Eduardo Bettencourt-Pinto escreve

Eduardo Bettencourt Pinto
3 mins ·
Há alturas em que não a oiço. Apenas o som emitido pelo frigorífico, como agora, na sala, enquanto releio Vergílio Ferreira. De repente aparece-me esta frase: «Porque a infância, querida, é sempre uma ameaça para um homem.» Esta afirmação acorda-me, faz-me estremecer. Fico despido, nu. As minhas mãos já não cabem nas da minha mãe como folhas de cerejeira. Já não tenho esse refúgio, essa árvore que me dava sombra e protecção. Sou o meu destino, descalço sobre os cacos da minha fragilidade. Estou só na longa estrada. As palavras de Vergílio Ferreira são um vendaval. Tornam-se mais fortes do que o silêncio, respiram dentro de mim. Evocam fragmentos de um espelho que se partiu de encontro ao tempo. Não é fácil olhar para trás quando as imagens da nossa vida estão todas espalhadas pelo chão. Não há chuva tão fria como a das lágrimas. A infância foi um sonho breve, é certo. O homem acorda e ajoelha-se perante o passado numa tarefa de recolha. São muitos os fragmentos – uma mancha na água pura da inocência, ofensas sem resposta, cumular de recalcamentos. Ausências. Depois a indignação perante aquilo que já não tem remédio. Tudo passou menos a memória das coisas, prisioneira de um grito insano. Até o belo tem uma ferida, uma picada, um alfinete preso na pele. A certa altura um homem torna-se num mapa de vivências, a cabeça num espólio de imagens. Por isso eu não sou daqui. Salto de terra em terra, de momento a momento como uma palavra peregrina. Sou poesia e vento. Esquecimento. Ando descalço pelo mundo com África na minha voz, e não peço desculpa por levar nos bolsos o cheiro das goiabas. A minha infância tem um rio nos olhos da minha mãe. É para lá que vou, agora e sempre.

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O Pai Natal da despensa – Palavras no branco Eduardo B Pinto

O Pai Natal está de costas viradas para a janela. Usa óculos de aros redondos, vê mal, coitado, sobretudo agora pelo Natal. O mundo fica tão escuro aqui, os dias curtos, as noites tão longas. Com a…

Fonte: O Pai Natal da despensa – Palavras no branco

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EDUARDO BETTENCOURT PINTO NOVO TEXTO

Eduardo Bettencourt Pinto
29 mins ·
Uma mão no mundo de Idi Amin
Em Agosto, quando a luz fere a pele como a chama de um fósforo, Idi Amin arrasta-se pela rampa, escorrendo água e silêncio da sua carapaça, e deixa-se ficar muito quieto, meio adormecido, pestanejando como uma criança perante a alta e muito branca luz do mar.
(Ver texto completo no meu blogue PALAVRAS no BRANCO. Aqui:

Palavras no branco
Eduardo Bettencourt Pinto
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Eduardo Bettencourt Pinto Palavras no branco

Eduardo Bettencourt Pinto
57 mins ·
Agravo e tempestade
«Não foi a tua pele que envelheceu, Carl. Nem os olhos. Tão pouco os ossos. Foi, acredita, o fantasma dos teus pensamentos. Isso sim. Olhas as coisas através da escuridão de um cego. Deixaste de observar o mundo. Vives encerrado num cárcere emocional e ninguém te resgata daí. És um ancião de bengala, trôpego e infeliz, dentro de ti».
Ver aqui texto completo: https://eduardobpinto.wordpress.com/

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Palavras no branco
Eduardo Bettencourt Pinto
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EDUARDO BETTENCOURT PINTO uma palavra no regaço de abril:

A PALAVRA

Deixo cair uma palavra no regaço de abril: é uma semente. Podia ser a primavera mas esta vem devagar, soturna, a tropeçar na chuva. Há uma visão de sombras no centro do verde onde cai. A palavra arrasta-se pelo chão como um país apedrejado. Não é um poema nem um grito mas o silêncio de um homem frente à janela. Perco a palavra como uma gaivota as asas sobre o mar. Afunda-se na escuridão. Os meus dedos ajudam-na a cantar por um momento entre as colunas de mais uma noite sem templos.

[EBP]

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