finalmente vão reparar a estrada da fajã do ouvidor

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A Secretária Regional dos Transportes e Obras Públicas assinou esta sexta-feira o auto de consignação da empreitada de reparação dos danos na Estrada Regional de acesso à Fajã do Ouvidor, em São Jorge.

Agenda para relançamento económico e social dos Açores com 250 medidas – Açoriano Oriental

O Governo dos Açores apresentou a anteproposta de agenda para o relançamento social e económico da região no pós-pandemia da covid-19, composta por 250 medidas e aberta aos contributos dos cidadãos.

Source: Agenda para relançamento económico e social dos Açores com 250 medidas – Açoriano Oriental

covid, efeito cobra

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O efeito Cobra

César Ferreira

César Ferreira

Economist – Teacher – Advisor “I look for the sparkl that drives life”

Durante a administração britânica da Índia, um governador de Nova Deli, confrontado com o problema do número de cobras que infestavam a cidade, decidiu pagar uma recompensa por cada cobra que fosse morta. No início, a política teve um impacto positivo e sentiu-se a diminuição do número de cobras que infestavam a cidade, no entanto, no país mais empreendedor do mundo esta política teve um aproveitamento inesperado.

Os indianos começaram a criar cobras para depois receberem uma recompensa por cada uma. Ao tomar conhecimento deste aproveitamento o governador tomou a decisão de terminar com o pagamento das recompensas pelas cobras mortas. Esta decisão fez com que os criadores de cobras, perdessem o seu cliente, o governo provincial de Nova Deli. As cobra ficaram sem valor comercial, e, nesse sentido os criadores de cobras tomaram a decisão de as soltar pois não iam continuar a alimentá-las e a criá-las se ninguém iria pagar por elas. O resultado foi que Nova Deli ficou infestada de cobras como nunca tinha estado.

O que aconteceu na Índia não foi um fenómeno isolado, os franceses tiveram um exemplo semelhante com os ratos, no tempo em que administraram o Vietname, nomeadamente, em Hanói. Mark Twain, na sua autobiografia, tem uma afirmação que podemos traduzir da seguinte forma, A melhor forma de aumentar os lobos na América, os coelhos na Austrália e as cobras na Índia, é que o governo pague uma recompensa pelos escalpes de cada um desses animais. Nessa altura todos os patriotas vão criá-los”

Esta história é contada para demonstrar que as políticas públicas, e, as decisões de gestão devem ser pensadas de modo a prever todos os cenários futuros. Mesmo uma decisão que é tomada no sentido de resolver um problema e que tem resultados iniciais positivos pode tornar-se desastrosa no futuro e inclusive agravar o problema inicial.

Tenho lido que alguns economistas consideram que a forma como os governos lidaram com os impactos económicos da pandemia criada pelo COVID-19 vai criar um efeito cobra.

O efeito cobra prediz que os apoios criados artificialmente para apoiar a manutenção do emprego vão criar uma crise económica e financeira mais grave no futuro próximo, que seria menor se não tivessem existido estes apoios, nomeadamente, os apoios diretos às famílias, as moratórias de crédito e os layoff’s que foram criados, por todo o mundo. Esta tese é o elemento central deste texto que ficará sempre inconclusivo pois o tempo de análise e avaliação poderá ser sempre discutível até que faça sentido e corrobore qualquer um dos pontos de vista.

Os que concordam com a tese do efeito de cobra podem sempre dizer que a crise que aí vem poderia ser menor se não tivessem existido os apoios, e, em sentido contrário os defensores das políticas podem argumentar que a crise seria muito maior se não tivessem existido.

O que é certo é que, neste momento, prevemos um futuro. Nos próximos seis meses vamos estar pior do que há seis meses atrás. Por isso no mês de fevereiro de 2021 vamos ter mais desemprego do que no mês de fevereiro de 2020. E com mais desemprego tudo o resto é afetado.

Os apoios à manutenção do emprego estão na fase fade out, os governos não têm capacidade financeira para assegurar o nível de apoios que estavam a dar nos últimos tempos. Vão deixar as empresas à sua sorte sem apoios e sem mercado. Um pouco por todo o mundo as economias vão apresentando resultados preocupantes. Em Espanha o PIB semestral caiu face, ao mesmo período do ano passado, 22,1%, França 19%, Itália 17,3%, Portugal 16,5%, Bélgica 14,5%.

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Para Portugal os principais mercados para as exportações portuguesas, de acordo com os dados de 2019 disponibilizados pelo INE e Pordata, são efetivamente a Espanha e a França os países com as quebras do PIB mais acentuadas dentro da zona EURO.

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Relativamente aos dados do Reino Unido ainda não temos previsões para o semestre, no primeiro trimestre caiu 2,2% a maior queda desde 1979. Os Estados Unidos têm uma economia particular, com uma dinâmica diferente da que se vive na União Europeia mas a queda é de 32,9%, uma queda histórica e sem precedentes na história económica americana.

Estes dados vão traduzir-se em desemprego que se irá prolongar no tempo por um prazo superior ao que se esperaria inicialmente, porque a queda na economia é global, e, numa economia aberta como a nossa, com necessidade de mercados externos para escoar a nossa produção, a quebra da atividade económica vai acabar com muitos empregos. Numa fase inicial o turismo e a restauração são os mais afetados mas no futuro todas as atividades vão ser atingidas.

O governo foge da palavra austeridade e acena como os milhares de milhões que vêm da UE, mas a austeridade já está cá, porque as pessoas que perderam o seu emprego já têm cortes nos seus rendimentos disponíveis, e, os milhões da UE não chegam a essas pessoas. As moratórias dos créditos aliviam, por enquanto, os orçamentos familiares mas no momento em que se reiniciarem os pagamentos das prestações vamos ter um aumento nos incumprimentos dos créditos e uma retração significativa no consumo interno e externo.

Para percebermos melhor o impacto das moratórias de crédito o Banco de Portugal apresentou um retrato geral das moratórias de crédito concedidas à data de 31 de maio.

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Os números são impressionantes, pois temos 688.515 contratos de crédito abrangidos, 475.215 famílias e 213.300 empresas. No momento em que terminarem as moratórias de crédito o rendimento disponível das famílias e das empresas vai ser gravemente reduzido

Os tempos que vivemos hoje são realmente diferentes, vivemos um novo normal, estamos a entrar em crise mas as famílias têm um rendimento disponível superior ao que tinham antes da crise, por isso, temos informações contraditórias, a quebra da produção é impressionante mas os mercados de capitais batem recordes. O Nasdaq atingiu hoje, dia 5 de agosto, o seu máximo histórico, que tem sido batido consecutivamente nas últimas semanas. As famílias e empresas têm liquidez, por causa dos apoios, e, principalmente pelas moratórias de crédito e de impostos, mas o desemprego aumenta a níveis recorde, um pouco por todo mundo. Esta é uma situação inovadora na gestão pública de crises e é essa gestão que está em causa.

Há coisas que não mudam as moratórias de crédito e dos impostos vão afetar a viabilidade da banca e o equilíbrio dos orçamentos governamentais, por isso, mais cedo ou mais tarde os apoios vão parar, e, aí chega a fatura para pagar, caso contrário destruímos o sistema financeiro e os orçamentos governamentais.

Sem um sistema financeiro eficiente e robusto e sem um Estado com recursos para intervir entramos num mundo conhecido que não trará nada de bom. Os regimes sem um sistema financeiro e sem Estados com recursos financeiros acabaram em regimes comunistas com as suas consequências, pobreza, limitação das liberdades e confisco da propriedade privada.

Em Portugal temos falhas na utilização de recursos públicos e não é preciso ser economista para perceber os problemas com a afetação de recursos a atividades produtivas. Nesse sentido, muitos dos milhões que vêm para auxiliar a crise, vão ser alocados a atividades que não geram rendimento nem potenciam a sua geração. Uma autoestrada sem movimento, um aeroporto sem passageiros, uma escola sem alunos ou um centro cultural sem cultura, não geram nem potenciam valor para o país.

Infelizmente muitos milhões que vieram para Portugal foram gastos sem um caderno de encargos de validação que verificasse se o investimento público tinha os resultados que foram anunciados na altura da sua aprovação, e, nenhum político ou decisor público foi julgado pela ineficácia ou ineficiência das suas decisões. São mediáticos os casos de corrupção, e bem, mas os outros, aqueles em que o dinheiro foi mal gasto, não têm quaisquer consequências pessoais ou políticas.

Em frente a uma tempestade Portugal enfrenta-a mais uma vez sem preparação para a marear. Vamos com emprego precário, sem poupança das famílias ou das empresas, altamente endividados, com um consumo interno débil e sem mercados para exportar.

Até ao início desta crise, março de 2020, o baixo nível do desemprego, o turismo e a procura global sustentaram a economia portuguesa, mesmo assim com desempenhos fracos comparados com os restante países da Europa.

No quadro abaixo, embora contenha muita informação, optei por não cortar qualquer dado para se poder perceber a dimensão e o desempenho da economia portuguesa. Os valores a verde representam os países que tiveram um melhor desempenho no período em análise. Verificamos que nos últimos 6 trimestres Portugal tem crescido menos do que a maioria dos países europeus. Em análise aos trimestres homólogos, em 60% das 190 variações trimestrais, o desempenho de Portugal é inferior aos restantes países europeus.

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E o que se poderia ter feito diferente? Esta é a questão que se põe. Normalmente, as questões mais complexas, têm situações mais simples. O ovo de Colombo repete-se. O confronto com a realidade é sempre melhor do que fugir para cenários míticos em que vacas voam e os unicórnios brincam com as crianças. As famílias e as empresas têm que rapidamente enfrentar a realidade e adaptar-se ao novo normal. Têm que procurar novas fontes de rendimento porque o turismo e o consumo interno, ao nível global, vai-se retrair. Por isso é preciso encontrar novos serviços, produtos e mercados. Os primeiros a adaptarem-se, ao novo normal, vão sobreviver. Foi assim que Darwin nos ensinou, e, é assim que a biologia e a economia funcionam.

As moratórias de crédito não deveriam abranger os juros, e, não deveriam prolongar-se por 12 meses. Desta forma preservava-se o sistema financeiro e os orçamentos governamentais. A bondade da medida vai ser prejudicada pelo seu prolongamento, e, por não assegurar os resultados operacionais da atividade financeira. O risco de incumprimento dos contratos de crédito é bastante elevado e vai agravar-se a cada mês nos próximos tempos. O Estado deveria criar um instrumento financeiro que assumisse, com regras, o risco do incumprimento do crédito de modo a salvaguardar o sistema financeiro.

Os apoios devem ser direcionados para as empresas que tenham planos estratégicos para o futuro. Financiar empresas para adiarem o encerramento e os despedimentos é deitar dinheiro fora. Empresas que não fossem viáveis antes da crise e apresentassem resultados negativos não deveriam ter acesso aos apoios. As empresas só deveriam ser apoiadas após uma criteriosa avaliação técnica e com garantias de devolução dos apoios, no caso de não atingir os resultados propostos para aprovação do financiamento.

O Rendimento Básico Universal RBU é uma medida essencial para preservar a dignidade das pessoas e será uma forma de reorganizar o Estado Social em Portugal. Os tempos que vivemos necessitam de respostas diferentes. Precisamos de manter um baixo nível de criminalidade, combater o trabalho infantil, a exploração laborar e manter um fluxo migratório positivo. O RBU é uma ferramenta essencial para assegurar estas questões.

Por fim, e provavelmente o mais importante, as apostas na educação, saúde e justiça são estruturais para a criação de uma sociedade robusta, capaz de sair mais forte dos tempos que aí vêm.

Publicado por

César Ferreira
Economist – Teacher – Advisor “I look for the sparkl that drives life”

How the ‘National Cabinet of Whores’ is leading Australia’s coronavirus response for sex workers

The UN warns sex workers face increased discrimination under COVID-19. In Australia, they have been an ‘afterthought’ in the country’s pandemic response.

Source: How the ‘National Cabinet of Whores’ is leading Australia’s coronavirus response for sex workers

o fim do sonho americano

Investigação sobre o fim do “sonho americano”

Posted: 06 Aug 2020 11:20 AM PDT

#Escrito e publicado em português do Brasil

Dois economistas sondam o empobrecimento e depressão dos operários, na antiga potência industrial do mundo. Em sua tragédia, as ciladas da racionalidade neoliberal, num sistema em que a grande realização é o consumo

Eleutério F. S. Prado* | Outras Palavras | Imagem: Lesley Oldaker

Eis como, os autores – por meio do pensamento positivo – se consolam diante de um presente que se afigura como bem desconsolado: “mantemos o otimismo; acreditamos no capitalismo; continuamos a crer que a globalização e a mudança tecnológica podem ser orientadas em benefício de todos”. A situação social que descrevem em Mortos pela desesperança e o futuro do capitalismo1 se apresenta como desastrosa e mesmo indignante, mas ao invés de fazer uma crítica radical do sistema que, aliás, chamam pelo seu verdadeiro nome, preferem vê-lo apenas como mal administrado. Anne Case e Angus Deaton, dois economistas consagrados da Universidade de Princeton (EUA), documentam nesse livro, de certo modo corajoso, os infortúnios, os abatimentos e os bloqueios sociais que os trabalhadores brancos menos instruídos (classe operária) vêm enfrentando na sociedade norte-americana.

O quadro deprimente que pintam está sintetizado na figura abaixo que apresenta estatísticas históricas de mortalidade nos EUA e em três outros países desenvolvidos (para pessoas entre 45 e 54 anos). Mas antes de poder analisá-lo melhor, ou seja, com maior extensão e profundidade, é preciso apresentar um contexto, uma rodada de contribuições analíticas em dois campos do conhecimento científico.

Como esses dois autores põe o problema da compreensão dos resultados da globalização neoliberal para a vida material e mental dessa fração da população nos Estados Unidos, é necessário começar apresentando uma tese clássica sobre o homem moderno no campo da psicologia social. Para Erich Fromm, este último se sente como indivíduo, ou seja, com um ser centrado em si mesmo que possui liberdade, vontade própria e capacidade crítica, que se pauta pelo seu auto-interesse e que, para tanto, confia sobretudo em si mesmo. Mas, ao mesmo tempo, ele se vê como um ser solitário, que está constantemente acossado pela concorrência e, por isso, encontra-se tomado por ansiedade, perturbações de caráter e medo do futuro. “A sociedade moderna” – diz Fromm – “afeta o homem de duas maneiras simultaneamente, ele se torna mais independente, autoconfiante e arguto, mas também mais só, isolado e temeroso”.2

Eis que esse indivíduo é a contrapartida social de um sistema econômico que funciona automaticamente, sem um controle social efetivo, e que se afigura por isso como uma segunda natureza. Como diz o próprio Fromm: por meio dessa inserção, “o homem se torna uma roda dentada na imensa máquina econômica”. Em consequência dessa disposição societária, ele está posto como um ser falsamente para si que sofre de solidão, ansiedade e medo – um “fraco” que recalca a sua fraqueza, cuja origem é estrutural. Por isso mesmo está sujeito à certas síndromes psicológicas como as neuroses e as perversões, às mortificações depressivas.

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Se esse indivíduo for um capitalista, ele pode se ver como alguém importante, tornando-se assim capaz de aplacar o seu sentimento de relativa impotência; se, porém, for um trabalhador, ele pode se sentir até mesmo como um ser insignificante que não consegue se realizar como indivíduo bem-sucedido no meio social. É preciso ver reflexivamente que as pessoas em geral se medem no capitalismo pelo seu sucesso profissional, pela sua capacidade de consumo conspícuo, enfim, por sua riqueza mercantil. Está última garante certa segurança para aqueles que se sentem bem-sucedidos nos períodos de boom econômico, mas costuma também perder parte desse atributo nos períodos de crise, quando então mesmos os mais ricos passam a temer a desvalorização do capital.

Ora, esse quadro foi fortemente agravado pela vinda do neoliberalismo a partir dos anos 1980 do século XX. Com ele, a proteção social aos trabalhadores em geral, garantida pela socialdemocracia prevalecente até então nos países do Ocidente, passou a ser pouco a pouco desmantelada. E essa proteção é crucial porque, com a ascensão da sociedade urbana, os laços familiares se tornaram cada vez mais tênues. Em consequência, as pessoas se encontram, também cada vez mais, socializadas como unidades individuais. Como se sabe, o neoliberalismo se constitui sobretudo como uma nova forma de subsunção real do trabalho ao capital, uma forma que se tornou dominante após 1980 e que pode ser caracterizada como intelectual e societária. A subsunção material da fábrica perde força, mas cresce a captura da subjetividade dos trabalhadores aos propósitos associados à acumulação de capital.

Assim, mais do que uma mera ideologia, o neoliberalismo se põe como uma racionalidade que procura moldar os indivíduos como seres mais bem adequados à concorrência capitalista, aos mercados, à produção mercantil. E essa lógica, como bem se sabe, espraia-se agora para todos os domínios da sociedade. O neoliberalismo aspira por todos os bens – sejam eles privados, comuns ou públicos – sob a forma de mercadoria, predicando que as pessoas devem se encarar como seres competitivos que buscam aumentar e valorizar constantemente o seu próprio “capital humano”.

As consequências sociais da difusão da racionalidade neoliberal na sociedade norte-americana foram devastadoras. E o livro de Case e Deaton, com base em estatísticas de doenças, vícios e mortes, traça um quadro dantesco desse impacto, especialmente nas condições de vida da classe operária branca dos Estados Unidos – uma fração que até o final dos anos 1970 se encarava como classe média privilegiada, possuidora de um padrão de vida consumerista, o qual fazia inveja aos pobres de espírito do resto do mundo e era motivo de orgulho e propaganda imperialista.

Os autores contam, na introdução, que foram levados a essa pesquisa empírica quando descobriram que as taxas de suicídio entre as pessoas de meia-idade estavam aumentando rapidamente nos Estados Unidos. O consumo de opioides, o alcoolismo e as mortes por overdose também cresciam desmedidamente. Na investigação, descobriram então que tais aumentos se deviam a uma pandemia de desesperança que tinha causas econômicas, sociais e psicológicas. Tratou-se para eles, então, de estudar o que os dados poderiam dizer sob a hipótese de que se tratava de um efeito da globalização na situação da força de trabalho nos Estados Unidos.

Ao consultarem as estatísticas, eles notaram rapidamente que as mortes causadas pela desesperança se concentravam especialmente naquela fração da população que não tinha um título de curso superior. Constataram que a evolução do mercado de força de trabalho nos Estados Unidos, nas décadas mais recentes, passara a privilegiar aqueles que tinham algum título de curso superior (quatro ou mais anos) e a discriminar aqueles que tinham uma formação que chegava apenas aos graus médios, geral ou profissional. Numa leitura clássica, a classe operária desse país ganhava assim uma nova/ruim experiência no capitalismo – e ela contrariou a que tiveram no passado, especialmente no chamado “período de ouro” (1945 – 1975).

O sistema meritocrático que governa esse mercado passara a contemplar melhor aqueles que tinham capacidade adquirida para trabalhar num mundo agora crescentemente informatizado, em que as mudanças tecnológicas ocorriam celeremente. Em consequência, enquanto esses trabalhadores tomavam a si mesmos como “vencedores”, todos aqueles com menos educação formal se viram como “perdedores” na corrida pelo sucesso. Como se sabe, na sociedade norte-americana impera como em nenhuma outra um individualismo competitivo que ajuda a ganhar títulos olímpicos, mas produz também muita ansiedade, frustração e obesidade mórbida, tal como observara já no passado Erich Fromm. Como se sabe, foi essa sociedade que lhe forneceu o material para o desenvolvimento de suas teses críticas no campo da psicologia social.

O processo da globalização eliminou grande parte do emprego industrial baseado em trabalho manualmente intensivo, incrementando ao mesmo tempo a ocupação no setor serviços, o qual se tornou o grande absorvedor de força de trabalho pouco qualificada nos Estados Unidos. A revolução tecnológica da informática e da comunicação, por sua vez, promoveu um crescimento da demanda de trabalhadores com estudos superiores nas diversas áreas do conhecimento, deixando para trás aqueles com menores graus de estudo e que estavam melhor adaptados às rotinas fabris, agora em decadência. Assim, tal como constatam Case e Deaton, “os menos instruídos foram desvalorizados e mesmo desrespeitados, pois passaram a ser encorajados a se verem como perdedores, como seres manipulados por um sistema que ficara contra eles”.

Os autores não investigaram apenas as estatísticas de mortalidade e, em particular, as de suicídios, mas também as que refletiam as ocorrências de doenças auto-infringidas, vícios com drogas psicotrópicas e desestruturação familiar. O número de crianças “sem” pais – só com mães – elevara-se enormemente na população, em particular, na coorte de pele branca, quando já era bem grande na população negra e hispânica. O uso de drogas contra a depressão, contra as dores do corpo e da alma crescera também de modo assustador nas últimas décadas.

A situação encontrada mostrou-se grave nesses múltiplos aspectos. Entretanto, uma imagem dramática sintética do que ocorreu e vem ocorrendo nos Estados Unidos encontra-se no gráfico antes apresentado que agora precisa ser interpretado. Aí se mostra a taxa de mortalidade por 100 mil habitantes, entre os anos de 1990 e 2019, da população branca norte-americana não hispânica (cerca de 60% da população norte-americana). Ora, o evolver dessa taxa apresenta um comportamento claramente anômalo: ela sobe ou se mantém quando deveria cair conforme a tendência histórica e conforme o que ocorrera nos outros países desenvolvidos.

A comparação com o que vem ocorrendo na França, na Grã-Bretanha e na Suécia, presente nessa figura, mostra um resultado surpreendente: enquanto nesses três países a taxa mortalidade nas idades entre 45 e 54 continuou a cair, tal como vem o ocorrendo desde o começo do século XIX, ela cresceu um pouco nos Estados Unidos a partir de meados da década dos anos 1990 e, grosso modo, estabilizou-se desde então num nível bem acima dos outros três países. Ora, mas essa percepção imediata não diz tudo o que é preciso para compreender o que aconteceu e está acontecendo nesse país, um campeão na imposição da lógica da concorrência para toda a sociedade.

A taxa de mortalidade da fração com educação superior caiu continuamente, quase do mesmo modo que naqueles três países citados. Portanto, o dado gráfico relativo aos EUA mostra, de modo implícito, que essa taxa aumentou extraordinariamente na fração que não possui curso superior (cerca de 38% da população norte-americana). Assim, uma parte significativa da população trabalhadora, dependente da “máquina de progresso” da potência imperialista hegemônica, regrediu econômica e socialmente. E essa degradação se somou à tradicional degradação das condições de vida de grande parte da população negra, que é mais pobre, tem menos empregos e recebe menos benefícios sociais. Em consequência, a visão idílica mantida por muitos ainda sobre as condições de vida nos Estados Unidos precisa começar a se desfazer.

Por que a taxa de mortalidade teve aí uma evolução pior do que nos outros países desenvolvidos? Há várias razões. A principal delas, sem dúvida, tem por nome genérico “neoliberalismo”: “na América, mais do que em outros lugares” – dizem –, “o poder político e de mercado moveu-se do trabalho para o capital” nesse período. A globalização enfraqueceu os sindicatos e fortaleceu os empregadores em geral. As novas formas de subsunção do trabalho ao capital propiciadas pelas tecnologias da informática minaram o poder de barganha dos trabalhadores. Em consequência, a produtividade do trabalho continuou crescendo, mas os salários reais médios estagnaram. Já os salários médios dos trabalhadores com menores níveis de estudo formal tenderam a cair nesse mesmo período. Eis que a potência hegemônica tinha que continuar sendo hegemônica, inclusive por meio de um gasto militar extremamente alto e por meio do sacrifício de sua população trabalhadora.

Case e Deaton põem grande parte da responsabilidade por essa piora no índice de mortalidade aludido no sistema de saúde aí existente. E essa constatação é interessante porque mostra a ineficiência e a ineficácia do setor privado quando se trata de produzir um bem público importante ao bem-estar das pessoas e das famílias. Se ele fracassa, quem fracassa junto são aqueles que dele dependem.

Como se sabe, os serviços de proteção à Saúde são fortemente mercantilizados nos Estados Unidos. Mesmo estando entre os mais caros do mundo, são produzidos de modo insuficiente – porque mal orientados, mal distribuídos e mal administrados, apesar dos níveis de excelência técnica e tecnológica. Contribuíram, por exemplo, para uma epidemia no uso de opioides. Há cerca de 30 milhões de norte-americanos que não têm qualquer seguro de saúde, num país em que esse bem é fornecido quase que inteiramente de modo privado. “Sob proteção política” – afirmam esses dois autores –, “o sistema norte-americano de cuidados da saúde redistribui renda para cima, isto é, para os hospitais, os médicos, os produtores de equipamentos, as companhias farmacêuticas, ao mesmo tempo em que entrega à população os piores resultados em comparação com o que acontece entre os países ricos”.

Os autores têm várias sugestões para redirecionar o capitalismo nos Estados Unidos. E é com base nessas propostas – mesmo diante do triste quadro que foram capazes de apresentar – que afirmam e reafirmam o seu otimismo mágico. Partem da ideia de que o sistema econômico está produzindo uma repartição da renda muito desigual e, assim, gerando injustiças sobre injustiças. Propõem que se regule melhor o setor produtor de medicamentos para estancar a crise no uso de opioides. Sugerem que se deve fazer uma reforma radical do sistema de saúde para refrear o seu grau de mercantilização. Aconselham que se legisle no sentido de aumentar a progressividade da tributação, para criar um sistema de benéficos sociais mais amplos. Recomendam que as oportunidades de ter curso superior precisam ser elevadas etc. Nada de muito original, frente às políticas socialdemocratas que foram abandonadas no passado.

Para os autores, em resumo, deveria existir mais “futuro e não fracasso” para os trabalhadores norte-americanos. Ocorre que os economistas do “mainstream” – e mesmo aqueles que ganharam prêmios Nobel, como Angus Deaton – sofrem de um limite. Por se esmerarem na competência para analisar a realidade fenomênica, para construírem modelos abstratos cada vez mais sofisticados matematicamente, tornam-se incapazes de tomar ciência das condições estruturais do capitalismo realmente existente. É mérito desses dois autores terem sido capazes de tirar conclusões importantes meramente a partir de estatísticas descritivas – e não por meio de tortura (e picaretagem) econométrica.

A verdade é que o sistema econômico desse país está estagnado desde 1997, quando acaba o período da recuperação neoliberal iniciado no começo dos anos 1980. A taxa de lucro média tem caído desde então; com ela, os investimentos em inovações, assim como na ampliação e modernização da capacidade de produção. Ora, o neoliberalismo e, com ele, a desindustrialização e a globalização nunca foram mais do que respostas do capitalismo norte-americano na tentativa de enfrentar tendência à queda da taxa de lucro que tem se manifestado na economia dos países desenvolvidos a partir do final dos anos 1960. Eis que ele não pode reduzir agora o grau de exploração da força de trabalho e, por isso, vai continuar a produzir mais “fracasso e não futuro” para os trabalhadores norte-americanos – a não ser que reajam contrariando a dominação do capital de que falam até mesmo Case e Deaton.

Notas:

1 Case, Anne; Deaton, Angus – Deaths of despair and the future of capitalism. Princeton University Press, 2020.

2 Fromm, Erich – Medo à liberdade. Editora Zahar, 1983.

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*Eleutério S. Prado — Professor titular e sênior do departamento de economia da FEA/USP. Mantém o blog Economia e Complexidade (http://eleuterioprado.wordpress.com). Correio eletrônico: [email protected]

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Quanto custa, na realidade, um salário mensal de mil euros a um empregador em Portugal?

MÁRIO CENTENO Uma má pessoa não pode ser um excelente profissional

Leitura obrigatória. Mesmo.

O que me espanta é considerar-se absolutamente justificável que em nos querendo ver livres de alguém, que consideramos falho de qualidades, tratemos de lhe encontrar um outro cargo, um cargo público ainda por cima, para o calar ou tirar do caminho.
JORNALDENEGOCIOS.PT
O que me espanta é considerar-se absolutamente justificável que em nos querendo ver livres de alguém, que consideramos falho de qualidades, tratemos de lhe encontrar um outro cargo, um cargo público ainda por cima, para o calar ou tirar do caminho.
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