Visão | Independência dos Açores: reminiscências de quatro décadas e meia

“Ver meu pai ser arrancado de casa de madrugada é um momento sempre presente na minha memória. Tiraram-nos o nosso pai… E sobreveio um sentimento de orfandade, logo seguido de desespero.” Um relato na primeira pessoa de um dos 35 presos daquela noite fatídica, recolhido pelo jornalista João Gago da Câmara

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ainda o 6 de junho

O “Dia 6 de junho” 44 anos depois…

Caros convidados, amigos e companheiros. Cumpre-me como coordenador da comissão de honra da Celebração do 44º aniversário do dia histórico e memorável do 6 de junho de 1975 abrir este evento. Deixai-me, pois, em primeiro lugar agradecer a todos vossa presença desejando-vos um serão bem passado na nossa companhia. Uma palavra de apreço e agradecimento a quem nos patrocinou parte da exposição que está patente neste espaço e que é um pouco de regresso ao passado passando pelo presente e seguindo para o futuro. Foram ou melhor são eles Rui Matos – Foto Matos, Carlos Sebastião da Construção Civil. Também uma palavra de agradecimento ao apoio prestado pelo Luís, colaborador deste belíssimo espaço em que nos encontramos e foi incansável na atenção e na ajuda que nos deu na organização deste evento.

O 6 de junho de 1975, conhecido mais vulgarmente por “o dia 6 de junho”, não pode deixar de ser relembrado no dia-a-dia do da nossa existência, tal como na sua celebração como o “nosso dia” como dia nacional fixo em calendário de qualquer país, de qualquer nação, será para nós o dia dos Açores pois o mesmo representa a certeza do querer de um Povo que espera assim ser reconhecido por quem de direito.

Liberdade! Independência! “Lisboa … escuta: – os Açores estão em luta” foi o brado uníssono ouvido nas ruas de Ponta Delgada.

Diga-se em abono da nossa História de quase 600 anos, que o “Dia 6 de junho” não é de ninguém em especial. É de todos nós açorianos, de todos os nascidos e criados, vivendo aqui e, na nossa diáspora por esse mundo fora e, bem assim, os que por diversas razões escolheram viver em qualquer uma das ilhas que compõem este jardim em pleno Atlântico plantado. Nele, se integraram de alma e coração vivendo a verdadeira açorianidade, tenham eles a origem que tiverem.

Apraz-nos registar a participação ativa que tivemos na organização do “Dia 6 de junho”. Registo que trazemos no coração e que extravasamos para a opinião pública levando a sermos chamados por alguns, de “utópico”. Como resposta deixai-nos dizer: – “Os nossos pensamentos positivos que nos sustentam em pé, não são sonhos, não são utopia, mas um pensamento único na certeza do alvo”.

Referir que ao contrário do que vem hoje numa reportagem da Lusa em que nos fazem referência, e porque “o seu a seu dono” não sou fundador da FLA sou sim um ativista que abraçando a causa Açoriana, tenho mantido a minha lealdade e militância pela defesa da Independência dos Açores sendo possuidor do Cartão Movimento Nacionalista Açoriano MNA/FLA nº 1660 (quantos não estarão à nossa frente – 1659 com certeza) mas independentemente daqueles que já partiram, onde estão os outros?

O “Dia 6 de junho” não é de A, B, ou C. é pertence de todos aqueles, que nele participaram no tempo. Ontem como hoje, e principalmente daqueles que ainda hoje, perante a prestação colonialista do estado português, reclamam por uma autodeterminação que na Carta dos Direitos do Homem e na Carta das Nações Unidas no seu artigo 73 – Declaração relativa a territórios sem governo próprio, garantem a todos os povos a sua autodeterminação.

A FLA – Frente de Libertação dos Açores com o seu reaparecimento em 2012, tomou como sua, a responsabilidade da celebração do “Dia 6 de junho” prometendo a reativação das suas iniciativas na defesa da Independência dos Açores. Tem o feito até à presente data, na rua em manifestação pública ou, adentro portas. O movimento tem cumprido com aquilo que prometeu. Tem sido difícil, mas porque respeitando o slogan de José de Almeida que “Acima dos Açores só Deus”, temos tentado cumprir a promessa feita. A exposição que acabamos de inaugurar na celebração do 44º Aniversário do nosso “DIA”, embora modesta, mostra bem que o estamos a fazer.

Queridos amigos e amigas, deixai que vos tratemos assim. Permitem-nos que a terminar esta nossa arrazoada comunicação faça referência a expressão shakespeariana “to be or not to be, is the question” “ser ou não ser, é a questão”.

O conceito “Ser ou não ser” na nossa situação de defensores de uma Independência para os Açores acaba por ultrapassar o seu contexto e torna-se um questionamento existencial amplo. Esta frase torna-se uma pergunta sobre a nossa própria existência como defensores da nossa autodeterminação. “Ser ou não ser” é a questão sobre o nosso agir, da nossa tomada de acção, do posicionamento ou não diante dos acontecimentos que nos rodeiam na questão em causa. A defesa da Liberdade da Independência dos Açores.

Ser ou não ser eis a questão. Porque parece que muitos que foram deixaram de o ser, porque se acomodaram com uma Autonomia “castrada” à nascença se deixaram corromper pelo poder instituído do compadrio e do favoritismo. Sabemos quem eles são. Vimo-los de dedo no ar gritando também por Liberdade, por Independência, mas vemo-los hoje de cócoras, subservientes, corrompidos, enfim, feitos autênticos traidores ao ideal que à altura perfilharam. E à Esperança prometida ao nosso Povo. Desses a História também falará.

Poderão perguntar-nos se hoje há razão por defender a Independência dos Açores. Reponderemos: – por acaso estão cegos e surdos?

Quando ouvimos e lemos, quem pede mais presença de Lisboa nos Açores, defendem a suspensão da minguada autonomia existente, só temos uma coisa a fazer. Cortar o mal pela raiz e, defender a nossa existência mostrando quanto valemos. Nem que tenhamos que sair à rua e bradar alto e a bom som: – Liberdade… Independência… Lisboa escuta os Açores estão em luta.

José Ventura

6 de junho de 2019

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memórias de 6 de junho nos Açores

Mario Jorge Costa shared a memory.
1 hr

Freguesia de Fenai da Luz
Comemorações dia 6 de Junho de 2019
A convite de Vitor Almeida presidente desta Freguesia no dia 6 de Junho de 2019 pelas 20.30. O painel de convidados era constituído por Drª Susana Goulart da Costa, Drº João Bosco Mota Amaral, Luis Filipe Vasconcelos Franco, Drº Carlos Amaral. Depois de todos se prenunciarem sobre o 6 de Junto de 1975 foi facultado a cada pessoa uma só pergunta e eu pedi para fazer uma pergunta ao Drº Mota Amaral e perguntei-lhe quando o srº quando fez os !Estatutos da FLA era a segunda alternativa de governação dos Açores caso autonomia dos Açores não fosse viável?disse ele “não me lembro de ter feito os Estatutos da FLA” retorqui eu a falta de memória neste momento deve ser o seu avançado de idade! o painel de convidados riram e todo o publico. Curiosidades: A RTP Açores esteve lá fez um pequena filmagem será que gravou o debate? Claro que não! Foi pena porque foi muito interessante porque foi revelada uma nova História dos Açores. Foi assim nesta noite no Centro Cultural de Fenais da Luz desta ilha de São Miguel Açores.

Em 8 de Junho de 1975, ás 6.30 horas da manhã, fui violentamente acordado na minha residência, na Rua Ilha Terceira, nos Bairros Novos, abri a porta e deparei-me com um Jeep Militar da P.M. com cinco tropas sendo eles Carlos Silva, (Jogador do Marítimo) António Maia (cabo) Fernando Rosa ( Sargento) e Aspirante Faria ” disse-me o Carlos “Carcereiro” Mário desculpa mas eu fui mandado vais ter que vir comigo para o Castelo São Brás o comandante Ricou quer falar contigo”” chegado lá estava uma mesa cheia de fotos (mais de 200) o major Caçorino disse-me amigo escolha as fotos que conheça as pessoas” eu escolhi e entreguei umas 30 fotos ele disse pegando nas fotos ( uma delas estava Estrela da manhã pai) Eduardo Branco filho do chefe Branco) e eu todos com a bandeira da FLA que fui buscar ao sr.º José Borges) bandeira que foi colocada na varanda do Palácio de Nossa Senhora de Conceição (antigo Governo Civil de P. Delgada)
quem conheces aqui e apontei ” mas isso `´e você!! e eu sim senhor… O Caçorino chamou a guarda e disse ponham este “Gajo” na cela para ver se ele muda de ideias. Fiquei 14 dias lá até que um cabo de nome Viera (Vila de Povoação)que me vinha trazer o rancho me disse ” eles esqueceram-se de si… eu vou deixar o cadeado mal fechado e quando chegar ao render da guarda saia com estes sacos de compras “era caixas vazias com papeis” porque no tempo havia uma cantina que os civis faziam compras e lá fui porta fora…Encontrei o empregado do eng: Gualberto Cabral que me levou para o aviário e enquanto lá estive foi o senhor José Borges dono da Mercearia Rua Mercadores que me mandava comida até à chegada dos outros presos da Ilha Terceira.

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AÇORES O 6 DE JUNHO

Três manifestações numa manifestação

O que ficou para a História como o “6 de Junho” de 1975 foi uma grande manifestação realizada em Ponta Delgada. Chegou-se a apontar para cerca de dez mil participantes.
Eu assisti à enorme concentração popular junto ao então Governo Civil, porque na altura era aluno do Liceu Nacional de Antero de Quental, hoje Escola Secundária, que se situa nas proximidades.
Para mim, do que vi e do que recordo, foram três manifestações que se juntaram numa só: uns reclamavam melhores condições para a lavoura, outros defendiam a independência dos Açores e outros pugnavam por uma autonomia político-administrativa para o arquipélago. Pelas palavras de ordem proferidas e pelos cartazes exibidos, parecia existir um elemento comum entre todos: rejeitavam o Governo liderado pelo então brigadeiro Vasco Gonçalves e estavam preocupados com o curso da revolução iniciada em 25 de Abril de 1974.
O “6 de Junho” ocorreu num momento muito conturbado da vida portuguesa, um tempo de excessos de idealismo em todos os campos ideológicos. Um tempo que ainda não é totalmente conhecido, só a distância temporal permitirá esclarecer muitos equívocos e descobrir muitas verdades ainda não reveladas.
No entanto, por exemplo, sabe-se hoje que Vasco Gonçalves só foi primeiro-mistro porque o Movimento das Forças Armadas convidou outras personalidades, civis e militares, melhor preparadas, para o cargo de primeiro-ministro e não aceitaram. Consta que ele então se disponibilizou para constituir um Governo, mas o seu excesso de idealismo à esquerda não o ajudou, bem pelo contrário, na condução do país.
Curioso é que, apesar de alinhar com o pensamento político-ideológico do PCP, nunca sugeriu nem muito menos decidiu a saída de Portugal da NATO. Aliás, o próprio Presidente da República de então, o general Francisco da Costa Gomes, garantiu aos EUA que Portugal nunca abandonaria a NATO. No meio disto, o líder da então União Soviética, Leonild Brejnev, comunicou ao secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, que a ex-super-potência não se empenharia por um país comunista no sul da Europa, o que fez com que o PCP recuasse um pouco nos seus objectivos.
De qualquer modo, o Governo dirigido por Vasco Gonçalves desenvolvia uma política muito à esquerda, traduzida, nomeadamente, na reforma agrária e nas nacionalizações de empresas de vários sectores.
Foi nesse ambiente que o “6 de Junho” ocorreu, porque vários sectores da sociedade açoriana, principalmente na ilha de São Miguel, não aceitavam a situação política que se desenvolvia em Lisboa.
Nos dias seguintes, foram detidos cerca de 30 açorianos, alegadamente envolvidos na promoção da manifestação, que não tinha sido autorizada. O modo como se procedeu às detenções foi exagerado, com militares a invadirem habitações de madrugada, às ordens de um general indecifrável na sua maneira de ser, nunca se compreendendo bem quem foi e o que pretendia. Era governador militar dos Açores, de seu nome Altino Pinto de Magalhães. Os detidos foram libertados um mês depois.
A manifestação teve também como consequência a demissão do governador civil, António Eduardo Borges Coutinho de Medeiros, advogado e lutador pela democracia.
Que foi uma data marcante para os Açores, foi sem dúvida, independentemente do ângulo de análise, mas continuam a surgir opiniões diversas sobre a origem, os objectivos e as consequências da manifestação de 6 de Junho de 1975.
Por exemplo, uns dizem que “a manifestação foi organizada pela FLA-Frente de Libertação dos Açores” e outros afirmam que “a manifestação foi preparada pelo PPP-PSD”.
Perante opiniões diversas e dúvidas que ainda subsistem, falta fazer um estudo rigoroso e isento, sem preconceitos nem ideias feitas, sobre o que foi o “6 de junho”, para efeitos de um completo esclarecimento histórico.
Penso que o “6 de Junho” nos dias de hoje não seria possível, porque o contexto histórico é muito diferente e porque as pessoas na sua maioria já não se entusiasmam com idealismos de qualquer espécie: entusiasmam-se mais com subsídios de qualquer natureza e origem…
Por último, é importante referir que o “6 de Junho” deixou algumas feridas na sociedade açoriana, porque nem todos concordaram ou se identificaram com os objectivos que animaram a manifestação. Felizmente, essas feridas foram saradas e todos convivem numa democracia plural. No fundo, era o que todos pretendiam, divergindo apenas nos caminhos para atingir esse patamar de convivência cívica.

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