os loucos politicamente corretos Linguistas discutem a neutralização do gênero gramatical – Época

Aldo Bizzocchi e Cristine Gorski Severo divergem sobre a necessidade de mudanças na língua portuguesa que possibilitem a imparcialidade no falar

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″Você″ é estrebaria? – DN

A 20 de outubro, ouvi em fundo que Jorge Jesus, treinador do Sport Lisboa e Benfica, teria sido repreendido enquanto prestava declarações no julgamento do caso Football Leaks. Sem ser seguidora de futebol e nem ter grande paciência para as suas personagens, fiquei curiosa em saber a causa da repreensão. Pasme-se! Jorge Jesus dirigiu-se à procuradora usando o pronome “você”, em vez de usar o título “senhora procuradora”. Quando li isto, não pude deixar de sorrir.Sou filha de emigrantes, nasci na Venezuela e cresci rodeada de falantes de diferentes línguas e variedades do português. Tive como primeira língua de escolarização o espanhol. Vim viver para Portugal com 10 anos. À época, na minha cabeça havia duas formas de me dirigir às pessoas: “tu” para a minha mãe e as pessoas mais chegadas e “você” para o meu pai e as pessoas mais velhas. Na minha cabeça estes eram os equivalentes do “tu” e do “usted” do espanhol. Mas, para meu azar, em português não era assim tão simples e, de cada vez que ousava dirigir-me, por exemplo, a uma professora usando “você”, invariavelmente ouvia por resposta “você é estrebaria!” Durante anos, tentei a duras penas descodificar o significado desta expressão. Que me lembre, ninguém me explicou como devia dirigir-me adequadamente às pessoas a quem devia deferência. Penso que foi já bem crescidinha que percebi finalmente que, na dúvida, o menos arriscado é usar um título (e.g. “o senhor/a senhora dona/o sr. dr./o professor/o senhor agente, a senhora procuradora”) e o verbo na terceira pessoa. Lembro-me de ter cometido muitos deslizes e passado outras tantas vergonhas, mas sempre atribuí esta falta de jeito à minha história de vida.Hoje é frequente, na faculdade, alunos dirigirem-se a mim usando “você”. Confesso que sinto um calafrio, que não denuncio, e procuro explicar a forma que me parece mais adequada de usar as formas de tratamento em português europeu, até porque defendo que cabe à escola veicular o padrão social adequado de uso da língua, i.e., a norma. Não lhes respondo “você é estrebaria”, pois imagino que, como eu, muitos não perceberiam o idiotismo. Olham-me com perplexidade quando começo a referir as tantas variáveis em questão na escolha da forma de tratamento adequada; alguns procuram ajustar o seu comportamento linguístico; outros, logo no instante seguinte, voltam a dirigir-se-me usando “você”.Há vários subsistemas de formas de tratamento em confronto na sociedade portuguesa atual. No diálogo entre Jorge Jesus e a procuradora assistimos ao confronto entre um, claramente inadequado à situação (apesar de todo o sucesso profissional e fama do treinador), e outro, conservador, de quem domina o código certo e detém o poder. A instabilidade no uso de formas de tratamento acontece porque a sociedade portuguesa mudou muito e rapidamente nos últimos anos. A democratização política traduziu-se na construção de uma sociedade menos estratificada, de relações interpessoais menos rígidas. A norma linguística (que é o registo do poder) resiste e adapta-se a custo à mudança. Mas inevitavelmente tal acabará por acontecer e “você” (quem sabe?) deixará um dia de ser estrebaria.Professora e investigadora, coordenadora do Portal da Língua Portuguesa

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A Lusofonia no coração dos lusodescendentes (português) – Fala Português

Como lusodescendentes, herda-se o amor por aquela pátria, por aquela terra que está longe, mas que não é alheia ao coração. Fazem-se próprios os fados, aquelas danças e cantigas, a gastronomia e tradições… Tudo isso, faz parte da infância e adolescência de um lusodescendente, que quando adulto, sempre terá belas lembranças relacionadas à terra dos… Read More »A Lusofonia no coração dos lusodescendentes (português)

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AS EMBIRRAÇÕES DE PAULA SOUSA LIMA

Crónica de sábado no Açoriano Oriental:
Acerca das palavras XII: embirrações
Ter embirrações é um direito que a todos assiste e que muito devemos estimar. É um direito universal e inalienável, conquanto não esteja consagrado em documento algum, sempre o foi, mesmo nos sombreados tempos da ditadura, em que praticamente nenhum direito tínhamos. Tínhamos este, muito natural, parte integrante do nosso viver, e muito útil. É que ter embirrações nos permite vazar algum do nosso fel sem que prejudiquemos seja quem for, sem que façamos mal a outrem ou a nós próprios. Embirrar com alguma coisa ou com alguém não é votar-lhe ódio nem ter-lhe aversão nem querer-lhe mal, nada disso, é simplesmente sentir um certo mal-estar na sua presença, um arrepio na coluna e nos pelinhos dos braços, uma comichão nas mãos, sintomas que, de resto, passam, logo que do alvo da nossa embirração nos alongamos.
Eu, confesso, tenho bastantes embirrações, umas inconfessáveis, das quais nunca falo, nunca falei e nunca falarei, outras de que posso falar sem restrições. E destas últimas vão sendo conhecidas, pois não me consigo conter, as que dizem respeito ao uso da língua portuguesa. Embirro fortemente com o mau uso da nossa língua, confesso, creio, até, que o meu sentimento em relação a esse mau uso ultrapassa a mera embirração. E embirro, já o devo ter confessado algures, com certas palavras ou expressões de uso corrente e reiterado, nomeadamente com aquelas que configuram o politicamente correto e com aquelas que se tornaram clichés do falar/escrever. Assim, ao ouvir ou ler “invisual”, “inverdade”, “pessoa portadora de deficiência motora”, por exemplo, logo se me arrepia a coluna e se me eriçam todos os pelinhos dos braços, logo me sinto acometida de forte comichão nas mãos. Sintomas iguais me sobrevêm ao ler, sobretudo nas redes sociais, alusões às “princesas” e às “guerreiras”. Minhas senhoras, cavalheiros, busquem palavras mais criativas para se referirem às vossas filhas e às vossas mães, que ninguém pode com tanta princesa e com tanta guerreira.
Mas mais embirro, por estes dias, com a palavra “aguardar”. Embirro completa e solenemente com esta palavra, que, ultimamente, substitui a simples e escorreita palavra “esperar”. Ora um cidadão ou uma cidadã vai a uma repartição pública, pedir, sei lá, um documento qualquer, e é atendido/a por uma menina muito bem posta, com o cabelo muito esticadinho e as unhas muito bem polidas, com um sorriso todo medido para a ocasião, diz o cidadão ou a cidadã ao que vai, e a referida menina que responde? Responde invariavelmente: aguarde, por favor. E o cidadão ou a cidadã espera, ou melhor, aguarda, pois já ninguém espera, todos aguardam. Também acontece que o cidadão ou a cidadã telefone para um banco ou para uma empresa, sendo gentilmente atendido/a por uma menina, que terá o cabelo tão esticado como a da repartição pública e as unhas igualmente muito polidas, a qual, depois da natural saudação e de ouvir o pedido do cidadão ou da cidadã, diz: aguarde, por favor. E, como não há duas sem três, o cidadão ou a cidadã, ao ligar para o banco ou para a empresa, não é atendido/a senão por uma voz, voz essa que diz o quê? Aguarde, por favor.
Sendo eu uma cidadã, já me deparei inúmeras vezes com o “aguarde, por favor”. Coluna arrepiadíssima, pelinhos dos braços eriçadíssimos, mãos numa desfraldada comichão, digo: muito obrigada, eu espero, e enfatizo o “espero”, foi a foi a forma que desencantei para dizer da minha embirração. Até sinto, confesso também, alguma comiseração por estas meninas tão educadinhas como bem vestidas e bem penteadas e tão polidas como as respetivas unhas, que respondem como lhes disseram que respondessem, não o fazem por mal, muito pelo contrário, cuidam que estão a ser sumamente educadas e polidas. E não se pode dizer que não estejam a ser educadas e polidas. Eu, todavia, embirro com o “aguarde”. E estou no meu direito.
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