MACAU A HISTÓRIA DA ÚLTIMA FÁBRICA DE VINHO

A Fábrica de Vinho Chinês Tai Cheong. 🇲🇴
Quando em 2010 pretendemos escrever sobre a loja de vinho chinês Tai Cheong, situada ao fundo da Estrada do Repouso, pouca informação obtivemos do funcionário que aí trabalhava e apesar de por três vezes a visitarmos, nem o nome lhe conseguimos saber e tão pouco quem era o patrão.
Ao centro do acanhado compartimento da loja encontrávamos sempre uma mesa com pessoas idosas a jogar majong e na parede do fundo, um conjunto de antiguidades colocadas entre o altar a Kuan Tai e por cima, a tabuleta com o nome do estabelecimento.
Já numa das laterais paredes, prateleiras cheias de garrafas, entre elas de cerveja Tsingtao cujo rótulo referia ser vinho de arroz glutinoso de original fermentação, tendo os caracteres em baixo a dizer “Tai Cheong antiga fábrica de vinho”.
A última prateleira fazia de balcão e escondia enormes potes antigos gravados com dragões a armazenar o vinho, acessíveis por buracos no tampo de madeira fechados por rolhas.
Aberta ao passeio, daí fomos assistindo em silêncio ao ritual da venda quando os clientes entravam na loja para comprar vinho e o funcionário abria a caixa de metal que guardava as várias medidas e só depois o vendia já engarrafado ou, mediante o pedido, escolhia uma das quatro conchas de alumínio nela existente com diferentes capacidades e mergulhando-a num dos potes, vertia o líquido com a ajuda de um funil para o vasilhame trazido pelo cliente.
Finda a transacção, voltava a fechar a tampa da caixa e recebia o dinheiro.
Duzentas patacas era o imposto que a loja pagava por ano para vender vinho, como aparecia num papel exposto na parede.
Para facilitar um início de conversa compramos uma garrafa, perguntando se o vinho era feito em Macau e a resposta foi ser produzido em Panyu, província de Guangdong.
Aproveitando então o degelo na comunicação, questionamos sobre a pequena fotografia exposta na parede a mostrar um jovem a andar de bicicleta, referindo o funcionário com um ligeiro orgulho ser ele o protagonista, já lá iam mais de 50 anos.
Em superficiais pesquisas, percebemos ser esta a última das lojas de vinho de arroz que em Macau permanecia aberta, após o encerramento em 2010 da Cheóng Ón na Rua de S. Paulo.
Em 1950, Macau só em lojas de venda a retalho de vinho de arroz tinha 118 e fábricas havia 44. Com a lista de 1981, que registava 27 fábricas, deambulamos pela cidade na esperança de ainda existir alguma.
Sem nada encontrar, voltamos à loja Tai Cheong para tentar conseguir mais informações.
Em 2021 regressamos à loja, mas fechara em 2019, sendo-nos revelado ter sido esta fábrica de vinho chinês uma das mais importantes de Macau.
Com vontade de conhecer a sua História soubemos poder encontrar na cidade um dos filhos do fundador, dono da loja de chá Va Lun, na Rua 5 de Outubro.
Assim, durante uma manhã aí escutamos do Sr. Chang Chi Fai, amável e interessante personagem, as informações que até então nos falhavam sobre a fábrica Tai Cheong.
História da fábrica
O seu pai, Chang Hin Meng era natural de Jiujiang, Nanhai província de Guangdong, e quando em 1939 esta província foi invadida pelos japoneses fugiu com a família para Hong Kong.
Enquanto aí vivia, abriu em Macau uma fábrica de palitos, Dai Wa e outra de châu peng (fermento para fazer vinho de arroz), criando assim empregos aos seus conterrâneos.
Em 1941 veio para Macau e nessa década de 40 fundou a Fábrica de Vinho de Arroz “Tai Cheong”, na Estrada do Repouso n.º 129, onde se situava a loja e atrás desta encontrava-se a fábrica a ocupar a área traseira de sete espaços comerciais, tendo no outro lado da rua mais três lojas para armazenar o arroz.
A tomar conta da fábrica ficou o irmão Chang Chan Wa, que era o segundo filho.
O vinho na altura era produzido num recipiente de estanho com capacidade de 15 kg onde o arroz cozia durante uma hora, sendo depois submetido à fermentação.
Na primeira cozedura a vapor fazia-se o vinho para cozinhar de pouco teor alcoólico e só após uma segunda cozedura este atingia os 31,5º.
Com essa dupla destilação (seóng chêng) o vinho transparente era colocado em garrafas de meio litro pois os habitantes de Guangdong gostavam de o beber a acompanhar as refeições.
No entanto, o estanho dos recipientes deixava resíduos de chumbo levando o governo de Singapura a proibir a importação do vinho de arroz de Macau.
Em 1954, Chang Chi Fai após complementar o curso secundário com 18 anos foi trabalhar para a fábrica.
Como a produção continuava a usar o antigo método decidiu desenhar e fazer de aço inoxidável a panela alambique para substituir a de estanho, aumentando-lhe a capacidade a fim de poder cozer 45 kg de arroz.
Sendo preciso grande quantidade de água abriu-se um poço e para a conseguir fria foi-se buscar mais fundo pois necessária para cortar rapidamente o levedar com o novo bolo de vinho, que desenvolveu através do arroz glutinoso importado da Tailândia.
Este era triturado até ficar em pó, depois colocado em água e após seco dividido em bolinhas.
Tai Cheong era a única fábrica a produzir desta maneira o vinho e em 1957 começou a vender esse châu pêng às outras de Macau.
A juntar aos já bons resultados, inovou com a técnica de esterilização durante a fermentação usando luz ultravioleta para eliminar possíveis contaminações bacterianas e para purificar o vinho mandou vir de UK um filtro especial.
Se até então, com meio quilo de arroz se produzia quatro leong (1kg = 32 leong) de vinho, agora com a mesma quantidade de arroz conseguia-se 24 leong (¾ kg = 750ml de vinho).
A qualidade também aumentou pois a fermentação era completa e assim conseguiu baixar o preço da produção.
Na década de 60 a fábrica precisava por dia entre uma a duas toneladas de arroz e por isso começou a importá-lo directamente da China, tornando-se o maior agente em Macau de todos os produtos necessários para a feitura do vinho de arroz.
Tinha mais de 300 enormes potes, armazenando cada um 400 litros, havendo ainda um recipiente feito de aço inoxidável com a capacidade de 1750 litros.
Assim em três anos a fábrica de média tamanho tornou-se a maior e a número um de Macau.
Em 1965 Chang Chi Fai deixou a fábrica e virou-se para o negócio do chá.
O vinho produzido em Hong Kong pagava 0,9 HK$ por cada meio litro, enquanto o importado tinha uma taxa de 1,1 HK$, mas mesmo assim o preço do vinho de Macau continuava aí a ser mais barato.
Nessa altura, Macau exportava 80% do seu vinho de arroz cozido duas vezes para o Sudeste Asiático, Canadá e USA.
Na década de 80, alguns negociantes de HK usando álcool industrial e tornando-o transparente venderam-no como vinho de arroz, provocando a cegueira e morte a quem o consumiu.
Tal levou à queda da confiança dos consumidores, que optaram por cerveja e uísque, dando-se assim o declínio do vinho de arroz.
Com a enorme diminuição de consumo, a fábrica fechou por volta do ano de 1987 e o último patrão, Chang Chan Wa, antes de deixar Macau vendeu a loja ao antigo empregado Tang Gan, o nosso primeiro co-locutor.
José Simões Morais.
Jornal Hoje Macau, 25 de Outubro de 2021.
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  • Helder Fernando

    Ainda há dois dias dei um salto ao Martin Moniz para renovar o stock de vinho chinês para cozinha.
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uma beldade de Macau

“Tenho vergonha de dizer que nunca estive em Portugal”.
Nunca esteve em Portugal, mas é algo que pretende fazer assim que a pandemia de Covid-19 o permitir.
Vencedora do concurso de Miss Hong Kong deste ano, Sabrina Mendes acedeu a conversar um pouco com o PONTO FINAL, dentro daquilo que é, neste momento, a sua agenda sobrecarregada.
Foi a segunda macaense a arrecadar o ceptro, depois de Michelle Reis, por quem nutre admiração.
Actualmente a viver sozinha em Hong Kong, a modelo confessa que a sua vida “ficou de cabeça para baixo” com a vitória e, neste momento, tem “todas as portas abertas para as oportunidades” que surjam.
Sabrina Mendes venceu o concurso de Miss Hong Kong no início do mês de Setembro.
Desde então, a sua vida tem sido uma lufa-lufa, ao ponto de que a sua agenda tem estado completamente esgotada desde então.
Aos 22 anos, a “miúda comum” de Macau quer continuar a estudar, apesar de assumir que esta vitória lhe veio abrir portas para um mundo que também gosta muito: a moda e o entretenimento.
“Prometo dar o meu melhor em tudo”, disse ao PONTO FINAL.
De ascendência chinesa e portuguesa, nasceu em Macau e começou a aprender dança aos seis anos.
Tem experiência em ballet, dança chinesa, jazz, hip-hop e dança latina, entre outros.
Formou-se em Bioquímica e Biologia Humana pela Universidade de Toronto, no Canadá, e espera seguir a carreira de médica.
– Nasceu em Macau há 22 anos. Como era Macau durante a sua infância? O que recorda?
Considero Macau um local muito pequeno, mas, apesar de ser mais pequeno do que Hong Kong, Macau tem uma densidade populacional muito superior.
E devido ao seu pequeno tamanho, viajar de um lugar para outro não leva tempo.
É um território também cheio de muito amor e boa comida [risos].
A herança portuguesa de Macau também pode ser vista em todo o lado, em edifícios e nas ruas.
A minha família inteira mora em Macau, então actualmente estou a morar sozinha em Hong Kong.
– Já esteve em Portugal?
Tendo um quarto de mistura portuguesa, tenho vergonha de dizer que nunca estive em Portugal.
Espero poder visitar o país porque, na verdade, inspiro-me muito na arquitectura portuguesa, nos famosos azulejos portugueses e, claro, na comida.
Talvez vá um dia, quando a pandemia acabar.
Apesar de a minha família estar em Macau, é possível que ainda tenha um ou dois familiares a residir em Portugal.
– Pode falar um pouco mais sobre as suas raízes?
A minha mãe nasceu e foi criada em Hong Kong até aos 8 anos.
Depois, mudou-se para Macau com a sua família.
O meu pai é de origem portuguesa, mas nasceu e foi criado em Macau.
– Sente que é uma honra para ganhar um concurso de Hong Kong sendo uma mulher macaense?
É definitivamente uma honra vencer o concurso de Miss Hong Kong, porque é algo que eu queria fazer desde que era criança.
Não fui a primeira mulher macaense a vencer esse concurso, lembro-me de que a senhora Michele Reis [actualmente com 51 anos] venceu no ano de 1988, e ela sempre foi alguém que admiro muito.
– O que realmente sente com esta vitória?
Estou muito surpresa e honrada por poder me intitular Miss Hong Kong.
Isto tem sido um sonho e nunca pensei que pudesse tornar-se realidade.
Também me dá a oportunidade de encorajar as jovens que desejam juntar-se ao concurso de Miss Hong Kong ou a qualquer outro concurso de beleza, continuando a perseguir os seus sonhos e nunca desistir, porque algum dia, tenho certeza que isso tornar-se-á realidade.
– Como disse acima, é a segunda macaense a vencer o concurso depois da Michelle Reis em 1988, que tem feito carreira de modelo e de actriz na região vizinha. Já falou com ela sobre isso?
Na verdade, não conheço Michele pessoalmente, mas admiro-a e ela tem sido minha ídolo desde que ganhou.
Ela é mãe agora, mas ainda é tão bonita, parecendo ter 18 anos.
– Depois de ganhar o concurso de Miss Hong Kong, a sua vida tornou-se uma loucura.
Sim!
A minha vida virou de cabeça para baixo.
Eu sou apenas uma miúda comum a formar-se com um diploma de licenciatura em Bioquímica e pretendo continuar os meus estudos, agora, na faculdade de Medicina.
Mas, desde que ganhei, todos os planos mudaram.
No entanto, tenho gostado do que estou a fazer agora e sou muito grata por ter a oportunidade de experimentar coisas diferentes.
– Quais são seus planos para o futuro?
Os meus planos agora são ver se a indústria do entretenimento é, de facto, algo para mim.
Estou a deixar portas abertas para diferentes oportunidades que estão a aparecer e poderão vir no futuro.
Quanto aos meus estudos, voltarei a ir atrás do meu diploma de médica algum dia, isso é certo.
E porque o conhecimento não conhece limites, nunca é tarde para voltar à escola.
– O que é para si ser macaense?
Para mim, um macaense é alguém de ascendência mista chinesa e portuguesa.
Os macaenses são, de facto, fortemente influenciados pela cultura chinesa e portuguesa.
Por exemplo, na minha família, nós celebramos o Ano Novo Chinês e distribuímos ‘lai sis’, mas também saudamos cada membro da família com um beijo sempre que nos vemos.
– Que mensagem gostaria de deixar para os seus fãs?
Quero aproveitar esta oportunidade para agradecer a todos os meus fãs macaenses e portugueses que me têm apoiado desde o primeiro dia.
Recebi muitas mensagens e estou muito honrada em deixar todos orgulhosos.
Prometo dar o meu melhor em tudo e continuar a espalhar amor, esperança e bondade.
Amo-vos!
Gonçalo Lobo Pinheiro.
Jornal Ponto Final, 26 de Outubro de 2021.
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Maria Ondina Braga. Natal Chinês.

Maria Ondina Braga.
Natal Chinês.
A senhora Tung chegava dois dias antes da consoada.
Costumava vê-la logo de manhã, com a irmã jardineira, no pátio maior, a admirar as laranjeiras anãs nos vasos de loiça.
Via-a casualmente a contemplar, embevecida, o presépio do convento.
Encontrava-a por fim à mesa.
A senhora Tung viajava todos os anos da Formosa para Macau, na época do Natal, a fim de festejar o nascimento de Cristo na companhia da sua primogénita, a irmã Chen-Mou.
Nesses dias, com as meninas em férias, o refeitório do colégio parecia maior e mais desconfortável: só eu e Miss Lu nos sentávamos à mesa comprida das professoras.
Daí a presença da senhora Tung, que noutra ocasião passaria talvez despercebida (estirada a sala entre pátios de cimento e plantas verdes), se tornar nessa altura notável.
Baixa, seca de carnes, de olhos atenciosos, pensativos, a senhora Tung sorria constantemente, falava inglês, gostava de comer, de fumar, de jogar ma-jong.
As criadas cortejavam-na nos corredores, preparavam-lhe pratos especiais, levavam-lhe chá ao quarto.
Além de ser mãe da subdirectora, tinha fama de rica e distribuía moedas de prata a todo o pessoal na noite de festa.
Nessa noite assistiam três freiras ao nosso jantar (a regra não lhes permitia comer connosco): a directora, a subdirectora e a mestra dos estudos.
E muito empertigada, segurando com ambas as mãos um tabuleiro de laca coberto com um pano de seda, a senhora Tung recebia-as à porta do refeitório, entregando cerimoniosamente o presente à filha, que por sua vez o oferecia à directora.
Eram bolos de farinha fina de arroz amassada com óleo de sésamo.
Toda de vermelho, de sapatos bordados e ganchos de jade no cabelo, a senhora Tung, quando a superiora colocava o tabuleiro dos bolos na mesa, dobrava-se quase até ao chão.
Rezava-se, depois.
Para lá dos pátios, à porta da cozinha, as criadas espreitavam, curiosas.
Nem no primeiro, nem no segundo, nem no terceiro Natal que passei em Macau, a senhora Tung era cristã, mas todos os anos se nomeava catecúmena.
A seguir ao jantar falava-se nisso.
A directora, uma francesa de mãos engelhadas que noutros tempos frequentara a Universidade de Pequim, perguntava em chinês formal quando era o baptizado.
Inclinando a cabeça para o peito, a senhora Tung balbuciava, indicando a irmã Chen-Mou.
A filha… a filha sabia.
Talvez se pudesse chamar cristã pelo espírito, mas o coração atraiçoava-a.
O coração continuava apegado a antigas devoções…
Todavia, vestira-se de gala para a festividade da meia-noite, tinha no quarto o Menino Jesus cercado de flores, e a alma transbordava-lhe de alegria como se cristã verdadeiramente fosse.
Com um sorriso meio complacente meio contrariado, a irmã Chen-Mou desconversava, passando a bandeja dos bolos à superiora, que separava uns tantos para o convento.
Os restantes comê-los-iamos nós, ao fim da Missa do Galo, com chocolate quente.
O chocolate era a esperada surpresa da directora.
A senhora Tung chamava-lhe, em ar de gracejo, «chá de Paris».
No fim das três missas vinham outra vez as três freiras ao refeitório do colégio para trocarem connosco o beijo da paz e nos oferecerem a tigela fumegante do chocolate.
Vinham e partiam logo (tarde de mais para se demorarem), e Miss Lu, fanática terceira-franciscana, sempre atenta aos passos das monjas, sorvia à pressa o líquido escaldante, como quem cumprisse um dever, e saía atrás delas.
Ficávamos, assim, a senhora Tung e eu, uma em frente da outra.
À luz das velas olorosas do centro de mesa, os seus olhos eram dois riscos tremulantes.
Sorríamos.
Finalmente, o reposteiro ao fundo da sala apartava-se.
Uma das criadas entrava, silenciosa.
Servia-se vinho de arroz.
Creio que o vinho de arroz figurava entre as bebidas proibidas no colégio e que chegava ali por portas travessas.
O certo, contudo, é que ambas o bebíamos, a acompanhar os bolos de sésamo, no grande e deserto refeitório, na noite de Natal.
O vinho de arroz queimava-me a garganta e fazia-me vir lágrimas aos olhos.
Quanto à senhora Tung, saboreava-o devagar, molhando nele o bolo, e, como mal provara o «chá de Paris», bebia dois cálices.
Entretanto, Aldegundes, a criada macaense mais antiga do colégio, aparecia com as especialidades da terra: aluares, fartes e coscorões, dizendo que aluá era o colchão do Minino Jesus, farte almofada, coscorão lençol.
E eu traduzia em inglês para a senhora Tung, que achava isto enternecedor e gratificava a velha generosamente.
Quando por fim atravessávamos a cerca a caminho de casa, sob uma lua branca, espantada, anunciadora do Inverno para a madrugada, a senhora Tung abria-se em confidências.
A menina sabia… ― a «menina» era a irmã Chen-Mou, a subdirectora do colégio ―, sabia que ela continuava a venerar a Deusa da Fecundidade.
Tratava-se de uma pequena divindade, toda nua e toda de oiro.
Fora ela quem lhe dera filhos.
Estéril durante sete anos, a senhora Tung recorrera à sua intercessão divina quando o marido já se preparava para receber nova esposa.
Não podia portanto deixar de a amar.
Toda a felicidade lhe provinha daí, dessa afortunada hora em que a deusa a escutara.
Parava a meio do largo átrio enluarado, de olhar meditabundo, mãos cruzadas no colo.
E as palavras saíam-lhe lentas e soltas, como se falasse sozinha.
… E aquele mistério da virgindade de Nossa Senhora!
Virgem e mãe ao mesmo tempo…
Não se lia no Génesis: «O homem deixará o pai e a mãe para se unir a sua mulher e os dois serão uma só carne?»
Não era essa a lei do Senhor?
Porquê então a Mãe de Cristo diferente das outras, num mundo de homens e de mulheres onde o Filho havia de vir pregar o amor?
A Deusa da Fecundidade, patrona dos lares, operava milagres, sim, mas racionalmente, atraindo a vontade do homem à da sua companheira e exaltando essa atracção.
Como o Céu alagando a Terra na estação própria.
Retomávamos a marcha em direcção aos nossos aposentos.
Difícil para mim responder às dúvidas da senhora Tung, nem ela parecia esperar resposta.
Mudava, rápida, de assunto, aludindo ao tempo, à viagem de regresso, às saborosas guloseimas da criada macaísta.
Já em casa, convidava-me a ir ver o seu presépio.
O quarto cheirava fortemente a incenso.
Em cima da cómoda, entre flores, lá estava o Menino Jesus, de cabaia de seda encarnada, sapatinhos de veludo preto, feições chinesas.
Depois, timidamente, a senhora Tung abria a gaveta… e surgia a deusa.
O Menino Jesus era de marfim.
A Deusa da Fecundidade era de oiro.
O Menino, de pé, de um palmo de altura, trajando ricamente.
A deusa, sentada, pequenina, nua.
Os olhos da senhora Tung atentavam nos meus, como se à procura de compreensão, mas as suas palavras prontas (a deter as minhas?) eram de autocensura.
Não, não devia fazer aquilo.
A filha asseverara que o Menino Jesus entristecia, em cima da cómoda, por causa da deusa, na gaveta.
E quem sabia mais do que a filha?
Eu já sentia frio, apesar da aguardente de arroz.
O Inverno, ali, chegava de repente.
A senhora Tung, no entanto, tinha as mãos quentes e as faces afogueadas.
Despedíamo-nos.
Eu sempre me apetecia dizer-lhe que estivesse sossegada, que de certeza o Menino Jesus não havia de se entristecer, em cima da cómoda, por causa da deusa, na gaveta.
Mas nunca lho disse nos três anos que passei o Natal com ela.
Palpitava-me que a senhora Tung se enervava com o assunto.
E que, de qualquer jeito, não me acreditaria.
Maria Ondina Braga, A China Fica ao Lado, Lisboa, Unibolso, Bertand.
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MAIS UM TUFÃO EM MACAU

Tufão | Dezanove horas em alerta sem estragos de maior a lamentar. 🇲🇴
O Tufão Kompasu levou os serviços de meteorologia a manter o sinal n.º 8 de tempestade tropical durante 19 horas.
Apesar da chuva intensa e ventos fortes, registaram-se apenas nove incidentes e inundações no Porto Interior.
Wong Sio Chak frisou a complexidade de lidar com dois tufões no espaço de dias e de assegurar os mecanismos de combate à pandemia.
Assim que o tufão “Lionrock” se despediu de Macau, já o “Kompasu” começava a apertar o cerco ao território.
Em menos de uma semana, a Direcção dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG) emitiu por duas vezes o sinal n.º 8 de tempestade tropical em Macau.
No entanto, se a primeira ocorrência apanhou a população de surpresa no sábado e provocou 35 ocorrências, fortes inundações em várias zonas do território e seis feridos ligeiros, o “Kompasu” passou por Macau de forma discreta, originando apenas inundações expectáveis no Porto Interior sem estragos de maior e nove incidentes.
Entre períodos de chuva intensa, a espaços, e momentos em que o vento se fez sentir com maior intensidade, registaram-se danos e inundações pontuais em alguns locais, e um ferido ligeiro, segundo o Centro de Operações de Protecção Civil (COPC).
“O COPC registou um total de nove incidentes, nomeadamente 5 casos de tratamento de objectos com risco de queda (incluindo janelas, suportes de ar-condicionado, cabos eléctricos), 1 caso de queda de árvore, 1 caso de poste de iluminação que soltou faísca, 1 caso de inundação no terraço e 1 caso de um homem ter colocado o seu veículo à beira da praia de Hac-Sá.
Além disso, foi registado 1 caso de um homem com ferimento ligeiro causado pela tempestade tropical”, relatou o organismo no balanço da resposta dada pelas autoridades ao tufão “Kompasu”.
Além disso, 20 pessoas utilizaram as instalações dos quatro centros de acolhimento preparados pelo Instituto de Acção Social (IAS).
Velocidade de cruzeiro
Entre as 22h30 de terça-feira e as 17h30 de quarta-feira, contabilizaram-se 19 horas, durante as quais o sinal n.º8 esteve içado em Macau pela segunda vez este ano e em que o tufão “Kompasu” efectuou genericamente a trajectória prevista a uma velocidade média de 25 quilómetros por hora.
A meio do caminho, a partir das 8h00 de quarta-feira, quando os ventos no centro do sistema alcançaram os 105 quilómetros por hora, o “Kompasu” foi promovido de ciclone tropical severo a tufão.
De acordo com a TDM – Canal Macau, o momento mais crítico vivenciado na zona do Porto Interior foi registado pelas 3h00 de quarta-feira, quando as cheias atingiram uma altura de 40 centímetros no local.
No entanto, tanto moradores como comerciantes revelaram não haver danos a lamentar, acrescentando que nem parecia que estava içado o sinal nº 8 de tempestade tropical.
“Passei a noite [madrugada de quarta-feira] toda na loja.
Fiquei aqui de prevenção para o caso de acontecer alguma coisa urgente.
O sinal n. º8 mantém-se, mas esta zona está calma.
Não me parece um sinal n.º 8”, disse um comerciante da zona do Porto Interior à mesma fonte
Pelas 16h00 o “Kompasu” tocou terra na Ilha de Hainão e foi anunciado que o sinal n.º 8 ia baixar para n.º 3 às 17h30, levando consequentemente à reabertura das pontes e à retoma dos serviços de autocarros e de táxis.
Ainda antes de o sinal n. º8 ser substituído pelo n.º3, já muitos residentes estavam fora de casa.
Um farmacêutico contou à TDM – Canal Macau que decidiu abrir o estabelecimento mais cedo para “facilitar a vida aos residentes que reservaram produtos antes do tufão” e porque o tufão não era assim tão severo.
“Acho que o tufão não é tão forte para que as lojas tenham de fechar”, rematou.
Também antes das 17h30, um residente já tinha saído de casa para ir ao supermercado.
“O tufão não está muito forte e como não acumulei comida em casa, vim comprar alguma coisa”, justificou.
Pelas 7h00 de ontem, os SMG cancelaram todos os alertas de tempestade tropical, relativos à passagem do tufão “Kompasu”.
Sem dar tréguas
Ao fazer o balanço das acções de resposta ao tufão, o secretário para a Segurança, Wong Sio Chak destacou a complexidade das operações, que surgiram dias depois do tufão “Lionrock” e em simultâneo com a situação excepcional de combate à epidemia de covid-19 em Macau.
“Macau enfrentou dois tufões esta semana.
Durante este intervalo curto, enfrentámos em simultâneo dois tufões de sinal 8 e os assuntos de saúde pública [da covid-19] e por isso a situação tornou-se mais complicada.
Os trabalhos foram difíceis mas todo o pessoal e agentes das forças e serviços (…) mobilizaram o máximo esforço no cumprimento das suas funções”, resumiu o secretário, segundo a TDM-Canal Macau.
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Ciclo de Conferências “Portugal no Oriente” – Observatório da Língua Portuguesa

Conferências transmitidas em direto por zoom: https://videoconf-colibri.zoom.us/j/84435199675?pwd=OVRWV1hxMGdvdXh6akVVTGMzeGJVQT09 ID da reunião: 844 3519 9675 Senha de acesso: 428979

Source: Ciclo de Conferências “Portugal no Oriente” – Observatório da Língua Portuguesa

macau mátria

Ser de Macau.
Henrique de Senna Fernandes escreveu em tempos “Portugal é a minha Pátria e Macau é a minha Mátria”.
E dizia Armando J.Sales Ritchie:
Ser macaense não é somente ter nascido em Macau.
Ser Macaense é viver Macaense, é conhecer o cheiro, os sabores, é ter bebido a água do Lilau, e conhecer os sinais de ventos erguidos no Farol da Guia nas épocas de tufões.
É ter conhecimento da sua história e vivenciado cada acontecimento até ao presente e acompanhar o futuro, desde o momento em que a sua formação intelectual o permitiu.
É ter acompanhado e carregado o andor nas procissões de Nossa Senhora de Fátima até à Ermida da Penha, do Senhor dos Passos da Catedral da Sé, do Senhor Morte da Igreja de Santo Agostinho à Catedral da Sé, do Santo António da Igreja do mesmo nome.
É ter brincado de talú, triós, chiquia, in chai hap, piem piem koi, kun chai chi, queimado pau cheon, este último por ocasião das festividades do ano novo chinês, e brincado também de tan lou nas festas lunares chinês, quando ainda na adolescência.
É conhecer o patuá, o dialecto muito falado pelos nossos ancestrais e que hoje corre o risco de ser esquecido.
É ter estado na Fortaleza do Monte para ouvir o relato de futebol na ocasião do campeonato mundial de 1966.
É saber saborear a suculenta gastronomia Macaense e preparar alguns pratos tradicionais, tais como; o Minchi, o Tacho, a Cabidela, o Diabo e etc.
É ter orgulho de ser Macaense e saber transmitir aos seus filhos e netos, a tradição e costumes.
É ter participado activamente nos acontecimentos desportivos, administrativos, legislativos, representatividades, contribuindo com trabalhos sem medir esforços, muitas vezes sem remuneração, mesmo à distância, em prol da Terra que um dia lhe serviu de berço.
(Foto do Blog Projecto Memória Macaense).
No photo description available.
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