecem levar a uma espécie de sátira ácida.

Não que não haja política coerente. Há uma política que emerge do caos – o tipo que poderíamos esperar de um homem egoísta que tem um princípio: Eu! A consequência é que qualquer tratado ou acordo conseguido pelos seus predecessores (particularmente o desprezado Obama) é o pior negócio da história, que será substituído pelo Grande Negócio da História, feito pelo negociador mais bem-sucedido de todos os tempos e maior presidente norte-americano. Da mesma forma, qualquer outra ação realizada no passado foi equivocada e prejudicou os EUA, mas será corrigida pelo “gênio resistente”, agora encarregado de defender o país daqueles que o estão enganando e atacando por todos os lados.

Não faz diferença quais serão as consequências – terríveis, decentes, indiferentes – desde que as imagens sejam preservadas.

Pode-se lembrar que um presidente que recebe esse retrato do mundo da Fox and Friends não é um fenômeno inteiramente novo. Há quarenta anos, um predecessor reverenciado (Ronald Reagan) aprendia sobre o mundo com os filmes e estava tão encantado que até acreditou ter participado da libertação dos campos de concentração nazistas (mesmo não saindo da Califórnia).

Tudo isso nos diz alguma coisa sobre a política moderna. Mas Trump não pode ser comparado a Reagan, não mais do que a farsa pode ser comparada à tragédia, parafraseando Marx.

É compreensível que a farsa esconda o ridículo, e sem dúvida há gente saboreando a próxima foto de Trump com o possível premiê britânico, Boris Johnson, defendendo a civilização anglo-americana. Mas, para o mundo, é terrivelmente sério: desde o risco de destruição ambiental e crescentes ameaças de uma guerra nuclear terminal até uma longa lista de outros crimes e horrores.

A crise de política externa mais perigosa no curto prazo é o conflito com o Irã, considerado a fonte oficial de todo o mal. O Irã precisaria acabar com sua “agressão” e tornar-se um “país normal” – como a Arábia Saudita, que está fazendo rápido progresso no mundo de fantasia de Trump, inclusive “um ótimo trabalho na Arábia Saudita do ponto de vista das mulheres”, explicou ele no G20.

As acusações contra o Irã ressoam através das câmaras de eco da mídia com pouco esforço para aferir a validade das “denúncias” – que dificilmente resistem a análise. O que quer que se pense sobre o comportamento internacional iraniano, Teerã não tem a mínima condição de competir com Washington para ver quem se enquadra melhor como “Estado vilão”.

No mundo real, o unilateralismo dos EUA destruiu um acordo nuclear (chamado de JCPOA) que ia bem, com acusações absurdas não aceitas por virtualmente ninguém com um mínimo de credibilidade. Além disso, impôs sanções extremamente duras, destinadas a punir o povo iraniano e minar sua economia. O governo dos EUA usa também seu enorme poder econômico, incluindo controle virtual do sistema financeiro internacional, para obrigar os outros a obedecer aos ditames de Washington. Nada disso tem a menor legitimidade – e o mesmo é verdade no caso de Cuba e de outros. O mundo pode protestar. Em novembro passado, a Assembleia Geral da ONU condenou outra vez o embargo dos EUA contra Cuba, por 189 a 2 (só os EUA e Israel votaram contra a resolução). Mas em vão. A estranha ideia dos fundadores do país, de que se deve “digno respeito às opiniões da humanidade” desapareceu há muito e os dolorosos gemidos do mundo passam em silêncio.

Há muito mais a dizer sobre o recurso, pelos EUA, a sanções com alcance extraterritorial, para punir populações. É uma forma de “excepcionalismo norte-americano” que encontra seu lugar naquilo que Nick Turse chamou de “o sistema de sofrimento norte-americano” quando expôs, de forma devastadora, o assalto dos EUA à população civil do Vietnã do Sul. O direito de se engajar nessa prática perversa é aceito como normal no sistema doutrinário dos EUA, com pouco esforço para analisar os verdadeiros motivos em cada caso, a legitimidade de tais políticas ou mesmo a sua legalidade. São assuntos sem a menor relevância.

Em relação ao Irã, no sistema doutrinário da mídia governamental, a única questão que surge é se a vítima irá responder de alguma maneira, talvez “violando” o acordo que os EUA demoliram, talvez com algum outro ato. E se esta vítima responde, obviamente irá merecer punição brutal.

Segundo a mídia e os funcionários dos EUA, o Irã “viola” acordos. Os EUA meramente “retiram-se” deles. A postura é uma reminiscência do comentário do grande escritor anarquista e ativista dos Wobblies, T-Bone Slim: “somente os pobres infringem as leis – os ricos esquivam-se delas”.

Os analistas tentam duramente detectar alguma grande estratégia por trás do assalto dos EUA ao Irã. É outro exercício de inutilidade. É fácil perceber os objetivos dos criminosos que estão em volta de Trump. Para Mike Pompeo e John Bolton, o objetivo é esmagar os hereges – de uma distância segura, de modo a não gerar custos. E danem-se as consequências. O próprio Trump parece ver isso de forma bem diferente. Quem sabe se ele de fato cancelou um ataque militar por causa de sua compaixão por 150 possíveis vítimas? A única evidência vem de uma fonte que não é famosa por sua credibilidade. Mas parece claro que ele não quer uma guerra, o que estragaria os jogos que tanto aprecia, e prejudicaria suas perspectivas eleitorais. É muito melhor chegar às eleições enfrentando a ameaça cósmica de um inimigo mau, que apenas um Líder Corajoso poderá deter — não algum daqueles “democratas fracotes” e, certamente, nenhuma “mera” mulher. Reagan também agarrou-se a esse princípio quando enfrentou com força a ameaça da Nicarágua, amarrando suas botas de caubói, avisando que as tropas nicaraguenses estavam a apenas dois dias de distância de Harlingen, no Texas, e declarando emergência nacional por causa da “extraordinária ameaça” à segurança e à sobrevivência dos EUA.

O histórico do conflito com o Irã tem fatos inenarráveis. A alegada ameaça das armas nucleares iranianas pode ser prontamente superada com a aceitação da demanda dos Estados Árabes, do Irã e praticamente do mundo inteiro, de estabelecer uma zona livre de armamentos no Oriente Médio, uma política diante da qual os EUA e o Reino Unidos têm uma obrigação especial, e que os EUA bloqueiam regularmente – por razões que não chegam a ser obscuras. Se Washington reconhecesse oficialmente a existência do arsenal nuclear de Israel, o enorme fluxo de ajuda a Tel Aviv seria ilegal sob a lei norte-americana. Por isso, é claro, as armas de destruição em massa de Israel não podem ser objeto de inspeção.

E as tarifas, então? O “homem das tarifas” nos diz que elas estão destinadas a promover os interesses econômicos dos EUA. Se ele acredita nisso ou não, ou se dá importância, não temos a menor ideia. Pronunciamentos políticos raramente podem ser tomados por seu valor de face, e Trump não é notório por sua sinceridade e credibilidade.

Há, para dizer caridosamente, escassos indícios para Trump gabar-se de que suas tarifas estão forçando a China a despejar “bilhões de dólares” no Departamento do Tesouro. “Nunca tivemos 10 cent vindos para nosso Tesouro” sob os governos anteriores, explicou ele. “Agora estão chegando bilhões”. No mundo real, os custos das tarifas são pagos não pela China, mas pelas empresas norte-americanas (que podem escolher compensá-las com a redução de salários) e consumidores, sobrecarregados com um imposto altamente regressivo, que recai principalmente entre os menos abastados. Em suma, as tarifas de Trump são mais uma de suas políticas para prejudicar trabalhadores e pobres.

É verdade, contudo, que estão envolvidos “bilhões”. Um estudo do Banco Central (Fed) de Nova York em parceria com as universidades de Princeton e Columbia estima que as empresas e consumidores norte-americanos pagaram US$ 3 bilhões por mês em impostos adicionais por causa da taxação sobre produtos chineses e sobre alumínio e aço provenientes de outros lugares do mundo – além do US$ 1,4 bilhão que custou a empresas norte-americanas a perda de eficiência, em 2018.

A guerra tarifária contra a China pode levar montadoras de automóveis a mudar suas operações da China para o Vietnã e outros países com custos de mão-de-obra ainda mais baixos. Mas, para a economia dos EUA a decisão mais típica é a da Apple, alguns dias atrás, de mudar a montagem de computadores Mac Pro do Texas para a China.

A guerra de tarifas de Trump parece relacionada principalmente à política doméstica, elaborada de olho na próxima eleição. Ele tem de convencer de algum modo sua base de eleitores de que é a pessoa que protege os agoniados norte-americanos, que estão sofrendo o “massacre” causados por seus predecessores – o que é até bem real para muitos deles, como dramaticamente ilustrado pela impressionante queda da expectativa de vida dos americanos em idade de trabalho, atribuída a “mortes de desespero”, um fenômeno desconhecido em sociedades desenvolvidas. O truque de Trump é acenar para um grande clube de seguidores e ameaçar outros com terríveis ameaças, para que que parem de torturar seu pobre país e concordem em “jogar de forma justa”. Quando tiramos isso tudo da frente, nos deparamos com outro quadro, como no caso da nefasta ameaça do Irã. Mas o que importa para o jogo é a “realidade alternativa” que os conspiradores estão inventando.

Com pouco sucesso. É um erro subestimar Trump. Ele é um demagogo e manipulador esperto, que está conseguindo manter a fidelidade das multidões de adoradores, crentes de que luta por eles, contra as odiadas elites, e ao mesmo tempo assegurar que o principal eleitorado republicano, extremamente rico e com poder corporativo, vá muito bem, apesar de algumas queixas. Estão, de fato, saindo-se como bandidos com a ajuda de Trump e seus associados.

É notável ver como uma realidade alternativa é efetivamente criada. O caso do Irã é típico, mas os sucessos são muito maiores. Considere a acusação de que “a China está nos matando”, roubando nossos empregos, junto com os “ladrões mexicanos”. Como a China está nos matando? A China tinha uma arma na cabeça de Tim Cook, o CEO da Apple, obrigando-o a acabar com o último vestígio de produção dos computadores Apple nos EUA? Ou a Boeing, GM, Microsoft, ou qualquer um dos outros que mudaram a produção para a China? Ou as decisões foram tomadas por banqueiros e investidores nas salas de reunião corporativas de Nova York e Chicago? Se é assim, a solução é mostrar os punhos para a China ou mudar o modo de tomar decisões nos EUA – transferindo-as para os trabalhadores e comunidades, dando a eles um papel substancial, como sugeriria a teoria democrática? Parece uma questão bastante óbvia. Estranhamente, ela não é levantada, enquanto o mantra oficial se mantém imperturbável.

Fala-se que a China impõe condições desiguais aos investidores, demandando transferência de tecnologia. Talvez. Se à Apple e às outras não agradam essas condições, elas estão livres para não investir na China. Adoradores da livre empresa e do mercado certamente concordariam.

Outra acusação é de que a China está perseguindo injustamente uma política industrial que subsidie indústrias favorecidas. Se sim, os líderes políticos e analistas dos EUA deveriam estar aplaudindo. De acordo com as doutrinas econômicas que professam, a China está prejudicando sua economia, ao desprezar o modelo de desenvolvimento supostamente ideal, do livre mercado, contribuindo assim com a hegemonia norte-americana. Qual é o problema?

O que parece ser uma acusação mais crível é que a China está violando o regime de direitos de propriedade intelectual (TRIPS) definido na Organização Mundial de Comércio. Suponhamos que sim. Várias questões surgem. Quem ganha, quem perde? Em grande medida, os consumidores norte-americanos ganham, enquanto a Big Farma, a Microsoft e outras garantiram direitos de patente exorbitantes e sem precedentes, sob TRIPS, que sofrem alguma redução em seus lucros enormes.

Isso nos leva a uma outra questão: o regime TRIPS é legítimo? Foi, é verdade, estabelecido por um acordo interestatal. Mas quem tomou aquelas decisões? O público sequer sabia do que estava acontecendo. Dificilmente. Os mal denominados “acordos de livre mercado” são mais adequadamente descritos como acordos de direitos dos investidores, com frequência de pouca relação com o mercado em qualquer sentido significativo. Não por acaso, servem aos interesses de quem os concebe — os grandes investidores.

Outros elementos das queixas de que “a China está nos matando” fazem sentido. É abertamente manifesta a preocupação de que o progresso chinês deve deixar os EUA pra trás – por exemplo, de que a tecnologia Huawei, mais barata e superior, pode dar a eles uma “injusta vantagem” no estabelecimento de redes 5G. É claro que deve ser detida, argumentam as autoridades dos EUA, juntamente com o desenvolvimento econômico chinês em geral. Suas preocupações são reminiscentes dos anos 80, quando as técnicas superiores de fabricação japonesas estavam minando as empresas ineficientes dos EUA, e o governo Reagan teve de intervir para bloquear as importações japonesas por meio de “restrições voluntárias às exportações”. No caso, “voluntário” significa “concordo ou concordo”…

Há boas razões para concordar que a visão dos “especialistas” que buscam detectar uma grande estratégia por trás das travessuras de Trump é “a mais pura sátira corrosiva”. Mas há uma estratégia. E está funcionando bastante bem.

Um dos objetivos declarados de Trump, por trás de seu entendimento da diplomacia, é “transformar inimigos em amigos”. Há alguma evidência de que ele está perseguindo esse objetivo diplomático? Tenho em mente, em particular, os casos da Coreia do Norte e da Rússia.

Nesse caso, o objetivo declarado parece real. Ele provoca o ridículo e amarga condenação em todo o espectro político dominante. Mas quaisquer que sejam os motivos de Trump, a política geral faz algum sentido.

A Declaração Panmunjom das duas Coreias, em abril de 2018, foi um evento altamente significativo. Ele falava sobre os países continuarem em busca de relações amigáveis e de eventual desnuclearização “por acordo mútuo”, sem a interferência externa que no passado frequentemente minou o que pareciam iniciativas promissoras: as repetidas interferências dos EUA, como mostram os registros históricos. Nessa declaração e acordos relacionados, pela primeira vez as duas Coreias definiram calendários específicos e tomaram medidas concretas e promissoras para a redução das tensões e o desarmamento – processos que deveriam ser bem-vindos e apoiados.

Para seu crédito, Trump aderiu amplamente ao requisito das duas Coreias. Seu recente encontro com o presidente norte-coreano Kim na zona desmilitarizada, o cruzamento simbólico de fronteiras, e possíveis acordos provisórios são passos que, com boa vontade, podem ter consequências salutares. Podem facilitar esforços das duas Coreias para prosseguir no difícil caminho em direção a uma acomodação e podem oferecer uma maneira de aliviar as sanções que estão bloqueando a ajuda terrivelmente necessária ao Norte e contribuindo com uma grande crise humanitária por lá. Tudo isso pode enfurecer comentaristas de todo o espectro político. Mas se há uma maneira melhor de trazer paz à península e dar passos em direção à desnunclearização e à reforma interna da ditadura norte-coreana, ninguém ainda nos informou sobre ela.

A Rússia de Putin não precisa ser transformada numa “amiga”, mas relações cooperativas com ela são um pré-requisito para a sobrevivência.

O histórico de Trump nesta questão é controverso. A Revisão de Postura Nuclear (Nuclear Posture Review – fevereiro de 2018) apresenta ameaças muito severas, ampliadas pela decisão inacreditável de levar adiante o desenvolvimento de armas hipersônicas. Os adversários estão fazendo o mesmo. A abordagem certa é a da diplomacia e negociações para prevenir um caminho suicida, mas não há nenhum sinal disso. O mesmo é verdade quanto ao Tratado INF negociado por Reagan e Gorbachev, que reduziu significativamente os riscos de uma guerra terminal.

Cada lado reclama que o outro está violando o tratado. A abordagem correta é fazer uma análise investigativa neutra das reclamações e negociar o fim dessas violações à medida em que são descobertas. A pior abordagem é deixar o tratado, como estão fazendo os EUA, seguidos pela Rússia. As mesmas considerações valem para o outro grande tratado de controle de armas, o New Start. Em todo o caso, parece que John Bolton, consistente em sua perversidade, conseguiu bloquear o progresso e empurrar a política em direções extremamente sinistras.

Qual a sua análise sobre o plano do governo Trump para o Oriente Médio? E quão instrumental é o papel de seu genro, Jared Kushner, nisso?

Presumo que Kushner é o principal arquiteto, como se noticia. O que foi divulgado até aqui é bastante simples e consistente com as políticas anteriores do governo que autorizaram a tomada das colinas de Golan por Israel e o desenvolvimento da Grande Jerusalém, todas violando as ordens do Conselho de Segurança da ONU (apoiadas na época pelos EUA). Ao mesmo tempo, a escassa ajuda dos EUA aos palestinos foi encerrada com o argumento de que eles não agradecem educadamente ao patrão quando mina seus direitos mais elementares.

O plano Kushner leva isso adiante. Deve-se garantir a Israel os melhores votos por sua liderança expansionista. Os palestinos devem ser excluídos dos fundos de desenvolvimento fornecidos por outros (não pelos EUA). A essência do “Acordo do Século” de Trump-Kushner foi captada de modo sucinto pelo embaixador israelense na ONU Danny Danon, no The New York Times: os palestinos deveriam perceber que o jogo acabou e “se render”. Então pode haver paz, outro triunfo do “grande negociador”.

Neste caso há um objetivo estratégico subjacente: consolidar a aliança de Estados reacionários (as monarquias do petróleo, Egito, Israel) como base do poder dos EUA na região. Isso de modo algum é novidade, embora as variantes anteriores tinham de certo modo diferentes formas e fossem menos visíveis do que hoje.

Esses objetivos estão dentro de uma estratégia mais ampla de formar uma aliança global reacionária sob a tutela dos EUA, incluindo “democracias não-liberais” da Europa Oriental (Orbán da Hungria, etc.) e o grotesco Jair Bolsonaro do Brasil, que, entre outras virtudes, compartilha com Trump a dedicação em minar perspectivas de um ambiente em que se possa viver, quando abre a Amazônia à exploração de seus amigos do agronegócio e da mineração. Essa é uma estratégia natural para o atual partido Republicano de Trump-McConnell, bem integrado à extrema-direita no espectro internacional, muito além dos partidos “populistas” de direita europeus, que até há pouco eram considerados franjas desprezíveis.

Sem lhe pedir que desempenhe o papel de Cassandra, como pensa que a história irá avaliar a posição de Trump sobre mudanças climáticas, que é de longe o maior desafio global que o mundo enfrenta?

Tomo emprestada a frase de Wittgenstein, com um pequeno ajuste, “aquilo que não se pode falar educadamente, é preciso silenciar”.

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Porto | Delapidação de dinheiros públicos

Posted: 15 Jul 2019 01:03 AM PDT

Rui Sá | Jornal de Notícias | opinião

Como já aqui referi, foi grande a minha surpresa quando, eleito para a Assembleia Metropolitana do Porto na década de 90, constatei que a maior parte do seu orçamento se esgotava no patrocínio ao Rali de Portugal para que este montasse arraiais em Matosinhos.

Esse facto demonstrava a incapacidade real de as áreas metropolitanas intervirem, efetivamente, no território a uma escala regional. Situação que, somada ao facto de a Junta Metropolitana não ser eleita diretamente, sendo constituída pelos vários presidentes de Câmara, fazia com que se perdesse, normalmente, uma visão metropolitana (o Metro do Porto foi uma exceção, mas com as vicissitudes que se conhecem), com cada presidente preocupado em defender os interesses do seu município…

Apesar de, entretanto, terem sido feitas diversas alterações legislativas à orgânica das áreas metropolitanas, tudo se mantém como há 25 anos: a Área Metropolitana do Porto continua a ser uma arena de presidentes de Câmara com uma notória falta de visão e de estratégia metropolitanas…

Vem esta constatação a propósito daquilo que se tem passado com os transportes públicos de passageiros na zona do grande Porto. O espaço disponível neste artigo não permite, pela complexidade do tema, uma análise global da situação, pelo que opto por “pegar”, apenas, numa das questões em cima da mesa.

Legalmente, compete à empresa pública STCP o exclusivo do transporte de passageiros dentro da cidade do Porto. Quer isto dizer que os operadores privados, podendo entrar na cidade, apenas podem fazer serviço de recolha de passageiros caso estes se desloquem para fora da cidade do Porto; ou fazer a sua largada apenas se estes entraram num concelho exterior ao Porto.

Mas não é isto que acontece. Os operadores privados fazem recolha e largada de passageiros ao longo dos seus percursos dentro do Porto. Assumindo posturas agressivas como as de colocarem autocarros parados em paralelo com os da STCP, arrancando mal vejam que estes se preparam para partir (indo, assim e no mesmo percurso, à frente dos autocarros da STCP, recolhendo em cada paragem os passageiros – dado que a estes o que interessa é irem no autocarro que passa primeiro). Sendo que, por cada validação do Andante, esses operadores privados recebem uma compensação por terem feito esse transporte. Hoje, é possível saber que, em 2018, estes operadores receberam mais de 500 mil euros por este serviço ilegal – verba essa que, naturalmente, foi subtraída à STCP! Perante a passividade cúmplice da Área Metropolitana, que, assumindo a gestão da STCP e a responsabilidade pela fiscalização do cumprimento da lei, assobia para o ar, delapidando dinheiros públicos! Até quando?

*Engenheiro

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