luso asiáticos de macau

O património fisionómico que os portugueses deixaram em Macau, pela lente de João Palla Martins.

Séculos depois de os portugueses terem passado pela Ásia, o património fisionómico ainda é visível e o arquitecto João Palla Martins começou a fotografá-lo há três anos.

Como resultado, os retratos dos luso-descendentes de Macau foram agora compilados num livro que foi lançado no passado sábado.

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  • Pedro Coimbra A grande diferença da diáspora portuguesa – deixámos nomes, descendência. E há os que ficaram.
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urbanidades ANTº CONCEIÇÃO JNR, MACAU

URBANIDADES


NAS COMISSURAS DO TEMPO

Posted: 24 Sep 2020 02:58 AM PDT

 

 

Entre o tempo que hesita em se pôr frio e o sol que se vai, pondo-se em raios de fénix apavorada, paira por aqui uma como que aragem congelante das horas, dos minutos e dos sentidos, espécie de absinto bebido no feérico mundo que antecede o do silêncio, quando as horas já não são e o dia ainda assim se não chama.

Não se mede esse hiato em horas, minutos ou segundos, não tem métrica marcada, é antes doença ou convalescença, tempo coado onde, por uma meia-mão se espera que tudo se abata, só o erguido cai, o rastejante arrasta, e o mundo divide-se também no punhado de fantasmas que a hora deles se vai chegando à medida que se fina um tempo para a outro dar lugar.

Nesse hiato que disse, a cidade doura-se de sol e fénix, e as gentes preparam-se para conviver com o reverso delas, tudo insonoro, como mudez musicada, como no tempo da última guerra. Escurecia e dançava-se, era assim a fuga, cantata, cantabile, um copo em corropio do copo ao corpo e deste a outro e ambos rodando, tudo vogando, ninguém tinha pés, apenas fumo rasando o sonho que descontínuo permeava os fantasmas. Como eram jovens e felizes, não tinham passado a recta da meta nem a sabiam, riam apenas do tempo em que este não contava nem escoava e o riso era só riso, não esgar ou trejeito de olhar suspeito, perdida a razão de uma ordem, outra se apronta e abastece, e prepara novos fantasmas de reencontros para que sobre esses corpos ainda por unir se expie a culpa de tantos sortilégios que se foram, e uma vez mais conduzidos, não condutores, mandados não mandadores, desembarcando da hipótese de cinco quadrantes, já memórias empalidecidas de folclore, vem quem dança ao lugar onde começou, e recomeça fingindo que é verdade que a verdade era assim, como se aqueles dias pudessem ser estes, e neste faz-de-conta mergulham o resto dos sentidos e façamos todos de conta.

Fazer de conta é não contar nem ir dizer, é virar a face e suspirar, olhar a moeda abrasada em que o sol ficou e preparar o mergulho nas sombras e esquecer que nos lembramos do tempo em que o mundo nem era nosso nem de ninguém, apenas não existia, e nos contentávamos com o que ao olhar se ostentava, não me lembro se era pouco se bastante, terá talvez sabido a pouco, apoucado que hoje é tanto e já não há.

Tocou estranha uma música, era estranha sempre que mudava, depois era o hábito do repetido e conformado, exaustão de ouvidos, e por vezes a marcha continuava e mesmo insólita e sem gosto se repetia, maldosa de tanto gostar de se ouvir, tínhamos de nos pôr a falar o que era pecado, sombra inventada para fustigar de medo o medo que se criava e se pressentia.

Diziam que medo substituía bem o prazer, eu ficaria na origem em vez da dobragem, de dobras já chegavam as da roupa e que por esse tempo eram miragem, que desse tempo não sou, nem daquele.

Sou do meu que acontece, como a sombra arrancada, fixa, perdida na contemplação do ocaso de um tempo perpetuado no som dos passos em sobrado rangente, inexistente, apenas rangendo a memória daqueles sapatos pretos e brancos que eu fixei, ainda me não serviam, e hoje perdidos estão, como tanto se perdeu por não se ter usado. A mim os sapatos não serviam, àqueles não sabiam de sapatos, e entre o achado e o perdido fez-se das achas uma fogueira e do perdido um incêndio que ainda lavrará quando a noite se cansar de se repetir, tal o olvido e tanta a ignorância espraiada na distância de onde nunca devia ter saído.

Há apenas um colar de luzes no horizonte, fez-se noite finalmente. E deste cansaço de esperar a alvorada, reina a esperança ainda, que nasça numa manhã um dia em que reinem a sensatez e o saber, para que de entre os dias ocorra um que à memória se junte, e em memória fique.

© António Conceição Júnior • 1999

LIVRO DE MIGUEL DE SENNA-FERNANDES

Crónicas à sexta
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AS “CRÓNICAS” ESTÃO EM LIVRO, a ser lançado no dia 4 de Outubro próximo! Um projecto contínuo que se concretizará em breve. ☺️

Depois de criar, em 2018, o blogue “Crónicas à Sexta”, Miguel de Senna Fernandes passa algumas dessas crónicas para um livro com o mesmo nome. Tratam-se de “estórias e ironias do comum dos dias, de…

PESSANHA EM MACAU , CHRYS C IN CHRONICAÇORES

Camilo Pessanha em “A Pátria” (7 de junho de 1924):

“A vitalidade das tradições lendárias, depende essencialmente de dois requisitos. É necessário que o objeto a que se referem se imponha pela sua grandeza à admiração contemplativa de todos os tempos. É-o igualmente que a própria tradição, nos diversos fatores que a constituem, seja adequada a esse objeto. As tradições pertencem ao folclore, há nelas, preponderante, um elemento estético; e toda a obra de arte precisa, de ser bem equilibrada.

Quanto à grandeza gigantesca de Camões, e à da assombrosa epopeia marítima que culminou na formação do vasto Império português do séc. XVI, estão acima de qualquer discussão. Resta apenas ponderar se Macau, esta exígua península do mar da China ligada ao Distrito chinês de Hèong-Sán, tem qualidades que a recomendem para andar associada à memória da epopeia e à biografia do poeta sublime que a cantou.”

Excessos de regras orientais, tão prazenteiras para um espírito ocidental. Mas que tantos estragos fizeram, em figuras como o escritor Camilo Almeida Pessanha.[1]. A própria organização secular chinesa, aceite pelos locais e tolerada pelos macaenses facilitava o meu paradigma, sabe-se lá se inspirado em Pessanha…

 

«Como as fotografias avivam em mim a esta hora de inverno português, entristecida de lufadas e névoa, a relembrança dos resplandecentes dias abafados de espera de tufão, vividos em companhia de Camilo, em agosto 1911, na linda e melancólica, risonha e estranha terra de Macau, à maravilha católica e China, sobre tudo, já agora, cheia de repiques finos à missa, de discretos biocos de confessadas, de silenciosos deslizes de milhares de Celestes, atravancando as ruas cada dia mais, invadindo as praças e rossios, coalhando as airosas lorchas do porto, gente atarefada e calada, reservada e de nós distante, aparentemente impassível, mas em cuja massa se sente a força profunda da maré que avança, e vai avassalar o velho empório europeu de veniaga nas Costas da China.

Pobre e linda Macau dos séculos XVI e XVII, como és ainda curiosamente portuguesa à moda desses séculos, sob a taciturna invasão China que te envolve e, todavia, te dá ainda um aspeto de vida! E contudo, ó arcaica Macau, desde que Fernão Mendes Pinto andou de aventura no Império do Meio, assistindo aos primeiros avanços da potência tártara, que de memoráveis coisas se não deram nessa China imensa que só na aparência é milenariamente imóvel: abalada para o sul dos exércitos tártaros da Manchúria, queda da dinastia chinesa dos Ming, sangrento, como nenhum outro, triunfo da dinastia Manchu dos Ta-Tsing, dois séculos de terrível agitação das associações secretas chinesas contra o vencedor tártaro, indo, poucos meses após a minha passagem em Macau, até à abdicação do último imperador Ta-Tsing e à proclamação duma república à europeia ou americana, como compasso de espera da passagem da sombra de um novo Dragão imperial…Tanta coisa a dizer sobre a China e a sua arte!»

 

Como é compreensível a busca hedonista deste autor quando comparada com digressões semelhantes. Leia-se o que Silvano Santiago escrevia em 19 fevereiro 2011 sobre Pessanha, em O Estado de S. Paulo:

E se o poeta entender que a viagem à Ásia não tem como interesse maior a exploração geográfica de outro canto do planeta ou o conhecimento dos povos exóticos?

E se se lhe apresentar como estrada real para o exílio na península e condição sine qua non para a exploração sentimental e amorosa do potencial de vida cortado rente à raiz pela foice da Lusitânia natal?

E se a língua chinesa, aprendida pelo poeta e por ele adotada no quotidiano, lhe servir para neutralizar o poder imposto pela dicção poética lusitana, inspirada na tradição greco-latina?

A viagem a Macau será porto de desembarque. No espaço do exílio, o poeta estica o elástico da coerência íntima e secreta, experimenta a liberdade absoluta e inventa a própria e original dicção poética. Longe da pátria, o poeta se vê estimulado a avançar com proveito e prazer a vida sentimental e amorosa que, a latejar no obscuro do desejo, deve ser a sua, legitimamente. Poemas do exílio podem não ser poemas do lá. No país onde o poeta nasce e onde deveria viver até a morte, lá, ele não pode levar a cabo a vida que julga plena para si. Lá, não está sua pátria; lá, sua pátria não é.

 

Já o biógrafo António Dias Miguel observa que

“a vida alucinada de Pessanha no exílio serviu para que aprofundasse, pela repetição em diferença, traços abusivos já existentes no comportamento europeu. Em aguda perceção, esclarece-nos que o uso do ópio “corresponde não a um vício adquirido [em Macau], mas à sublimação, ou melhor, à transparência de outros que já em Portugal o caraterizavam, como o hábito de beber.” Sob a luz do país perdido, a “lânguida e inerme” alma do poeta se recheia e transparece completamente. Ela passa a “deslizar sem ruído” e a “no chão sumir-se, como faz um verme.” O ópio suplementa o álcool, propiciando a plena realização “de uma vida nova toda artificial”. Sobre esse tópico e a contrapartida no quotidiano como “spleen,” há que buscar o seu artífice na poesia, Charles Baudelaire (As Flores do Mal, 1857).

 

É digno de menção, «O rio de Cantão» (1889) de Wenceslau de Morais que começa por uma panorâmica da «varanda deliciosa do Canton Hotel e onde descreve a visita aos barcos-flores ou “tancás-flores”:

“Quando desceu a noite, a população, embalada pela lenta ondulação do Chu-kiang, adormeceu; bruxuleavam os faróis içados nos topos dos mastros das lorchas; defrontando com o hotel, surgiam iluminações festivas, eram os tancás-flores, donde irrompiam os primeiros acordes de uma música estranha. Aluguei uma sampana, e mandei remar para os tancás-flores […] sobre cada barco eleva-se um espaçoso recinto, um salão, que os lumes de dezenas de candelabros iluminam em jorros de luz branca. […]. Elas, envoltas nas longas cabaias de seda, ora branca, ora lilás, ora cor-de-rosa, ora esmeralda, os cabelos entrançados em enfeites de oiro e grinaldas de jasmim, cintilantes de joias como ídolos, têm um encanto de beleza exótica que muito se casa com a estranheza do espetáculo.”

 

Pessanha o exprimia em «Ao longe os barcos de flores». Por todo o poema se encontram disseminados símbolos convencionais verdadeiramente chineses, núcleos de onde irradia uma série de imagens, poeticamente aproveitadas por Pessanha: hu-a (flor) é o termo que designa eufemisticamente a cortesã, a prostituta e também o bordel. Uma virgem pode ser uma “flor amarelahuáng hua, enquanto yan-hua designa «la fille de joie», para além de poder ser a expressão para «animado, animação e fogo-de-artifício». Significativamente, o componente semântico yan pode querer dizer não só «fumo, vapor ou tabaco, mas também ópio». Este poema de Pessanha é um texto dominado sabiamente pela ambiguidade, e o campo semântico do símbolo ou imagem convencional dos ‘barcos de flores’ leva a que no som da flauta se ouça o lamento feminino de uma yan-hua contrastando com a animação orgíaca do fogo-de-artifício.

 

Ao longe os barcos de flores

Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
– Perdida voz que de entre as mais se exila,
Festões de som, dissimulando a hora.

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora…
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flebil…. Quem há de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora…

 

Essa flauta chorou durante anos na alma conturbada deste vosso escriba, que nunca visitou uma tancá-flores, pois já estavam em terra firme naqueles tempos. Mas ainda ouvi a flauta, a orquestra e o som dessas orgias na escuridão entrecortada pelo fogo-de-artifício e pelo estrelejar dos panchões. A errância de um povo e seus poetas, para quem a pátria tinha sido, muitas vezes, «um lugar de exílio». Para quem a viagem e a emigração foram quase sempre, como escreveu o poeta, professor, embaixador e amigo, José Augusto Seabra, a «outra pátria» senão mesmo uma pátria. Eu fora afinal para Macau, não para o exílio nem para a exploração, mas para sobreviver já que o país de origem não dava condições nem emprego. Foi lá que escrevi poesia enquanto experimentava “a mesma liberdade e me via estimulado a avançar com proveito e prazer a vida sentimental e amorosa…”

Macau ficou intimamente ligado a eventos amorosos e outros (menos amorosos) que viriam a condicionar o amadurecimento como pessoa e a alterar, cancelar ou adiar projetos pessoais e sonhos por inventar. Talvez por isso me tivesse quase esquecido – durante décadas – que ali estive seis anos. Aquela terra estava indelevelmente ligada a momentos difíceis da minha vida e se bem que houvesse outros bem mais felizes, o que vinha à memória eram as adversidades pessoais e emocionais que ali passara.

 

 

[1] (Coimbra, 7 set 1867 – Macau, 1 mar 1926). Poeta português, opiómano expoente máximo do Simbolismo. Em 1894, foi para Macau, durante três anos professor de Filosofia Elementar no Liceu, em 1900 nomeado conservador do registo predial e juiz de comarca em 1905 voltou a Portugal, para tratamento, foi apresentado a F. Pessoa que, como Mário de Sá-Carneiro, era apreciador da sua poesia.

[2] a Rubye Senna-Fernandes faleceu em 2019