SOS LIVRARIA BARATA

“A livraria Barata está em risco de fechar. A situação parece ser mesmo dramática e este mês vai ser determinante para saberem se podem manter as portas abertas. Se puderem ajudar, pensem em livros que queiram e deem lá um salto. E passem a palavra. É das poucas livrarias de Lisboa assim. É um espaço especial, com exposições, café, as pessoas podem sentar-se e ler o que querem. É o nosso bairro.” Pediram-me para divulgar…

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UMA SOMBRA DEMORA ANOS A CRESCER

Outra citação:

“O meu avô, há muitos anos, decidiu plantar uma árvore.

Com o passar do tempo, o amigo do meu avô – o que fabrica meias – ficava cada vez mais rico. Porque criava coisas que se podiam arrumar em gavetas.

Entretanto, a árvore do meu avô foi crescendo.

E o vizinho enriquecendo.

São fortunas diferentes, diz o meu avô. A minha é feita de uma coisa impossível de arrumar em gavetas.
É feita de sombra.

Uma sombra demora muitos anos a crescer.”

Afonso Cruz, in “O livro do ano”.

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LOBO ANTUNES DISSE DESCONHECER LUIS SEPULVEDA

Richard Zimler and Richard Zimler shared a link.
Era domingo e chovia no Porto. Luis Sepúlveda acabara de acrescentar um ano aos 50 anos que transportava naquela barba farta e negra, muito chilena, que lhe emoldurava o olhar melancólico.

Era domingo e chovia no Porto. Luis Sepúlveda acabara de acrescentar um ano aos 50 anos que transportava naquela barba farta e negra, muito chilena, que lhe emoldurava o olhar melancólico.
  • Este texto no JN não representa exatamente o que aconteceu. Quero esclarecer. Organizei todo o programa de “Sob Influência.” Na primeira noite, queria ter impacto e convidei dois escritores muito conhecidos em Portugal, Lobo Antunes e Sepúlveda. Estive com o Lobo Antunes e o Sepúveda antes e durante a sessão. A ideia da sessão (o formato) era de ter os dois autores no palco ao mesmo tempo. Sepúlveda falaria das influências sobre a sua escrita (literárias ou pessoais ou de qualquer natureza), e depois o Lobo Antunes faria o mesmo. A seguir, haveria uma sessão de perguntas e respostas dirigida por Alexandre Quintanilha, que eu escolhi para fazer essa parte do evento. Os dois autores sabiam com pelo menos 2 meses de antecedência com quem partilhariam o palco. Mas com 30 minutos de antecedência, o António disse-me que recusava aparecer no mesmo palco com o Luís. Achei muito estranho, claro, e perguntei porquê. Respondeu, porque não o considerava um bom escritor. Eu respondi que, com 30 minutos antes da sessão começar, não ia discutir as qualidades literárias de Luis. Eu disse: “Tu (António) tens que estar no mesmo palco com ele”. O António recusou mais um vez. Fiquei muito aflito. Como resolver a situação? Decidi mudar o formato: Luís fazia o seu discurso e depois saíria do palco e o António faria o seu. O formato para a sessão de perguntas e respostas seria ígual (com os dois autores separados). António aceitou e assim foi. Luís percebeu a razão para o mudança e fui obrigado a pedir-lhe desculpa. Ele, muito cordialmente, respondeu que eu não precisava de me descupar, que ele tinha percebido muito bem o que tinha acontecido.

    Nunca antes falei deste espisódio. E não queria. Não gosto de criticar outros autores. Ainda por cima, não queria reviver um momento muito complicado para mim e para o Luís. Foi, de facto, horrível.
    Estou a colocar este post agora porque vejo-me forçado a descrever rigorasamente o que, de facto, se passou.
    (E já agora, o meu apelido é Zimler (não Zimmler). Moro no Porto há 30 anos e recebi a medalha de honra da Cidade do Porto em 2017 e os jornalistas e editores do JN ainda não sabem escrever o meu nome! Devia eu chorar ou rir?).

  • Este texto no JN não representa exatamente o que aconteceu. Quero esclarecer. Organizei todo o programa de “Sob Influência.” Na primeira noite, queria ter impacto e convidei dois escritores muito conhecidos em Portugal, Lobo Antunes e Sepúlveda. Estive com o Lobo Antunes e o Sepúveda antes e durante a sessão. A ideia da sessão (o formato) era de ter os dois autores no palco ao mesmo tempo. Sepúlveda falaria das influências sobre a sua escrita (literárias ou pessoais ou de qua...

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FRANCISCO MADRUGA NO PÓ DOS LIVROS

No pó dos livros
Dos livros e dos livreiros entre outros ofícios

Fala de Freixo de Espada à Cinta
O Sr. Mesquita, conseguiu ao fim de laboriosas buscas, nesse tempo não havia computadores nem internet, descobrir o sítio onde se vendiam os livros desse autor tão procurado pelos Espanhóis. De seu nome José Saramago, natural da Azinhaga do Ribatejo, prémio Nobel da Literatura e proscrito por um Secretário de Estado da Cultura que sentava as nalgas no Palácio da Ajuda, com a conivência do professor de Boliqueime.
Conseguiu então, O Sr. Mesquita, marcar uma ida do representante da Editorial Caminho a Freixo de Espada à Cinta.
Tudo combinado pelo telefone.
– Então vem quando?
– Vou aí no mês que vem. Faço um desvio quando for de Mogadouro para Moncorvo e desço a Freixo. É rápido.
– Não senhor. Vem, mas fica cá. Faço questão. Eu trato da dormida.
No dia combinado dei entrada na residencial, jantei e preparei a lição do dia seguinte. Saí, dei uma volta pela Vila e parei em frente a um estabelecimento “Supermercado Mesquita”. Espreitei para o interior, iluminado pelo candeeiro estrategicamente colocado em frente à montra, fui identificando os produtos à venda.
Plásticos, mercearia, eletrodomésticos, produtos agrícolas, mas de livros nada.
O material marcado em português e espanhol.
O tempo arrefecia, era novembro e os habitantes estavam em confinamento que amanhã era novo dia. No café em frente, falava-se alto e combinavam-se jeiras para o dia seguinte. Entro, não entro? Não entrei.
Voltei para a Residencial pela rua paralela que ladeava o jardim.
Peguei na chave na receção, subi. Deitei-me em vale de lençóis e adormeci de imediato.
Talvez fosse o único ocupante?
Pela manhã, tratei de dar corda aos sapatos que o dia ia ser longo.
Espreitei pela janela que dava para a praça, era já uma azafama de pessoas, a sair das carreiras.
Depois de aconchegado o estômago, abri o carro, levantei o capot, verifiquei o óleo, espreitei os pneus e passei para a frente a pasta com os catálogos e documentos.
A frente do Supermercado Mesquita, já estava ocupada com toda a panóplia de artigos para venda.
Entrei. Esperei para ser atendido e apresentei-me:
– Tenho um encontro marcado com o Sr. Mesquita, agora às 10.
– Ele disse que esperasse um bocadinho, teve que ir a casa.
Passados alguns minutos, entrou um senhor baixo, careca, todo atarefado. Devia ser o Sr. Mesquita, pensei eu.
– Sr. Mesquita, está aqui o Sr. dos livros do José Saramago.
– Bom dia, como está o Sr. Madruga, dormiu bem?
– Bom dia Sr. Mesquita, prazer em conhecê-lo.
– Vamos ali ao café e conversamos um bocadinho.
Entramos e atacou a fundo:
– Vai um generoso?
Olhei para o relógio. Marcava as dez e trinta.
– Pode ser.
– Este é bom, mas tenho ali um garrafão com generoso para lhe oferecer. Já tem cinco anos, é de estalo.
– Nem pense nisso.
– Até lhe levo a mal.
A conversa iniciou-se com à vontade de quem estava ali para fazer mais um amigo.
– Sabe, eu não percebo nada disto. Nunca li nada, muito menos do Saramago. Mas há por aí uns professores do Ciclo que procuram, algumas pessoas que vêm de fora e claro os Espanhóis. Dantes compravam panos, agora só querem os livros do Saramago. Sabe, Salamanca fica aqui muito perto e até vêm de Zamora. Até já tenho livrarias de Salamanca que me dizem que vêm cá comprar.
– Mas o Sr. Mesquita quer montar uma livraria? Precisa de mobiliário e de alguma arrumação na loja para ter um espaço próprio para os livros. Tem que montar cortinas na montra para o sol não queimar as capas.
– Oh Sr. Madruga eu quero servir os clientes mas tem que ser como está.
– Também serve, o que lhe interessa é ter os livros e vendê-los.
– Então o que me aconselha?
– O Saramago é óbvio. Mas se quer a minha opinião pode colocar também os livros da Alice Vieira, da Coleção Uma Aventura e depois vamos acompanhando as vendas. Se precisar de mais telefona. Combinado?
– Pois então está bem. Vamos ao Supermercado para lhe dar o garrafão.
– E depois como lho devolvo?
– Quando cá voltar novamente.
Despedimo-nos como dois velhos amigos.
Passados alguns dias, ao passar pela receção/faturação em Miguel Bombarda, vi a Domitilia perfeitamente à nora com uma chamada.
– Oh minha Senhora, já lhe disse que queria 6 exemplares do último do José Saramago.
– Eu ouvi. Só lhe estou a perguntar se não quer 12/13?
– Não. O Sr. Mesquita diz que só quer 6.
– Mas olhe que o 12/13 é melhor. Caso não venda devolve.
– A senhora desculpe, mas olhe que estou a falar de Freixo de Espada a Cinta.
– Eu sei, é o novo cliente.
– Mas então veja bem. Já vendemos os 10 livros que vieram, se vendermos mais 6, não é nada mau. Isto é Freixo de Espada a Cinta.
– Estava difícil Domitilia.
– A culpa é tua, metes livros em todo o lado.
– Mas o que é queres, eles não têm culpa de venderem livros em Freixo de Espada a Cinta.
Passados alguns anos fui abrindo as garrafas do “Generoso” do Sr. Mesquita. Aquele era do “bordadeiro” e genuíno.
O garrafão não voltou, mas ficou a ousadia de alguém que não tendo ligação aos livros deu uma preciosa ajuda na divulgação do livro e incentivo à leitura.

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francisco madruga, uma crónica do sr adroaldo

O Adroaldo, o Sr. Adroaldo

13 de abril de 2020, ano do vírus apelidado de 19 – COVID
Inicia-se mais uma semana, último dia de proibição das transumâncias entre concelhos.
Está sol.
Um nervoso miudinho vai tomando conta da minha carola. Sem perspetivas, sem tempo e sem luz ao fundo do túnel.
Tinha organizado as minhas férias para finalmente cumprir um desejo sempre adiado.
Fazer-me convidado dos pastores da minha terra. Levantar às 4 da matina para deitar o gado pela fresca. Caminharmos ainda no escuro, orientar-nos pelo rasto das ovelhas e pelo latido dos cães de guarda. Ao longe, depois de subida a ladeira, o dia começaria a nascer, os raios solares encheriam de vermelho alaranjado o tapete por onde os rastos deixados pelos aviões deslizariam lentamente marcando sulcos a mais de 10 000 metros de altitude.
Espero um dia conseguir concretizar este meu desejo de ser pastor por uns dias. Dirão os que me conhecem, que tudo isto será uma maneira de me abanquetar com as merendas. Talvez de tudo um pouco.
Nestes dias, continuamos a nossa sina de humanos galvanizados pelo imediato, esperando pelo momento de voltarmos a atacar a voracidade da vida.
O Papa, pede o fim das guerras e do fabrico de armas. As Misericórdias, querem que o Estado lhes leve os utentes pelos quais recebem mensalmente contribuições da Segurança Social. Bombeiros, Autarcas, Associações ecológicas e grupos de interesse movimentam-se para garantir o seu momento de glória. Um destes dias, saberemos quanto é cada uma destas e outras instituições recebem do orçamento de estado. Hoje, por hoje deveríamos encaminhar todos os esforços para o combate à Pandemia. Hoje, por hoje seria tempo de todos os setores estarem a remar para o mesmo lado. Mas não, todos se movimentam rumo ao lucro.
Voltaremos daqui por algum tempo, mais frágeis, com menos direitos e menos soluções.
Dizem-me que as crises são momentos ótimos para reorganizar a vida, inventar, progredir e ganhar.

No pó dos livros
Dos livros e dos livreiros entre outros ofícios

Recebi no domingo de Páscoa a notícia. Servida pela manhã, sem aviso prévio apesar de saber o seu estado de saúde.
O Adroaldo, o amigo, o cidadão, o autarca e o Livreiro tinha partido.
Conheci o Adroaldo há muitos anos. Fomos cimentando a nossa amizade na cumplicidade da construção da Democracia em Mogadouro e da relação com os livros.
A sua Livraria coexistia paredes meias com as estátuas de S. Sebastião e de Trindade Coelho.
Entrava-se na sua loja, onde se vendia de tudo. Na sala do fundo, estavam os livros.
O Pai, o Senhor Carvalho, tinha uma loja na rua de Santa Marinha. Ali literalmente vendia-se de tudo.
O seu balcão escondeu sempre a cumplicidade com os mais desfavorecidos, com os que pagavam o livro escolar a prestações. Lá estava o livro de merceeiro com o balancete do deve/haver.
– Está a ver. Ainda tenho isto tudo para receber e alguns do ano passado.
Como a generalidade das livrarias, a Livraria Carvalho vendia os livros de maior rotação.
As vendas não eram muitas e isso levava a que nem todas as casas editoriais visitassem o interior.
Muitas vezes, aproveitava a ida ao Porto para completar um ou outro pedido de cliente.
Mas o Adroaldo era muito mais que Livreiro.
Foi autarca eleito pelo Partido Socialista, cúmplice na construção da Liberdade e da Democracia.
Numa das comemorações do 25 de Abril foi alterada a Assembleia Municipal de Ordinária para Extraordinária de modo a não existir tempo para o público.
No final, como habitualmente realizava-se o almoço comemorativo.
O Francisco Cordeiro, eleito pelo PS, propôs que os representantes partidários não eleitos fossem convidados. Ninguém se pronunciou.
Foram todos saindo. O Francisco Cordeiro, o Ilidio Martins (Lila), o Fernando Bártolo, o Fernando Leitão e o Adroaldo acompanharam-me para o Kalifa. Ali almoçamos e marcamos um almoço para o 25 de Abril do ano seguinte.
Eram frequentes as sortidas do Adroaldo, do Lila e do Bártolo para fora de muros para usufruírem das paisagens, das pessoas e da gastronomia transfronteiriça.
Conta-se aliás, que numa dessas saídas foram buscar o Adroaldo a casa.
A esposa já em desespero atirou:
– Vocês levem-no e fiquem com ele.
O Lila e o Bártolo riram-se e lá foram.
Talvez para Fermoselle, Zamora, Miranda ou qualquer recanto da nossa terra.
Ultimamente o Adroaldo tinha-se reformado.
Na Livraria mandava a Carmo, dizia ele.
Na Transmontanices mandava o Paulo.
A Transmontanices é um daqueles locais onde se está bem. Aquela casa tem cultura.
No sótão fica o refúgio do Pimenta de Castro. Vão-se descendo as escadas e vemos história. Na parte inferior, onde morou a garrafeira, está a Transmontanices. Vinhos, queijos, azeite, doces regionais, livros, máscaras e muitas histórias.
Era aqui que o Adroaldo me recebia e me apresentava os produtos.
– Não se pode provar este?
– Tenho ali uma garrafa no frigorifico mas é do Lila. Foi para provarmos com o Bártolo.
– Leve que vai bem servido.
– Os vinhos estão um pouco caros.
– Eu gosto mais do branco.
Deve ter sido assim uma das últimas conversas.
Depois da apresentação do meu livro na Biblioteca Municipal Trindade Coelho lembrou-me:
– Fale com o Paulo, faremos muito gosto em vender o seu livro.
Um abraço Amigo Adroaldo, vou sentir a tua falta na ombreira do teu soto.
Vamos juntar-nos um destes dias para te recordarmos afetivo, companheiro e cidadão de corpo inteiro.

Comments
  • Ivone Ferreira Uau! Muito bom. Beijinho

    Ivone FerreiraIvone Ferreira replied

    2 replies 36m

  • Mané Fonseca A tua perspectiva do hoje e as crónicas da tua vida são FANTÁSTICAS 😊

    Francisco MadrugaFrancisco Madruga replied

    1 reply 49m

  • Inês Patrício Muito bonita a homenagem.

    Francisco MadrugaFrancisco Madruga replied

    3 replies 43m

  • Francisco Madruga Ora cá estão eles #semprejuntos Adroaldo, Lila e Bártolo na apresentação do meu livro “Histórias(de)Vidas” realizada na Biblioteca Municipal Trindade Coelho.
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Visão | Covid-19: Dezenas de livrarias independentes criam rede para salvar setor

Mais de meia centena de livrarias independentes de todo o país uniram-se para criar uma rede de cooperação com o objetivo de conjugar esforços para enfrentar a crise no setor, agravada agora pelas condições criadas pela covid-19

Source: Visão | Covid-19: Dezenas de livrarias independentes criam rede para salvar setor

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A AMEAÇA PARA AS PEQUENAS EDITORAS

Umas contas de merceeiro, sem ofensa para os merceeiros: calculo que em Portugal existam activas umas 50 editoras (micros, muito pequenas, pequenas); com uma média de publicação anual de 6 títulos – ou seja, cerca de 300 títulos/ano. É este universo de livros (que não existem em mais nenhum espaço editorial) que está em risco. Corrijam-me os números, se estiver enganado.

Comments
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  • Francisco Madruga Mais ou menos isso. Não deve andar longe. Mas para essas não são as medidas tomadas que resolvemos o problema .
    • Carlos Alberto Machado O problema não é apenas de agora – e não se resolve com medidas de caridadezinha: o Ministério da Cultura deveria ter políticas de apoio ao sector. “Políticas” e “sector” não significam aquelas panelinhas com os grandes editores e com os autores arregimentados do regime que povoam festivas e feiras em Portugal e no mundo!
  • Carlos Alberto Machado Será que devo pôr um boneco?…
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