terminologia de Angola

in diálogos lusófonos

 

Expressões de Angola

A B C D E F G I L M P Q R S T V W Z

  • A
    ACA – Expressão que significa, de acordo com a entoação ou situação, enfado, repugnância, surpresa; alegria, alívio, espanto.
    AJINDUNGADO – Temperado com jindungo, picante.
    ALAMBAMENTO – Dote do noivo à família da noiva, regra geral em gado e outros animais domésticos, vestes, mantimentos ou dinheiro. O alambamento, condição fundamental para tramitação do noivado, é tratado entre as famílias dos nubentes, mesmo não se tratando do primeiro matrimónio. As regras variam ligeiramente, de etnia para etnia mas, princípio universal, a família da noiva obriga-se a devolvê-lo caso não se verifique a consumação do casamento ou em caso de divórcio. Também pode ser entendido como “tributo de honra prestado pelo noivo à família da noiva”.
    AMIGO DA ONÇA – Fraco amigo, amigo de “Peniche”.
    ANGOLAR – Antiga moeda que circulou em Angola entre 1928 e 1957 (a sua recolha terminou em 31 de Dezembro de 1959), tendo sido substituída pelo escudo.
    ANGOLENSE – Angolano; o natural, o habitante ou o que pertence ou se refere a Angola.
    ANHARA – Xana, planície arenosa, correspondente africano da charneca, na região central de Angola, atravessada por cursos de água, com vegetação rasteira formada principalmente por gramíneas e arbustos de pequeno porte, podendo apresentar-se alagada. O ongote (planta leguminosa arbustiva, com folhas compostas e flores minúsculas em pequenos cachos, característica da anhara angolana)é a típica personalidade vegetativa da anhara.
    ARMADO EM CARAPAU DE CORRIDAS – Armado em esperto, armado aos cucos.
    APAGAR O MAÇARICO – Morrer, lerpar, bater a caçuleta, fazer uafa.
  • B
    BAILUNDO – Reino do planalto central de Angola, fundado cerca de 1700 por Katiavala. Município e cidade da província do Huambo. Povo Vambalundu pertencente ao grupo etnolinguístico Ovimbundo . A designação Bailundo estendeu-se a todo o grupo. O falante de Umbundo; aquele ou o que pertence ou se refere a este grupo ou região; naturais do Huambo e Bié.
    BALEIZÃO – Gelado, sorvete; “Resultou do apelido de um fabricante desse gelado, o qual, em 1941, se havia estabelecido na cidade de Luanda.”
    BAMBI – (Cephalophus mergens) Pequeno antílope, também conhecido por cabra-do-mato, de pelagem castanha, com uma mancha mais escura ao longo da coluna dorsal; não ultrapassa 1m de comprimento, 55cm de altura ao garrote, 20cm de cauda e chifres direitos e delgados com 9cm de comprimento. Vive em matas fechadas, onde existam cursos de água próximos.
    BANGA – (Di-banga = envaidecer-se) Ostentação, presunção, vaidade; distinção, elegância, garbo. Causar sensação.
    BANZADO – Pensativo, admirado, assombrado, espantado, maravilhado.
    BATUCADA – Acto ou efeito de batucar; percussão do batuque; dança ou festa com batuques; barulho de batuques.
    BATUCAR – Fazer soar ou tocar o batuque; dançar ao som do batuque. Dar pancadas ou bater com as mãos num qualquer objecto a ritmo cadenciado. Bater aceleradamente (o coração).
    BATUQUE – (Ba atuka = local onde se salta e pula)Tuka saltar, pular. Instrumento de percussão; bombo, tambor. Apresenta formas e designações variadas de acordo com a região, aspecto, material utilizado na sua confecção e som produzido. O som produzido pela percussão do instrumento. Dança, divertimento ou festa com acompanhamento de batuques. Esta é a concepção mais moderna de batuque. Pode ter acompanhamento de vocalizações harmónicas, cânticos de cariz social, ou refrães apenas poéticos. Na verdade, o batuque é uma espontaneidade anímica dos povos africanos. Começou por ser uma manifestação que acompanhava os ritos fúnebres, tendente “à satisfação da alma a que se propicia semelhante folguedo, a fim de lhe minorar a tristeza, pelos entes que deixou. Nesta conformidade, as danças obituárias não constituem, como ordinariamente se julga, uma natural manifestação de folia, antes uma forma de expressão religiosa… Os batuques organizam-se de noite, geralmente começando à tardinha. Se respeitam a óbitos, podem durar noites inteiras, mesmo um mês.”
    BICANJOS – subúrbios, aldeias.
    BICHINHO DO MATO – Pessoa muito acanhada.
    BICUATAS – Tarecos.
    BITACAIA – Espécie de pulga criada (nos dedos dos pés).
    BICO-DE-LACRE – ( Estrilda astrild angolensis ) Ave passeriforme da família dos Estrildídeos, é um pequeno pássaro com 11,5 cm de comprimento originário de Angola. Devido à sua grande capacidade de sobrevivência em cativeiro emigrou para Portugal e Brasil, após a descolonização, foi solto na natureza e adaptou-se perfeitamente, integrando hoje a avifauna daqueles países. A plumagem é castanho-amarelada e tons de bege no peito, dorso e asas, peito com listras onduladas de branco e preto, ventre rosado, cauda vermelho-escura e bico cor de lacre. Apresenta uma banda ocular vermelha, larga e escura no macho e desmaiada e mais estreita ou inexistente na fêmea. Esta é mais pequena do que o macho e a plumagem é mais vistosa no macho e desmaiada na fêmea. O bico das crias é negro à nascença, torna-se alaranjado na primeira muda e só em adulto adquire o tom que dá o nome à espécie. Desloca-se em bandos numerosos que chamam a atenção pelos gritos estridentes incessantes. Vive em habitats abertos de silvados, savanas de gramíneas e espaços urbanos ajardinados. Alimenta-se no solo, de grãos, sementes e de toda a espécie de insectos, estes principalmente na altura de alimentação das crias. O ninho é construído no solo no meio do capim alto ou sob arbustos. É redondo e provido de um túnel de acesso, construído com raminhos, penas, palha e ervas. O macho constrói o abrigo e a fêmea dá-lhe o acabamento final, transportando penas e capim para o acolchoamento onde irá fazer a postura de 4-6 ovos que serão chocados pelos dois membros do casal, alternadamente de 2 em 2 horas, passando ambos a noite no ninho, durante cerca de 12 dias. Duas semanas depois de nascer as crias estão aptas a voar, embora continuem a ser alimentadas, durante algum tempo mais, pelos progenitores. Designa-se este por bico-de-lacre-comum já que existe outro bico-de-lacre de Angola; é o Estrilda thomensis , o bico-de-lacre-cinzento-de-angola, que tomou esta designação (thomensis) por se julgar, erradamente, ser originário de São Tomé e Príncipe. Difere do bico-de-lacre-comum essencialmente pelo colorido da plumagem, mais escura e sem as listras onduladas.
    BISSONDE – Formiga gigante que ferroava nas pessoas desprevenidas.
    BOMBÓ – Pedaços de mandioca descascada e demolhada. Depois de fermentada ou seca é moída, ou pisada, dando a fuba de bombó. Também se come assado, como acompanhamento para qualquer tipo de alimento.
    BOTECO – Botequim, bar de fracas qualidades.
  • C
    CABAÇA – Fruto da cabaceira, semelhante à abóbora, em forma de pêra, apresentando na parte superior uma espécie de gargalo pronunciado; pode ter a forma de um 8, em que o bojo inferior é maior do que o superior, estando separados por um estrangulamento. Em Angola tem uma grande importância ancestral pois sempre foi o recipiente por excelência para armazenamento de líquidos, depois de seco e oco.
    CABACEIRA – ( Lagenaria siceraria sin. Cucurbita spp) Planta anual vigorosa, trepadeira ou prostrada, da família das Curcubitáceas, que pode alongar-se por 5m de comprimento. Apresenta flores tubulares com 5 pétalas, brancas ou amareladas, com 4,5cm. É originária de África, embora hoje esteja também presente na Europa, Ásia e América. O fruto, a cabaça, é muito utilizado como recipiente.
    CABEÇA-DE-PEIXE – (ou CABEÇA DE PUNGO) São epítetos por que são conhecidos os naturais ou habitantes do distrito de Moçamedes / província do Namibe. O bairrismo das populações pretende as águas separadas: os alexandrenses (naturais de Porto Alexandre) reivindicam a designação cabeças-de-peixe e os moçamedenses cabeças-de-pungo. As designações derivam do facto destas populações viverem essencialmente da pesca.
    CABRA-DE-LEQUE – ( Antidorcas marsupialis angolensis ) Mamífero artiodáctilo da família dos Bovídeos, a cabra-de-leque, é uma pequena gazela de 75 cm de altura, 1m de comprimento para um peso de 40-50 kg. É uma das gazelas mais velozes, podendo a atingir os 90 km/h e pode, com facilidade, dar saltos de mais de 5 m. A pelagem é castanha-avermelhada, com uma barra castanha-escura nas laterais junto à delimitação do ventre, que é branco. A alvura do ventre prolonga-se pela parte interna das patas. A garganta é branca bem como a face, que apresenta uma lista escura que se prolonga dos olhos ao nariz. No final do dorso onde nasce a cauda, branca, apresenta um triângulo de longos pêlos brancos que se abrem em leque durante a corrida, empreendida sempre que pressente algum predador. O leque destaca-se, brilhante, na poeira levantada pela manada. Esta acção, sempre acompanhada de vistosas cabriolas que mais parecem elegantes passos de ballet, servem para indicar a posição aos companheiros que seguem na retaguarda. O leque abre-se também, dramaticamente, no momento da morte. Os chifres, em forma de lira de pontas convergentes, são pequenos, não ultrapassam os 50 cm, apresentam anéis bastantes vincados e são mais desenvolvidos no macho sendo que na fêmea são mais finos e não apresentam convergência nas pontas. A fêmea atinge a maturidade sexual entre os 7 e os 12 meses, ao passo que o macho a alcança aos 2 anos de idade. O período de gestação é de 6 meses. Vive nas savanas abertas e regiões semidesérticas. Alimenta-se da parte aérea das plantas, de raízes e tubérculos. Se os vegetais de que se alimenta contiverem, no mínimo, 10% de humidade, o animal não necessita de beber.
    CACETE – Pau que serve para dar cacetadas.
    CACIMBA – Cova, lagoa ou poço que recebe água das chuvas; buraco aberto para se procurar ou armazenar água. Estação fria dos trópicos; chuva miudinha, orvalho, relento.
    CACIMBADO – Quem ou o que recebeu cacimbo; húmido, molhado; enevoado, nublado. Neurótico, perturbado, triste, tristonho; aquele que sofre de perturbações psíquicas, mormente dos traumas provocadas pela guerra.
    CACIMBO – É poca das chuvas, Inverno. Humidade própria dos climas tropicais e equatoriais; chuva miudinha, orvalho, relento; época das chuvas.
    CAÇULA – O filho mais novo.
    CADA CARANGUEJO NO SEU LUGAR – Cada macaco no seu galho.
    CAFECO, UFEKO ou UFEKU – Mulher jovem, púbere.
    CAGAÇO – Medo, muito medo.
    CALCINHA – Pessoa toda não-me-toques.
    CALEMA – Fenómeno natural da costa ocidental africana, caracterizado por grandes vagas de mar. A ondulação forma-se no alto-mar e a ressaca origina correntes muito fortes que, dirigindo-se para a costa, rebentam estrondosamente, provocando grandes estragos.
    CALHAU COM OLHOS – Pessoa com muito poucas capacidades intelectuais, pouco inteligente.
    CALONJANDA – Expressão que quer dizer que alguém tem os pés tortos (virados para fora).
    CALULU – R ama da batata-doce. Prato típico de guisado à base de peixe ou carne, tendo como ingredientes (calulu de galinha) cebola, tomate, pau-pimenta, louro, jindungo , couve, quiabo , beringelas, e óleo de palma, engrossando-se o molho com farinha de trigo. Acompanha-se com arroz. Guisado de peixe, fresco e seco, tendo como ingredientes quiabo, abóbora, tomate, cebola, rama de cará ou de mandioca , jimboa e óleo de palma. É acompanhado de pirão ou funje . “Esta designação, usual entre as populações do Sul e Centro de Angola, corresponde, pela identidade da iguaria, à de funje de azeite de palma.
    CAMACOUVE – Comboio de mercadorias que efectuava paragens em todas as estações e apeadeiros transportando correio e materiais diversos.
    CAMANGA – Diamantes.
    CAMANGUISTA – Negociante de diamantes.
    CAMAPUNHO – Pessoa desdentada dos dentes da frente.
    CAMBUTA – Pessoa de baixa estatura, um quase anão.
    CAMUECA – Mal-estar, doença.
    CAMUNDONDO – Natural de Luanda. Rato.
    COMBOIO MALA – Comboio do Caminho de Ferro de Benguela que transportava os passageiros entre a cidade do Lobito e Vila Teixeira de Sousa, mais tarde Dilolo.
    CANDINGOLO – Bebida confeccionada pelos nativos indígenas, sem qualquer qualidade mas com muito álcool, uma espécie de cachaça muito mais forte.
    CANDENGUE – Criança, miúdo, rapaz; o irmão mais novo.
    CANDINGOLO – Bebida licorosa preparada a partir da hortelã-pimenta. “Em sua preparação, entram normalmente as seguintes quantidades de ingredientes: 1 litro de álcool puro, 2 de água, 0,5 de açúcar branco e essência de hortelã-pimenta. Reduzido o açúcar a calda, junta-se esta, depois de esfriada, ao álcool, ministrando-se por fim, a essência.”
    CANDONGA – Permuta, contrabando.
    CANDONGUEIRO – Aquele que faz candonga.
    CANGALHO – Carro velho.
    CANGONHA – Liamba ou Diamba .
    CANGULO – Carrinho de mão.
    CANHANGULO – Arma antiga de fabricação caseira (regra geral).
    CANIÇO – Cana delgada.
    CAPANGA – Esbirro; guarda-costas, indivíduo que faz a segurança pessoal de alguém.
    CAPIM – Nome genérico por que são conhecidas as plantas gramíneas e ciperáceas, geralmente forraginosas; chegam a cobrir enormes extensões de terreno e atingem altura relativamente elevada após as chuvas, formando grandes pastos naturais; erva; relva.
    CAPINA – Capinação, Monda, Sacha. Acto ou efeito de capinar; desbaste do capim.
    CAPINAR – Mondar, Sachar. Cortar o capim, limpar o terreno de capim, mondar.
    CAPINZAL – Terreno coberto de capim.
    CAPOTA – (Numida meleagris) A capota, pintada, galinha-de-angola ou galinha-do-mato é uma ave Galiforme da família Numididae, oriunda de África, que tem a particularidade de apresentar a cabeça nua de penas, com uma crista ou capacete no topo e barbelas por baixo da base do bico. Estes apêndices servem, muito provavelmente, para a ave regular a temperatura do cérebro. A plumagem é cinzenta prateada com pintas brancas. Prefere os habitats semiáridos e a savana, mas também pode ser vista na orla de bosques ou florestas É uma ave monogâmica embora se junte em grandes bandos, fora da época de reprodução. Alimenta-se no solo e abriga-se nas árvores, sempre que isso é possível. O nome específico, bem como as pintas que lhe cobrem as penas por todo o corpo, estão ligadas à mitologia grega: as meleágridas, irmãs do herói Meleagro que morre após matar a própria mãe, ao chorarem a sua morte cobrem-se de lágrimas e são transformadas em aves cuja plumagem se cobre de pintas lacrimais. É uma ave de fácil domesticação.
    CAPUTO – Português; a Língua Portuguesa; aquele ou o que pertence ou se refere a Portugal.
    CARA DE CU À PAISANA – Cara de traseiras de tribunal, cara de poucos amigos.
    CARCAMANO – Sul-africano.
    CARDINA – Bebedeira, pifão, pifoa, piruca, piela.
    CARREIRO – Caminho estreito aberto no mato.
    CARIANGO – Biscato.
    CARÁ – (pomoea batatas) Nome popular porque é conhecida, nas regiões do Sul de Angola, a batata-doce. Utiliza-se na alimentação de duas formas: assado ou cozido, acompanhando uma grande variedade de pratos, ou isoladamente.
    CASA DE PAU-A-PIQUE – Cubata feita com paus e barro.
    CASQUEIRO – Pão
    CASSANJE – (também Ka + sanji = galinha pequena) Vale na região de Malanje, a zona angolana mais produtora de algodão. A “Baixa do Kassanje” é célebre pela cultura intensiva de algodão.
    CATATUA – Arara.
    CATUITUI – ( Uraeginthus angolensis) Pequena ave Passeriforme com 11,5 cm.
    CAVÚLA – Mulher tchingandji.
    CAXIPEMBE – Bebida alcoólica resultante da fermentação de batata-doce ou de cereais e posterior destilação.
    CAZUMBI – Alma de um antepassado, alma penada, espírito errante; feitiço.
    CELHA – Pipo de vinho cortado ao meio, e que servia para se tomar banho ou para lavar roupa.
    CHAFARICA – Pequeno estabelecimento.
    CHICORONHO – Natural de Sá da Bandeira.
    CHINGANJIS – (ou Tchinganjis) Homens vestidos com fatos feitos de palha e outros materiais, com máscaras e que diziam ser sobrenaturais.
    CHINGUE – Cubata, palhota. Nalgumas circunstâncias era uma aldeia de palhotas.
    CHIPALA – Cara, face, rosto.
    CHIPRULENTO – Pessoa ciumenta.
    CHITACA – Fazenda, roça.
    CHITAQUEIRO – Dono da chitaca.
    CHORAR LÁGRIMAS DE CROCODILO – Chorar falsas lágrimas.
    CHURRASCO – Frango assado na brasa.
    CIPAIO – Polícia africano, ordenança adstrito às Administrações de Concelho e aos Postos Administrativos. Pertenceu aos Serviços de Administração Civil e actuava junto da população autóctone. O cargo era desempenhado por naturais.
    CONDUTO – Berera, molho para acompanhar o pirão
    COTÓTÓ – Unha de fome, forreta.
    CUANHAMA – Povo pertencente ao grupo etnolinguístico Ambó, de língua Tchikwanyama uma das línguas étnicas de Angola; o falante desta língua; aquele ou o que pertence ou se refere a este povo. Uma antiga lenda pretende explicar a origem da designação Ova-kwa-nyama, “os da carne”: “Uma pequena fracção da tribo donga deslocou-se para a floresta, à procura de víveres. Encontrou tanta abundância de caça e de peixe que resolveu fixar-se ali. Quando deram esta notícia ao soba, ele enviou emissários, ordenando-lhes que regressassem à terra tribal. A aludida fracção da tribo não quis, porém, obedecer à ordem emitida pelo soba. Este acabou por dizer: “Deixai-os lá com a sua carne”.
    CUANZA – (ou Kuanza) O grande rio de Angola.
    CUBATA – Casebre de barro seco, coberto de capim seco, folhas de palma ou mateba. Pode, também, ser de tábuas de madeira ou de aproveitamento de chapas metálicas. Também pode variar a cobertura, principalmente nas zonas urbanas onde se utiliza muito a folha de chapa zincada.
    CUCA – Marca de cerveja.
    CÚRIA – Comida, refeição.
  • D
    DENDÉM – (ou Dendê ) Fruto (drupa) do dendezeiro, de cor laranja-avermelhado quando maduro, composto por uma capa fibrosa (epicarpo), uma noz e uma amêndoa da qual se extrai o óleo ou azeite de dendém, muito utilizado em culinária. Pode ser consumido como petisco, cozido ou assado. Em doçaria prepara-se uma iguaria macerando o fruto em açúcar e erva-doce. Azeite de dendém, óleo de dendém, azeite de palma ou óleo de palma . O óleo ou azeite preparado a partir do dendém.
    DENDEZEIRO – (Elaeis guineensis) Variedade de palmeira originária da África tropical que atinge 20-25m de a. Do seu fruto, o dendém, prepara-se o azeite ou óleo do mesmo nome. As folhas são utilizadas na cobertura de habitações tradicionais e da sua seiva prepara-se o malavo.
    DIAMBA ou Liamba – (Cannabis sativa) Planta herbácea da família das Canabináceas, variedade de cânhamo, cujas flores e folhas, depois de secas, são utilizadas fumando-se como droga alucinogénia. A droga fabricada a partir desta planta. O seu consumo provoca habituação.
    DÁ-ME LICENÇA QUE O TOPE? – Expressão usada no gozo, pondo os dedos indicador e médio em círculo, no olho
    DOIS E QUINHENTOS – Vinte e cinco tostões.
  • E
    EMBALA – (banza, libata, quimbo ou sanzala) Aldeia ou sanzala do soba; palácio real, morada do chefe supremo. Genericamente na embala vivem o soba, as suas mulheres, filhos, noras e respectiva descendência. As casas estão dispostas em rectângulo ou círculo formando um terreiro interior onde existe, pelo menos, uma árvore, geralmente uma mulemba, à sombra da qual o soba se reúne com o conselho de anciães para resolução de conflitos e administração da justiça.
    ERVA SANTA MARIA – Erva medicinal.
    ESPIRRA CANIVETES – Pessoa muito magra.
  • F
    FAROFA – Farinha-de-pau preparada a frio como salada: cebola picada, azeite, vinagre e água suficiente para descompactar. Original e tradicionalmente o vinagre é substituído por óleo de palma.
    FAZER CAPIANGO – Fazer gamanço, rapinar.
    FEIJÃO KALONGUPA – Feijão encarnado.
    FEIJÃO MACUNDE – Feijão-frade, “ciclistas”.
    FRUTA-PINHA – Variedade de anona ou Sape-sape.
    FUBA – Farinha moída em grão muito fino, a partir de batata-doce, mandioca, massambala, massango ou milho. Farinha de bombó, farinha de mandioca fermentada. Farinha de quindele, farinha de milho.
    FUBEIRO – Comerciante que vende fuba; comerciante reles; pessoa reles.
    FUNJE – Pasta de farinha de mandioca. Prepara-se batendo ou amassando a farinha com o luico, em água a ferver, até adquirir uma consistência pegajosa e sedosa. É acompanhado com caldo de peixe fresco, peixe seco ou muamba de carne, legumes e um molho próprio (para a confecção do funje ver FUNGERARD).
    FUNJADA – Funje com um bom conduto.
  • G
    GABIRU – Malandrão, sacripanta, vígaro.,
    GÂMBIAS – Pernas altas.
    GANDULO – Malandrão.
    GINGUBA – ( Macoca , Quifufutila ou Quitaba) Amendoim, planta da família das Faseoláceas ou Leguminosas, também conhecida por amendoim. As folhas apresentam quatro grandes folíolos ovados. As flores são amarelas e reunidas em espiga nas axilas das folhas. Depois de fecundada, a estrutura que envolve o ovário alonga-se e penetra no solo, onde amadurecem os frutos, vagens oblongas com 1-4 sementes. As sementes são comestíveis e delas se extrai um óleo alimentar. É utilizada na alimentação, torrada ou cozida, em variados pratos e em doçaria.
    GOMA – Instrumento musical de percussão; batuque, bombo, tambor. Tradicionalmente é construído de um tronco escavado de mafumeira, com as duas extremidades abertas. Uma delas é depois coberta com pele de antílope ou veado, apertada sob tensão. O seu tamanho varia de região para região, podendo atingir 1,5 m de comprimento, motivo pelo qual o tocador monta ou se encavalita no instrumento. A afinação é feita por aquecimento da pele. Apresenta formas e designações variadas de acordo com a região, aspecto, material utilizado na sua confecção e som produzido.
    GONGA – Gavião, ave de rapina.
    GUELENGUE – Mamífero artiodáctilo da família dos Bovídeos endémico que atinge 200 kg de peso, com a estatura de 1,20 m e 90 cm ao garrote. A pelagem é de tom castanho-acinzentado muito claro; o ventre, branco, é separado dos flancos por uma barra preta; a face é branca com riscas pretas na zona dos olhos e rodeando a parte alta do focinho; a cauda, de crina longa, é preta bem como as patas, acima dos joelhos. Ambos os sexos apresentam chifres, em forma de lança, anelados, longos e voltados para trás e para o alto, sendo os da fêmea (1m) mais compridos e mais finos do que os do macho (75cm). Habita territórios secos, em zonas semidesérticas de pequena pastagem e savanas abertas fazendo, por vezes, incursões aos bosques abertos em busca de pastagens. Alimenta-se de herbáceas, raízes, tubérculos e rizomas. Passa vários dias sem beber e pode ser encontrado muito longe das fontes de água.
    GULUNGO – (Tragelaphus scriptus) Mamífero artiodáctilo da família dos Bovídeos. O gulungo é um antílope africano de porte médio, com 1-1,5 m de comprimento e pesa de 25 a 80 kg. Distribui-se pelo Leste de Angola. Tímido e desconfiado, emite balidos quando perseguido ou perturbado. Vive, solitário ou aos pares, em bosques densos, pequenas montanhas ou savanas arbustivas, sempre perto de cursos de água permanentes. Alimenta-se de herbáceas, folhas, rebentos e frutos. As hastes do macho são curtas e espiraladas com pontas afiadas. O costado, percorrido por uma crina branca, é arqueado, tem orelhas grandes e cauda espessa. A pelagem é castanho-avermelhada com riscas brancas verticais nas partes laterais do tronco e manchas também brancas nas espáduas, quartos traseiros e face. A fêmea, que não possui armação, é mais pequena do que o macho e a sua pelagem é menos vistosa. Atinge a maturidade sexual dos 11 para os 12 meses, tem um período de gestação de 6 meses, com 1 cria por parto.
  • I
    IMBAMBAS – Tarecos, as coisas de uma casa.
    IMBONDEIRO – (Adansonia digitata) Árvore de porte gigante, da família das Bombacáceas. O tronco é grosso e bojudo, podendo atingir 20 m de altura e 10 m de diâmetro, chegando a armazenar 100.000 litros de água. Há exemplares que atingiram a idade de 3.000 anos. O seu fruto é a múcua. “… o imbondeiro é venerado no Leste de Angola e encarregado pela tradição de albergar determinados espíritos…”
    IMPALA – (Aepicerus melampus) Mamífero artiodáctilo da família dos Bovídeos com 50-60 kg de peso, a impala apresenta pelagem castanho-avermelhada, escurecendo no dorso e rosto, sendo que o ventre, os queixais, a linha dos olhos e a cauda são brancos. Uma zona de pêlos mais compridos do que o normal, de cor preta, cobre-lhe os calcanhares. Os chifres, esbeltos e só existentes no macho, podem atingir 1 m de comprimento e desenvolvem-se em forma de lira. A maturidade sexual é de 1 ano para os machos e 20 meses para as fêmeas com um período de 195 a 200 dias de gestação. É um antílope que vive na savana, em grandes manadas. Prefere zonas onde exista capim de porte baixo ou médio, com uma fonte de água por perto, condição que pode ser desprezada caso a erva seja abundante.
    IPUTA – Pirão.
    IR Á TUJE – Ir “a outra parte”.
    IR AOS GAMBUZINOS – Partida feita a um novo morador.
    IR PASTAR CARACÓIS – Ir pentear macacos, ir chatear outro.
    ISTO NÃO É CONGO ! – Expressão usada aquando das confusões naquele País.
    ISTO NÃO É DA MÃE JOANA ! – Aqui não é a casa da sogra!
  • J
    JINDUNGO – ( ou Gindungo ) Espécie de malagueta muito ardente e aromática, utilizada no tempero dos alimentos e confecção de molhos. Fruto do jindungueiro.
    JINDUNGUEIRO – Planta da família das pimentas, Solanáceas, nativa dos trópicos, que atinge 60-80 cm de altura e cujo fruto, o jindungo, é muito utilizado em culinária.
  • K
    KUANZA , Cuanza, Kwanza ou Quanza – O maior rio nascido em Angola, com uma extensão de 965 km e uma bacia hidrográfica de cerca de 148.000 km2. Nasce junto a Mumbué, no distrito do Bié, a uma altitude de 1.450 m e desagua no Atlântico, 40 km ao Sul de Luanda. É navegável até ao Dondo, a 200 km da foz. São seus afluentes, entre outros, os rios Kuiva, Luando e Lucala.
    KUATA – Agarra, apanha, pega, segura. Guerras de kuata! kuata! Guerras empreendidas, na época da escravatura, quer pelo exército português, quer pelos reinos angolanos mais poderosos, com o intuito de fazer escravos.
  • L
    LARICA – Estar cheio de traça, ter muita fome.
    LAUREAR O QUEIJO – Passear.
    LOMBI – ( LÔMBUAS ou SUANGA) Rama de alguns arbustos para condutos.
    LOSSAKAS E QUIABOS – Frutos verdes que se usam nos condutos.
    LUICO – Espécie de grande colher de pau ou bastão comprido com que se amassa ou bate o funje.
  • M
    MABOQUE – (Maboke ) Fruto do maboqueiro, de aspecto semelhante ao da laranja mas de casca muito dura (pericarpo ósseo) contendo inúmeras sementes envolvidas por uma abundante polpa gelatinosa com sabor agridoce ou sub-ácido. É também conhecido por laranja-do-natal e laranja-dos-macacos. Come-se ao natural ou temperado com açúcar. Pode também ser constituinte de salada de frutos, dando-lhe um sabor especial.
    MABOQUEIRO – ( Strychnos spinosa ) Arbusto de porte arbóreo, da família Lagoniaceae, muito ramificado. As pernadas e ramos são revestidos de uma grossa casca, com aspecto semelhante à cortiça. Produz um fruto muito apreciado, o maboque.
    MAFUMEIRA – ( Ceiba pentandra) (Eriodendron anfractuosum) Árvore frondosa da família das Bombacáceas que pode atingir 35 a 40 m de altura. O tronco é cilíndrico, sólido e grosso e atinge 3 m de diâmetro. A copa, arredondada ou plana, pode apresentar uma cobertura até 50 m. As folhas, caducas, são alternas e aglomeram-se nas extremidades dos ramos. As flores, dispostas em fascículos nas axilas de folhas que tenham caído, são grandes, com cinco pétalas brancas, rosadas ou douradas, muito perfumadas. O fruto é uma cápsula cheia de uma espécie de lã vegetal, designada capoca ou sumaúma, que envolve as sementes. A capoca é utilizada em colchoaria e das sementes extrai-se o óleo de capoca, usado no fabrico de sabões. A madeira é muito leve e suave e é, por isso, utilizada no fabrico de dongos isto é canoas compridas e relativamente largas.
    MACA – ( MAKA ) Conversa, dito, fala. Na tradição oral angolana as maka são “histórias narrativas de acontecimentos reais e verdadeiros ou tidos como tais… Evoca factos e acontecimentos do passado, uns verdadeiros, outros de origem lendária e fruto da imaginação, mas que se foram impondo como se de factos reais se tratasse.” Conversa decisória, conversação, assembleia pública ou familiar. Altercação, confusão, discussão, problema, sarilho.
    MAQUEIRO – Pessoa zaragateira.
    MALUVO – ( Marufo, Maruvo ) Bebida resultante da seiva fermentada das palmeiras, principalmente de palmito, bordão e matebeira. É uma bebida muito apreciada no Norte de Angola onde tem funções sociais precisas, como seja a cerimónia do alambamento, o final de uma maca ou o agradecimento ao voluntariado comunitário nas zonas rurais. Segundo uma lenda, o primeiro homem a extrair o marufo e a preparar o azeite de dendém foi Lenchá, escravo do Rei do Congo. A partir dessas descobertas nunca faltaram estas delícias na mesa do rei. Mas Lenchá levou as suas experiências ao ponto de deixar fermentar a seiva da palmeira, durante três dias. O rei achou o néctar delicioso e bebeu em doses elevadas. Apanhou a primeira bebedeira da sua vida . Com o rei viviam nove sobrinhos. Makongo, o mais velho, vendo o rei em tal estado julgou-o às portas da morte. Fez crer às mulheres do rei que tal situação resultava do veneno que lhe fora ministrado por Lenchá. Chamou os oito irmãos, levaram o escravo para longe de Banza Congo e queimaram-no vivo. O rei, ao acordar da bebedeira, estranhou a presença dos sobrinhos junto ao seu leito. Perguntou por Lenchá, o seu escravo querido. Posto ao corrente da situação proferiu sentença imediata contra a acção estúpida dos sobrinhos: seriam queimados, como o haviam feito ao seu servo. Antes, porém, que a sentença fosse executada, os nove sobrinhos fugiram da cidade e, atravessando o rio Zaire, formaram os nove reinos que passariam a constituir Cabinda.
    MANDA CHUVA – Patrão.
    MANDIOCA – ( Manihot utilíssima) Planta herbácea tuberosa, da família das Euforbiáceas, de grandes folhas divididas, flores pouco vistosas dispostas em cacho, muito utilizada na alimentação. É a base alimentar de muitos povos de Angola. Os tubérculos são utilizados de formas variadas. Expostos ao calor e moídos produzem a farinha de pau e a fuba de bombó com que se confecciona o funje. Também se consome em cru. Com as folhas prepara-se a quizaca. Tiras de mandioca secas ao sol, as macocas
    MANDIOQUEIRA – Termo popular que também designa a mandioca.
    MANGA – Fruto da mangueira. É uma drupa de forma ovóide oblonga com 15-25 cm de comprimento, de cor verde-amarelada, amarela ou avermelhada quando madura. A polpa é amarela, sumarenta e fibrosa.
    MANGA DE CAPOTE – Macarrão.
    MANGONHA – Farsa, mentira. Indolência, moleza, preguiça.
    MANGONHAR – Dar-se à mangonha, mandriar, molengar, preguiçar.
    MANGONHEIRO – Indolente, calaceiro, mandrião, molengão, preguiçoso.
    MANGUEIRA – ( Mangifera indica) Árvore da família das Anacardiáceas de copa densa e arredondada, tronco grosso, que chega a atingir 20 m de altura, com ramos numerosos que lhe dão um porte majestoso. As folhas de cor verde-escuro são perenes, coriáceas, simples, de forma lanceolada ou oblonga, com 15-30 cm de comprimento. As flores, que nascem em panículas piramidais terminais, são pequenas e de cor verde-amarelada. O fruto, a manga, é muito apreciado.
    MANGUITO – Gesto obsceno.
    MARIMBA – Instrumento musical do grupo dos idiofones, semelhante ao xilofone e constituído por uma cadeia de cabaças, servindo de caixa de ressonância, encimada por uma série de faixas de madeira ou metal (teclas) que são percutidas com uma baqueta apropriada. Pode apresentar corpo direito (recto) ou curvo, com quinze a dezanove teclas, havendo notícia de marimbas com mais de vinte teclas. Em cerimónias religiosas é comum uma marimba ter tamanho reduzido, apenas duas a quatro teclas.
    MASSAROCAS – Espigas de milho.
    MATA-BICHO – Pequeno-almoço (de faca e garfo).
    MATABICHAR – Tomar o pequeno-almoço.
    MATACO – Bunda, nádegas, traseiro.
    MATARRUANO – Patego.
    MATETE – Papa de farinha de milho.
    MATRINDINDE – Insecto ortóptero saltador, semelhante ao gafanhoto, com 7-10 cm, de cor arroxeada que, com a vibração das asas, produz um som semelhante ao da cigarra. O seu aparecimento indicia o início da época do cacimbo. Chega, por vezes, a constituir uma praga.
    MATUMBO – Estúpido, tacanho, ignorante, inculto, provinciano.
    MERENGUE – Ritmo de dança muito animado.
    MESSENE – Mestre, mestre de ofício, professor.
    MILONGO – Medicamento, remédio; qualquer fármaco.
    MISSANGA – Pequenas contas de vidro ou outro material com que se confeccionam colares, pulseiras e outros adereços, também utilizadas nas tranças dos penteados tradicionais. Há designações variadas para as missangas usadas em cerimónias tradicionais. Variedades de missangas adoptadas em colares ou relicários consagrados aos espíritos.
    MOKOTÓ – Pé de boi preparado para confeccionar comida.
    MORINGA – Bilha de água de gargalo estreito.
    MORRO – Monte, outeiro.
    MUAMBA ou Moamba – Líquido ou molho oleoso obtido por cozedura de massa de dendém pisado. Prato típico de guisado de galinha ou outras aves, carne de vaca ou peixe, com o referido molho, tendo como temperos e ingredientes azeite, alho, cebola, quiabo e jindungo. Dizendo-se simplesmente Muamba, está a referir-se a de galinha. Sendo de outra carne ou de peixe é necessário especificar, Muamba de… Tradicionalmente é acompanhado de funje ou pirão, mas também o pode ser com arroz. Também designa contrabando, negócio ilegal.
    MUCANDA – Carta, bilhete, papel; qualquer escrito. Recado.
    MÚCUA – Fruto do imbondeiro, constituído por uma massa ácida comestível e um emaranhado de fibras que envolvem as sementes.
    MUCUBAL – Povo Ovakuvale do grupo etnolinguístico Herero , que vive essencialmente da pastorícia.
    MUKENKO – Murro.
    MULEMBA – (Ficus thonningii sin. F. welwitschii) Figueira africana. Árvore sarmentosa da família das Moráceas, de seiva leitosa. Apresenta um porte elevado, chegando a 15-20m de altura, e a copa é volumosa e muito ramificada, sendo muito apreciada pela sombra que produz. Dá-se em terrenos secos e arenosos. Apresenta raízes aéreas, conhecidas popularmente por barbas. Os frutos, figos, que nascem nas axilas das folhas, com 8-12 mm de diâmetro, atraem uma grande variedade de pássaros. É a árvore real angolana, já que à sua sombra se reuniam os chefes e reis. Mulemba-xietu a mulemba da nossa terra.
    MULEQUE – Rapaz, criado, moço de recados. Malandro, preguiçoso, vadio.
    MUSSEQUE – Começou por designar os terrenos agrícolas pobres e arenosos, situados fora da orla marítima e em redor das cidades. A designação tornou-se extensível ao bairro de lata, bairro pobre, na cintura urbana das grandes cidades, principalmente em Luanda.
    MUXIMA – Vila e município da província do Bengo, na margem esquerda do rio Cuanza. É célebre a Igreja de Nossa Senhora da Muxima, ou da Conceição, de culto à Virgem Maria.
    MUXITO – Mata ou bosque denso.
    MUZONGUÊ – Guisado com peixe seco e fresco, com bastante jindungo e farinha de pau.
  • P
    PEITO-CELESTE – Este nome advém do colorido das penas do peito, azul celeste vivo no macho, sendo que as fêmeas além de um colorido menos vivo apresentam o ventre bege. O canto do macho é agradável e vigoroso. Vive em pequenos bandos, preferindo os terrenos cultivados, o campo aberto e a savana, mas também frequenta os limites urbanos desde que haja charcos de água por perto. Embora no campo seja mais fácil ocupar os ninhos abandonados pelos tecelões e outros pássaros, também constrói o seu próprio ninho com pedacinhos de mato seco e capim, chegando a fazê-lo na cobertura de colmo das cubatas. A sua postura é de 3 a 4 ovos. Alimenta-se de insectos, grãos, sementes e verdura fresca.
    PENEIRENTA – Pessoa vaidosa.
    PICADA – Estrada de terra batida de 3.a categoria.
    PILDRA – Prisão, chossa, xilindró.
    PILIM – Dinheiro, taco, carcanhol, bago, kumbú.
    PIPI – Pessoa vaidosa, calcinhas.
    PIRÃO – Iguaria gastronómica. Coze-se, conjuntamente, peixe fresco e seco com batata-doce ou mandioca. A água da cozedura, ainda quente, é temperada com óleo de palma ou azeite de oliveira, cebola e tomate, formando um caldo leve, o muzonguê. Acompanha-se com farinha de mandioca embebida no caldo. Embora o termo se tenha generalizado para o prato em si, é à farinha assim preparada que a designação é devida. Por acomodamento, em Angola deve chamar-se funje a massa confeccionada com fuba de mandioca e pirão a confeccionada com fuba de milho e similares. O pirão é característico das regiões do centro e Sul de Angola.
    PIRAR A ROSCA – Entrar em parafuso, ficar meio choné.
    PITANGA – Fruto comestível da pitangueira, de forma globosa, polarmente achatado, sulcado longitudinalmente e de aspecto brilhante. A polpa, alaranjada ou vermelha quando madura, tem um sabor adocicado, levemente ácido ou agridoce.
    PITANGUEIRA – Planta arbustiva da família das Mirtáceas, originária da América do Sul, muito provavelmente do Brasil. Pode atingir o porte de árvore, com 6 a 10 m de altura, com copa piramidal, tronco de 30 a 50 cm de diâmetro e cujo fruto, a pitanga, é muito apreciado. As folhas variam do vermelho ao verde-brilhante, da juventude à idade madura. As flores, genericamente, são brancas e aromáticas com floração abundante.
    PÓPILAS! – Chissa! Possa! Arre! Porra!
    PUNGO – Peixe perciforme marinho.
  • Q
    QUIABEIRO – (Hibiscus esculentus) Erva anual da família das Malváceas, de porte erecto que atinge cerca de 1m de altura, cultivada pelas folhas, frutos, sementes e fibras. O fruto, o quiabo, é muito utilizado em culinária.
    QUIABO – Fruto do quiabeiro , também designado quingombo , em forma de cápsula cónica, de consistência viscosa quando maduro, muito utilizado em culinária, nomeadamente na muamba.
    QUIMBANDA – (Kimbanda, Kimbandeiro, Quimbandeiro) Curandeiro; aquele que pratica a medicina tradicional. O quimbanda na tradição cultural bantu, como supremo ocultista, tem uma amálgama de poderes: é, simultaneamente, adivinho, curandeiro e feiticeiro.
    QUIMBO – (Embala, Libata, Sanzala) Aldeia rural tradicional, aldeia indígena, povoado, sanzala.
    QUINDA – Cesto sem asas, que servia para transportar cereais.
    QUISSÂNGUA – Bebida fermentada feita com milho ou com fuba.
    QUISSANJE ou Quissange – Instrumento musical do grupo dos lamelofones, constituído por uma tábua ou placa de madeira, onde estão fixadas várias palhetas ou lâminas de bordão, bambu ou metal, presas a um cavalete. Apresenta de sete a dezasseis palhetas, ou mesmo vinte e duas (muito raro). Pode ser-lhe adaptada uma cabaça truncada que serve de caixa de ressonância ou amplificador. O instrumento mantém-se preso entre as duas mãos e os dedos polegares fazem vibrar as palhetas.
    QUITANDA – Banca, tenda ou loja de comércio; negócio, venda; tratava-se, originalmente, de produtos hortícolas frescos, tendo-se esta acepção tornado extensível a qualquer tipo de comércio praticado nas mesmas condições. Tabuleiro, maleta ou quinda onde o vendedor ambulante transporta os produtos.
    QUITANDEIRO – Aquele que faz negócio em quitanda, dono de quitanda, pequeno comerciante, vendedor ambulante.
  • R
    REBITA – ( Massemba ) Farra de sanzala. Embora considerada tipicamente angolana, proveniente da área do quimbundo, resultou da aculturação, provavelmente de grupos étnicos portugueses. Posteriormente à sua formação, este bailado, em nova incorporação lusitana, foi, por esses elementos, designada por rebita. E o termo, antes restrito ao seu meio, generalizou-se à massa popular. Este género de diversão foi muito usado pelas gentes de Benguela, Catumbela e Bié.
    REVIENGA – Finta de corpo, movimento rápido em zig-zag, volteio rápido.
  • S
    SACANA – Malandro, sacariôto, sacripanta.
    SANGA – Cântaro ou pote de barro para transportar ou conservar água. Pote onde cai a água, filtrada por pedra porosa própria para purificá-la, ou o próprio conjunto pedra/pote.
    SANZALA ou SENZALA – Aldeia rural tradicional.
    SAPE-SAPE – ( Annona spp) Árvore da família das Anonáceas, também conhecida por anoneira. A árvore pode atingir 15 m de altura. As folhas, alternas, são perenes e de cor verde-escura. O fruto, cordiforme e coberto de saliências espinhosas, é segmentado, com um diâmetro de 10-12 cm, coloração exterior variando do amarelo-esverdeado ao vermelho quando o fruto está amadurecido e polpa branca de sabor adocicado. As folhas são utilizadas na medicina tradicional.
    SECULO – Ancião, velho; conselheiro do soba; homem respeitável. Corresponde a Cota, entre os quimbundos.
    SEMBA ou REBITA – Dança tradicional angolana caracterizada pelas umbigadas (sembas) dos dançarinos. Na sua forma mais genuína a dança é acompanhada por coros de sátira social a acontecimentos do quotidiano ou políticos.
    SÉTIMO ANO DE PRAIA – 4.a classe.
    SIPAIO – Polícia africano, geralmente adstrito às Administrações de Concelho e aos Postos Administrativos. Pertenceu aos Serviços de Administração Civil e actuava junto da população autóctone. O cargo era desempenhado por naturais.
    SIRIPIPI ou SERIPIPI – ( Colius castanotus) Pássaro frugívero, da família dos Coliídeos, o siripipi-de-benguela, também conhecido por rabo-de-junco-de-rabadilha-vermelha, é uma ave com 35 cm de comprimento e 45-60 g de peso nativa de Angola, característica por apresentar, em ambos os sexos, uma crista e cauda duas vezes superior ao tamanho do corpo. A plumagem é cor-de-canela, a face é negra, o peito e garganta cinzentos, o ventre alourado pálido e a rabadilha vermelha. O ninho, em forma de taça, é construído pelo casal, oculto entre a vegetação e por vezes junto ao solo, com materiais vegetais e penas. A fêmea põe 2-5 ovos que são incubados por ambos, durante 2-3 semanas. A incubação começa no momento da postura do primeiro ovo, o que provoca que o ninho tenha crias em vários estádios de desenvolvimento. Os juvenis estão aptos a voar ao fim de 17 dias. Vive em matas e na orla das florestas. Voa pausadamente, dado o comprimento da cauda, em bandos de 5-8 indivíduos em fila indiana. Alimenta-se de rebentos, folhas e frutos de vegetação variada.
    SOBA – Autoridade tradicional, chefe do quimbo ou sobado; chefe tribal, régulo. O soba, em certas regiões, é escolhido pelo conselho de sobas; noutras a sucessão é matrilinear, sucedendo-lhe um sobrinho, filho de uma irmã.
    SOBADO – Território sob administração de um Soba.
    SUMAÚMA – Enchimento seco mas muito fofo para almofadas e colchões.
    SURRIADA GALINHA ASSADA – Expressão acompanhada de gesto com os dedos, a fazer pouco de outra pessoa
  • T
    TABAIBEIRA – (Opuntia ficus indica) Figueira-da-índia; Piteira.
    TABAIBO – Designação que se dá no Sul de Angola, por influência madeirense, ao fruto da figueira-da-índia ou tabaibeira. De forma ovóide, achatado nos pólos e recoberto de inúmeros espinhos, tem uma polpa muito sumarenta e sabor agridoce.
    TACANHO – Panhonha, patarôco.
    TACULA – (Pterocarpus tinctorius) Árvore de grande porte que chega a atingir 20 m de altura, endémica das matas de Angola. A madeira, de grande dureza e resistência, branca ou vermelha com veios vermelhos, é usada em mobiliário. É uma madeira de enorme beleza.
    TAMARINDEIRO – (Tamarineiro, Tamarinheiro, Tambarineiro) (Tamarindus indica) Árvore de tronco grosso, folhas pinadas e flores amarelo-avermelhadas, que fornece boa madeira e frutos comestíveis, o tamarindo.
    TAMARINDO – Fruto do tamarindeiro, comestível e também utilizado em farmacologia.
    TCHINDELE – Homem branco
    TEMPO DE CAPARANDANDA – Há muito tempo, tempo antigo.
    TIPOIA – Palanquim de tecido p/ transportar pessoas.
    TORTULHOS – Cogumelos grandes.
    TRINCA-ESPINHAS – Pessoa muito magra.
    TUQUEIA – Peixe miúdo (seco) pescado nas anharas de Camacupa e do Moxico.
  • U
    UMBUNDO – Povo do grupo etnolinguístico Ovimbundo e uma das línguas étnicas de Angola. O falante desta língua; aquele ou o que pertence ou se refere a este grupo.
  • V
    VENDER A BANHA DA COBRA – Vender com muita lábia, vender bem aquilo que não presta.
    VIMBAMBAS – Tarecos, as coisas de casa.
    VISSAPA ou Bissapa – Moita, sarça, silvado.
  • W
    WELWITSCHIA – ( Welwitschia mirabilis) Planta descoberta pelo botânico austríaco Frederico Welwitsch no século XIX. “A primeira informação que deste vegetal chegou à Europa transmitiu-a o seu descobridor a Sir William Hooker, reputado homem de ciência, em carta, escrita de Luanda, a 16 de Agosto de 1860… Tem a Welwitschia o tronco obcónico, de cor acastanhado, que se eleva poucas polegadas acima do terreno e é na parte superior achatado, bilobado e deprimido lateralmente, atingindo por vezes catorze pés de circunferência no seu máximo desenvolvimento. Segue-se-lhe, internando-se pelo solo, uma forte raiz, que só muito para a extremidade se ramifica e se divide em radículas. Das origens dos dois lóbulos nascem duas únicas folhas, largas, rijas e persistentes, que se estendem pela superfície da terra, fendendo-se com a idade. E junto à inserção das folhas partem duas hastes ou pedúnculos sustentando pinhas escarlates, em cujas escamas se abrigam flores solitárias. A Welwitschia é curiosíssima, não apenas por invulgar, mas ainda por se apresentar sempre repetida quase exclusivamente de numerosos indivíduos da mesma espécie que dão ao terreno um aspecto especial deveras interessante… A Welwitschia existe, porém, somente no Distrito de Moçâmedes.
  • X
    XANA ou Chana – Planície, savana, charneca africana.
    XINDELE – Branco, indivíduo de raça branca; Amo, senhor, patrão.
    XINGAR – Injuriar, praguejar.
    XITACA ou Chitaca – Pequena propriedade agrícola de subsistência; terreno para plantação; lavra.
  • Z
    Zamberenguenjê – estar com os azeites, estar zangado.Ver mais

códice* português do século XVI

indiálogos lusófonos

 

História da ciência

Descoberto códice* português do século XVI

Por Nicolau Ferreira (http://jornal.publico.pt/noticia/19-05-2012/descoberto-codice-portugues-do-seculo-xvi-24569167.htm)

Sabia-se que a cópia do manuscrito estava na Biblioteca Nacional, em Lisboa, mas só agora está a ser estudada nuno ferreira santos
Passou 250 anos no arquivo de uma cidade alemã, sem que se soubesse dele. É um manuscrito de Francisco de Melo, o maior matemático antes de Pedro Nunes As 122 folhas de autoria do matematico português Francisco de Melo são um objeto único: um manuscrito, em latim, com demonstrações de teorias de Euclides e Arquimedes. O documento é “belo”, dizem os historiadores.
Francisco de Melo também foi autor de empreendimentos cartográficos fundamentais para a compreensão da história. Os registros de documentos com mais de 400 anos nos ajudam a entender a importância de Portugal naquela época.Do resumo “Reflexões a propósito da reconstituição de um mapa corográfico de Portugal do começo de Quinhentos.” de Suzanne Daveau, onde é citado o matemático Francisco de Melo, texto publicado pelo Centro de Estudos Geográficos sdaveau@clix.pt passo um peque no trecho ( http://www.sge.org/fileadmin/contenidos/imagenes_ibercarto/actividades/Programa_workshop_Mar%C3%A7o_2011.pdf):ResumoA partir da lista toponímica e locativa de 1531 lugares de Portugal, contida num pequeno manuscrito ricamente iluminado, conservado na Staats‐und Universitätsbibliothek de Hamburgo, foi possível reconstituir os traços principais do mapa corográfico que lhe serviu de base. A marca de posse que abre o manuscrito sugere que este mapa foi oferecido, em 1526, ao Cardeal Infante D. Afonso, quando lhe impuseram o barrete cardinalício. Vários factos concordantes parecem designar o matemático D. Francisco de Melo, como o promotor do empreendimento cartográfico. A análise da repartição espacial, desigualmente exacta, dos diversos topónimos, em função da sua longitude e latitude, permite enunciar algumas hipóteses sobre as fontes e as técnicas que foram usadas na construção do mapa. Verifica‐se que os erros são maiores na faixa litoral do que na parte oriental do país e que eles crescem de sul para norte.De modo que foi o litoral noroeste que sofreu a maior deformação.
* Códice: (ou codex, da palavra em latim que significa “livro”, “bloco de madeira”)
Quem pode passar/partilhar mais informações do “códice português do século XVI” agora descoberto ?
Aprendemos juntos!
Saudações lusófonas,
Margarida

 

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DAVID CRYSTAL E O 1º COLÓQUIO DA LUSOFONIA 2001-2002

 

Recentemente (2001) o emérito linguista anglófono Professor David Crystal escrevia dizendo ”O Português parece-me que tem um futuro forte, positivo e promissor, garantido à partida pela sua população-base de mais de 200 milhões, e pela vasta variedade que abrange desde a formalidade parlamentar até às origens de base do samba. Ao mesmo tempo, os falantes de português têm de reconhecer que a sua língua está sujeita a mudanças, tal como todas as outras, e não se devem opor impensadamente a este processo.”
“Quando estive no Brasil, no ano passado, por exemplo, ouvi falar dum movimento que pretendia extirpar todos os anglicismos. Para banir palavras de empréstimo doutras línguas pode ser prejudicial para o desenvolvimento da língua, dado que a isola de movimentações e tendências internacionais. O inglês, por exemplo, tem empréstimos de 350 línguas, incluindo Português, e o resultado foi ter-se tornado numa língua imensamente rica e de sucesso. A língua portuguesa tem a capacidade e força para assimilar palavras de inglês e de outras línguas mantendo a sua identidade distinta. Espero também que o desenvolvimento da língua portuguesa seja parte dum atributo multilingue para os países onde é falada, para que as línguas indígenas sejam também faladas e respeitadas, o que é grave no Brasil dado o nível perigoso e crítico de muitas das línguas nativas.[1]
Posteriormente contactei aquele distinto linguista preocupado com a extinção de tantas línguas e a evolução de outras, manifestando-me preocupado pelo desaparecimento de tantas línguas aborígenes no meu país e espantado pelo desenvolvimento de outras. Mostrava-me preocupado sobretudo pelos ismos que encontrara em Portugal após 30 anos de diáspora.
Mesmo admitindo que as línguas só podem ter capacidade de sobrevivência se evoluírem eu alertava para o facto de recentemente terem sido acrescentadas ao léxico 600 palavras pela Academia Brasileira em 1999 das quais a maioria já tinha equivalente em português.
Sabendo como o inglês destronou línguas em pleno solo do Reino Unido, tal como Crystal afirma no caso dos idiomas Cúmbrico, Norn e Manx, perguntava ao distinto professor qual o destino da língua portuguesa, sabendo que o nível de ensino e o seu registo eram cada vez mais baixos, estando a ser dizimados por falantes ignorantes, escribas, jornalistas e políticos sem que houvesse uma verdadeira política da língua em Portugal e alguns esforços para criar uma no Brasil.
A sua resposta[2] em março último (2002)pode-nos apontar um de muitos caminhos, que espero ver tratados neste fórum aqui hoje. Diz Crystal:
As palavras de empréstimo mudam, de facto, o caráter duma língua, mas como tal não são a causa da sua deterioração. A melhor evidência disto, é sem dúvida a própria língua inglesa que pediu de empréstimo mais palavras do que qualquer outra, e veja-se o que aconteceu ao Inglês. De facto, cerca de 80% do vocabulário inglês não tem origem Anglo-Saxónica, mas sim das línguas Românticas e Clássicas incluindo o Português. É até irónico que algumas dos anglicismos que os Franceses tentam banir atualmente derivem de latim e de Francês na sua origem.
Temos de ver o que se passa quando uma palavra nova penetra numa língua. No caso do Inglês, existem triunviratos interessantes como kingly (Anglo-saxão), royal (Francês), e regal (Latim) mas a realidade é que linguisticamente estamos muito mais ricos tendo três palavras que permitem todas as variedades de estilo que não seriam possíveis doutro modo. Assim, as palavras de empréstimo enriquecem a expressão. Até hoje nenhuma tentativa de impedir a penetração de palavras de empréstimo teve resultados positivos. As línguas não podem ser controladas. Nenhuma Academia impediu a mudança das línguas.
Isto é diferente da situação das línguas em vias de extinção como por exemplo debati no meu livro Language Death. Se as línguas adotam palavras de empréstimo isto demonstra que elas estão vivas para uma mudança social e a tentar manter o ritmo.
Trata-se dum sinal saudável desde que as palavras de empréstimo suplementem e não substituam as palavras locais equivalentes. O que é deveras preocupante é quando uma língua dominante começa a ocupar as funções duma língua menos dominante, por exemplo, quando o Inglês substitui o Português como língua de ensino nas instituições de ensino terciário. É aqui que a legislação pode ajudar e introduzir medidas de proteção, tais como obrigação de transmissões radiofónicas na língua minoritária, etc. existe de facto uma necessidade de haver uma política da língua, em especial num mundo como o nosso em mudança constante e tão rápida, e essa política tem de lidar com os assuntos base, que têm muito a ver com as funções do multilinguismo.
Recordo ainda que não é só o inglês a substituir outras línguas. No Brasil, centenas de línguas foram deslocadas pelo Português, e todas as principais línguas: Espanhol, Chinês, Russo, Árabe afetaram as línguas minoritárias de igual modo.”
Por partilhar a opinião do professor David Crystal espero que no final deste encontro possam os presentes voltar para os seus locais de residência com soluções e propostas viáveis deRepensar a Lusofonia como instrumento de promoção e aproximação de culturas sem exclusão das línguas minoritárias que com a nossa podem coabitar.


[1] Carta de David Crystal 16/02/2001 a Pedro Kaul do governo brasileiro, citada no fórum Ajudar Timor em 16/03/2001
[2] Carta de David Crystal ao autor (Chrys Chrystello) em 25 Março 2002

Eduardo Mayone Dias CARTA DA CALIFÓRNIA,- A língua portuguesa ontem e hoje

 

CARTA DA CALIFÓRNIA, Eduardo Mayone Dias

 


1. Das origens à Idade Média

Pouquíssimo se sabe das mais remotas origens da língua portuguesa, os
falares da Península Ibérica pré-romana. É contudo de supor que em franjas litorais e em planícies separadas por altas serranias se tenham desenvolvido diferentes enclaves linguísticos que com o rolar dos séculos hajam originado os grupos galego/asturiano/português, basco/ navarro, castelhano/extremenho/andaluz e aragonês/catalão/ valenciano.
Esta é a pré-história do Português. A proto-história tem início com a invasão romana, durante a qual o latim foi imposto em todos os atos públicos, que podiam ir da administração até simples transações comerciais, e afogou os regionalismos linguísticos.
Desde os nossos primeiros anos de escola aprendemos que os legionários e colonos, gente do povo, aliás nem todos romanos, não falavam o latim clássico mas sim o vulgar, que pouco a pouco se foi mesclando com as variantes locais, dando assim origem às quatro línguas românicas hoje oficiais na Península, galego, português, castelhano e catalão.
Durante o período romano, cerca de seis séculos, (1) o latim ia evoluindo e novas formas verbais foram criadas. Para dar um prosaico exemplo, as
primeiras vagas colonizadoras usaram o termo “scopa”, que resultou “escombra” em catalão e ‘escoba’ em castelhano. Quando as últimas levas chegaram à costa oeste traziam um mais moderno vocábulo, “basaura”, que deu “vasoira” em galego e “vassoura” em português.
As inovações introduzidas pelos romanos implicaram naturalmente inumeráveis termos, referentes a todas as formas de vida. Assim, por exemplo, ao serem criados novos procedimentos agrícolas, surgiram nomes de utensílios que deram em português charrua, arado, enxada, sacho ou machado. Também do grupo celta, possivelmente através de uma tardia latinização, vieram vocábulos como cerveja, camisa, carro, lousa e sabão. Como bem se sabe, depois de se haver corporizado a língua portuguesa, o latim persistiu ou foi revivido em expressões eruditas de variados campos do saber. Deste modo, por exemplo, na terminologia académica regista-se o doutoramento “honoris causa”, na diplomática a expressão “persona grata”, (2) na
jurídica “habeas corpus”,(3) na eclesiástica “urbi et orbi”, na lógica “quod
erat demonstrandum”, na estilística “ipsis verbis” e muitíssimo mais.
Entre aproximadamente os anos 406 e 411 da era de Cristo várias tribos germânicas, entre as quais se destacaram os visigodos, invadiram a Península e derrubaram o poderio romano.
Havendo-se convertido ao cristianismo e adotado muito do estilo de vida romano, pelo ano de 476 os visigodos constituíam já uma aristocracia guerreira que iria dominar a Península por cerca de três séculos.
A ela se devem numerosas contribuições ao falar hispânico em especial relativas à arte militar (o próprio termo “guerra” é uma delas) ou à equitação, que acabaram por dar à língua portuguesa formas como baluarte, elmo, escaramuça, guarda, trégua, brandir, esgrima, dardo, flecha, espora, arreio ou galopar. Outras formas são sala, burgo, agasalho, ufano e ganso. Entre nomes próprios de origem germânica contam-se Alberto, Rodrigo, Humberto, Rogério, Fernando, Afonso, Gonçalo, Álvaro, Elvira, Berta, Ermelinda e Gertrudes.
Chegado o ano 711 uma nova era se abriu para a história peninsular e para o evoluir do idioma português. Foi pois nesse ano que hostes mouras, lideradas por árabes, cruzaram o Estreito de Gibraltar e numa guerra-relâmpago ocuparam toda a Península Ibérica, com exceção de um pequeno reduto nas montanhas das Astúrias.
De aí, uns dez anos depois de 711 (desconhece-se a data exata), no seguimento da batalha de Covadonga, os cristãos lançam o movimento da Reconquista que, ao impelir os invasores para o sul, deu origem a vários reinos, entre eles o de Portugal.
Dotados de uma avançada cultura, os muçulmanos introduziram novas técnicas em quase todas as áreas do conhecimento humano e com elas um fértil léxico que sobreviveu até hoje com cerca de 200 termos em português.
Na sua maioria os neologismos foram adotados juntamente com o artigo
definido “al” (al caid> alcaide) ou a sua condensação num simples “a” (a
ris>arroz).
Os árabes trouxeram produtos agrícolas, cujas designações se mantiveram na fala dos seus súbditos cristãos: alface, algodão, alfazema, amêndoa, alfarroba, alfafa, alcachofra, açúcar, haxixe, azeitona, açafrão e outros.
Do aperfeiçoamento dos cultivos e do processamento das colheitas ficaram nora (com a sua roda de alcatruzes, ainda usada no século XX em Portugal) açude (represa), atafona (moinho de vento) ou azenha (moinho de água).
Medidas de peso, superfície ou volume, por muito tempo empregadas, foram a arroba (cerca de quinze quilos), o alqueire (cerca de 25 metros quadrados), o arrátel (um pouco menos de meio quilo) e o almude (cerca de seis litros e meio). Quando se introduziu o sistema numérico hoje usado, em substituição do romano, divulgou-se o conceito de zero e a respetiva designação.
Para uso doméstico havia almofadas, alcofas, alcatifas, garrafas, almofarizes, alambiques, alguidares e alfinetes. (4)
Quanto à culinária temos o azeite, a açorda, o escabeche e as almôndegas.
Ainda há umas décadas existiam no Algarve, (5) região portuguesa de mais
longa permanência árabe, numerosas casas encimadas por “açoteias”, terraços onde se secavam frutos. E evidentemente, o interior podia ser decorado com “azulejos”.
Com o desenvolvimento de novas ou antigas técnicas especializaram-se
profissões e ocupações tais como alfaiate, arrais, alvanel (pedreiro), almoxarife (gerente de armazém), alcaide (governador militar e civil de um castelo e povoação adjacente), alfageme (fabricante de armas) e alcoviteira (intermediária paga de relações sexuais ilícitas).
A presença muçulmana na Península teve o ser termo no ano de 1242 em
Portugal com a tomada de Silves e a queda do Reino do Algarve e no de 1492 em Espanha, ao ser submetido o Reino de Granada.

NOTAS
(1) A ocupação militar da Península Ibérica durou de 218 AC até 17 AC. Uma vez radicado, o domínio romano manteve-se até a primeira década do Século V.
(2) É bem sabido que um enviado diplomático estrangeiro tem de obter essa classificação antes de apresentar as suas credenciais ao Presidente da República portuguesa. Um caso jocoso ocorreu durante o período do Estado Novo. Um diplomata latino-americano, designado pelo seu Governo como embaixador em Lisboa, foi considerado pelas autoridades portuguesas “persona non grata”. As suas qualificações eram impecáveis mas atraiçoaram-no os seus apelidos, Porras y Porras.
(3) Nas fachadas de muitos tribunais portugueses pode-se ler “DOMUS IUSTITIAE”, casa da justiça. Por outro lado o histórico edifício da Câmara Municipal de Bragança é conhecido como Domus Municipalis.
(4) Então significando palitos para os dentes.
(5) Algarve (al Gharb) significa “o Oeste”.
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O valor económico da língua portuguesa pode ser potenciado

 

O valor económico da língua portuguesa pode ser potenciado

 

A Língua Portuguesa é um património muito acima da sua actual valorização (José Paulo Esperança). É fundamental que Portugal aposte, economicamente, nos países lusófonos (Sousa de Macedo).

09-12-2011

«O Valor Económico da Língua Portuguesa» foi o tema de uma conferência organizada pelo Observatório da Língua Portuguesa e que teve como conferencistas o professor universitário José Paulo Esperança e o ex-secretário de Estado das Comunidades Luís Sousa de Macedo. E se para o docente a Língua Portuguesa é um património muito acima da sua actual valorização, para Sousa de Macedo é fundamental que Portugal aposte, economicamente, nos países lusófonos. “Uma língua é tanto mais valiosa quanto mais parceiros de utilização tiver, porque quanto mais pessoas a conhecerem, maior será esse valor”, lembrou o professor José Paulo Esperança, na abertura da conferência, realizada no passado dia 29 de Novembro, na Fundação Cidade de Lisboa.
Falada actualmente por mais de 240 milhões de pessoas em todo o mundo – 3,7 por cento da população mundial – a língua portuguesa representa, em termos económicos 4 por cento do valor mundial, sublinhou o professor José Paulo Esperança.
O docente universitário – que integrou a equipa que realizou o estudo «O Valor Económico da Língua Portuguesa», encomendado pelo Instituto Camões (IC) e desenvolvido por 10 investigadores do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) – defendeu que “a proximidade linguística é um fator importante” nas relações económicas de Portugal, já que “países com uma língua comum têm maior facilidade em fazer negócios”.
Apesar de apenas 6 por cento das exportações nacionais se destinarem a países de expressão portuguesa, o saldo comercial é favorável, já que Portugal importa desses mesmos países, apenas 3 por cento do total do volume de importações, referiu José Paulo Esperança.
O professor afirmou ainda haver um aumento do interesse na língua falada por oito países – Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Timor Leste – dando como exemplo a sua presença ma internet. Segundo o Barômetro Calvet das línguas no mundo, é de 34,4509 o índice de penetração da língua portuguesa na Internet (dados de Novembro de 2009). O português é já o oitavo idioma em número de artigos divulgados na Wikipédia e ocupa o 15º lugar no índice «traduções de língua de origem». “Num período de dez anos, o português foi a língua que mais cresceu em termos de acesso na internet”, afirmou o docente.
José Paulo Esperança revelou ainda que a sua procura como língua estrangeira está a crescer exponencialmente em países de língua espanhola “como a Argentina e o Uruguai” onde, acrescentou “já é um idioma mais procurado do que o inglês”.
Mesmo assim, o investigador defende que é importante a definição de estratégias para a sua dinamização. “O Português é um património superior à sua atual valorização”, defendeu, acrescentando que este valor abaixo das potencialidades da língua ocorre “muito por uma inércia e indefinição tanto a nível de entidades públicas como privadas”.
“A língua promove relações e o seu valor para as empresas e para os países pode ser potenciado, já que o estudo («O Valor Económico da Língua Portuguesa») revelou que as indústrias e os serviços em que ela é um elemento chave, representam 17 por cento do Produto Interno Bruto de Portugal”, alertou.
Já Luis Sousa de Macedo recordou que a língua portuguesa é o veículo de comunicação de milhões de lusófonos na diáspora, com destaque para os 4,5 milhões de portugueses e luso-descendentes. Nesse sentido, foi ainda mais longe ao afirmar que “já que língua e cultura são factores de aproximação”, falar português “é tão importante” que as empresas portuguesas elegeram como mercados fundamentais “a África lusófona e o Brasil”.
“Neste momento de crise económica, é crucial apostar nos países onde ao longo de séculos criamos uma ligação de proximidade, com destaque para o Brasil e Angola”, defendeu o ex-secretário de Estado das Comunidades e actual administrador da Fundação PT.
Inserida no 1º Ciclo de Conferências do Observatório da Língua Portuguesa – que teve como temáticas anteriores «Que Política para a Língua Portuguesa?» e «A Internacionalização da Língua Portuguesa» – a palestra reuniu vários estudiosos da língua portuguesa. As três conferências tiveram por objetivo ser um espaço de reflexão e debate de ideias sobre questões relevantes da língua de Camões e ainda motivar a sociedade civil para a importância da II Conferência Internacional sobre Língua Portuguesa no Sistema Mundial que será realizada em Portugal no próximo ano.
17 por cento do PIB de Portugal

O estudo «O Valor Económico da Língua Portuguesa», focado na realidade portuguesa, avaliou o impacto da proximidade linguística em quatro dimensões: comércio externo, investimento directo estrangeiro em Portugal, fluxos de turismo e fluxos migratórios. Os dados iniciais permitiram perceber que as indústrias e os serviços em que a língua portuguesa é um elemento chave, representam 17 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) de Portugal.
Encomendado pelo Instituto Camões (IC) em Setembro de 2007, e desenvolvido por uma equipa de investigadores do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), o estudo confirmou o elevado peso da proximidade linguística nas relações de Portugal com o exterior. “O papel da língua é um facilitador significativo nas dimensões de intercâmbio analisadas”, lê-se nas conclusões do estudo que apontam a área das migrações e a do Investimento Directo de Portugal no Estrangeiro (IDPE) como aquelas onde neste momento, a língua portuguesa tem mais peso.
Nesta área, revelou que Brasil e Angola representaram “19 por cento do total da saída de investimento directo a partir de Portugal, no período de 1996-2007”. No mesmo período, embora menos significativa, “também à entrada se verifica um peso superior ao «natural» do investimento directo oriundo principalmente do Brasil e de Angola, representando 13% do total”, refere o documento.
Idioma oficial em oito países, o português é uma das seis línguas mais faladas no mundo.
Ana Grácio Pinto

Jeanne Pereira: «O galego é português e o português é galego»

 

da AGAL SE TRANSCREVE

Jeanne Pereira: «O galego é português e o português é galego»

 

«O pequeno império deixa claro que a Galiza é unha periferia de Madrid e não uma nação com identidade própria»
«Deixemos de lado esse discurso ultrapassado dito por muitos galegos de que o português se parece muito ao galego e mudemos para este: de que o galego é português e o português é galego»

 

Sexta, 21 Outubro 2011 08:18
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Jeanne defende o galego como língua «extensa e útil»

 

PGL – Jeanne Pereira, brasilega, achava estranho o galego se escrever com ortografia castelhana e pensa que temos que ter a ousadia de dizer a verdade sobre a língua da Galiza. É uma magnífica embaixadora do nosso país e da nossa língua.
PGL: Jeanne Pereira é baiana. Que te motivou a vires para a Galiza e como sentiste a integração no nosso país?
Jeanne Pereira: Por questões pessoais necessitava sair do Brasil. Eu já sabia que aqui havia um idioma que era parecido ao português. Por que era exatamente o que pensava por ter pesquisado algo em relação a Galiza, à sua historia, em sites de pesquisas que nada tinham a ver com a realidade do país. Lembro bem que procurei saber da realidade política, e porque esse idioma ‘parecido’ ao meu. O que me chamou a atenção foi a ortografia, achava estranho um idioma com uma escrita igual ao espanhol, principalmente porque diziam ser ‘parecido’ ao português. E pensei como é possível?
PGL: Falando em integração, como foi o teu contato primeiro com o reintegracionismo?
JP: Através de José Alvaredo, que foi um pessoa muito especial que no seu momento se dedicou a mostrar a verdade em relação a realidade da Galiza. Uma pessoa que foi importante para que eu pudesse chegar à realidade sociolinguística. Era interessante o que ele fazia, era uma preocupação diária, ja que colocava como página principal o site da AGAL e Vieiros. Quando eu abria o computador, estavam ali, então lia e tirava as dúvidas com ele, mesmo quando chegava em casa cansado do trabalho, nunca se negou a explicar-me e dedicar todo o tempo possível para dar-me esclarecimentos com uma paixão pela Galiza, pelo nosso idioma em comum, que me contagiava.
Foi a primeira pessoa que me disse que…o português nasceu na Galiza. As dúvidas eram tiradas e muito bem esclarecidas ao ponto de me deixar mais curiosa. Inclusive a realidade política veio a través dele. O meu primeiro comentário sobre a língua foi em Vieiros, que passei a difundir a realidade do país através deste jornal.
O primeiro dicionário consultado foi o Estraviz. Comecei a comentar artigos em Vieiros para chegar a outros brasileiros que não conheciam a realidade da Galiza. Aproveito para agradecer todo o apoio dado por esse grande mestre que no seu momento, como disse, foi extremamente importante para mim. Um muito obrigada Zé! Sigo adiante e com muita força valorizando tudo que aprendi.
PGL: Estás a estudar galego, versão ILG-RAG, na EOI. Este formato de galego pode funcionar bem na interação com pessoas do Brasil e de Portugal?
JP: Não, pela ortografia, que é espanhola, que nada tem a ver com português. É uma norma isolacionista que foi imposta pelo Estado espanhol, já que a Galiza pertence ao Estado e o governo autonômico, em vez de aproximar o galego ao português, pretende aproximá-lo ao espanhol, diluindo assim a identidade galega. É uma estratégia política do pequeno império, uma forma de colonizar a população galega, separando o nosso idioma em comum. Inclusive alguns brasileiros dizem que é um galego ‘feio’, ‘mal escrito’. É uma questão tanto da fala como da escrita. Existem vícios de linguagem que infelizmente são muito utilizados pelos/as galegos/as pela influência do espanhol, daí que os/as brasileiros/as se aproximem ao espanhol e não ao galego, já que o galego raguiano é um dialeto do espanhol, e vista como uma língua ‘misturada’ do espanhol.
PGL: Não sei se sabias que nas EOI existe a figura de língua ambiental, aquelas que a priori existem na sociedade onde está inserido o centro. Na Galiza são três, galego, português e castelhano. Isto facilitou o teu dia a dia, não é?
JP: Deixemos de lado esse discurso ultrapassado dito por muitos galegos de que o português se parece muito ao galego e de que um galego pode aprender português por ser parecido, e mudemos para este: que o galego é português e o português é galego. A prova é que o galego já está no dicionário da Porto Editora desde 2008 no vocabulário comum e breve nos dicionários brasileiros.
A facilidade de entendimento é grande desde quando se abra a mente para isso. Para mim sempre tem sido fácil porque não importa se falam comigo em espanhol, eu falo em galego-português, estou na Galiza, e isso tenho claro. Já escutei muita gente falarem para mim “Não te entendo”. Eu respondo, “pois deveria, estamos na Galiza, a língua do meu país nasceu aqui, temos inclusive um vocabulário comum.
Palavras que foram levadas daqui para o Brasil, que surgiram aqui”. Infelizmente, por questões de imposição do estado espanhol, não podemos usar a nossa língua nas traduções juramentadas. Por exemplo, um título universitário do Brasil, tem que ser traduzido ao espanhol e não à língua própria do país.
PGL: No Brasil existe um desconhecimento da Galiza e da sua língua. Qual a reação média de uma pessoal do Brasil quando descobre?
JP: Muitos galegos que visitam o Brasil, de férias, para estudar, os emigrantes que vivem ali uma boa parte não são vistos como galegos e sim espanhóis. Inclusive Santiago de Compostela é destino para quem está a aprender espanhol. O pequeno império deixa claro que a Galiza é unha periferia de Madrid e não uma nação com identidade própria. Escuto de muitos galegos como uma brasileira pode saber tanto da Galiza ao ponto de dizer que o português e o galego é o mesmo e que eles sendo galegos não sabem nada da realidade e alguns se aborrecem afirmando que tudo isso é uma mentira, que a história mostra claramente as diferenças nas duas línguas que é impossível serem um único idioma com variantes diferentes.
Sempre cito como exemplo muitos galegos que estiveram ali no Brasil e que muitos brasileiros perguntavam de que região faziam parte, ou até mesmo de que estado. Infelizmente a realidade da Galiza ainda é desconhecida no meu país, mas faço minhas as palavras do José Carlos da Silva, que diz: “Reclamo um maior conhecimento da realidade da Galiza no Brasil”.
Agora, o dia 6 de novembro estarei de volta a Salvador, mas levo comigo o compromisso de mostrar essa realidade, a de um país que possui um idioma em comum com o meu, e de que a sua língua nasceu aqui na Galiza. É com muito orgulho e muita gratidão por um país que aprendi a amar como sendo meu, um país que me acolheu, porque sempre deixo claro que fui acolhida pela Galiza e não pela Espanha, que lutarei para que esse conhecimento seja real no Brasil.
PGL: Achas que existem diferenças entre a cidadania galega na sua perceção do Brasil e da lusofonia em geral?
JP: Muitos galegos veem o Brasil como um destino turístico, não como um país com uma língua em comum. O Brasil ultimamente é visto por ser a sétima economia mundial e nos meios de comunicação aparece muito este facto, mais nada em relação questão da língua. O Brasil infelizmente não conhece essa realidade.
PGL: Certos círculos sociais em Santiago falam da figura do(a) brasilego(a), uma pessoa que vive na nossa língua cá na Galiza frente a atitude mais habitual de desenvolver-se em castelhano no dia a dia. É exportável esta forma de viver a outras cidades?
JP: Em Santiago sim, mais noutras cidades não porque a fala predominante é o espanhol. Em Santiago também depende do ambiente que frequente ou que esteja. Há lugares que inclusive falo o meu ‘baianês’ com uma rapidez como se estivesse em Salvador. Chego a mudar completamente o meu sotaque e falar com uma desenvoltura que as vezes não me dou conta que estou em Santiago.
PGL: Tu segues os passos da estratégia luso-brasileira para o galego. Que tipo de táticas achas mais produtivas e quais achas que se deveriam implementar para a cidadania galega viver o galego como sendo extenso e útil?
JP: Táticas temos muitas, inclusive as redes sociais, são meios de grande importância para divulgar a nossa realidade. Há que sensibilizar e ter muita valentia e ousadia no falar, na hora de dizer a verdade sobra a realidade o país, sobre o seu idioma próprio e cultura, afirmando com muita força que “Galiza não é Espanha”, e que isso fique bem claro, não tendo medo de falar a verdade em alto e bom som,para todo mundo ouvir.
O incentivo a leitura dos jornais na nossa língua, dando prioridade as publicações em galego-português, também nas redes sociais. Ao invés de estarmos publicando notícias de meios espanholistas, publicarmos noticias com o nosso idioma.
Aproveitar o momento político do Brasil pode ser algo importante, para mostrar que além de um país em crescimento com ofertas de emprego, para os galegos, há a vantagem de termos um idioma em comum, o que facilita muito no mercado de trabalho. A ousadia e a valentia de sempre dizer a verdade, sobre a realidade da Galiza, é importante. Já passou da hora de vencer todo esse auto-ódio que nos contamina de forma negativa, tirando a coragem e a força de muitos em falar a realidade e de lutar pelo seu país, livrando-se da colonização mental imposta pelo ‘Reino de Espanha’, por um pequeno Império fracassado, prepotente e complexado, em que infelizmente a Galiza tem sofrido por estar sendo Desgovernada por um partido que em nada representa o país, levando a Galiza ao retraso.
PGL: Que visão tinhas da AGAL, que te motivou a te associares e que esperas da associação?
JP: A nossa língua é extensa e útil, a nossa língua é internacional, e a AGAL cumpre perfeitamente esse papel como representante do nosso idioma, com muita seriedade e responsabilidade divulgando de forma séria o seu trabalho em prol da nossa língua e da realidade sócio-linguística do país. Levando ao conhecimento inclusive a nível internacional. Parabenizo a associação pelo grande trabalho que vem sendo realizado nesses 30 anos de existência, mostrando a internacionalidade da nossa língua em comum. Espero sempre o melhor e que esse trabalho cresça e continue recebendo todo o apoio merecido para dar continuidade a divulgação da nossa língua.
PGL: Como vai ser o Brasil do futuro?
JP: Espero que seja um país com menos desigualdade social, investindo em políticas sociais, fortalecendo a saúde pública como direitos de todos, com qualidade. Que o presidente ou presidenta que ali esteja, chegue a ONU, um dia no seu discurso, reivindicando e reconhecendo a liberdade e soberania de muitas nações como a Galiza.

Conhecendo Jeanne Pereira

  • Um sítio web: são vários, principalmente os relacionados a política e escritos no nosso idioma em comum. Por exemplo, leio todos os dias a revista Carta Maior.
  • Um invento: o que traga beneficio à humanidade
  • Uma música: Apesar de Você (Chico Buarque)
  • Um livro: O Golpe de 64 e a Ditadura Militar, de Júlio José Chiavenato. Esse livro foi uma grande referência para mim, a nível político e um grande presente dado por meu pai, quando tinha apenas 15 anos de idade.
  • Um facto histórico: a independência da Galiza
  • Um prato na mesa: um caruru completo (comida baiana)
  • Um desporto: Fórmula 1
  • Um filme: O auto da compadecida, de Ariano Suassuna.
  • Uma maravilha: a descoberta da vacina contra o vírus da Sida
  • Além de brasileira: brasilega

 

Comentários

# Re: Jeanne Pereira: «O galego é português e o português é galego»Carlos Durão 21-10-2011 09:21

Mal posso conter as bágoas, cara Jeanne, mulher valente: sei muito bem que estas belas frases tuas:”Há que sensibilizar e ter muita valentia”, “A ousadia e a valentia de sempre dizer a verdade, sobre a realidade da Galiza”, não são vazias, que és testemunha privilegiada da nossa situação precária, até tu própria pudeste comprovar em ti mesma essa prepotência, no fundo esse racismo do EE para quem não seja “como ele”; no teu imenso Brasil estaremos contigo, sempre, até pode ser que te visitemos alguns de nós; leva o meu forte, fundo, acarinhado abreço galego.

Carlos

 

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Machimbombo

 

 

O termo “Machimbombo” generalizou-se em Angola (região de Luanda, sobretudo) para designar os autocarros de transportes públicos. Supunha-se que era um termo gentílico, mas afinal acabámos por constatar que é um vocábulo levado de Portugal para Angola em princípios do século XX.
Veja o documento histórico abaixo. O artigo está muito bem escrito com ortografia antiga.Uma preciosidade!

Machimbombo é uma palavra portuguesa que significa elevador mecânico, mas que caiu totalmente em desuso em Portugal – mas, como se refere nesta anterior resposta, de uso corrente em Angola e em Moçambique.

O que se transcreve em baixo é a história – e a morte – do antecessor do emblemático elétrico 28 de Lisboa, conforme notícia da revista Ilustração Portuguesa n.º 386, em 17 de julho de 1913. Chamava-se, então, “Machimbombo da Estrela“.

E, do que dela pelo menos parece legítimo concluir, é a comprovação de que a palavra machimbombo, provinda do inglês machine pump, já se usava em Portugal no início do século XX.

O VERDADEIRO SIGNIFICADO DA PALAVRA TREM

 

O VERDADEIRO SIGNIFICADO DA PALAVRA TREM

Interessante que o assunto mineirês veio à tona logo no dia em que alguns transtornos foram causados pelo seu desconhecimento por parte de alguns jornalistas, que escreveram a seguinte manchete: – ‘ Trens batem de frente em Minas.’

Os mineiros, obviamente, não deram a devida importância, já que para eles isto quer dizer apenas que duas coisas bateram. Poderia ter sido dois carros, um carro e uma moto, uma carroça e um carro de boi; ou
até mesmo um choque entre uma mala de viagem e a mesa de jantar.

Movido pela curiosidade, resolvi então consultar o Aurélio. E vejam o que diz:

trem [Do francês/inglês. train.] Substantivo masculino.
1 Conjunto de objetos que formam a bagagem de um viajante. 2.Comitiva, séquito. 3. Mobiliário duma casa. 4. Conjunto de objetos apropriados para certos serviços… 5. Carruagem, sege. 6. Vestuário, traje, trajo. 7.Mar. G. Bras. Grupamento de navios auxiliares destinados aos serviços (reparos, abastecimento, etc.) de uma esquadra. 8. Bras. Comboio ferroviário; trem de ferro. 9. Bras. Bateria de cozinha. 10. Bras. MG C.O. Pop. Qualquer objeto ou coisa;
coisa, negócio, treco, troço: ‘ensopando o arroz e abusando da pimenta, trem especial, apanhado ali mesmo, na horta.’ (Humberto Crispim Borges, Cacho de Tucum, p. 186). 11 .Bras. MG S. Fam. Indivíduo sem préstimo, ou de mau caráter; traste.

Vejam que o sentido de comboio ferroviário é apenas o 8º, e ainda é considerado um brasileirismo.

Comentei o fato com um amigo especialista em etimologia, que me esclareceu a questão: o comboio ferroviário recebeu o nome de trem justamente porque trazia, porque transportava, os trens das pessoas.
Vale lembrar que nessa época o Brasil possuía uma malha ferroviária com relativa capilaridade e o transporte ferroviário era o mais importante. Assim, era natural que as pessoas fizessem essa associação.

Moral da estória:
O mineiro é, antes de tudo, um erudito. Além de erudito, ainda é humilde e aceita que o pessoal dos outros estados tripudie da forma como usa a palavra trem. Na verdade, acho que isso faz parte do ‘espírito cristão do mineiro’. Ele escuta as gozações e pensa: que sejam perdoados, pois não sabem o que dizem.

Recebi sem indicação da AUTORIA.

Como o falante galego é visto em Portugal?

Como o falante galego é visto em Portugal?

A esta pergunta de um leitor , Carlos Rocha, responde no Ciberdúvidas da língua portuguesa assim:
 
Há realmente um grande desconhecimento em Portugal acerca das afinidades linguísticas com a Galiza. Perante um falante de galego, é típico um português tentar falar castelhano, muitas vezes porque não reconhece o que ouve como língua ainda muito próxima da que fala a sul do rio Minho. Lembro-me, por exemplo, de que, durante a crise do Prestige no final de 2002, os noticiários portugueses normalmente legendavam as respostas das entrevistas feitas aos habitantes do litoral galego; muitos deles falavam um galego que, apesar da “geada” (troca do "g" por um som parecido com o "jota" castelhano), tinha uma entoação familiar para ouvidos portugueses. Este comportamento dos canais de televisão em Portugal parecia obedecer ao atavismo de considerar castelhano tudo o que se fala para lá da fronteira. Penso ainda que a identidade galega nem sempre é clara para o português médio ou popular. Assim, é curioso que, dialetalmente, nem sempre um
 galego é apenas um habitante da Galiza. Por exemplo, no Alentejo um galego pode ser um natural das Beiras (Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa). E suspeito que no Norte e no Centro de Portugal, em algumas regiões que não fazem fronteira com a Galiza, um zamorano, um salmantino ou até um estremenho de Cáceres – não sei se de Badajoz – sejam todos galegos (o que pode ter alguma verdade histórica em casos como os de San Martín de Trevejo, Valverde del Fresno e Eljas). É claro que também acontece que alguns (ou muitos?) portugueses ficam baralhados quando começam a ler o que se escreve a norte do Minho. É como se dissessem: «o que se passa, que os espanhóis andam a escrever num português estranho?» Recordo que há cerca de dez anos se dedicou um excelente número da revista Colóquio Letras (Fundação Calouste Gulbenkian) à cultura galega. Nele, a prof.ª Pilar Vázquez Cuesta abordava
 justamente o desconhecimento com que os portugueses (quase sempre não acadêmicos, mas também há acadêmicos) costumam “brindar” os galegos, quando se trata de falar dos laços comuns. Para esta situação contribui certamente o fato de a História ter dificultado desde muito cedo a descoberta ou o reforço desse elo: quando, com D. Dinis, os documentos notariais portugueses passaram a ser escritos na língua que se desenvolvera no Noroeste da Península e a que historicamente poderíamos chamar galego, o reino de Portugal já existia há mais de um século. Assim, ao querer dar nome ao “galego” que se falava do Minho ao Algarve, esse nome foi muito logicamente português, visto que se estava a designar o idioma do Reino de Portugal e do Algarve. Explica-se, deste modo, que se fale em português antigo, não porque se negue a relação ou mesmo a identificação com o galego, mas talvez porque se pensa que o Condado e, depois, Reino de
 Portugal é que deu consciência idiomática coletiva a uma parte dos dialetos galegos – os que eram falados pelos portugueses. Sobre este assunto, recomendaria uma obra que dedica alguns capítulos ao problema da designação da língua na faixa ocidental da Península: Ramón Mariño Paz, Historia da Lingua Galega, Santiago de Compostela, Sotelo Blanco, 1998.

Carlos Rocha :: 30/06/2006 

http://ciberduvidas.pt/pergunta.php?id=18099