lagoa 499 anos

LAGOA- 499 ANOS DA ELEVAÇÃO A VILA E A SEDE CONCELHO
A Cidade da Lagoa, na ilha de São Miguel, está de parabéns, pois comemora 499 anos desde a sua elevação a Vila e a Sede de Concelho e 9 anos de elevação a cidade. Este concelho com cerca de 9000 habitantes, a sul da ilha é constituído por 5 freguesias, sendo elas Rosário, Santa Cruz, Cabouco, Água de Pau e Ribeira Chã.
Ao longo da história, desde o descobrimento da ilha de São Miguel, a Lagoa sempre assumiu uma importante posição, sendo um dos primeiros locais da ilha a serem povoados, o qual cresceu rapidamente em termos económicos, políticos e populacionais. Atualmente, a Lagoa é vista como um polo de grande desenvolvimento, concentrando a indústria e o comércio, sendo uma das zonas habitacionais mais procuradas da ilha.
Neste sentido, a AEAzores vem desejar a todos os lagoenses e em especial à Presidente da Câmara Municipal da Lagoa, Dra. Cristina Calisto os parabéns pelo excelente trabalho em torno da afirmação deste concelho e cidade que prevê acima de tudo o bem-estar da sua população. Votos de sucessos vindouros.
-~-~-~-~-~-~–~-~-~-~ENGLISH~-~-~-~-~-~-~-~-~-~-~-~-~-
LAGOA- 499 YEARS SINCE ELEVATION TO TOWN AND COUNTY SEAT
The City of Lagoa, on the island of São Miguel, is to be congratulated, as it celebrates 499 years since its elevation to Village and Head of Municipality and 9 years since its elevation to city. This municipality with about 9000 inhabitants, in the south of the island is made up of 5 parishes, Rosário, Santa Cruz, Cabouco, Água de Pau and Ribeira Chã.
Throughout history, since the discovery of the island of São Miguel, Lagoa has always assumed an important position, being one of the first places on the island to be populated, which grew rapidly in economic, political and population terms. Nowadays, Lagoa is seen as a hub of great development, concentrating industry and commerce, being one of the most sought-after residential areas of the island.
In this sense, the AEAzores wishes all the people of Lagoa and especially the Mayor of Lagoa, Dr. Cristina Calisto, congratulations for the excellent work carried out in affirming this municipality and city which, above all, provides for the well-being of its population. Best wishes for future successes.
+2
You and 7 others
Like

Comment
Share
0 comments

DAMIÃO DE GOES VÍTIMA DA INQUISIÇÃO

Favourites tSpa4onlsor3eadrm
May be an image of 1 person
DAMIÃO DE GÓIS MORTO ÀS MÃOS DA INQUISIÇÃO
Durou quase três séculos a Inquisição em Portugal, de 1536 a 1821.
Durante esse período negro da nossa história, em que reinou a barbárie e o medo, cerca de cinquenta mil processos foram movidos contra pessoas. Mais de duas mil foram queimadas vivas: judeus, muçulmanos, ateus, protestantes, homossexuais, bígamos e tantos outros, indiciados por crimes considerados heréticos, desde a feitiçaria à blasfémia.
A simples denúncia, o mais banal boato, a mera desconfiança ou a vontade de destruir alguém, condenavam à prisão, ao confisco dos bens, à tortura ou às chamas da morte quem atentasse contra as regras da Igreja.
A 4 de abril de 1571, a Inquisição mandou prender Damião de Góis (1502 – 1574), na cadeia do Limoeiro, em Lisboa, por alegados crimes cometidos quatro décadas antes, baseando-se numa denúncia do fundador dos jesuítas, o padre Simão Rodrigues, que passara com ele uma temporada em Pádua, em meados da década de 1530.
À data, o humanista, com 69 anos de idade, era guarda-mor da Torre do Tombo, historiador do reino, com vários trabalhos publicados. Um homem público, de reconhecido valor.
Os inquisidores do Santo Ofício interrogaram-no acerca de uma viagem realizada há quarenta anos atrás, em 1531 (ainda antes de haver Inquisição), como embaixador, ao serviço do rei D. João III, a vários destinos europeus, e do seu convívio com protestantes – isto, numa altura em que a contra-reforma ainda nem sequer se tinha verdadeiramente iniciado.
Dez dias depois, a 14 de abril, Damião de Góis foi transferido para a prisão dos Estaus, no topo norte da praça do Rossio – onde hoje se encontra o Teatro Nacional D. Maria II.
O intelectual Renascentista, dotado de um dos espíritos mais abertos e críticos da sua época, que ocupara cargos importantes no reino, tendo sido, por exemplo, cronista de D. Manuel I, agora sem proteção real, viúvo e velho, era acusado de dar-se com hereges, de ter comido carne em alguns dias proibidos pela igreja (ainda que possuísse uma dispensa papal, que por motivos de saúde lhe permitia comer carne, ovos, leite e seus derivados), de ter dito que os alemães faziam coisas melhor do que os portugueses (nomeadamente, «tratar dos pobres»), de receber em sua casa estrangeiros e de com estes «cantarem coisas» que «não eram cantigas que cá costumam cantar-se», de ser «pouco misseiro».
Damião de Góis alegou em sua defesa que se manteve sempre «um bom católico» – sem, porém, convencer os inquisidores que lhe fizeram acusações no plano teológico, comportamental e cultural.
Acabou condenado a prisão perpétua, sem auto-de-fé e sem abjuração pública, classificado como «hereje, luterano, pertinaz e negativo» e com confisco de todos os seus bens. No silêncio e incomunicabilidade do cárcere ainda haveria de rogar (todavia, em vão): «peço-lhes que me mandem emprestar um livro em latim para ler, qual lhes parecer, porque estou apodrecendo de ociosidade e com o ler se me passam muitos pensamentos».
No final de 1572, foi transferido para o Mosteiro da Batalha e, passado um ano, em dezembro de 1573, já muito doente, foi libertado, tendo-lhe sido permitido regressar à sua casa em Alenquer (sua terra natal) onde acabaria por morrer, só e abandonado, na mais completa miséria, a 30 de janeiro de 1574.
20
1 comment
8 shares
Like

Comment
Share
1 comment
Most relevant

  • Vamos pôr os pontos nos “ii”. Portugal não tinha cá a Inquisição, quem a mandou vir – sim, foi requerida – foram os diabólicos reis Dom Manuel I e Dom João III, que tudo fizeram para que a “santa sé” nos “honrasse” com tal “privilégio”. A “santa inquisição”, uma vez cá, matou, torturou, estripou, perseguiu, esbulhou, roubou, degredou milhares de pessoas… tudo para honra e glória de um deus inventado por eles e à imagem da sua mente torpe e assassina!
    • Like

    • Reply
    • 12 m

A maior pirâmide do mundo está escondida dentro de uma colina – ZAP

Quando pensamos em pirâmides, vêm-nos à mente as de Gizé. No entanto, a maior do mundo está escondida dentro de uma colina no México.

Source: A maior pirâmide do mundo está escondida dentro de uma colina – ZAP

″Tudo aponta para que Cabrilho seja português apesar destas novas teorias que vão aparecendo″ 

Luso-americano acaba de publicar o livro Portuguese in California dedicado a uma comunidade que dá hoje três congressistas aos Estados Unidos e que tem entre os seus heróis o navegador que no século XVI ao serviço de Espanha foi o primeiro europeu nessa costa.

Source: ″Tudo aponta para que Cabrilho seja português apesar destas novas teorias que vão aparecendo″ 

O Hotel Terra Nostra de Santa Maria

Rosélio Reis

is with

Maria Elena Costa

and

3 others

.

*Hotel Gink*
O Hotel Terra Nostra de Santa Maria
Foi, durante muito tempo, a única unidade hoteleira de Santa Maria. Mas foi, acima de tudo, uma unidade que veio a servir de “escola” a outras instituições hoteleiras de S. Miguel.
A ilha viu-se, de um momento para o outro, elevada da sua condição de menor, onde nem sequer havia luz elétrica. A construção do aeroporto de Santa Maria, levada a efeito pelas Forças Armadas dos Estados Unidos, sob a capa da Pan American, deu origem à edificação de uma autêntica aldeia com caraterísticas de cidade, porque incluía todos os equipamentos sociais vulgarmente utilizados e necessários num espaço maior. A primeira coisa que aconteceu de especial relevo nesta ilha foi quando os americanos ligaram o primeiro gerador elétrico e se fez luz! Seria isso o prenúncio do que estava para vir. Hoje é impensável viver sem luz, ou sem centrais elétricas. E, tirando o aeroporto da equação, a ilha ainda viveu muito tempo na escuridão até que, por volta de finais dos anos 60, se começou a fazer luz nos espaços exteriores mais distantes.
Na sua área delimitada, a sul pelo açucareiro e a nascente por Santana, houve espaço para criar tudo o que se considerava indispensável. Passando das tendas de lona verde para construções mais sólidas, uma das primeiras estruturas a aparecer foi precisamente o Hotel Gink, mais tarde rebatizado por Hotel Terra Nostra. Destinado a receber só os visitantes mais ilustres e de elevada patente, muito limitado no tamanho – inicialmente só tinha cerca de 30 quartos – com o fim da base aérea e a passagem a aeroporto internacional, esse hotel veio a ser ampliado para cerca de 130 quartos, mantendo e elevando as condições de habitabilidade, iguais às dos melhores hotéis conhecidos. Entregue à gestão do Grupo Bensaúde, veio a tornar-se um hotel modelo onde se cumpriam, à risca, todas as regras do bem servir, levadas a rigor pelo melhor pessoal hoteleiro que para a ilha veio. O primeiro Diretor do Aeroporto, Comandante Henrique Owen Pinto de Barros da Costa Pessoa, e a sua família, da qual fazia parte a filha D. Maria Elena da Costa Pessoa, tiveram o Hotel por moradia até que a construção da sua casa fosse concluída. O Hotel foi também o lugar onde viveram os oficiais da Job Order 101, enquanto instalavam os pavilhões Quonset Hut para onde se mudaram quase um ano depois. Foi também local de pernoita das tripulações dos aviões que demandavam o aeroporto, nas sua rotas entre os continentes Europeu e Americano. Era tudo pessoal endinheirado o que permitia manter um programa de diversões muito diferente do que seria habitual noutras condições. Para isso o hotel possuía uma orquestra residente, com músicos de categoria, que tocava todos os dias, e tinha muitas vezes artistas convidados para animar os longos serões, já que não havia na ilha mais nenhum atrativo digno de tal clientela. O senhor Pamplona, que chegou a ser professor de música no Externato, o senhor Palhinha e o senhor Santos tinham essa incumbência. Ainda havia o senhor Viúla, que participava com o seu acordeão como artista convidado.
Foram vários os artistas que atuaram no hotel, alguns aproveitando a escala dos aviões por Santa Maria. Amália Rodrigues, Simone de Oliveira, Mara Abrantes, António Calvário, Madalena Iglésias, Kenny Rogers (que faleceu em Março de 2020), The Platters, o grupo brasileiro Irmãos Guarás e Lolita Calvo, espanhola, que deu vários espetáculos… Frank Sinatra deu espetáculos no cinema do aeroporto e esteve hospedado no hotel. Danny Kaye, que contracenou com Sinatra em “High Society”, também foi hóspede. Louis Armstrong esteve em Santa Maria no restaurante do aeroporto e deu um autógrafo ao pai da Isabel Biscaia. Arturo Toscanini, músico e maestro, Tyrone Power, ator, Harry James, trompetista, Bing Crosby, ator e cantor, Charlton Heston e Rock Hudson, são alguns dos muitos nomes ligados ao Hotel Terra Nostra. Mas há mais. Os primeiros Ministros da Grécia e do Canadá (Joe Clark), o Presidente Tito da Jugoslávia e o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Henry Kissinger, foram alguns de muitos políticos que passaram pelo Hotel Terra Nostra. A equipa principal do Belenenses ficou retida em Santa Maria por causa do mau tempo, no princípio dos anos 50. A equipa de hóquei do Benfica também ficou retida e aproveitou para um jogo amigável com o Clube Asas do Atlântico, onde alinhava o Jorge Vicente. Também o Futebol Clube do Porto passou pelo Hotel. Até o Cantinflas, ator muito popular nos anos 50, esteve hospedado no hotel. Não cantou mas a rapaziada tirou-lhe o juízo e lá foram todos jogar à bola…
O Diretor do Aeroporto, Alexandre Negrão, impôs normas difíceis de cumprir, desde logo a obrigatoriedade de toda a gente só poder lá entrar bem vestida e com gravata, regra essa levada a rigor por toda a equipa de trabalhadores e gestores. Além disso, nem mesmo os rececionistas, nas suas horas de folga, podiam entrar no hotel para participar nos bailes que lá se organizavam!
O Hotel Terra Nostra era considerado um caso modelo. Ali se habilitava o pessoal de outros hotéis do grupo. O pessoal, todo uniformizado, causava impressão. Os jantares eram sumptuosos, sempre servidos por pessoal de jaquetas brancas e guardanapo pendurado no braço. Era este o lugar escolhido pelos diretores do Externato para realizar os almoços de confraternização do fim do ano escolar. Os rececionistas eram uns “senhores” distintos. Até os porteiros impunham respeito! Os bailes do Hotel eram famosos, chegando a ser participados por pessoas de S. Miguel. Também os torneios de bridge eram motivo para grandes ajuntamentos da alta sociedade da ilha.
Além dos quartos de hóspedes, havia as vivendas anexas ao hotel que eram as habitações do pessoal trabalhador e suas famílias. Os empregados do escritório eram pessoas extremamente habilitadas. João Rodrigues, Manuel Rodrigues, Simas, Cardoso, Carlos Correia, António dos Santos, Pamplona… Até havia uma poetisa que ganhou alguns jogos florais e chegou a ver as suas poesias reunidas em livro: era a D. Delta, uma professora muito popular na época que, nas horas de folga, ajudava na contabilização das roupas do Hotel, com a D. Hortense Madruga, uma faialense que era a governante e acabou por ir trabalhar para o Terra Nostra das Furnas. A D. Delta era muito nutrida e o seu nome passou a estar aliado à sua própria figura. Escreveu um livro chamado “Poesias…”, publicado pelas Edições Panorama. E há uma poesia linda de nome “Lenda Sobre o Descobrimento dos Açores” que vale a pena ler.
O primeiro gerente do Hotel Terra Nostra, já sob a propriedade do Grupo Bensaúde, foi Francisco Martins. Era um senhor de Ponta Delgada que também tinha uma Agência de Viagens e que, em Santa Maria, possuía a Residencial Central, um edifício de construção equivalente ao hotel, a que teve de renunciar e vender para poder assumir a gerência. Foi uma condição “sine qua non” imposta pelo Grupo Bensaúde. Seguiu-se o senhor Manuel Cardoso, que era um empregado do escritório sem grande jeito para a função. Foi substituído por uma gerência interina, partilhada pelos senhores Carlos Correia e pelo senhor Simas. Meses depois assumiu a gerência o senhor Duarte Pimentel. Ainda aguentou muitos anos até que seguiu para o Hotel Avenida, do mesmo grupo. Chegava ao fim a intervenção do Grupo Bensaúde. A partir daí, começou a sua decadência. Chegou a estar sob gestão do Governo Regional. A sua importância ainda se manteve por uns tempos até haver outras unidades hoteleiras na ilha. Mas nada previa que a sua história acabasse tão depressa: um grande incêndio destruiu-o por completo em poucos minutos. Até os arquivos, com parte da história do Hotel, foram subtraídos à curiosidade de futuros historiadores. Era um edifício construído em madeira! Só restaram as pedras da lareira…
PS.: Quero agradecer a colaboração prestada por Isabel Biscaia e Germano Bairos. Também gostaria de agradecer a todas as pessoas que puderem corrigir alguma má informação veiculada por este artigo e se puderem identificar algumas das pessoas que constam das fotografias.
+14
Luís Botelho, Jose Lopes de Araújo and 68 others
17 comments
19 shares
Like

Comment
Share
17 comments
View 3 more comments
  • Active
    Também gostei muito do seu texto sobre o Hotel Terra Nostra, que afinal de contas está ligado à minha infância… meu pai, sempre em busca de um melhor clima para a sua asma, conseguiu emprego no Hotel Terra Nostra em 1957, como chefe de expediente, ca…

    See more
    3
    • Like

    • Reply
    • 10 h
    View 2 more replies
    • Active
      Rosélio Reis

      obrigada, não consigo encontrá-lo à venda na net, pode dizer-me qual é o site? Obrigada pelo poema mas a nossa comum amiga Isabel Biscaia em tempos também mo mandou.

      • Like

      • Reply
      • 9 h
View 8 more comments

DE BELMONTE – HISTÓRIA(S)

+2
Estórias de um Arquivo Judicial
As boas contas, os franceses e o Conde de Belomonte
(Estas partículas da nossa história foram retiradas de uma prestação de contas que opôs o 1.º Conde de Belmonte aos herdeiros do Capitão – Mor José Martins Velho de Mello).
Belomonte instalou-se no morro granítico da Serra da Boa Esperança, impõe-se em todo o esplendor da Cova da Beira.
O Zêzere alimenta férteis terras, enriquece-lhe os prados e as ervagens. Terra solarenga com vista privilegiada para Estrela. Paisagens deslumbrantes, boa gente!
O capitão mor José Martins Velho de Mello é um abastado proprietário, um excelente amanhador de terras.
Grande amigo de José Mendes Veiga, farto negociante de lãs e panos, natural de Belomonte.
Martins Velho é respeitado nas redondezas pela sua fidelidade às contas e nutrido ódio aos franceses. Que em tempo recente queimaram a igreja do Teixoso e escavacaram imagens de santos a machado. Em Belomonte pilham o convento da Nossa Senhora da Esperança, açoitam os pobres dos frades, picam as armas da vila! Uma matança da história e de gentes!
No mês de Setembro de 1808 é vê-lo no Largo do Pelourinho a dar vivas ao Príncipe Regente! Junta-se ao Juiz de Fora da Covilhã nos estrondosos festejos da expulsão dos jacobinos!
As suas propriedades são as mais produtivas da freguesia.
O centeio, trigo, feijão branco, milho grosso, multiplicam-se nas courelas. Um mimo! O primeiro Conde de Belomonte, Porteiro Mor da Casa Real, conhece as suas virtudes agrícolas. D. Vasco Manuel de Figueiredo Cabral da Câmara, Senhor de Azurara, de Manteigas, de Moimenta da Serra, de Tavares e Senhor do Morgado dos Cabrais, leva-o para administrador dos seus corpulentos bens.
O mês de Junho avança quentoso, muito ameno. As chuvas de Abril engrossaram as nascentes e frutificaram as terras.
Como era o primeiro dia bonito dessa primavera chuvosa, o Capitão Mor calcorreava, regaladamente, a Quinta do Freixo, deslumbrado com a ondulação do centeio dourado.
O ano corre de feição para a agricultura. Pensa em tomar de arrendamento a Quinta dos Lamaçais. Pedro Alvares Cabral, o prior de Caria, deixara-a em testamento a seu sobrinho José da Fonseca Coutinho. Uma das melhores propriedades da Beira, que foi tomada em demanda exaltada aos do Teixoso, corria o ano de 1729.
Martins Velho chegara logo de manhã cedo acompanhado pelo Leal, moço das diligências e seu braço direito. Ainda se queixa da violenta jornada até Abrantes! No mês anterior fora de cavalgadura até a Abrantes e depois de barco pelo Tejo abaixo até à capital. Para entregar a seus amos 720$000 réis dos foros recebidos dos prazos da Folha de Entre – as – Águas.
Na eira, os criados limpavam o centeio com pás e peneiras.
São seis carros de bois a abarrotar de pão. Quase trezentos alqueires de centeio, transportados para a Tulha dos Cabrais, que se impõe no centro da vila de Belomonte. Manuel Pereira, o medidor do celeiro, fala-lhe da necessidade de obras.
Também o capelão andava sempre em lamúrias! Que a casa de Deus estava abandonada! Martins Velho resmunga: – “Estes santinhos comem e bebem “à tripa-forra”, mas não fazem nada numa casa! Dizem a sua missazinha, vão aos funerais, encantam algumas beatas com farto cabedal que, “estando de saúde e com juízo, discernimento e tranquilidade, esperando salvar a alma e obter o perdão dos pecados”, os contemplam em chorudas cláusulas testamentárias! As contas do administrador apareciam sobrecarregadas com as mesadas piedosas. Ainda não esqueceu a esmola de setecentas missas mandadas dizer depois de despedidos os capelães, por causa dos franceses, pelas obrigações da capela. Cem réis cada. Uns glutões!
O administrador manda comprar um milheiro de telhas.
Na tulha aproveita-se a trave mestra antiga por estar sã. A restante madeira, caibros e ripas, era toda substituída por nova do bom castanho da serra da Boa Esperança. Coloca portas, caixilhos, caixões e o mais necessário na capela de Nossa Senhora da Piedade. Em memória de D. Gil Cabral, bispo da Guarda! Coloca no seu testamento o desejo de que sua filha, D. Maria Gil, edificasse uma capela dedicada a Nossa Senhora da Piedade. Gasta a bela quantia de 750$000 réis!
O velho capitão vai embranquecendo, sente falta das suas ordenanças. O que lhe vale é sua mulher, Dona Josepha Ângela Soares de Gamboa, companheira de toda a vida e que lhe dera quatro filhos adoráveis. Anda preocupado com o regresso dos franceses. Corre o boato que estão às portas de Almeida.
Wellington distribuiu as suas tropas nas regiões de Viseu, Celorico, Guarda e Pinhel, com o quartel-general em Celorico. A cavalaria foi distribuída ao longo do rio Mondego e Belmonte. Ordena que nenhum oficial ou soldado, por qualquer pretexto que seja, peça ou tome no caminho carros, bestas ou forragens. O que desobedecer será considerado e tratado como rapinante!
A estratégia militar não estava a correr bem. O exército aliado fora sovado junto ao rio Côa. Batido pelos franceses, viu-se atirado para os barrancos do Côa, perdendo no combate trezentos e trinta e três homens. A praça de Almeida está situada a pouco mais de três quilómetros.
Já se escutam os sinos das localidades vizinhas. – “Os franceses vêm aí!”. As ordens de “terra queimada” estavam dadas!
À aproximação dos franceses deviam ser destruídas pontes, moinhos, colheitas, com excepção daquelas que pudessem transportar.
Os jacobinos precisam de alimento! Pilham os pobres lugarejos. Martins Velho manda retirar parte do cereal da Tulha. Contrata três juntas de bois para levar o cereal, para sítio afastado do apetite dos franceses! Pelo carreto da retirada de trezentos alqueires de centeio paga 50$000 réis. Uns ladrões!
Numa manhã fria de Janeiro, algo chuvosa, o velho capitão entrega a alma ao criador, “ab intestato”! Os capelães não perdoam! S. Senhorias exigem contas à viúva e aos herdeiros, que não renunciaram à herança. A módica quantia de 4:920$510 réis! O Senhor Conde entrega uns autos de libelo móvel ao vereador mais velho da Câmara de Belmonte. José Mendes Fajardo serve a Justiça, recebe-lhes a petição, manda citar os herdeiros do capitão mor!
(…)
Nota: A bela ilustração (Tulha dos Cabrais) é da Cláudia Gonçalves e as fotos foram retiradas do sítio cm-belmonte.pt.
You and 1 other
Like

Comment
Share