“É repugnante Portugal ter-se tornado a lavandaria das elites angolanas” –

“É repugnante Portugal ter-se tornado a lavandaria das elites angolanas” — whistleblower

Posted: 28 Aug 2020 05:55 AM PDT

Rui Pinto em entrevista

O autor de Football Leaks e também uma das fontes de Luanda Leaks começa a ser julgado na próxima semana e deu uma entrevista à revista alemã “Der Spiegel”. “Estou cá para lutar e para mostrar a todos que sou um whistleblower e fiz o que tinha que fazer”, afirma Rui Pinto

Rui Pinto começa a ser julgado na próxima sexta-feira. O autor de Football Leaks deu à Der Spiegel a sua primeira entrevista desde que deixou de estar em prisão preventiva. Remeteu para o julgamento mais explicações relativas ao processo pelo qual está acusado de 90 crimes, mas manifestou a sua revolta com o que a investigação Luanda Leaks, da qual foi denunciante, revelou. “É repugnante Portugal ter-se tornado a lavandaria das elites angolanas”, afirma.

A entrevista à Der Spiegel aconteceu no passado fim-de-semana, sob grande secretismo, repartida entre duas conversas em sítios distintos, cujas localizações os jornalistas da revista alemã apenas tiveram conhecimento pouco antes dos encontros. A segunda conversa decorreu no dia da final da Liga dos Campeões, realizada num Estádio da Luz despido de público. “O futebol vive dos adeptos, de um ambiente real, não destes eventos com um ambiente de plástico dominados pelo dinheiro”, comentou Rui Pinto.

Questionado sobre se acha que voltará para a prisão, Rui Pinto mostrou-se otimista. “Não creio”, declarou à Der Spiegel. O autor do blog Football Leaks queixa-se de “tortura psicológica” quando esteve detido em Budapeste (entre janeiro e março de 2019), mas considera que quando esteve preso em Portugal (a partir de março do ano passado) foi bem tratado.

Rui Pinto considera que a sua vida está “em risco”, mas ao mesmo tempo, e apesar de estar acusado de 90 crimes, diz dormir bem à noite. “Obviamente o isolamento deixa sempre algum tipo de marcas. Lembro-me que depois de deixar o isolamento [na prisão] por vezes tinha problemas em concentrar-me, porque depois daqueles meses todos abria-se uma grande porta à minha frente e tinha muitas pessoas diferentes à minha volta e era difícil concentrar-me, porque tinha estado fechado tanto tempo”, desabafa na entrevista à Der Spiegel.

“De certo modo, sinto-me orgulhoso de ter conseguido lidar bastante bem com o isolamento. Eu sabia que não podia perder a cabeça, tinha de me concentrar para preparar o julgamento, para chegar fresco ao julgamento e mostrar que estou cá para lutar e para mostrar a todos que sou um whistleblower [denunciante] e fiz o que tinha que fazer”, acrescenta.

“Tive uma relação espetacular com os guardas prisionais. Tiveram enorme respeito por mim”, diz ainda Rui Pinto na entrevista, declarando que “estamos sufocados com corrupção”, e que, nesse contexto, “ninguém pode esperar um futuro bom para si e para a sua família”.

O autor de Football Leaks e fonte de Luanda Leaks foi entrevistado em Lisboa pela revista alemã Der Spiegel, afirmando que provará em tribunal que não houve extorsão à Doyen e dizendo ter sido ingénuo nos acontecimentos de 2015 que levaram ao processo em que é acusado de 90 crimes

E A ACUSAÇÃO DE TENTATIVA DE EXTORSÃO À DOYEN?

Entre os crimes de que é acusado está a tentativa de extorsão à Doyen em 2015, então liderada por Nélio Lucas, em que sugeriu ao fundo que investia no futebol um pagamento de 500 mil euros a um milhão de euros para parar com a divulgação de contratos e documentos daquela empresa no blog Football Leaks.

“Lamento em particular ter tido este contacto com Nélio Lucas. Era ingénuo nessa altura. E estou contente por ter recuado a tempo”, afirma Rui Pinto à Der Spiegel.

Na entrevista diz ainda estar “absolutamente seguro” de que ficará provado em tribunal que não fez nenhuma extorsão. “As provas mostram-o claramente. Mas a procuradora não quis olhar para elas. Ela preferiu cortar as partes que me ilibavam das acusações de extorsão”, refere.

Tribuna, do Expresso

Na imagem: Rui Pinto enfrenta uma acusação de 90 crimes relacionados com o Football Leaks. // SONJA OCH / DER SPIEGEL

Angola | Emergência social, isso sim

Angola | Emergência social, isso sim

Posted: 28 Aug 2020 07:09 AM PDT

Faz tempo que Angola está em um estado de “Emergência Social”. Teremos que enfrentar este estado por muito tempo mais. E é necessário que o executivo tenha coragem para declarar o Estado de Emergência Social, mas não mais para restringir ou eliminar garantias. Quem pode eliminar garantias em Angola, se já quase todas estão eliminadas? Ou suspender o que já está suspendido? Que garantias mais se pode eliminar ao povo angolano?

Adão Xirimbimbi “AGX”* | Folha 8| opinião

Quase 1 milhão de crianças em estado de sobrevivência, uma grande incidência da mortalidade infantil, uma grande incidência da desnutrição. Não podemos esperar épocas eleitorais para resolver esses problemas sociais. Indivíduos com mais de 5 casas, e ao mesmo tempo família sem uma casa própria, que paradoxo. Crianças com idade pré-escolar, não sabem o que é pré-escolar (isso é selvagem). É triste saber que somente 1 de cada 5 crianças terminam a escola básica, isso é absurdo, porque essas crianças são o futuro do país. “Se estás pensando a longo prazo, educa a uma criança”.

Nós não podemos admitir que essa barbaridade continue a existir por debaixo dos nossos narizes. Grande parte de jovens adolescentes não entram na escola, e muitos deles se inclinam para a delinquência, porque eu considero que o homem não é maldoso por natureza. Esta situação estamos vivendo aqui e, os nossos governantes têm a consciência que isto é uma realidade. O que eles fazem? Pergunta tão fácil, quanto a sua resposta.

 

É urgente solucionar os problemas sociais, e isso deve passar também por uma profunda reforma no sector social. Temos ouvido sempre o termo reforma, será que estamos confundindo reforma com revolução? Porque as nossas reformas até hoje não ganharam forma.

Não se pode admitir que um chefe do executivo, depois de 5 ou 10 anos de governação, venha dizer a todos angolanos “fiz até onde podia fazer”. Em contrapartida, deixa o país numa desgraça social, isso não se pode admitir, isso é desumano. É preferível que um Presidente deixe o poder passado 2 anos, e que esse período serviu para deixar “atrás” o passado e enterrado, e que verdadeiramente alavanca um novo motor para o desenvolvimento nacional. O importante agora para Angola, é que se arranque com um novo projecto nacional, porque já vimos que o anterior foi um fracasso total. Há que empurrar o barco para a frente, e depois que os nossos filhos se encarreguem de navegar.

É importante que o Presidente da República seja um intérprete do sentir do povo angolano, que a sua maioria está vivendo por debaixo do umbral humanitário.

O Estado angolano pode declarar o “Estado de Emergência Social”, não é para suspender mais garantias, mas sim, para tomar ACÇÕES DE EMERGÊNCIA para restituir as garantias. Temos que acabar com a concepção que toda emergência é para suspender as garantias. Para Estados que estão em emergência não há sábado nem domingo, porque há milhões de angolanos que não tem quase nada para comer, ou não têm escolas para ir, não têm um parque para jogar, não tem uma casa para dormir em paz, não têm nada.

Para que um governante seja honrado não basta sentir ou dizer que não faz nenhuma maldade a ninguém, um homem honrado de verdade é aquele que sabe que alguém está sofrendo e, faz tudo que está ao seu alcance para evitar o sofrimento deste ser humano. Está é a única forma de ser honrado. Será que os nossos governantes são honrados? É necessário começar uma batalha a partir do executivo, contra estas péssimas condições sociais que estão submetidos a maioria da população angolana.

A desigualdade que existe hoje em Angola, impede o desenvolvimento económico. Um país com alto índice de criminalidade, problemas de saneamento básico, baixo nível de educação e de esperança de vida. Não é que a igualdade, ou a desigualdade, seja um fenómeno novo, sempre existiram aqueles que têm muito e aqueles que têm pouco. O que se passa é que a diferença entre os que têm e os que não têm é bastante abismal. A pergunta obrigatória é, como chegamos a esse ponto? Penso que todos sabemos a resposta. E a pergunta moral e política é, quanta desigualdade podemos assumir mais?

*Jurista

“É repugnante Portugal ter-se tornado a lavandaria das elites angolanas” — whistleblower

Posted: 28 Aug 2020 05:55 AM PDT

Rui Pinto em entrevista

O autor de Football Leaks e também uma das fontes de Luanda Leaks começa a ser julgado na próxima semana e deu uma entrevista à revista alemã “Der Spiegel”. “Estou cá para lutar e para mostrar a todos que sou um whistleblower e fiz o que tinha que fazer”, afirma Rui Pinto

Rui Pinto começa a ser julgado na próxima sexta-feira. O autor de Football Leaks deu à Der Spiegel a sua primeira entrevista desde que deixou de estar em prisão preventiva. Remeteu para o julgamento mais explicações relativas ao processo pelo qual está acusado de 90 crimes, mas manifestou a sua revolta com o que a investigação Luanda Leaks, da qual foi denunciante, revelou. “É repugnante Portugal ter-se tornado a lavandaria das elites angolanas”, afirma.

A entrevista à Der Spiegel aconteceu no passado fim-de-semana, sob grande secretismo, repartida entre duas conversas em sítios distintos, cujas localizações os jornalistas da revista alemã apenas tiveram conhecimento pouco antes dos encontros. A segunda conversa decorreu no dia da final da Liga dos Campeões, realizada num Estádio da Luz despido de público. “O futebol vive dos adeptos, de um ambiente real, não destes eventos com um ambiente de plástico dominados pelo dinheiro”, comentou Rui Pinto.

Questionado sobre se acha que voltará para a prisão, Rui Pinto mostrou-se otimista. “Não creio”, declarou à Der Spiegel. O autor do blog Football Leaks queixa-se de “tortura psicológica” quando esteve detido em Budapeste (entre janeiro e março de 2019), mas considera que quando esteve preso em Portugal (a partir de março do ano passado) foi bem tratado.

Rui Pinto considera que a sua vida está “em risco”, mas ao mesmo tempo, e apesar de estar acusado de 90 crimes, diz dormir bem à noite. “Obviamente o isolamento deixa sempre algum tipo de marcas. Lembro-me que depois de deixar o isolamento [na prisão] por vezes tinha problemas em concentrar-me, porque depois daqueles meses todos abria-se uma grande porta à minha frente e tinha muitas pessoas diferentes à minha volta e era difícil concentrar-me, porque tinha estado fechado tanto tempo”, desabafa na entrevista à Der Spiegel.

“De certo modo, sinto-me orgulhoso de ter conseguido lidar bastante bem com o isolamento. Eu sabia que não podia perder a cabeça, tinha de me concentrar para preparar o julgamento, para chegar fresco ao julgamento e mostrar que estou cá para lutar e para mostrar a todos que sou um whistleblower [denunciante] e fiz o que tinha que fazer”, acrescenta.

“Tive uma relação espetacular com os guardas prisionais. Tiveram enorme respeito por mim”, diz ainda Rui Pinto na entrevista, declarando que “estamos sufocados com corrupção”, e que, nesse contexto, “ninguém pode esperar um futuro bom para si e para a sua família”.

O autor de Football Leaks e fonte de Luanda Leaks foi entrevistado em Lisboa pela revista alemã Der Spiegel, afirmando que provará em tribunal que não houve extorsão à Doyen e dizendo ter sido ingénuo nos acontecimentos de 2015 que levaram ao processo em que é acusado de 90 crimes

E A ACUSAÇÃO DE TENTATIVA DE EXTORSÃO À DOYEN?

Entre os crimes de que é acusado está a tentativa de extorsão à Doyen em 2015, então liderada por Nélio Lucas, em que sugeriu ao fundo que investia no futebol um pagamento de 500 mil euros a um milhão de euros para parar com a divulgação de contratos e documentos daquela empresa no blog Football Leaks.

“Lamento em particular ter tido este contacto com Nélio Lucas. Era ingénuo nessa altura. E estou contente por ter recuado a tempo”, afirma Rui Pinto à Der Spiegel.

Na entrevista diz ainda estar “absolutamente seguro” de que ficará provado em tribunal que não fez nenhuma extorsão. “As provas mostram-o claramente. Mas a procuradora não quis olhar para elas. Ela preferiu cortar as partes que me ilibavam das acusações de extorsão”, refere.

Tribuna, do Expresso

Na imagem: Rui Pinto enfrenta uma acusação de 90 crimes relacionados com o Football Leaks. // SONJA OCH / DER SPIEGEL

Angola: MPLA decide renovar mais de metade da direção | e-Global

O Bureau Político do MPLA deliberou nesta terça-feira, 25 de agosto, a renovação dos órgãos colegiais intermédios e nacional em 55%, bem como a continuidade de 45% dos membros. Tal decorreu no âmbito do 8.º Congresso Ordinário do partido no poder. A decisão foi tomada durante a terceira reunião ordinária, tendo esta sido orientada pelo […]

Source: Angola: MPLA decide renovar mais de metade da direção | e-Global

ANGOLA E OUTRAS NOTÍCIAS

PÁGINA GLOBAL

Redundância do golpe de 25 de Novembro de 1975 em Angola

Posted: 23 Aug 2020 12:53 PM PDT

“De boas intenções está o inferno cheio” – ditado popular

Martinho Júnior, Luanda

O golpe do 25 de Novembro de 1975 em Portugal ocorreu a apenas 14 dias depois da Proclamação da Independência da República Popular de Angola e foi sequência dum crescendo de acções que atentaram contra a linha mais progressista do Movimento das Forças Armadas que havia com êxito concretizado o derrube do estado colonial-fascista a 25 de Abril de 1974.

O MPLA havia conseguido realizar uma síntese com essa linha progressista antes do 11 de Novembro de 1975 e nesses termos o MFA chegou a ser considerado pelo Presidente António Agostinho Neto, como mais um movimento de libertação.

É lógico que os germes do “spinolismo”, do 11 de Março de 1975 e do “verão quente” repercutiram com outras correntes, (inclusive as que mobilizaram a disponibilidade ideológica dos “retornados” e do Exército de Libertação de Portugal, ELP) a fim de, com esses ingredientes, provocar outro tipo de relacionamentos na direcção de Angola, relacionamentos que ganharam expressão com os sucessivos governos do “arco de governação e da “geringonça”.

O golpe de 25 de Novembro de 1975 foi uma amálgama que para muitos é ainda confusa, todavia é claro que foi decisivo para a confirmação do alinhamento de Portugal no quadro da NATO e dos passos que deu na direcção da União Europeia (a ponto de sacrificar uma parte substancial do seu próprio parque industrial, reformulando as elites económicas e financeiras portuguesas, assim como o quadro de suas interconexões). (https://expresso.pt/politica/2019-11-24-Toda-a-historia-do-25-de-Novembro-a-dramatica-aventura-que-ditou-o-fim-da-Revolucao-1).

 

Esses governos procuraram sempre, ainda que utilizando mascaramentos, o progressivo desgaste da RPA, uma República Popular de Angola cujo carácter lhe era distinto, a fim de formatar Angola na tentativa de produzir um ente afim!

Um dos recursos do mascaramento em 1977 foi a frente cultural com a trova e os trovadores de Abril prontos para a cultura de aproximação entre os povos a que se refere Artur Queiroz, mas já com outro sinal “democrático” instalado em Portugal, um sinal distinto do 25 de Abril, mas utilizando oportunisticamente quantas vezes o rótulo do 25 de Abril!.

Essa conduta de “bons costumes” cada vez teve menos a ver com a ala progressista do MFA, apagando-a mansamente dos cenários desde essa época, pelo que a síntese que se obteve entre o MPLA e o MFA antes da independência teve uma ruptura inteligente, que foi explorada subtilmente, aproveitando a parte portuguesa o episódio da tentativa abruta de desagregação que foi o 27 de Maio de 1977.

Só com o tempo foi possível a Angola começar a discernir sobre o carácter desses governos portugueses sucedâneos do 25 de Novembro de 1975, com o rótulo de “moderados” e “democráticos”, de plasma “representativa”!

Uma das primeiras percepções sobre as alterações de comportamento de Portugal nos relacionamentos com Angola, gerando uma nova antítese, obteve-a a Segurança do Estado da República Popular de Angola, quando por via da “Operação Kubango”, cuja parte pública foi dada à estampa pelo jornal Expresso de 14 de Agosto de 1982, se começou a perceber o à vontade da inteligência do “apartheid” em Lisboa, nomeadamente com a cobertura “gratificante” ao Adido Militar Adjunto da África do Sul, Jacobus Everhardus Louw, que viria aliás a ser condecorado por Cavaco Silva, anos mais tarde, com a Comenda da Ordem do Infante Dom Henrique, (a 31 de Março de 2010)!… (https://paginaglobal.blogspot.com/2013/11/a-ambiguidade-feita-cultura-politica.html?m=1; https://paginaglobal.blogspot.com/2018/12/portugal-sombra-de-ambiguidades-ainda.html).

Esse Adido foi responsável pelo recrutamento de agentes dos serviços secretos do “apartheid”, em conivência com os serviços secretos portugueses, tendo como alvo de mobilização Benguela!

Os governos portugueses habituaram-se de tal modo que em relação ao 27 de Maio de 1977 foram permitindo a instalação de processos de propaganda intensiva que passaram a sistematicamente hostilizar uma a uma, as sucessivas Repúblicas de Angola, permitindo até as leituras neofascistas de Carlos Pacheco, com o objectivo de desgastar, confundir, desagregar e/ou dividir, explorando os êxitos de vassalagem, semeados circunspectamente no seguimento de Bicesse, a 31 de Maio de 1991…

Os governos portugueses ganharam um carácter similar, ainda que com outros condimentos, ao que norteou sua conduta durante a IIª Guerra Mundial, sob a capa da “neutralidade”… ou seja, houve o recurso a habilidades de que o poder em Portugal foi useiro e vezeiro desde o episódio do Mapa Cor-de-Rosa que deu origem à República Portuguesa!

A aproximação do clã Soares ao clã Savimbi, seria de certo modo “marca” dessa ambiguidade, constituindo de facto um clímax antecipando Bicesse, na esteira da inauguração do neoliberalismo nos relacionamentos entre Portugal e Angola sob as sensibilidades de Lisboa, com inspiração em Ronald Reagan(Presidente de 1981 a1989) e Margareth Thatcher (Primeira Ministra de 1979 a 1990), algo de que o “arco de governação” e o “apartheid” tão bem aproveitaram, reformulando enquanto puderam os postulados do Exercício Alcora, mantido durante muitos anos aliás tão secreto quanto o foi antes!… (https://arquivos.rtp.pt/conteudos/encontro-de-jonas-savimbi-com-mario-soares/).

Martinho Júnior — Luanda, 15 de Agosto de 2020

— Três imagens do Expresso sobre o aparato do 25 de Novembro de 1975 – https://expresso.pt/politica/2019-11-24-Toda-a-historia-do-25-de-Novembro-a-dramatica-aventura-que-ditou-o-fim-da-Revolucao-1

Junta-se texto de Artur Queiroz

DE ZECA AFONSO A CLARA NUNES

Grandes Nomes da Cultura ao Lado das Vítimas dos Golpistas

ARTUR QUEIROZ

Primeiro Governo Constitucional de Portugal. 1977 Maio 27. Mário Soares era o primeiro-ministro de Portugal e acumulava com a pasta dos Negócios Estrangeiros. Em 1978, Vítor Sá Machado, do CDS, assumiu a chefia da diplomacia portuguesa. Nessa qualidade esteve presente na cimeira entre os Presidentes Agostinho Neto e Ramalho Eanes, em Bissau. Nessa época a UNITA abriu em Lisboa uma “delegação”, em instalações cedidas pelo partido mais à direita na Assembleia Nacional portuguesa.

A Imprensa portuguesa deu grande destaque ao golpe de estado militar derrotado de 27 de Maio de 1977. O jornal “Página Um”, fundado para apoiar a candidatura de Otelo Saraiva de Carvalho à Presidência da República, publicou dezenas de peças sobre as incidências do golpe, até final de Junho. O semanário “O Jornal” foi o único jornal português que teve um repórter em cima do acontecimento na capital angolana, Manuel Beça Múrias. O Diário de Lisboa fez igualmente uma cobertura exaustiva do golpe militar derrotado. Em meados de Junho publicou uma declaração de Mário Pinto de Andrade na qual ele apoia Agostinho Neto e o Bureau Político do MPLA ao mesmo tempo que classifica os golpistas de facínoras.

Entre 27 de Maio de 1977 e a cimeira entre os Presidentes Ramalho Eanes e Agostinho Neto em Bissau, nunca João Lourenço, Francisco Queiroz, Francisca Van-Dúnem ou Edgar Valles tiveram qualquer intervenção pública sobre o golpe de estado militar derrotado de 27 de Maio de 1977. E nessa altura, o irmão de Sita Valles já tinha sido professor do actual ministro da Justiça e dos Direitos Humanos do Executivo chefiado pelo Presidente João Lourenço. Ninguém falou de direitos humanos violados ou erros políticos que causaram vítimas inocentes.

O primeiro-ministro português Mário Soares, que era igualmente ministro dos Negócios Estrangeiros, sabia de fonte limpa que numerosos agentes do KGB, de vários países ditos socialistas, estavam implicados na direcção do golpe militar. E sabia que militantes do Partido Comunista Português eram próximos dos dirigentes golpistas, sobretudo de Nito Alves e José Van-Dúnem. Ele teria aberto a garrafa de champanhe se os golpistas triunfassem. Mas também abriu uma coca-cola por Agostinho Neto não ter sido derrubado e assassinado. Savimbi mais seus amigos nazis e racistas sul-africanos tinham mais sucesso com um MPLA aliado ao Movimento dos Não Alinhados do que na esfera da União Soviética.

Edgar Valles, no primeiro Governo Constitucional liderado por Mário Soares, já era licenciado em Direito, adulto, autónomo. Porque nunca falou dos crimes de que fala hoje, ele e seus avençados disfarçados de historiadores? Francisca Van-Dúnem, na vigência do primeiro Governo de Mário Soares, era estudante de Direito, adulta, autónoma, livre. Porque nunca falou das “vítimas” do 27 de Maio de 1977? A resposta é simples: Sabiam (e sabem) que criminosos foram os golpistas e todas as vítimas durante e depois do golpe são da sua inteira responsabilidade.

Em 1977 e nos anos seguintes, a opinião pública em Portugal teve muitas manifestações de solidariedade para com Angola, o MPLA e seu líder, Agostinho Neto. O Presidente Ramalho Eanes foi mais longe e fez tudo para se encontrar com o seu homólogo Angolano em Bissau, no sentido do estreitamento das relações entre os dois países. A cimeira teve um êxito assinalável. Agostinho Neto não esqueceu quem governava em Portugal e enviou uma mensagem ao Dr. António Macedo, Presidente do Partido Socialista, na qual afirmava que, no momento em que assinou os acordos com o Chefe de Estado português, não esqueceu as relações de camaradagem com o seu partido. E sobretudo a grande amizade entre os dois.

A partir de 1978, Hermínio Escórcio pôs de pé a Feira da Cultura. Na edição daquele ano queria a presença de Zeca Afonso, de Portugal e Luís Pastor, de Espanha. Nem um nem outro estavam disponíveis. Foi para Luanda o galego Bibiano, que tinha acabado de publicar trovas de protesto nos discos “Fujam os Ventos” e “Alumínio”. Entrei em contacto com José Afonso, na Alemanha. Quando lhe disse que estava convidado a participar no maior acontecimento cultural de todos os tempos em Angola, ele anulou tudo e regressou a Portugal. Os músicos que o acompanhavam continuaram a digressão na Alemanha e ele não podia ir sozinho. Em menos de 24 horas tinha um quarteto de luxo: Adriano Correia de Oliveira, Fausto, Luís Represas e Manuel Faria, estes integrantes do conjunto Os Trovante. Foi um sucesso.

Todos quiseram mostrar solidariedade para com um povo ferido pelo golpe de estado militar de 27 de Maio de 1977. Do Brasil chegaram Martinho da Vila e Clara Nunes que criou este samba:

Morena de Angola

Que leva o chocalho

Amarrado na canela

Será que ela meche

O chocalho

Ou o chocalho

É que mexe com ela.

O poeta Sangwangongo Malaquias também tratou este tema:

Tudo o que temos

cabe neste crepúsculo

em andamento adagio

e na sinfonia do txissanje

que suaviza o som estridente

do Kixixi anunciando morte.

Oremos blasfémias na txianda

sunga ié nguenzo, Weza!

Não te percas na noite do nada

nunca abandones o corpo ao muia

agita o guizo para que seja ouvido

desde o Cassai ao fim do mundo.

Tudo o que somos

cabe no voo breve da vida

e no beijo de amor

que a memória guarda sem sabor.

Enterremos penas e tristezas

antes do crepúsculo mergulhar

nas águas sagradas do Cassai

e derramar sombras

no caminho do luar:

Sunga ié nguenzo, Weza!

Agita o guizo eternamente

para que mesmo assim perdido

eu nunca te perder, meu amor!

Zeca Afonso, depois da sua presença na Feira da Cultura, também homenageou os angolanos no seu disco “Enquanto Há Força”. Um tema dedicado ao MPLA tem, este refrão:

Colonialismo

Não passará!

Imperialismo

Não passará!

Veio da mata

O Homem Novo

Do MPLA

Grandes artistas e intelectuais de todo o mundo mostraram aos angolanos e ao seu líder, Agostinho Neto, a sua solidariedade por terem sido vítimas de um golpe de estado militar sangrento durante o qual foi decapitado o alto comando das FAPLA, que se batiam no terreno contra os invasores estrangeiros, sobretudo os nazis e racistas do regime da África do Sul. Ao fim de 43 anos, o Presidente João Lourenço e o seu ministro da Justiça e dos Direiitos Humanos querem julgar os angolanos que enfrentaram vitoriosamente os golpistas. Sunga ié nguenzo, Weza! Sunga ié nguenzo, Weza!

https://www.youtube.com/watch?v=Ietp4sk2kAk

https://www.youtube.com/watch?v=7kBZZQ22V5s

Para uma melhor compreensão da exposição (alguns fundamentos de Martinho Júnior):

Portugal à sombra de ambiguidades ainda não ultrapassadas – I – http://paginaglobal.blogspot.pt/2017/04/portugal-sombra-de-ambiguidades-ainda.html

Portugal à sombra de ambiguidades ainda não ultrapassadas – II – http://paginaglobal.blogspot.pt/2017/04/portugal-sombra-de-ambiguidades-ainda_30.html

Portugal à sombra de ambiguidades ainda não ultrapassadas – III – http://paginaglobal.blogspot.pt/2017/05/portugal-sombra-de-ambiguidades-ainda.html

Portugal à sombra de ambiguidades ainda não ultrapassadas – IV – http://paginaglobal.blogspot.pt/2017/05/portugal-sombra-de-ambiguidades-ainda_8.html

Portugal à sombra de ambiguidades ainda não ultrapassadas – V – http://paginaglobal.blogspot.pt/2017/05/portugal-sombra-de-ambiguidades-ainda_14.html

Portugal à sombra de ambiguidades ainda não ultrapassadas – VI – http://paginaglobal.blogspot.pt/2017/05/portugal-sombra-de-ambiguidades-ainda_18.html

Portugal à sombra de ambiguidades ainda não ultrapassadas – VII – http://paginaglobal.blogspot.pt/2017/06/portugal-sombra-de-ambiguidades-ainda.html

Portugal à sombra de ambiguidades ainda não ultrapassadas – VIII – http://paginaglobal.blogspot.com/2017/07/portugal-sombra-de-ambiguidades-ainda.html

Portugal à sombra de ambiguidades ainda não ultrapassadas – IX – http://paginaglobal.blogspot.pt/2017/10/portugal-sombra-de-ambiguidades-ainda.html

Portugal à sombra de ambiguidades ainda não ultrapassadas – X – http://paginaglobal.blogspot.com/2018/12/portugal-sombra-de-ambiguidades-ainda.html

Pistas e traumas do longo choque neoliberal – I – http://paginaglobal.blogspot.com/2017/07/pistas-e-traumas-do-longo-choque.html

Pistas e traumas do longo choque neoliberal – II – http://paginaglobal.blogspot.pt/2017/07/pistas-e-traumas-do-longo-choque_29.html

Pistas e traumas do longo choque neoliberal – III – http://paginaglobal.blogspot.pt/2017/08/pistas-e-traumas-do-longo-choque.html

Casos de HIV/SIDA aumentam em Angola

Posted: 23 Aug 2020 12:12 PM PDT

Rede Angolana de Organizações de Serviços de SIDA considera preocupante o número crescente de casos de HIV/SIDA em Angola. Diariamente, morrem mais de 30 pessoas com a doença. E a Covid-19 desviou as atenções do Governo.

O presidente da Rede Angolana de Organizações de Serviços de SIDA (ANASO), António Coelho, afirma que a luta contra a SIDA em Angola está a viver grandes dificuldades.

Em entrevista à DW, o responsável da ANASO lamenta que a pandemia de Covid-19, que já infetou cerca de 2 mil angolanos, tenha retirado o programa de combate ao HIV/SIDA da lista de prioridades do Governo.

Coelho diz que faltam apoios para proteção dos doentes a nível nacional, numa altura em que a ANASO regista um aumento do número de casos no país: “A situação é preocupante. Em média, 76 novas infeções estão a ser registadas diariamente. E em média há também um número elevado de mortes relacionadas com a SIDA. 36 mortes estão a ser registadas todos os dias”, revelou o presidente da ANASO.

A ANASO avança que o país tem agora mais de 350 mil pessoas portadoras do HIV, das quais mais de 200 mil estão em tratamento.

Angola é dos países com maior taxa de transmissão vertical, de acordo com António Coelho. O líder da ONG afirma que os dados sobre a doença, divulgados pelas autoridades não são reais e defende mais financiamento para o setor da saúde.

“Precisamos de ter dados credíveis e para isso precisamos de melhorar o nosso sistema de informação em saúde”, sublinha. “Temos também de aumentar o financiamento na saúde, particularmente, para a SIDA, malária e tuberculose. Deve-se perceber que, apesar da Covid-19, temos que continuar a lutar contra a SIDA, a malária e a tuberculose”, defende.

Falta de medicamentos

O país regista desde março deste ano uma rutura no ‘stock’ de antirretrovirais de primeira linha. A situação deixa vulnerável cerca de 25 mil pessoas que estão há mais de três meses sem a medicação.

Diariamente, mais de 25 portadores de HIV solicitam apoios de medicamentos à ANASO. “A situação está a gerar medo e angústia, por causa do tempo que estão sem a medicação”, afirma António Coelho.

“As informações que temos é que os antirretrovirais de segunda linha chegaram ao país na primeira semana de agosto, agora estamos a lutar para o seu desalfandegamento. Não sabemos quanto tempo vai levar, mas a verdade é que a ANASO se associa à situação das pessoas vivendo com o HIV e continua a desenvolver ações de advocacia para que os medicamentos cheguem as pessoas que precisam”, garante.

Para além da escassez de medicamentos, o coronavírus aumentou as dificuldades sociais dos doentes, que também se queixam da falta de alimentação.

Borralho Ndomba (Luanda) | Deutsche Welle

Covid-19: Atividades do 45º aniversário da independência de Angola são suspensas

Posted: 23 Aug 2020 12:06 PM PDT

Comunicado dos organizadores sugere que “hino milionário” dos 45 anos da independência de Angola poderá ser revisto. Comemorações simbólicas com menos participantes devem ser organizadas para lembrar a data histórica.

A comissão interministerial responsável pela organização do 45º aniversário da independência nacional de Angola decidiu cancelar uma série de eventos previstos no cronograma de ações para a celebração no dia 11 de novembro.

Segundo nota divulgada à imprensa, a decisão foi tomada considerando a “situação epidemiológica do país”. Foram cancelados o ato central – previsto para decorrer no Memorial António Agostinho Neto, em Luanda – e os desfiles cívico e militar.

Há poucas semanas, o contrato celebrado entre o Governo e uma empresa privada para a criação do hino alusivo aos 45 anos da independência foi duramente criticado em Angola. A produção da canção custaria 148 mil kwanzas, mais de 200 mil euros.

A nota informa que a campanha de comunicação e marketing, nomeadamente a produção de material de propaganda e da música oficial, entre outros itens, será reestruturada. No entanto, não deixa claro se haverá qualquer alteração no contrato com a empresa e nos custos da produção do hino.

Celebrações simbólicas

O comunicado informa que serão marcadas “celebrações com atos de natureza simbólica, que não envolvam a participação massiva de cidadãos e não se constituam em foco de propagação” do coronavírus.

Os atos provinciais e de representações diplomáticas no exterior alusivos ao aniversário da independência também serão reconfigurados, e também serão simbólicos para garantir presença reduzida de pessoas.

A comissão interministerial declara que “continuará a trabalhar no sentido de garantir que as ações comemorativas ao 45º aniversário independência nacional de Angola decorram, enquanto marco de transcendental importância para a memória coletiva do povo angolano, num clima de harmonia”.

Marcio Pessoa | Deutsche Welle

Oposição da Guiné Equatorial critica composição pouco alterada de novo executivo

Posted: 23 Aug 2020 11:38 AM PDT

Vários membros da oposição da Guiné Equatorial criticaram hoje a recondução de Francisco Pascual Obama Asue para o cargo de primeiro-ministro do país, assim como a composição do novo executivo, que mantém alguns nomes da constituição anterior.

Em declarações à Lusa, Andrés Esono, líder do partido Convergência para a Democracia Social (CPDS), fez uma avaliação “negativa”, considerando que “nada irá mudar na Guiné Equatorial com este novo executivo”, aprovado pelo Presidente Teodoro Obiang Nguema.

“Há que ter em conta que Obiang dissolveu o Governo anterior para nomear um novo com o objetivo de enfrentar a crise económica e lutar contra a corrupção, uma vez que, na sua opinião, o executivo dissolvido não foi capaz de conseguir os objetivos estabelecidos. No entanto, longe de um Governo austero e com caras novas que apresentassem ideias novas e inovadoras, formou um executivo com as mesmas pessoas”, afirmou Andrés Esono.

Um decreto presidencial divulgado na terça-feira registava que Teodoro Obiang tinha reconduzido como primeiro-ministro, “encarregado da coordenação administrativa”, Francisco-Pascoal Obama Asue, depois de este e o seu executivo terem apresentado uma “demissão em bloco” no dia 14, considerando que “não cumpriu os objetivos programáticos, o que sem dúvida causou a situação de crise”.

A composição do novo executivo foi anunciada na quinta-feira, mantendo muitas das tutelas do Governo anterior.

Andrés Esono assinalou que “aqueles que já o conhecem, sabem que ele [Obiang] nunca assinou os governos tendo em mente os interesses do povo, mas sim em seu próprio benefício, da sua família, ou dos que são fiéis à sua linha política”.

A Obiang, a CPDS tinha exigido a formação de ” um Governo de emergência capaz de empreender reformas políticas e legislativas, bem como de gestão económica e administrativa”.

O advogado e ativista Lucas Olo Fernandes, coordenador do Observatório Aprofort, promovido pela organização não-governamental Transparência e Integridade (TI), afirmou que “a melodia muda, mas a orquestra é a mesma”.

“Trata-se, na minha opinião, mais de um golpe do que de uma mudança. Na Saúde e na Informação, são alterações sem importância. O mais relevante poderia ser no Trabalho, que era detido por um antigo candidato à presidência pelo CPDS, Celestino Bakale, agora do governante PDGE [partido de Obiang]. Agora é dirigido por Alfredo Mitogo, que é de um partido satélite do PDGE”, disse Lucas Olo.

O dirigente do Aprofort considera que a situação social no país “vai ser complicada nos próximos meses” e acredita que “surgirão movimentos sociais com mais apoios de muitos que vão passar por dificuldades devido à situação económica”.

Nesse sentido, Lucas Olo Fernandes espera que “a repressão não aumente contra cidadãos e políticos” no país africano.

O líder do Cidadãos para a Inovação (CI), Gabriel Nsé Obiang, disse em declarações à agência Efe que “a repetição de ministros do Governo anterior em pastas-chave reafirma que nada mudou, que foi simplesmente um desvio político”.

“O problema na Guiné Equatorial não está na mudança de governos, mas no próprio sistema político, que já está desatualizado. A solução é colocar o poder nas mãos do povo e convocar eleições gerais”, acrescentou Nsé, sublinhando que “a oposição exigiu um Governo de concentração ou de unidade nacional e Obiang não o aceitou”.

Na tomada de posse de Obama Asue, Obiang sublinhou que “razões económicas” justificaram a dissolução do Governo anterior e que o novo executivo deve “procurar soluções específicas e viáveis para resolver os atuais problemas enfrentados pelos países do mundo e os problemas económicos”.

O líder equato-guineense deu várias recomendações ao chefe do executivo durante a cerimónia, incluindo o controlo dos recursos do Estado, a luta contra a corrupção e Obama Asue fez questão de sublinhar que apenas é “capataz”.

“Tenho um chefe de Governo que marca o ritmo. A única coisa que tenho de fazer é igualar o ritmo que o meu chefe de Governo me fixa”, afirmou ainda.

Desde a sua independência de Espanha, em 1968, aGuiné Equatorial tem sido considerada pelos grupos de direitos humanos como um dos países mais repressivos do mundo, devido a alegações de detenção e tortura de dissidentes e de fraude eleitoral.

Obiang, que tem liderado o país desde 1979, quando derrubou o seu tio Francisco Macias num golpe de Estado, é o Presidente em funções há mais tempo em todo o mundo.

A Guiné Equatorial integra a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) desde 2014.

RTP | Lusa

Guiné-Bissau | Diáspora condena retrocesso democrático e absolutismo de Embaló

Posted: 23 Aug 2020 10:56 AM PDT

Comunidade guineense volta à rua este sábado (22.08), em Lisboa, para manifestar o seu desalento e condenar aquilo que considera ser “um golpe de Estado na Guiné-Bissau”. Protestantes condenam “atropelos à Constituição”.

A diáspora guineense espalhada por vários países europeus manifesta-se esta tarde na capital portuguesa para condenar, “de forma veemente”, os atropelos à Constituição, nomeadamente os “fortes ataques às liberdades fundamentais”, engendrados pela governação do autoproclamado Presidente da República da Guiné-Bissau, Umaro Sissoco Embaló, apadrinhado pela Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO).

Mariano Quade, um dos coordenadores desta mobilização, aponta o dedo à postura do atual Chefe de Estado, a quem os guineenses descontentes atribuem a responsabilidade pelo “retrocesso democrático” no país, limitando, entre outros, valores como a liberdade de expressão e o direito à informação. Prova disso, acrescenta em entrevista à DW África, é que, neste momento, “não há direito à oposição”.

Declaradamente, considera que o país vive num ambiente de ditadura, uma vez que o autoproclamado Presidente diz ser ele o único chefe. “Isso só por si diz que ele é um absolutista, uma pessoa que quer concentrar todos os poderes e que não sabe conviver com as regras democráticas”, acusa.

“Neste sentido, nós condenamos veementemente este tipo de postura porque consideramos que este é um retrocesso democrático [para a Guiné-Bissau]”, afirma Quade, pouco antes do comício que, esta tarde, conta com a presença pessoal de Domingos Simões Pereira, líder do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC).

Corrente de protestos alarga-se cada vez mais

Lina Banora Ramos tem a vida organizada em Portugal. Mãe de dois filhos, ela é o retrato evidente de um elemento da comunidade preocupado com a situação no país natal, de onde saiu forçosamente há 25 anos por causa da crise político-militar de 1998. A imigrante faz parte dos muitos guineenses indignados, desiludidos e revoltados que, em países como Portugal, Alemanha, França, Espanha, Bélgica, Luxemburgo, Reino Unido e Estados Unidos, têm aderido a esta corrente de protesto face ao estado de degradação da vida política e da crise económica e social na Guiné-Bissau.

Lina Ramos reafirma, em declarações à DW África, que veio à manifestação expressar o seu descontentamento, tal é o estado de espírito de muitos guineenses presentes aqui na Alameda. “Incomoda-me a situação que lá se vive e que tende a piorar”, lamenta, reafirmando que “muita gente está descontente” não só com a situação política.

A cidadã guineense recua no tempo, revendo os acontecimentos que mancharam a imagem da Guiné-Bissau, para afirmar que o país chegou a este ponto também por culpa dos próprios guineenses que, na sua opinião, votaram erradamente. “Hoje em dia, não há liberdade de expressão, as leis são inoperantes, só estão no papel, não funcionam; não há punições e, em consequência disso, há violação da Constituição, como se estivéssemos a viver numa anarquia”, enumera insatisfeita.

A propósito de direitos e de liberdade, Lina Ramos considera “uma tamanha barbaridade” a decisão de Umaro Sissoco Embaló de monitorizar o acesso dos cidadãos guineenses às novas tecnologias de informação e de comunicação. “Acho que as redes sociais são tão importantes, tal como a nossa respiração, para sabermos o que se passa no mundo e ao nosso redor”, enaltece, para depois criticar a polémica decisão presidencial que prevê o controlo das comunicações na Guiné-Bissau.

Por estas e outras razões, a imigrante guineense não tem dúvidas que está a crescer o movimento de cidadãos descontentes, não só em Portugal. “Atualmente, há um crescendo da revolta das pessoas. De pessoas que não têm medo de falar ou dizer o que sentem”, confirma.

Apelo à comunidade Internacional

A organização critica a CEDEAO que, não condenando as ilegalidades cometidas pelo Presidente Umaro Sissoco Embaló, procura legitimá-las, apadrinhando uma situação de golpe de Estado. “Isso tem sido uma grande afronta e bastante negativo para a imagem da CEDEAO”, reforça Mariano Quade. “A própria CEDEAO”, recorda, “tinha declarado tolerância zero a golpes de Estado e não compreendemos como é que no caso da Guiné-Bissau se procura legitimar essa situação, legitimando o atual autoproclamado Presidente”.

Os guineenses saíram uma vez mais à rua, em Portugal, porque dizem não ser coniventes com a atual situação. Por isso, renovam o apelo à comunidade internacional para que esta reaja e tome uma posição, de modo a se repor a legalidade na Guiné-Bissau. Acreditam que, tarde ou cedo, será assim possível, em defesa da Constituição e das regras da convivência democrática.

“A nossa luta não tem um prazo. Ela é contínua enquanto se mantiver esta situação de ilegalidade”, afirma Quade, que invoca o golpe de Estado ocorrido esta semana no Mali. Para este quadro guineense, abriu-se um precedente na Guiné-Bissau.

“Quando a CEDEAO fecha os olhos a uma situação de golpe de Estado na Guiné-Bissau, naturalmente que abre as portas para que outros países também se sintam à vontade para atropelar aquilo que são as regras democráticas e a Constituição», exemplifica. Acrescenta ser esta uma prova clara de que o precedente aberto pela CEDEAO “vai trazer uma imagem bastante prejudicial e uma instabilidade bem maior para toda a região”.

Enquanto se mantiver este clima de instabilidade, Lina Ramos assegura que vai continuar a protestar, porque o país precisa de uma “mudança”. Garante que os guineenses não vão “baixar os braços” até “que as coisas mudem”. Insiste, com olhar de determinação: “temos que fazer alguma coisa, temos que lutar”.

PAIGC também critica CEDEAO

Numa nota divulgada esta sexta-feira (21.08), um dia após a CEDEAO se ter congratulado com a aprovação do programa de Governo pelo parlamento da Guiné-Bissau, o PAIGC condenou a posição da organização regional por “insistir” em tentar “legitimar” o executivo de Nuno Nabiam.

O PAIGC “condena com firmeza a posição da CEDEAO ao caucionar um golpe de Estado e reconhecer um Governo imposto pelo uso da força, minando dessa forma as condições de diálogo com vista à resolução definitiva da crise pós-eleitoral na Guiné-Bissau”, referiu, em comunicado.

O partido denunciou também a “tentativa de alguns chefes de Estado de alguns países membros da CEDEAO em impor a sua agenda na Guiné-Bissau contra os interesses do povo guineense” e alertou para os “perigos de reconhecimento de um poder conquistado pela força e baseado na repressão e violência e que não oferece nenhuma perspetiva de consolidação da paz e de estabilidade política”.

No mesmo documento, o PAIGC denuncia igualmente violações “sistemáticas” dos direitos humanos, “repressão e violência contra cidadãos indefesos” e perseguição a membros do Governo liderado por Aristides Gomes e volta a apelar à comunidade internacional para “promover esforços concertados” para assegurar o “restabelecimento da ordem constitucional e a garantir a estabilidade política na Guiné-Bissau”.

João Carlos (Lisboa) | Deutsche Welle

Covid-19: Números continuam a aumentar nos PALOP

Posted: 23 Aug 2020 10:45 AM PDT

Apesar de ser Cabo Verde o país africano lusófono que regista mais casos positivos de Covid-19, Moçambique tem estado registar, nos últimos dias, um maior número de casos diários.

Este sábado (22.08), o país governado por Filipe Nyusi registou mais 109 casos positivos de covid-19, elevando o total para 3.304 e mantendo-se com 20 óbitos.

De acordo com o Ministério de Saúde moçambicano, os novos casos, seis dos quais menores de cinco anos, estão distribuídos entre as províncias de Maputo (39), Inhambane (um), Sofala (dois), Manica (seis), Nampula (seis), Niassa (um), cidade de Maputo (47), e Cabo Delgado (sete).

Por sua vez, Cabo Verde registou, este sábado (22.08), 43 novos infetados, elevando o total acumulado no arquipélago, desde 19 de março, a 3.455 casos, distribuídos por oito das nove ilhas habitadas. Segundo o Ministério da Saúde, o país mantém o número de óbitos nos 37.

66 novos casos em Angola

Em Angola, foram registados também mais 66 novas infeções, somando o total de 2.134 casos positivos. Segundo secretário de Estado para a Saúde de Angola, Franco Mufinda, do total de infeções reportadas este sábado (22.08), sete são da província de Benguela, dois do Bié, seis do Zaire e os restantes de Luanda, capital do país, com idades entre os 13 a90 anos, sendo 58 do sexo masculino e oito sexo feminino.

O país regista, de março até à data, um total acumulado de 2.134 casos positivos, 94 óbitos, 814 recuperados e 1.226 ativos, dos quais quatro são críticos.

Os dados divulgados pelas autoridades oficiais dos países, mostram ainda que a Guiné-Bissau conta atualmente com 2.149 casos e 33 mortos e São Tomé e Príncipe com 891 casos e 15 mortos.

Guiné Equatorial atualiza números

A Guiné Equatorial atualizou, este domingo (23.08) e pela primeira vez em três semanas, os seus dados que dão conta que o país regista um total de 4.926 casos positivos de Covid-19, um aumento de 34 pessoas face aos 4.892 infetados registados a 1 de agosto. O número de óbitos mantém-se nos 83.

De acordo com os números reportados hoje pelo Centro de Controlo e Prevenção de Doenças da União Africana (África CDC), que reúne os dados enviados pelos países e os divulga diariamente, o número de mortes por covid-19 em África está atualmente, nos 27.592, num universo de 1,17 milhões de infetados.

O maior número de casos e de mortos de covid-19 continua a registar-se na África Austral, com 646.639 infetados e 13.863 vítimas mortais. Nesta região, a África do Sul, o país mais afetado do continente, contabiliza 607.045 doentes infetados e 12.987 mortos.

O norte de África, a segunda zona mais afetada pela pandemia, tem agora 209.274 pessoas infetadas e 7.931 mortos e na África Ocidental o número de casos subiu para 154.254 e o de vítimas mortais para 2.310.

Na região da África Oriental, o número de casos de covid-19 é hoje de 116.000 e 2.463 mortos e na África Central são contabilizados hoje 52.603vcasos de infeção e 1.025 óbitos.

O Egito é o segundo país com mais vítimas mortais, a seguir à África do Sul, contabilizando 97.237 infetados e 5.243 óbitos, seguindo-se a Argélia, com 41.512 e 1.411 mortes.

Entre os cinco países mais afetados, estão também a Nigéria, que regista 51.905 infetados e 997 óbitos, e o Sudão, com 12.682 casos e 812 vítimas mortais.

A pandemia de covid-19 já provocou pelo menos 800 mil mortos e infetou mais de 23 milhões de pessoas em 196 países e territórios, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

Deutsche Welle | Lusa

Portugal | Este tempo não é para velhos. Que tristeza!

Posted: 23 Aug 2020 05:23 AM PDT

Felisbela Lopes* | Jornal de Notícias | opinião

Sempre temi os últimos anos de vida, quando a idade vai longa. Porque esta modernidade líquida suspensa na juventude despreza os mais velhos, porque os filhos há muito deixaram de ter disponibilidade para cuidar dos pais, porque as instituições sociais vocacionadas para amparar a terceira idade mais parecem deteriorados sótãos para onde se atiram velharias que raramente revisitamos. A pandemia apenas destapou uma realidade escondida há muito tempo.

A entrevista da ministra da Solidariedade e Segurança Social ao “Expresso” e o relatório da Ordem dos Médicos sobre a situação do Lar de Idosos de Reguengos de Monsaraz reabilitaram esta semana o tema dos lares e a procura de responsabilidades daquilo que se passou na vila alentejana onde morreram 18 pessoas por covid-19, 16 idosos e uma funcionária do lar e ainda um homem da comunidade local. Aquilo que os media vêm noticiando espelha um país miserável onde as teias das políticas locais tecem inimagináveis redes de influência e onde parece natural uma vaga de mortes não nos mobilizar para indagar causas que originem consequências consonantes com a gravidade dos factos…

Não se pense que a situação de Reguengos de Monsaraz é um caso isolado. Em Portugal, os lares não são para velhos. Pelo menos, para aqueles que querem dias de conforto, de alegria, de amor. É preciso ter coragem para ir mais fundo no problema a fim de perceber quantas instituições têm hoje condições para cuidar dos idosos. E fechar todas as outras que não tratam bem os seus utentes.

Neste contexto, é tentador apontar o dedo ao Governo, às autoridades de saúde e à Segurança Social por todas as situações disfuncionais nos lares. Claro que estes atores têm aqui colossais responsabilidades, mas convém também não excluir a família que, com alguma frequência, abandona os seus idosos em lares, desculpando-se com a distância ou com os afazeres profissionais para justificar o alheamento de situações que também deveriam ser do seu conhecimento.

Hoje os mais velhos estão mais sozinhos do que nunca nos lares que os acolhem. A atual pandemia apenas se constitui como o último sopro que os faz sucumbir perante uma posição demasiado periclitante. Precisamos, pois, de políticas mais consistentes para a terceira idade, de instituições mais confortáveis para os utentes, de profissionais mais habilitados para cuidar dos mais velhos e de uma família que olhe para os idosos como um bem precioso que deve merecer todos os cuidados.

*Prof. Associada com Agregação da UMinho

Portugal | O punho da escrita contra o racismo, a xenofobia e o populismo

Posted: 23 Aug 2020 05:12 AM PDT

Pertencem a diferentes gerações. Divergem em credos, convicções ou concepções estéticas e políticas. Encontram-se espalhados por vários continentes. São homens e são mulheres. São poetas, prosadores, ensaístas e dramaturgos. Escrevem para adultos e para crianças. Alguns são músicos e compositores de canções. Vários receberam prémios literários, entre eles os mais importantes da língua portuguesa. Há os que dirigem ou representam associações de autores.

Todos estão unidos por uma única vontade: não transigir com o racismo, a xenofobia e o populismo em Portugal. Porque, explicam, «como sempre nos mostrou a História, quem adormece em democracia acorda em ditadura».

O dever da palavra

São «escritores portugueses e de língua portuguesa». Estão, «por ofício, cientes do poder da palavra», mas também «do poder da sua omissão». Por isso, «em tempos normais», dizem, não dariam palco a comportamentos racistas, xenófobos e populistas.

As «circunstâncias vividas em Portugal» neste domínio, que consideram «graves e inquietantes», levam-nos a «correr esse risco». Até porque «cultura e literatura não florescem» em «tempos sufocantes» em que o «mais repugnante pode emergir de uma sociedade em crise e em estado de medo».

«Não podemos olhar para o lado nem continuar calados, sob pena de emudecermos», afirmam. Exigem «compromissos políticos que detenham a escalada do populismo, da violência, da xenofobia». Dão o exemplo: «assumimos o compromisso de jamais participarmos em eventos, conferências e/ou festivais conotados – seja de que maneira for – com ideias que colidam com os princípios da tolerância e da dignidade humana».

Porque há valores a defender, «antes que seja tarde». Elencam: democracia, multiculturalismo, justiça social, tolerância, inclusão, igualdade entre géneros, liberdade de expressão e debate aberto. «Tais», afirmam, «são as nossas grandes riquezas: a diversidade e a tolerância», expressas na «língua portuguesa, feita de aglutinação, inclusão e aceitação da diferença».

E gritam: «quem gosta de Portugal jamais diz “Vão!”, antes diz “Venham!”».

A cada um a sua responsabilidade

Que cada um cumpra o seu dever, é tudo o que pretendem os signatários da carta aberta.

«A todos os cidadãos portugueses, à sociedade civil, aos professores das escolas e das universidades», os escritores apelam «a que se distanciem de projectos e movimentos antidemocráticos e ajudem na consciencialização das novas gerações para a urgência dos valores humanistas e para os riscos das extremas-direitas; aos órgãos de justiça, que investiguem, processem e condenem os interesses económico-financeiros que se servem dos novos populismos; às autoridades policiais e aos seus agentes, que se abstenham de condescender com movimentos e acções promotores da exclusão, da discriminação e da violência; à comunicação social, que assuma com veemência o seu papel de contraditório e de defesa da verdade; aos partidos políticos, que sejam capazes de recuperar os princípios esquecidos no decurso do jogo partidário de vocação eleitoral; ao Presidente da República, à Assembleia da República e ao Governo, que exerçam um escrutínio rigoroso da constitucionalidade e assegurem que o fascismo não passará».

A origem e o texto completo do carta aberta

A iniciativa partiu dos escritores Joel Neto e Ana Margarida de Carvalho. Ambos os autores prestaram declarações ao Jornal 2 da RTP-2, que podem ser ouvidas aqui.

Ao jornal Contacto (Luxemburgo), Ana Margarida de Carvalho, um dos poucos autores a receber por mais de uma vez o Grande Prémio do Romance e da Novela da APE, o maior galardão literário português, explicou que a ‘Carta aberta dos escritores de língua portuguesa contra o racismo, a xenofobia e o populismo e em defesa de uma cultura e de uma sociedade livres, plurais e inclusivas’ «está alojada na página da Fundação José Saramago» e que «continua a recolher assinaturas de várias mulheres e homens da literatura».

No primeiro grupo de assinaturas, durante um único fim-de-semana, eram cerca de 150 escritores. Hoje são mais de 200. Representam um autêntico quadro de honra da escrita em língua portuguesa.

O texto do manifesto encontra-se integralmente na página da Fundação José Saramago, bem como a lista de escritores – sujeita a actualização – que já o subscreveram.

AbrilAbril

Imagem: Manifestação contra a morte do actor Bruno Candé e em defesa das vítimas do racismo, em Lisboa, a 31 de Julho de 2020. Bruno Candé, de 39 anos, foi baleado em 25 de Julho, num crime com claros contornos de racismoCréditosMiguel A. Lopes / LUSA

Liga Árabe: relações de paz com Israel só quando a Palestina for livre

Posted: 23 Aug 2020 04:51 AM PDT

De 2011 – no quadro – para a atualidade a ocupação ainda é mais extensa, assim como a repressão sobre os palestinos

O secretário-geral da Liga Árabe, Ahmed Abul Gheit, disse este sábado que só será possível estabelecer relações de paz com Israel quando os direitos dos palestinianos forem restaurados.

Abul Gheit declarou, num comunicado, que ainda é necessário o fim da ocupação israelita na Palestina e um Estado palestiniano independente com total soberania sobre os seus territórios ser estabelecido.

«Uma paz real e duradoura continua a ser uma opção estratégica para os países árabes (…), mas a etapa de relações de paz entre árabes e israelitas só chegará quando o povo palestiniano obtiver a sua liberdade e independência e quando houver a restauração dos seus direitos legítimos», afirmou Abul Gheit.

Abul Gheit defendeu também que o povo palestiniano deve ter «total soberania» sobre os territórios ocupados em 1967 e que Jerusalém Oriental seja sua capital.

O secretário-geral lembrou que «há uma rejeição árabe completa e unânime dos planos de anexação de Israel» e de qualquer medida unilateral que vise «mudar o estatuto das terras ocupadas por Israel».

A afirmação da Liga Árabe ocorre depois de, no dia 13, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar a normalização das relações diplomáticas entre Israel e os Emirados Árabes Unidos como parte de um acordo pelo qual as autoridades israelitas deverão paralisar a anexação de parte do território palestiniano ocupado, apesar de a Palestina ter ficado à margem da decisão.

Tal como denunciou o Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente (MPPM), nada se diz no referido acordo que comprometa Israel com a viabilização da solução dos dois estados, como a retirada dos territórios ocupados em 1967 ou sequer o congelamento da expansão dos colonatos, sublinhando que as zonas que Israel pretende anexar são referidas como «as áreas delineadas na Visão do Presidente para a Paz».

AbrilAbril com agência Lusa

Bismarck, crise britânica COVID -19 e o fracasso do Serviço Nacional de Saúde

Posted: 23 Aug 2020 04:34 AM PDT

*Publicado em português do Brasil

Martin Sieff*

O recorde apavorante do Serviço Nacional de Saúde da Grã-Bretanha em lidar com a contínua pandemia de COVID-19 também revelou o falso orgulho, ignorância e arrogância do país em relação ao NHS em notável contraste com o da Rússia e da Alemanha.

É frequentemente comentado que depois que os britânicos exaustos e falidos foram forçados a desistir de seu enorme império global após a Segunda Guerra Mundial, eles se consolaram – muito como uma criança mimada e imatura chupando seu doce gelado favorito – garantindo que tinham o serviço de saúde gratuito mais avançado e impressionante do mundo.

Isso nunca foi verdade. Mesmo em seus melhores momentos, o NHS sempre foi, na realidade, uma expressão de incompetência burocrática e vergonhosa ineficiência. Ao longo dos anos, dois amigos meus britânicos próximos morreram tragicamente décadas antes de seu tempo, por causa da confusão ridícula e indesculpável do sistema do NHS.

Um deles, um excelente diplomata do Ministério das Relações Exteriores, na noite seguinte a sua internação em um hospital do NHS após sofrer um ataque cardíaco, teve o uso de um monitor cardíaco negado, embora um estivesse facilmente disponível e ele morreu de um segundo ataque naquela mesma noite, Ele ainda estava na casa dos 40 anos.

A segunda, um advogado que trabalhava no Oriente Médio voltou a Londres para cuidar do que deveria ser um defeito cardíaco de rotina. Sua fé no NHS o matou: estragaram o procedimento de rotina e ele morreu na mesa de operação.

Meu próprio pai teve sorte de sobreviver às dificuldades do NHS. Em seus 50 anos, ele foi internado em um hospital para consertar uma hérnia. Os cirurgiões atrapalharam o procedimento de rotina menor, então ele teve que voltar para uma segunda operação. Desta vez, eles consertaram a hérnia, mas se esqueceram de retirar um dos instrumentos cirúrgicos. Ele teve que retornar ao hospital para uma terceira operação para obter a ferramenta cirúrgica removida de seu corpo.

Os britânicos consideram os atrasos de meses e anos para realizar os procedimentos de rotina. A falta de recursos não é o problema. O orçamento anual fornecido ao NHS é maior do que o PIB de muitos dos estados membros das Nações Unidas.

Quando o NHS foi lançado em 1948, tinha um orçamento de £ 437 milhões (equivalente a £ 16,01 bilhões em 2019). Em 2016–2017, o orçamento foi de £ 122,5 bilhões. Em 2015/16, foi quase 30% do orçamento de serviços públicos.

Agora, o NHS, tanto nos serviços prestados quanto no número de mortos registrados, mostrou-se lamentavelmente incapaz de lutar contra a pandemia COVID-19. (Não deveria ser nenhuma surpresa que antes de a pandemia real atingir, os britânicos se classificaram entre as nações mais bem preparadas do mundo para lidar com tal crise. Eles desprezavam especialmente a Rússia e a China, ambas as quais, na realidade, tiveram números muito menores de mortes em termos per capita e no caso da Rússia em termos de números absolutos de casos e mortes.

Os planejadores de saúde britânicos concordaram com a mesma política catastrófica que os governadores democratas dos principais estados dos EUA, principalmente Nova York, Califórnia e Nova Jersey, seguiram ao encaminhar pacientes com COVID-19 para asilos regulares e lares de idosos, fazendo com que os presos originais contraíssem o vírus e morrer como moscas.

Enquanto escrevo, a Grã-Bretanha, com uma população de 65 milhões, registrou 41.500 mortes por COVID-19. A Rússia sofreu apenas menos de 16.000, de acordo com números do Centro de Recursos Coronavirus da Universidade Johns Hopkins. A Alemanha, com uma população apenas um quinto maior do que a da Grã-Bretanha, sofreu apenas 9.250 mortes.

O recorde apavorante do NHS ao lidar com COVID-19 também contrasta com os sucessos da Rússia e da Alemanha.

O modelo da Alemanha, quase comparável em tamanho ao da Grã-Bretanha, é especialmente instrutivo: ao contrário da Grã-Bretanha, a Alemanha não é uma ilha, mas está localizada no coração da Europa Ocidental continental e, portanto, deve ser mais vulnerável à pandemia e muito menos fácil de colocar em quarentena. No entanto, a Alemanha tem o benefício, na realidade, do que a Grã-Bretanha falsamente alegou ter tido nos últimos 70 anos – um sistema nacional de saúde genuinamente eficiente, humano e bem administrado.

Nem os alemães o copiaram dos britânicos. Eles gostaram dele por 65 anos e durante duas guerras mundiais (ambas as quais perderam) antes mesmo de o NHS da Grã-Bretanha ser fundado.

O sistema nacional de saúde alemão foi fundado em 1883 e seu arquiteto principal foi o grande estadista Otto von Bismarck. Foi o primeiro serviço nacional de saúde abrangente de qualquer grande nação industrializada. Em poucos anos, tornou-se o modelo para serviços menores e de sucesso semelhante na maioria das pequenas nações do noroeste da Europa. Até mesmo o tão elogiado serviço de saúde de Israel foi copiado diretamente do modelo de Bismarck.

O serviço alemão também é muito melhor administrado e muito mais barato do que o britânico. Custou $ 368,78 bilhões (287,3 bilhões de euros) em 2010, equivalente a 11,6% do produto interno bruto (PIB) ou cerca de um quarto do custo do NHS. E seus resultados falam por si: Em 2004, a Alemanha ocupava o trigésimo lugar no ranking mundial em expectativa de vida (78 anos para os homens). A Grã-Bretanha reivindicou uma expectativa de vida para os homens de 80 anos antes de a pandemia atingir, embora, mesmo assim, houvesse bons motivos para duvidar dessa afirmação.

Bismarck não apenas criou o primeiro grande serviço abrangente de saúde do mundo para uma grande nação industrializada. Ele foi um pioneiro de sucesso semelhante em termos de seguro-desemprego e pagamentos de seguridade social abrangentes também para os aposentados. A Grã-Bretanha só começou a seguir a Alemanha nessas duas áreas 30 anos depois, antes da Primeira Guerra Mundial, e os Estados Unidos tiveram que esperar até 1940 para que os pagamentos da Previdência Social começassem a driblar para os sobreviventes da Grande Depressão.

Até hoje, os sistemas dos EUA em todas as três áreas de saúde nacional, seguridade social para idosos e pagamentos de desemprego permanecem terrivelmente inferiores aos da Alemanha e de muitas outras nações. No entanto, quando o senador Bernie Sanders repetidamente apontou esta verdade elementar, óbvia e vergonhosa repetidamente nas campanhas presidenciais dos EUA de 2016 e 2020, ele foi acusado de ser um extremista sinistro.

Na Grã-Bretanha, até hoje Otto von Bismarck é ensinado como um precursor do Kaiser Wilhelm II e Hitler: O início de uma queda na agressão da barbárie que infligiu misérias indescritíveis ao mundo.

Na realidade, ele ergueu a Alemanha de séculos de conquista repetida, devastação e estupro em massa de suas mulheres nas mãos da França e pilhagem econômica pela Inglaterra e então criou um sistema pacífico e estável até que as idiotices de Guilherme II e o ódio francês colocaram a Europa no caminho para a guerra mundial. Ele foi o pioneiro na operação de serviços sociais para proteger os doentes, os idosos e os pobres em escala nacional que solucionou as piores patologias das sociedades modernas industrializadas.

Os vergonhosos fracassos do Serviço Nacional de Saúde e da sociedade britânica sob a Auditoria da Pandemia em 2020 devem servir como um alerta de que a sociedade britânica está longe de ser a mais feliz, mais estável e mais perfeita do mundo, conforme eles tentam repetidamente se convencer.

Em vez de tentar obsessivamente se refazer na caricatura dos próprios Estados Unidos em crise profunda, os britânicos fariam melhor em buscar melhores relações e cultivar uma atitude de respeito genuíno por nações como a Rússia e a Alemanha.

Eles têm muito que aprender. E não sobrou muito tempo para isso.

*Martin SIEFF

Durante seus 24 anos como correspondente estrangeiro sênior do The Washington Times e da United Press International, Martin Sieff reportou de mais de 70 nações e cobriu 12 guerras. Ele se especializou em questões econômicas dos EUA e globais.

*Publicado originalmente em Strategic Culture, em inglês. Traduzido para português do Brasil em PG.

Os territórios que o Google Maps esconde

Posted: 23 Aug 2020 04:02 AM PDT

#Publicado em português do Brasil

Palestina, Caxemira e outros espaços que o poder global quer esconder são quase apagados, nos mapas da gigante da internet. Em seu lugar, um leve tracejado, sinal de que podem desaparecer. Há alternativa: o OpenStreetMap, plataforma livre

Antônio Heleno Caldas Laranjeira | Outras Palavras

Afinal, é possível produzir mapas que representem todos os lugares com equidade? Para responder essa questão contemporânea, o sociólogo português, Boaventura de Souza Santos, em seu artigo Uma cartografia simbólica das representações sociais: prolegômenos a uma concepção pós-moderna do direito, de 1988, já sinalizava, sobre a relevância da espacialidade na interpretação temporal e o papel dos mapas para o direito histórico aos territórios, e aponta.

Em síntese, três aspectos para investigação crítica a partir de uma cartografia. A escala, a planificação e a simbolização são os três recursos-chave para o funcionamento dos mapas que utilizamos via Internet, e que, por vezes, levam o usuário do mapa à refletir sobre os critérios de relevância e as regulações que garantem a organização das informações que ele acessa sem reconhecer quem produz os mapas utilizados.

Afinal, quando falamos em mapas para todos precisamos também perguntar: Quem são “todos”? Usuários ou produtores de mapas? Quais são os mapas que representam “todos” por “todos”? Google Maps ou OpenStreetMap?

 

O Google Maps é uma plataforma — um site que reúne dados e permite operações online — de uma empresa hegemônica (holding) nas práticas de geocomunicação, formada por uma complexa trama de incorporações de empresas (subsidiárias), um dos produtos mais evoluídos da Indústria das Mídias, lançado em 2005.

Isso porque, diferentes inovações, no âmbito das operações de produção e circulação — como o Local Guides e o StreetView — tem sido marcada pelas apropriações sociotécnicas de geotecnologias a partir da “geospacial web” (ou geoweb), ambiente digital decorrente da convergência da interatividade da web 2.0 com as frequências de GPS (Geographic Positioning System) e a base de dados de GIS (Geographic Information System).

Mapa 3 – ver em Outras Palavras

O OpenStreetMap também é uma plataforma, criada para servir às práticas alternativas de geocomunicação. A distinção elementar do OpenStreetMap, lançado em 2004, é que este não tem fins lucrativos, é um projeto colaborativo mantido por doações e realizado por voluntários. Neste modelo de negócio, novas modalidades de economia das redes digitais entram em cena, em conflito com o monopólio das organizações com fins lucrativos, como a Google Inc.

Considera-se que as plataformas de mapas online são ultracolaborativas (pois permitem colaborações em massa e/ou em rede), hipervisuais (pois permitem visualizações por escalas gráficas diversas, do zoom micro ao zoom macro) e multiterritoriais (por permitirem territorializações pelo conhecimento e pelo reconhecimento, do senso de “estar na cidade” e “ser da cidade”). Estas “dicotomias tricotomizadas” (nos termos de Henri Lefebvre) conduzem ao “paradigma das geocomunicações”.

Esse paradigma fundamenta-se no pressuposto de “quem necessita do mapa”. Apesar da globalização dos mapas com a Internet, são os sujeitos habitantes que, por sua vivência e percepções, possuem maiores e melhores condições de comunicabilidade de localizações e trajetos na representação cartográfica de um território. Isto é, de fornecer informações espaciais a um sistema de geocomunicação (uma das plataformas de mapas online), de modo a suprir a demanda de sujeitos estrangeiros, que não partilham com os habitantes os referenciais de pertencimento à paisagem visual e/ou sonora deste território.

O ato de “empoderar” habitantes no processo de colaboração, na produção de mapas de um território, concebe outras representações para além das colaborações de visitantes, conforme o “paradigma das geocomunicações”, para o qual as três dimensões do espaço (vivido, percebido e concebido) “constituem uma unidade dialética contraditória”.

É um(a) habitante, dotado da liberdade de comunicação virtual que deve consentir, entre usar e aprimorar mapas sob a licença do OpenStreetMap ou do Google Maps, ou seja, consentir sobre qual mapeamento melhor representa a realidade do seu espaço vivido: com base na ação cartográfica ou na atividade cartográfica.

Em síntese, afirmamos que ocupar o corpo na ação colaborativa de mapeamento representa um gesto político, se reconhecermos que o direito à cidade é o direito ao mapa: como propõe Boaventura de Souza Santos, os mapas são simbolicamente os “prolegômenos do direito”.

O que visualizamos e porque visibilizamos

Desde o advento das plataformas, como Google Maps e OpenStreetMap, pesquisas estimam que consumimos mais mapas em 24 horas que foram consumidos mapas em 2000 anos desde a criação da Cartografia.

A constatação da aceleração da produção e do consumo dos mapas esconde questões profundas da atualidade em relação às guerras pelo direito ao território. A questão sobre quem faz e quem usa o mapa é preliminar para pensarmos na representação mais justa de um território.

Incorremos na netnografia no ambiente das plataformas de mapas online (ou “geoweb”, abreviatura do termo técnico “geoespacial web 2.0”) para explicarmos porque o Google Maps não reconhece a Palestina na sua base de dados e porque é plenamente possível visualizar via OpenStreetMap a diferença entre os territórios de Israel e Palestina através de fronteiras (na cor laranja).

Mapa 4 – ver em Outras Palavras

Se observarmos o mapa da plataforma livre (figura à esquerda), produzido por voluntários, podemos visualizar as ocupações militares dos territórios do mundo: são zonas em vermelho e tracejado na diagonal dispostas nas fronteiras ao sul de Israel e ao leste da Palestina. A Faixa de Gaza é a maior zona de conflito por que fica desanexada do centro de poder e aproximada de uma zona litorânea com uma zona militar ao sudoeste, na fronteira com o Egito,estado aliado de Israel.

Para a plataforma proprietária de mapas (figura à direita), a “Palestina” é uma área delimitada por um tracejado em relação às fronteiras de Israel; com destaque para a Faixa de Gaza descrita como equivalente à Cisjordânia, o que é geopoliticamente incompatível.

O “tracejado” é considerado tecnicamente como um recurso gráfico também utilizado em outros casos pelo Google Maps, como os estados de Jamu e Caxemira, ao norte do Nepal, em relação aos territórios hegemônicos da China e da Índia.

Na geopolítica, são essas “porosidades simbólicas” das linhas das fronteiras as “brechas materiais” para a forte entrada de tecnologias e de ideologias bélicas neste caso do Oriente Médio. Observar os detalhes dos mapas é necessário para um leitura radicalmente humanitária sobre a verdade e justiça dos discursos que eles circulam mundialmente.

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A casa da extrema-direita mundial começa a cair

Posted: 23 Aug 2020 03:24 AM PDT

#Publicado em português do Brasil

– No Brasil também pode cair! É preciso ampliar as lutas!

Edmilson Costa [*]

A prisão de Steve Bannon deixa claro que a extrema-direita mundial não passa de uma gangue de criminosos, corruptos e mafiosos que se utilizaram de todos os métodos sujos para alcançar o poder em várias partes do mundo, com o apoio entusiasta do grande capital internacional, especialmente da oligarquia financeira, que é a principal beneficiada com essa ordem agressiva neoliberal. Bannon foi preso como um ladrãozinho de segunda linha porque estava fraudando dinheiro de uma campanha de arrecadação de fundos para a construção do muro separando Estados Unidos do México. Parte do dinheiro embolsou para despesas pessoais, utilizando a emissão de notas fiscais fictícias junto com seus comparsas, que também foram presos. Mesmo tendo pago a fiança no valor de US$5 milhões (R$27,7 milhões), a Justiça federal de Nova York determinou que ele terá o passaporte retido e não poderá usar aviões ou barcos privados até a conclusão do processo, que poderá lhe render a condenação de 20 anos de cadeia.

A prisão de Bannon torna também claro que esses líderes da extrema-direita encarnam a degeneração típica desta fase agressiva neoliberal em que as classes dominantes, já não tendo mais nada a oferecer à humanidade, apelam a qualquer figura desclassificada para impor ataques contra trabalhadores e trabalhadoras, a juventude e a população pobre. Bannon ficou conhecido pelo site Breibart News, a partir do qual propagava suas ideias de extrema-direita, misturadas com racismo e supremacia branca. Como se destacou na mídia, foi o principal estrategista da campanha de Trump a presidente e um dos responsáveis pela sua vitória, com a manipulação descarada de informações e uso de falsas notícias pelas redes sociais.

Como um dos principais líderes da extrema-direita e fundador do The Moviment, a articulação da extrema-direita mundial, Bannon se tornou um ícone dos grupos fascistas internacionais. Ele também está envolvido com a Cambridge Analytica [1] , empresa que se tornou conhecida por manipular dados das redes sociais para influenciar eleições em vários países do mundo, a partir da manipulação da base de dados e perfis dos internautas.

Bannon também foi um dos conselheiros da família Bolsonaro nas eleições presidenciais e responsável ideológico pela montagem da rede de fake news e disparos de mensagens falsas em grupos de whatsapp, que teve um papel central na vitória do capitão. O esquema de fake news foi tão bem articulado que, mesmo depois das eleições, continuou sendo realizado pelo chamado gabinete do ódio, dirigido por um dos filhos do presidente.

Como uma espécie de deferência por seu papel nas eleições no Brasil, Bannon foi convidado especial para um jantar com o presidente na embaixada dos Estados Unidos, junto com Olavo de Carvalho, em sua visita ao país. Os laços entre a família Bolsonaro e Bannon também se estreitaram em função da coincidência de ideias extremistas e, por isso, Eduardo Bolsonaro foi nomeado embaixador do movimento extremista para a América do Sul, com o objetivo de combater o chamado marxismo cultural e as ideias socialistas na região. Agora se sabe que, por trás desse movimento, estava uma gangue envolvida até o tutano com a corrupção.

Aprofundar as investigações no Brasil

Da mesma forma como ocorreu nos Estados Unidos, aqui no Brasil as investigações que estão sendo realizadas pelo Congresso, pelo Supremo Tribunal Federal e pela Justiça do Rio de Janeiro devem ser ampliadas e aprofundadas porque, com certeza, o esquema aqui no país deve ser mais escandaloso do que nos Estados Unidos. É necessário que as instituições acelerem as investigações sobre os crimes cometidos pela família Bolsonaro, porque é fundamental tornar público, desmoralizar e punir essa corja que assaltou o Palácio do Planalto com os mesmos métodos e sob a orientação da gangue de Steve Bannon.

O Supremo Tribunal Federal deve intensificar as investigações sobre a rede de fake news montada a partir do gabinete do ódio, dirigido pelo filho do presidente, tornar público e punir os responsáveis pelos crimes de ódio que envenenam a conjuntura e manipulam vários setores da sociedade, com ênfase para setores médios conservadores e vastos setores populares desesperados diante da gravidade da crise brasileira. Importante também investigar quais os setores empresariais que financiaram essa rede criminosa, as carreatas da morte e manifestações de caráter fascistas no País. Também é muito importante que a Câmara dos Deputados acelere as apurações sobre a rede de notícias falsas e apresente para a sociedade os responsáveis, de forma que sejam desmoralizados politicamente e punidos judicialmente.

A Justiça também deve ainda intensificar as investigações sobre a família Bolsonaro, especialmente seu filho senador e suas relações corruptas com as “rachadinhas” [2] , já amplamente evidenciadas, bem como seu enriquecimento às custas da extorsão de seus funcionários. Também é fundamental aprofundar as investigações que envolvem os depósitos na conta da mulher do presidente da República, pois os depósitos podem ser a ponta do iceberg do envolvimento mais amplo de Bolsonaro no mesmo esquema. Além disso, é importante que os órgãos policiais e jurídicos investiguem com mais ênfase as relações entre a família Bolsonaro e as milícias [3] do Rio de Janeiro, a natureza e o significado das várias medalhas que o então deputado Flávio Bolsonaro concedeu a conhecidos integrantes dessas facções criminosas, bem como os empregos que deu a vários familiares desses bandidos em seu gabinete e o assassinato de Marielle Franco.

Não se pode esquecer também que o Brasil se transformou num dos epicentros da extrema-direita internacional, tendo Eduardo Bolsonaro como um dos líderes desses extremistas, cujo dinheiro público financiou suas reuniões internacionais. Vangloriava-se servilmente de ser amigo de Bannon e de sua nomeação para líder da extrema-direita na região, desfilava deslumbrado com o boné de Trump 2020 e agora parece que está na rua da amargura com a prisão de seu guru. Muito ativo nas redes sociais, até agora não escreveu nenhuma linha sobre o episódio, afinal vai ser difícil colocar a culpa na esquerda, como costuma fazer no Brasil.

Aliás, a prisão de Steve Bannon revela de maneira clara como age a gangue internacional da extrema-direita e seus discípulos no Brasil. Portanto, é hora de apertar o cerco e não dar trégua na luta para derrotar o governo Bolsonaro/Mourão, inimigo dos trabalhadores e da juventude e promotor de uma política genocida em meio à pandemia da Covid-19. Tudo indica que Trump perderá a eleição nos Estados Unidos, o que, caso se confirme, deixará o bolsonarismo sem o porto seguro internacional para continuar aplicando a política de terra arrasada comandada por Paulo Guedes, que é uma espécie de fachada técnica dessa gangue internacional. A casa da extrema-direita está caindo e pode cair também no Brasil.

A hora é de intensificar a luta de todas as formas possíveis: nas redes sociais, nas ruas, em grandes mobilizações públicas com a juventude, lutadores e lutadoras sociais, especialmente aqueles e aquelas que estão fora dos grupos de risco, no Parlamento e por meio das greves, cujos últimos movimentos têm demonstrado que o proletariado está acordando do choque que foi a derrota na eleição presidencial. A hora é de luta de todos aqueles que querem as transformações sociais no Brasil, mas sem ilusões de que a direita possa contribuir de alguma forma para qualquer processo de mudança profunda que tenha como norte os interesses populares.

Ousar lutar, ousar vencer!
Pelo Poder Popular, rumo ao Socialismo!

21/Agosto/2020

NR
[1] Cambridge Analytica: Ver O modelo “Ocean” e o fascismo e também O Facebook não protegeu 30 milhões de usuários de terem dados acessados por uma das empresas da campanha de Trump
[2] “Rachadinhas”: Partilha de salários de assessores de senadores, deputados e vereadores com aquele que os nomeou para o cargo.
[3] Milícias: Organizações mafiosas constituídas por polícias e ex-polícias que se dedicam à extorsão de traficantes de droga e da população em geral, assim como a execuções pagas. As milícias têm também redes de negócios (comércio, construção civil, etc) para a lavagem do dinheiro.

[*] Secretário Geral do Partido Comunista Brasileiro.

O original encontra-se em pcb.org.br/portal2/26025/a-casa-da-extrema-direita-mundial-comeca-a-cair/

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/

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caravana, uma história de fuga de Angola

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EMOCIONANTE.
Uma crônica maravilhosa para todos os amigos de Angola, especialmente para os que fizeram a CARAVANA de fuga pelo deserto até à África do Sul
Vou notificar alguns amigos que sei que lá estiveram nas caravanas e seguiram na travessia do deserto.
…..
……
…….
Autor: SONIA ZAGHETTO
“Já sentiu saudade de sua terra, senhor? É uma coisa que brota na fundura do peito, percorre bem devagar a pele, arrepia os pelos dos braços, bambeia as pernas. Garra de unhas pontudas, pega o coração da gente e espreme lentamente. Pingam gotas vermelhas que abrem uns ocos na alma dos homens. Houve um tempo em que eu não sabia o que era saudade de casa.
Nasci numa cidade do sul de Angola, Nova Lisboa. Hoje ela se chama Huambo. Era o dia 2 de abril de 1958 e minha mãe tinha 16 anos. Solteira. Meu avô não queria que eu nascesse, não. Minha mãe bateu o pé e foi enfiada num convento para que eu nascesse lá. Depois eu seria dada para adoção. Minha mãe bateu o pé de novo: agarrou-se a mim – sua carne, seu sangue. Fiquei. Até completar um ano, vivi entre os hábitos das freiras, ninada pelo som das orações, dos cânticos, dos sinos, filha das Ave-Marias, das Salve-Rainhas, dos Pai-Nossos sentidos.
Talvez minha mãe tenha rezado muito, não sei. Talvez os santinhos que me viram chegar ao mundo tenham adoçado o coração de meu avô. O certo é que de repente ele se viu apaixonado por mim. Veio nos buscar. O que sei sobre essa época é o que minha mãe contou. Eu mesma de nada lembro. O que ela conta é que eu e meu avô não nos separávamos. Alto, de cabelos grisalhos e sorriso largo, ele me carregava nos ombros pra todo lugar e me mimava, me ensinava a ser respondona, não permitia que a mãe me castigasse. Só ficamos na casa dele até eu completar três anos. Mamãe não tolerava a “madrinha”. A bem da verdade, não era madrinha – era madrasta.
Minha avó morreu quatro anos antes do meu nascimento. Assassinada. Estava na cozinha e um homem chegou. Disse estar com fome, pedia comida. Minha avó se compadeceu: sabia dos sofrimentos dos homens negros em Angola. Mandou-o entrar e sentar-se à mesa. Enquanto servia o prato, o homem se levantou. Como uma pantera, veio por trás e a estrangulou. Minha mãe e meus tios menores estavam no quintal, brincando. Nada viram. Ficou a lição de que algumas criaturas – não importa a cor da pele – são diabos. Ah, se são.
A casa do avô, em Nova Lisboa, tornou-se lugar das férias até os meus 10 anos. O avô trabalhava de sol a sol na chitaka. Levantava às 5 da matina e ia pros campos de sisal, abacaxi, laranja, goiaba, tangerina, caju. Às 9 horas, eu e os primos levávamos o mata-bicho pra ele e pros trabalhadores. Era bom aquele tempo de brincar, nadar no lago, subir nas árvores, cravando os dentes nas frutas colhidas no pé, correr atrás de patos e galinhas e dar cigarro aos camaleões só para vê-los mudar de cor e despencar do galho completamente chapados.
Até hoje, senhor, não encontrei comida melhor que a da senzala. Todos juntos, brancos e negros, comendo pirão ao molho de dendê e peixe seco. Que saudade agora me dá de pegar o pirão com a mão, molhar no dendê e depois lamber os dedos besuntados. Não tem nada melhor viu?
Quando eu e minha mãe saímos de Nova Lisboa, fomos pra Luanda. Ela trabalhava como costureira. Foi assim que me criou, sentada na máquina de costura. Cresci entre tesouras, linhas e tecidos, rendas e fitilhos. Grandes espelhos refletiam as senhoras elegantes que chegavam a toda a hora. Minha mãe era a melhor: só trabalhava pro high society de Luanda. Noivas? Eu juro, senhor, que perdemos a conta de quantas ela vestiu – uma mais bela que a outra.
Adolescente, estudei num colégio de freiras, o melhor de Luanda, o mais caro. Era bolsista e tinha a obrigação de ter notas altas. Entrei no colégio por recomendação do presidente da Câmara de Luanda, cuja esposa era cliente da minha mãe. Gosto de lembrar desse colégio. Ali fiz grandes amizades, algumas duram até hoje, embora separadas por oceanos. Foi lá, também, que aprendi a me defender. Filha de mulher solteira, quantas vezes me chamaram de bastarda? Nem lembro. Eu reagia. Não nasci para baixar a cabeça, não senhor.
Morávamos num apartamentozinho pequeno. Quarto e sala, cozinha, banheiro e uma sacada minúscula, de frente para o mercado municipal, que a gente chamava de Kinaxixe ou Mercado da Maria da Fonte. Na época de provas eu acordava às 3 da madrugada. Quando os feirantes começavam a arrumar as bancas, eu aparecia na sacada e berrava para que parassem de fazer barulho, que eu precisava estudar. Eles riam e moderavam a barulheira. Depois de um tempo, eles se acostumaram a conferir: se a luz do quarto estava acesa, já gritavam “Hoje vamos ficar quietos. Vai estudar, miúda!”.
Meu pai só vi duas vezes. Na primeira eu tinha seis anos e ele me levou pra passar o dia na casa dele e conhecer sua esposa e filhos. A segunda vez foi aos 16 anos. Ele me encontrou na rua, na garupa da moto de um amigo e repentinamente se lembrou que era pai. Mandou eu descer e ir pra casa, que filha dele não andava de moto. Ah, meu Senhor, filho mal havido nem sempre engole sapo – anote aí. Disse-lhe que não era meu pai, que não passava de um reprodutor. Depois disso nunca mais o vi. Tudo o que sei dele é que vive em Portugal.
A vida em Angola enchia de festa meu coração adolescente. Com os Escoteiros Marítimos da Praia do Bispo acampei em ilhas e praias distantes, participei de paradas militares, visitei hospitais e presídios. Com grupo de dança folclórica Rancho da Casa do Minho dancei em campeonatos e apresentações. Vi o nascer do sol na praia da Ponta da Ilha, andei de moto nas dunas da praia do Sol e acampei na paradisíaca ilha do Mussulo. No Baleizão comi prego no pão com Coca Cola. Nos bares à beira da praia comi santola, camarão, peixe no molho de dendê, muambá com pirão de milho. Eu nem sabia, senhor, que fabricava as lembranças mais caras. Um dia elas seriam os retalhos coloridos da minha colcha de saudades.
Tudo mudou em abril de 1974. Angola ansiava pela justa independência. Estávamos numa entressafra de tranquilidade. O terrorismo de 1960 quase não existia mais. Os guerrilheiros tinham sido rechaçados pelas tropas portuguesas. Porém, com as mudanças na política de Portugal, tudo mudou nas colônias lusitanas na África. Grândola Vila Morena deu a senha para os cravos florescerem nas armas. Marcelo Caetano caiu. O socialismo venceu em Portugal: Álvaro Cunhal, Mário Soares e seus camaradas, agora no poder, apoiaram a independência e o Movimento Pela Libertação de Angola, liderado por Agostinho Neto e patrocinado pela ex-URSS, Cuba e Alemanha Oriental. Mas no país existiam também a Frente Nacional de Libertação de Angola, de Holden Roberto, apoiada pela França e pela Bélgica; e a União Nacional pela Independência Total de Angola, de Jonas Savimbi, apoiada pelos Estados Unidos. Os dois grupos não aceitaram os favores de Portugal ao MPLA.
Iniciou ali, senhor, a grande guerra civil que devorou o meu país por três décadas.A violência aumentava a cada dia. Balas perdidas, rajadas de metralhadora, morteiros de bazuca e granada passaram a ser rotina. Quantas vezes tínhamos que nos jogar no chão, dentro da sala de aula ou de cinema? Lembro de um dia em que Jesus Christ Superstar estava na tela enquanto eu, deitada no chão no cine Tivoli, ouvia as balas assoviarem sobre a cabeça.
Era difícil para todos, mas quem tinha pele branca, como eu, caiu em um limbo. Eu não era colonizadora, nem exploradora. Era uma adolescente angolana, pobre e agora considerada inimiga. Em meados de março de 1975, começamos a cumprir o toque de recolher. A partir das 16h, brancos não podiam andar nas ruas sob pena de serem presos ou mortos por grupos guerrilheiros. Estes não eram mais chamados terroristas e sim aclamados como heróis da libertação. Havia assassinatos de homens brancos todo santo dia. As mulheres sofriam mais: eram seviciadas antes de morrer. Minha mãe rendeu-se ao medo: em junho daquele ano me mandou para Nova Lisboa, onde tínhamos familiares e as coisas estavam mais tranquilas.
Muitas familias estavam fugindo do norte do país e indo pra a nossa região, onde recebiam apoio da Cruz Vermelha Internacional para deixarem o País com destino a Portugal ou à África do Sul. Comecei a trabalhar como voluntária num dos postos da Cruz Vermelha. As caravanas do norte se multiplicavam. Eram tantas que houve dias em que não dormíamos. Engolíamos pedaços de pão enquanto limpávamos ferimentos, distribuíamos comida e dávamos informações. Quando conseguíamos parar por alguns minutos, encostávamos o corpo nas caixas de alimentos e dormíamos em pé mesmo.
A multidão rugia em desespero. Gente à procura da família, gente abatida e sem rumo. Derramavam grossas lágrimas, lamentavam-se em alta voz pelos parentes mortos, pelos bens perdidos, pelas emboscadas às caravanas. O bicho homem é bruto, meu senhor.
Lembro muito bem, ainda hoje, de uma caravana. De um dos carros desceu uma familia atacada na estrada. A mãe tinha uns olhos perdidos e carregava o filhinho no colo. Seu choro era um chicote que arrancava lascas da gente e tingia de cinza o vasto mundo. Implorava que lhe salvássemos o menino, mas ele, senhor, já estava morto. Nesse dia, lembro-me bem, rompi com Deus. Reneguei-o. Era bem certo que nenhum ser supremo e bom poderia criado tal humanidade perversa e tanta dor a fustigar as costas dos inocentes.
Aprendi, nessa época, que tudo o que está ruim pode piorar. Minha familia deixou Nova Lisboa, assim como meu namorado e a mãe dele. Eu fiquei. Aguardava minha mãe, que tentava sair de Luanda. De repente me vi sozinha, aos 16 anos, num país que se esfacelava e numa cidade em que os grupos guerrilheiros se enfrentavam para dominar o território. Agora havia tiroteios em toda parte. Passei a morar na sede da Cruz Vermelha. Finalmente minha mãe chegou e conseguimos uma carona para Sá da Bandeira, mais ao sul. Fomos de camião, minha mãe na boleia com o motorista e a esposa dele; eu e os filhos dele no meio da carga de batata. Até hoje, meu senhor, o cheiro de batata me agonia. É cheiro de fuga, de desesperança e perda.
Em Sá da Bandeira reencontramos meu namorado e a familia dele, com quem tinhamos combinado sair de Angola. A confusão era enorme. Gente andando de um lado pro outro, tentando encontrar familiares ou arrumar um jeito de sair dali, gente sem um centavo até para comprar água. Faltava comida, além de esperança.
Não lembro exatamente da data em que finalmente saímos em caravana (onze carros e um camião) à noite pelo meio da mata, com destino à fronteira com a África do Sul. Sei que era início de agosto. Durante a viagem encontramos duas patrulhas de guerrilheiros. A primeira foi mais tranquila, aceitaram o suborno de cigarros. Já a segunda foi apavorante: queriam nos prender de qualquer jeito. Segundo eles, éramos ladrões das riquezas de Angola. Todo aquele zelo patriótico não resistiu à propina. Além de cigarros e bebida alcoólica, demos dinheiro para que nos deixassem seguir. O sol começava a nascer quando encontramos uma coluna do exército da África do Sul. Ainda estávamos em território angolano, a cerca de 10 quilômetros da fronteira, mas eles nos escoltaram até um campo de refugiados já em território sul-africano. Foi o primeiro campo em que ficamos.
Eu sentia raiva, meu senhor. Muita raiva! Uma revolta surda contra os brancos portugueses, que nos exploraram durante séculos e agora nos viravam as costas dizendo que éramos brancos de segunda classe. Revolta contra os negros, por acharem que a diferença na cor das nossas peles fazia que fôssemos diferentes deles. Éramos todos angolanos, mas apenas nós estávamos sendo expulsos de nossa terra e não tínhamos para onde ir.
O acampamento era feito de barracas de campanha. Sabes como é, senhor, aquelas barracas verdes do exército? Na nossa barraca dormiam seis adultos e duas crianças. Cada um recebia um um cobertor e três refeições por dia. Comida pouca, ninguém ficava saciado, mas matava a fome. Estávamos agradecidos, pois os sul-africanos faziam mais por nós do que o governo de Portugal. Esse acampamento – destinado a angolanos e moçambicanos – era um local de filtragem. A alguns era vedada a possibilidade de ficar no país. Esses eram logo encaminhados ao grupo consular português e enviados ao aeroporto, onde aviões da África do Sul os levavam para Portugal. Outros eram mandados a outros campos de refugiados.
Nós, graças a meu futuro cunhado, que era engenheiro agrícola e já tinha uma promessa de emprego, fomos para outro campo. Escoltados por uma coluna do exército, seguimos para Tsumeb. Na estrada para Winduck, havia uma cidadezinha. Avistamos gente nos esperando. Abordaram o oficial do exército que nos conduzia e pediram para nos dar abrigo naquela noite. Desconhecidos encharcados de solidariedade, que queriam nos oferecer o alimento mais precioso, esperança.
Eu e minha mãe fomos para casa de um casal idoso que nos acolheu com uma refeição quente, um banho e uma cama quentinhos. Estava tanto frio. Pela manhã, logo depois do café, nos levaram à loja da filha deles, onde já estavam a minha futura cunhada e sogra. Disseram para escolhermos as roupas que quiséssemos. Nesse dia fiz as pazes com Deus. Aquelas pessoas me apresentaram o outro lado da humanidade, feita de bondade com quem está refém da tragédia. Só podiam ser emissários do Divino, anjos perdidos no interior da África.
Em Tsumeb, um novo acampamento, as mesmas barracas de campanha. Mas a comida era melhor, assim como o tratamento que recebíamos. Ficamos pouco tempo. Conseguimos ser aprovados na seleção, graças a meu futuro cunhado e por eu ter começado a servir como intérprete. Benditas aulas de inglês.
Mudamos de campo outra vez. Fomos para Grootfontein, mais próximo a Pretória. O campo era um presidio que estava sendo desativado. Restavam lá uns 3 ou 4 presos, todos idosos. O presidio era formado por várias casernas e eles nos separaram. Tinhamos refeitório com mesa e bancos, e a comida era surpreendente. Imagine, senhor, que comemos até sobremesa de maçã caramelada no forno. É que os presos eram os cozinheiros. Fiz amizade com um deles. Tinha 65 anos e estava preso há 30 pelo assassinato da esposa num acesso de ciúme. A filha não o visitava. Depois que saí do campo e ele da prisão, fui à casa dele. Era um homem gentil – como pudera fazer aquilo? Mistérios do coração humano que jamais saberei.
Continuei sendo intérprete junto à assistente social e ao diretor do campo. Meu futuro cunhado arrumou emprego numa fazenda. Meu namorado logo sairia, mas eu era menor de idade e não poderia deixar o campo. Estava dificil para minha mãe. Ir para Portugal estava fora de questão, dado o desprezo com que nos tratavam. Eu e Zé decidimos casar. Minha mãe passou a ser minha responsabilidade (acredita que até hoje ela fica muito zangada quando lembra disso?). E assim, no dia 6 de novembro de 1975, casei dentro de um presidio que funcionava como campo de refugiados. O diretor e a assistente social foram nossos padrinhos.
Os soldados que tomavam conta do campo fizeram uma cotinha e pagaram a nossa festa e a lua de mel num hotel na cidade. O casório teve bolo, vestido de noiva e tudo, viu? O Jeep do exército nos levou ao hotel. Os soldados ficaram dentro do Jeep vigiando para que não fugíssemos. De madrugada, acordei com dor de ouvido. Na recepção não havia remédios, as farmácias só vendiam medicação com receita. Os soldados me levaram para o hospital, onde fui atendida. Ao voltarmos para o campo, os soldados contaram para todo mundo a aventura. Não escapamos à gozação geral: “Nem os ouvidos poupaste à miúda, Zé?”
Casada pelas leis sul africanas, no dia 11 de novembro casei na Igreja e duas semanas depois casei novamente no consulado português. Em menos de um mês casei três vezes. Felizmente, com o mesmo homem.
E assim deixei minha terra. Um ano na África do Sul foi suficiente para sabermos que lá não era o nosso lugar. Além da cultura muito diferente, começavam a ocorrer ali os mesmos episódios violentos que havíamos testemunhado em Angola. Decidimos mudar. Escolhemos o Brasil, país que desde minha pré-adolescência eu sonhava conhecer.
Partimos para Portugal a fim de cuidar da burocracia. No dia 7 de fevereiro de 1977 zarpamos num navio italiano rumo a Santos, onde desembarcamos dez dias depois. Eu estava com seis meses de gravidez.
A imensa maioria dos brasileiros nos recebeu de braços abertos, principalmente as pessoas mais humildes. Alguns, mais abastados, nos tratavam friamente, mas nunca fomos hostilizados. Aos poucos aprendi a amar a terra nova, a querê-la a ponto de ficar amuada quando falam mal dela. Percorri este Brasil quase todo, conheci cada lugar que nem tens idéia, senhor. Andei por picadas, atravessei pontes que eram apenas duas tábuas paralelas, morrendo de medo que elas quebrassem e o carro despencasse. Comi queijo de coalho em casebres de gente mui simples e coração enorme. Ah, senhor, que país maravilhoso é esse teu Brasil!
Descasei, casei de novo.
Quando a saudade dava botes sobre a gente, o Walter fazia a muambá. Comprava cachos de dendê e tirava o óleo em casa mesmo. Era o único jeito de ficar igualzinho ao de Angola. Aqui as frutas são praticamente as mesmas que tínhamos, a temperatura e as praias também, mas não é a minha casa, entendes senhor? Aqui eu me sinto bem, mas falta o cheiro da minha terra, falta o cacimbo e a silhueta única do imbondeiro em meio à névoa. Há uma ausência que não consigo definir. Tudo tão igual, mas ao mesmo tempo diferente. Talvez a gente seja mesmo filho de nosso chão, não sei. Parece que nesta paisagem familiar falta a alma da minha terra, a casa que posso realmente chamar de minha.
Eis-me aqui, senhor, aos 60 anos, com três filhos e dois netos brasileiros. Sou feliz, bem sabes, mas a saudade é bicho traiçoeiro: quando a gente menos espera, ela surge, arrepiando a pele, cravando as unhas na carne, abrindo ocos no peito. Recolho então minhas lembranças, as músicas e fotos de minha terra, e choro. Mansamente.
Angola ainda vive em mim. Como tatuagem de alma.”
(SONIA ZAGHETTO)
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Glossário:
Chitaka – Pequena fazenda
Mata-bicho – Lanche reforçado
Prego no pão – Pão quentinho com bife bem temperado
Santola – Caranguejo gigante
Muambá – Comida tipicamente angolana. Consiste de galinha cortada em pedaços e refogada no molho de dendê, com abobrinha, quiabo, cebola, alho e tomate.
Cacimbo ou Kacimbo– É o nome dado no nordeste de Angola à estação que ocorre entre maio e agosto e que se caracteriza por uma névoa intensa.
Imbondeiro – Baobá.
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