AGUSTINA Da natureza humana dos heróis

Da natureza humana dos heróis

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Oi, globalistas!

“Parecia uma fada, pequenina e sorridente”. A notícia acabara de chegar ao mundo inteiro, a mim apanhou-me a caminho do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, onde pouco depois Vera, a bibliotecária-chefe, nos mostra um dos dois livros autografados que ali existem: As Estações da Nossa Vida, uma bela edição com fotografias de Jorge Correia Santos das estações de comboio da antiga linha do Douro, a que ia do Porto até Barca d’Alva (e depois Espanha adentro), o fio condutor desta obra. Última estação: “A mais extraordinária e exuberante romancista portuguesa morreu na segunda-feira, aos 96 anos de idade. Chamava-se Agustina Bessa-Luís”, escreveu Mário Santos no PÚBLICO, num obituário que faz juz à escritora e à sua obra, intitulado Agustina ou a força do destino.

O Presidente da República curvou-se perante o seu génio, o Governo decretou luto nacional e as reacções sucederam-se. O PÚBLICO dedicou-lhe sete páginas e trabalhos online como este, onde um belíssimo texto da Kathleen Gomes pode ser lido ao som de leituras de A Sibila na Feira do Livro de Lisboa. E recuperou esta entrevista feita pela Andreia Azevedo Soares em 2004 (dois anos antes do AVC que a retirou do palco), onde disse uma das frases que mais se ouviram nos últimos dias: “Sou perigosa na medida em que conheço profundamente a natureza humana.”

A natureza humana de Agustina levou o seu corpo, mas foi também a capacidade humana de se tornar imortal que nos deixou a sua alma e um espelho da nossa, para sempre.

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à propos de Agustina

Agustina e a ‘portugalidade’ nortenha, by Mário Cláudio
Mais uma vez, a ‘portugalidade’. A nortenha. Podia ser tripeira, mas não. Nortenha. A outra, a moura, (a existir) deve ser uma coisa em forma de assim, como rezaria o poeta. Tudo a propósito da morte de Agustina. Pela mão de Mário Cláudio*, um amigo da escritora. Que faz um depoimento ao “Público”. E carrega nas tintas. Da ‘portugalidade’… nortenha, lá está. Porque, se não fosse assim, era o quê? A evocação de um delírio pessoano? Uma patetice Quinto Imperial? Saudades do futuro? Uma metanoia de fancaria? Há sempre uma diferenciação à la “Inimigo Público”: se não aconteceu, podia ter acontecido. Mas para que raio de merda serve a ‘portugalidade’, afinal, senão para patetices. Desta índole? Essencialismos? Como-os ao pequeno-almoço. Os comunistas também comiam criancinhas. mas, afinal, era tudo mentira… Essencial é o oxigénio. O resto, são delírios à la Santa da Ladeira.
“O que é que vai ficar da obra da Agustina? Quanto a mim, vai ficar o que tem a ver com a portugalidade, uma portugalidade a Norte, com grandes personagens que a ilustram. A enorme capacidade de dar atmosferas, ambientes, aquilo a que se chama o espírito do tempo e o espírito do lugar. Nisso, Agustina é insuperável. E vai ficar a sua enorme cultura humanística, uma coisa que tende a desaparecer da literatura. E também um estilo único, que nunca ninguém teve igual. Acontece com ela o que aconteceu com o Aquilino: são autores de estilo. E essa ideia de um autor identificável pelo estilo também está a desaparecer – agora tudo se arrisca a ser um pouco igual”.

*No portal da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, tipifica-se o escritor, assim: “Escritor prolífico, metódico e rigoroso, pesquisador de estilos e investigador da ‘portugalidade'”. Poing!

PUBLICO.PT
O Prémio Pessoa de 2004 viveu uma longa relação de amizade com Agustina Bessa-Luís desde que teve oportunidade de a conhecer…

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entrevista à filha de Agustina ‘O mal no estado mais puro sempre esteve à porta da minha mãe, sempre a perseguiu’

Numa altura em que a Relógio D’Água vem reeditando a obra de Agustina, uma biografia sobre a autora publicada há semanas – O Poço e a Estrada, da autoria de Isabel Rio Novo – chegou aos tops de algumas livrarias. A filha de Agustina, duvida, no entanto, que esse público busque outra coisa além de mexericos. Numa altura em que a Relógio D’Água vem reeditando a obra de Agustina, uma biografia sobre a autora publicada há semanas – O Poço e a Estrada, da autoria de Isabel Rio Novo – chegou aos tops de algumas livrarias. A filha de Agustina, duvida, no entanto, que esse público busque outra coisa além de mexericos.&etilde;

Source: ‘O mal no estado mais puro sempre esteve à porta da minha mãe, sempre a perseguiu’

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Morreu a escritora Agustina Bessa-Luís – Observador

Um dos nomes maiores da literatura portuguesa contemporânea, Agustina Bessa-Luís tinha 96 anos.

Source: Morreu a escritora Agustina Bessa-Luís – Observador

 

 

Agustina tem uma biografia que a família não queria

Agustina Bessa-Luís é a escritora mais enigmática, quem o diz é Isabel Rio Novo, que lança hoje a maior biografia sobre a autora de A Sibila. Onde mostra uma mulher muito mais completa, nos últimos anos “ocultada pela família”.

O que traz de novo a primeira grande biografia sobre a escritora Agustina Bessa-Luís? A resposta chega esta sexta-feira às livrarias e soma 500 páginas. 400 com uma narrativa de autoria de Isabel Rio Novo, ficcionista e doutorada em Literatura Comparada, que conta a vida da autora e mais 100 páginas de notas, com pistas para quem quiser saber mais sobre as fontes – é quase um segundo livro.

A autora da primeira das seis biografias anunciadas pela editora Contraponto sobre grandes figuras da cultura portuguesa responde à questão das novidades que existem nesta biografia com uma justificação e quatro exemplos: “Agustina tem a vantagem de as etapas principais da sua vida serem conhecidas.” O que não impede de dar ao leitor quatro grandes desenvolvimentos sobre o que classifica como “etapas” e fazer redescobrir a biografada.

Primeira: “Sabemos que conheceu o marido através de um anúncio, mas é muito diferente encontrar o anúncio, perceber o contexto e as implicações que teriam na época e na circunstância.”

Segunda: “O período de início da vida literária e a dificuldade em afirmar-se. Sabia-se dos pedidos de auxílio a escritores consagrados, como Aquilino Ribeiro ou Ferreira de Castro, para que escrevessem textos favoráveis à obra. Ela também o fez, mas o processo não era conhecido desta forma, mesmo que nunca tivesse escondido que enviara a sua novela de estreia aos três grandes das letras o que agora se revela mais.”

Terceira: “As particularidades do tempo da depressão em Esposende, por volta dos 40 anos e da morte do pai, que foi uma fase tranquila e propícia à introspeção.”

Quarta: “Um episódio que ressoa de uma forma completamente diferente nesta biografia é o duelo com o crítico de O Primeiro de Janeiro, Jaime Brasil. Muito mais tarde ela referir-se-ia a esta situação desvalorizando-o, mas ao pesquisar com bastante rigor ficou muito claro que é um episódio mais doloroso e que a marcou. Até poderia tê-la feito desconfiar do seu talento e posto cobro a uma carreira literária. Jaime Brasil criticou implacavelmente o seu segundo romance – que comparado com obras-primas seguintes eram relativamente fraco e ela reconheceu-o -, mas a questão é que o crítico, que era consagrado, não o censurou por isso mas por aquilo que considerava ser a imoralidade e a indecência do romance. É verdade que o livro contém cenas de sexo, o que é atípico na ficção de Agustina, mas o crítico chegou ao ponto de afirmar que uma senhora nunca escreveria aquilo e até comparou em modos muitos violentos a autora a uma cabra com cio. Usando uma linguagem sexista que hoje seria qualificada como de assédio, enquanto a uma mulher nos anos 50 era complicado responder a um ataque deste tipo.”

A Agustina que os portugueses conhecem melhor tornou-se bastante diferente destas quatro “etapas” e a biografia mostra-o bem. Isabel Rio Novo refere que o seu trabalho “traduz uma vontade editorial comunicada a todos os seis biógrafos, a de se pretender biografias rigorosas extensas e minuciosas”, que serão diferentes entre si, diz, pois “cada um tem o seu estilo próprio e é de esperar que o reflitam no produto”.

E é isso que Isabel Rio Novo faz, mesmo que nem sempre o leitor de biografias – inglesas, por exemplo – esteja à espera de ler uma espécie de diálogo entre biógrafo e biografado: “Não vou tão longe…”, “Pelo que depreendi da leitura da sua correspondência…”, “Descobri Agustina sem defesa…” Não é um problema, o leitor acostuma-se e a narrativa entranha-se e obedece ao gosto que a editora espera ter como público desta coleção.

Aliás, a autora privou com Agustina por duas vezes, em 2003 e 2004: “Tive o privilégio de a conhecer no âmbito de trabalhos universitários ao fazer parte de uma equipa que a entrevistou. Eu era bastante mais jovem e reservada, senti diante dela o fascínio normal de quem tem uma obra gigante e guardo preciosamente essa memória, que foi ao mesmo tempo uma graça. Não vou dizer que a conheci intimamente, mas naqueles momentos percebi a sua inteligência, ouvi a sua gargalhada interminável que contagiava e notei o seu olhar arguto.”

Em poucas palavras, Isabel Rio Novo faz um trocadilho: “Era uma presença imponente apesar da sua [pequena] estatura física.” Nota-se a admiração da biógrafa perante o objeto de estudo, mas não se pode dizer que Bessa-Luís a tenha assustado. Talvez, haja um respeito perante a dimensão da autora, mas isso é o que se exige aos biógrafos também. Quando se questiona se não se sentiu à vontade para desvendar certos episódios, responde: “Algumas vezes sim, que teria de estabelecer fronteiras em relação ao que estava a fazer. Era uma biografia de Agustina, mas também de quem gravitava à sua volta. É como tudo na vida, parte-se de uma decisão inicial, e de outras que se desdobram, porque esse dilema vai surgir conforme o juízo nos dita. Provavelmente, cometeremos erros às vezes.”

Entre os episódios que marcam a leitura da biografia existe um muito forte, o de quando conta que, devido ao estado de saúde em que a escritora se encontrava, não se apercebeu da morte do marido. “Está claro no livro que me baseio nos testemunhos, nem sempre esclarecedores, mas é verdade que nesta fase em que vive tudo à sua volta está cheio de mistérios e de penumbras. Tristes, para quem a conheceu e sabia que o seu grande desejo era escrever até ao último dia da sua vida”, garante.

Porquê escolher Agustina para biografar? “Quando conversaram comigo em 2016, foram apresentados dois nomes. O primeiro agradou-me, mas quando foi pronunciado o nome de Agustina confesso que não tive hesitação. Estava consciente da responsabilidade da tarefa e queria escrever sobre a escritora. Ficara assoberbada com A Sibila quando a lera na escola e tinha um conhecimento prévio da restante obra, sobre a qual fiz vários trabalhos académicos e participei num dicionário de literatura.”

Desde logo, o título é inesperado: O Poço e a Estrada. A autora explica: “Nasce da leitura do seu romance O Manto, onde o personagem vislumbra o seu futuro ao olhar para dentro de um poço. Era uma metáfora interessante para a aventura da escrita precoce de Agustina, que começa a ler e escrever muito cedo e, também cedo na adolescência, inicia a escrita literária.” Para que saiba ao que se vai, o subtítulo é claro: Biografia de Agustina Bessa-Luís, sobre uma fotografia da escritora na capa, numa pose e idade que a identifica logo. O volume contém um índice onomástico (com algumas ausências) e mereceria uma cronologia da vida de Agustina.

Como é escrever uma biografia sobre alguém que existindo já não existe?

É complicado pois Agustina é uma personagem enigmática e, não podendo dizer que desvendei o enigma dela por completo, a escritora defendeu-se porque tinha perfeita consciência de que um dia iria ser biografada. Contar-se a sua história um dia fez com que adotasse uma posição ambivalente: ora defendia que não queria que se indagasse a seu respeito, ora afirmava não demonstrar interesse na expressão autobiográfica, ora começava projetos desse cariz, sobretudo a partir da viragem do século. A intenção de alguém a biografar parece uma provocação no bom sentido agustiniano, estendida ao biógrafo que promete mas a que também se nega. O enigma de Agustina, uma pessoa que está ainda viva, mesmo que retirada do olhar público, até mesmo ocultada por decisão da família – que respeito – torna-a ainda mais enigmática e também fascinante. Se pretendia construir uma biografia pautada pelo respeito e por um certo pudor, a sua situação era mais um bom motivo para o fazer.

Usa a palavra ocultada. A família não a ajudou na biografia?

Ocultada no sentido de resguardo, decisão que compreendo. A ocultação acontece até a amigos próximos da escritora. Quanto à colaboração, havia no início essa perspetiva por parte da família, aliás o projeto começou por ser saudado com muito agrado e entusiasmo, depois, por questões editoriais, a posição da família inverteu-se e não houve qualquer tipo de apoio à pesquisa e à escrita do trabalho.

A família não queria uma biografia?

A informação que tenho é que está a ser preparada outra biografia, mas é óbvio que uma figura desta dimensão deve ser biografada e é desejável – como grande admiradora e leitora compulsiva da sua obra desde a adolescência – não haver uma ou duas, mas várias. E lerei todas com muito interesse.

A biografia recolhe vários depoimentos. Foi difícil encontrar as fontes?

Comecei por recolher o máximo de peças jornalísticas – encontrei cerca de uma centena pois ela concedeu muitas entrevistas – e a partir dessas fontes de investigação fui elaborando um plano. Não consegui falar com muitos dos que estavam nesse projeto inicial porque algumas prestaram-se a colaborar mas vieram a manifestar indisponibilidade, outras esquivaram-se, no entanto foram muitas as pessoas que aceitaram. Destas, houve sugestões para outros entrevistados e documentação que desconhecia, e pessoas que me franquearam os seus arquivos privados, disponibilizaram correspondência e espólios – as cartas foram muito reveladoras. Quanto à obra, não queria escrever uma biografia a partir das referências autobiográficas nos livros; não podia ignorar o que todos sabemos existir, que deixou na ficção muitas marcas da sua história. Punha obsessivamente em cena as suas origens e a geografia humana dos familiares, o que era uma vantagem porque conhecia a obra bem e como a minha memória literária é grande, lembrava-me, por exemplo, de pequenos detalhes nos romances.

“A vida de Agustina não cabe nos limites cronológicos do seu nascimento e da sua morte (…). Tem de indagar-se no futuro da sua obra”, escreve à página 399. Ainda ficou muito por contar?

Sou suspeita para responder a isso. É óbvio que uma biografia não é a reconstituição factual dos episódios de uma vida, nem a sua apresentação quase cronológica através de uma narrativa interessante que, tratando-se de Agustina, será sempre empolgante. Uma biografia, como todas as narrativas, é o que é graças ao que está narrado e em virtude do narrador, do estilo ou até das suas limitações. Estou certo que Agustina continuará a ser sempre um enigma seja quantas biografias forem publicadas.

Acusa-a de construir um “muro de distância com todos”. Porque o faz?

A explicação, se é que existe, vai sendo dada nos capítulos. Penso que ela própria sublinhava que o principal na sua vida era escrever, mais do que um objetivo era uma missão para a qual se sentia talhada desde a infância, vocação confirmada na adolescência e reiterada depois do casamento. Uma das revelações da biografia é a figura do marido, Alberto Luís, que conheci, e de quem todos sabemos a importância que teve na criação literária de Agustina – adiantando trabalho de pesquisa, datilografando numa fase inicial os manuscritos ou ajudar na revisão. Essa pesquisa revela que não teria sido a escritora que foi se não tivesse a sorte de ter casado com alguém que no contexto da época, anos 1940, compreendeu a genialidade da mulher e criou condições para que pudesse escrever. Não digo que Agustina tenha descurado a vida familiar, as suas obrigações domésticas e algum convívio, mas para ela viver era para escrever.

Até que ponto Agustina foi respeitada pelos colegas?

Havia de tudo e não foi diferente dos outros escritores: teve simpatias e antipatias. Creio que muita gente teve tendência para menorizar a sua obra literária conotando-a com um certa vertente regionalista na qual não se inscrevia completamente, se é que cabia em algum rótulo. Ou a questão de alguma ligação ao anterior regime, mas fica claro na biografia que não favorecia nem perfilhava esses ideais. Também não foi uma intelectual que se distinguisse pelo combate aberto ao regime. Os escritores que eram abertamente hostis ao regime, tinham tendência em ver nessa sua posição uma espécie de colagem ao regime vigente. Pode dizer-se que teve amizades sinceras no meio artístico, como a de Sophia de Mello Breyner, apesar das pequenas picardias entre as duas foram amigas sinceras, ou da pintora Vieira da Silva.

Receou enfrentar Agustina quando pensou no projeto ou achou que a iria dominar?

Percebo o sentido dessas metáforas bélicas, mas nunca vi a biografia como um combate, antes uma conversa à distância. Se voltasse aos anos em que a conheci pessoalmente, desta vez evitaria a minha timidez e em vez de ficar nas cadeiras mais recuadas iria ter o atrevimento de falar com ela.

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O Poço e a Estrada – Biografia de Agustina Bessa-Luís

Isabel Rio Novo

Editora Contraponto, 503 páginas

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