coletânea de autores açorianos

COLETÂNEA DE TEXTOS DRAMÁTICOS DE AUTORES AÇORIANOS
A COLETÂNEA DE TEXTOS DRAMÁTICOS DE AUTORES AÇORIANOS, coordenada por Helena Chrystello e Lucília Roxo, inclui cenas de três peças de Noberto Ávila: A PAIXÃO SEGUNDO JOÃO MATEUS, O ROSTO LEVANTADO e O MARIDO AUSENTE.
Esta coletânea inclui ainda extratos de peças assinadas por outros quatro escritores açorianos: Álamo Oliveira (Missa Terra Lavrada, Manuel seis vezes pensei em ti e A Solidão da casa do Regalo), Daniel de Sá (Bartolomeu), José Martins Garcia (Domiciano) e Onésimo Teotónio Almeida (No seio desse Amargo Mar).
Saiba mais sobre a obra de Norberto Ávila em https://goo.gl/TM8sdy
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O amor da ilha em Daniel de Sá

Falo hoje aqui de Daniel de Sá, um escritor e um amigo, cuja obra comecei a traduzir antes de o ler, de ser amigo, antes mesmo de saber a cor e o cheiro dos seus lugares de infância e de calcorrear as ruínas onde habitou e das quais se serviu para essa obra que é o “O Pastor das Casas Mortas”.

Nesse livro e no plano da linguagem, o autor (ed. VerAçor 2007) dá-se ao luxo de exportar, por efeitos de mimética, para uma das regiões mais interiores e montanhosas de Portugal, a Beira Alta, o seu herói em busca de um amor perdido no léxico e na sintaxe dos velhos montes escalavrados por entre o pastoreio numa verdadeira apologia da solidão física e mental que é o retrato de Manuel Cordovão, esse lusitano de um amor só para toda a vida.

Como o autor diz, a começar, trata-se de um livro dedicado “Às mulheres e aos homens que ainda acendem o lume nas últimas aldeias de Portugal.”

Mas não é da Beira que se fala, nem do pastor, nem das casas, é sobretudo das memórias guardadas na infância de casas onde o autor viveu e construiu, lentamente, uma teia de imagens, sentimentos e de princípios que nortearam a sua vida.

Só conhecendo as suas ruínas, as pedras que foram casas, os campos que foram pastos e hoje perderam o cheiro, nos podemos vangloriar de entender a sua escrita mariense que sempre o marcou apesar de ter passado a maior parte da sua vida na micaelense Maia.

A narrativa utilizando terminologia neutra (i.e. não insular) acaba por poder ser lida como uma ode ao açoriano isolado, de si e do mundo, neste amor perdido que se encontra apenas quando Caronte ronda.

Como diz o autor, “Embora eu vivesse numa ilha pequenina, a cinco minutos de um passeio calmo até ao aeroporto de quase todas as companhias aéreas que havia no Mundo, isso para o caso pouco importa!

Aliás esta transposição da naturalidade geográfica do personagem deixa-nos permanentemente na dúvida se a Teresa do “Pastor” não será irmã gémea da outra personagem feminina que acompanha os seus passos numa digressão do livro “Santa Maria: a Ilha-Mãe”. Em ambas, “as palavras [são] tratadas suavemente, amenizando as arestas da fonética, como se com elas não pudesse nunca ofender-se alguém.”

Trata-se de uma visita não ao “despovoamento das ilhas” mas ao despovoamento do país real, montanhoso, interior e árduo de Portugal. Aqui não se resgata o imaginário coletivo naquilo que tem de mais genuíno e identificador, antes pelo contrário, se dá a palavra a uma erudição improvável de um apascentador de cabras.

Aqui não há a memória plural, que vem de Gaspar Frutuoso, mas sim uma ficcionalização dum fenómeno que não se mimetiza apenas nesta digressão pela Beira Alta.

As Casas Mortas são-nos apresentadas como um resultado inevitável e inelutável ao longo da vida do personagem principal, sem que a sátira ou o humor permeiem a couraça de convicções de Manuel Cordovão.

Existe uma interdependência do autor, dos personagens e do leitor que nos levou a ver e rever dezenas de vezes, uma só passagem do livro para lhe darmos o tom, o colorido, a sonoridade e a poesia das prosas. De início pensei que seria ocasião única, mas rapidamente me apercebi de que era recorrente à totalidade da obra ficcionada.

O resultado é uma prosa rica, densa e tensa, enovelando em diálogos simples e curtos um enredo que nos prende da primeira à última página e me levou a interrogar como é que fiquei órfão intelectual desde que acabei de traduzir o livro. As suas personagens e a sua escrita fazem de tal modo parte da minha vida que sinto uma espécie de síndroma de Estocolmo, fiquei cativo e apaixonei-me pelos captores… E agora, como vai ser?

Já o outro livro intitulado “Santa Maria Ilha-Mãe” (também editado pela VerAçor em 2007) é uma viagem ao passado, permeada de nostalgia quase lírica e pela magia da infância e das suas cores simples mas bem nítidas.

Fala-se de como os Açores conviveram com o isolamento ao longo dos séculos, dos ataques de piratas, uma ameaça constante a inculcar ainda mais vincadamente as crenças de origem religiosa — numa ilha que felizmente não foi muito assolada por terramotos nem explosões piroclásticas. Essa mundividência, leva-nos naquilo que pode ser considerado o mais interessante guia ou roteiro turístico jamais escrito.

O próprio título gerou controvérsia, quer na versão portuguesa quer inglesa (Santa Maria: Ilha-Mãe; Santa Maria, Island Mother”, ou como o próprio autor notaria: “Não se trata de “mãe” com valor de adjetivo, mas sim de dois substantivos, tanto mais que os liguei com hífen em Português. Como bem entendeu, uma ilha que é mãe também. Não é o caso de Ilha Verde, por exemplo…”

Diz-nos Daniel de Sá: “O Clube Asas do Atlântico era um dos meus quatro lugares míticos. Os outros três, também sagrado um deles, eram a capela de Nossa Senhora do Ar, o Externato e o Atlântida Cine. Ainda hoje recordo exatamente o seu cheiro” e todos nós – ao lê-lo – sentimos com ele, os cheiros, as cores e as toadas que nos descreve.

Estes dois livros pertencem a um mesmo tempo, em que “falar do passado açoriano é, também, falar do seu presente, e referir-se ao presente é remeter inapelavelmente ao passado, o que mostra a unidade e a solidez de propósitos do livro”, como diria Assis Brasil, referindo-se ao notável e quase único traço constante de profundo humanismo que informa os textos.

Todas as suas personagens, são de tal forma credíveis que nos sentimos transportados ao local e vivemos partilhando os sentimentos dos interlocutores.

Como magistralmente disse a escritora canadiana Ann-Marie MacDonald, “A tradução, tal como a escrita, é uma arte e uma maestria, com um toque de alquimia. Quando o autor e o tradutor se reúnem, o resultado pode ser inspirador. As nuances traduzem a língua numa forma de arte. (1)

E a este respeito escrevia o autor em 2/9/2010:

Emocionei-me mesmo, corisco adotivo dum raio. Eu sabia que facilmente descobririas a casa da Ribeira do Engenho bem como, mais facilmente ainda, as ruínas da casa do pastor de ovelhas, de cabras e de vacas. Aquela casinha da Ribeira do Engenho mantém-se tal e qual era há sessenta anos, quando nos mudámos para a de Santana, a tal que nunca tinha sido chamada casa antes de lá morarmos.
Um forte abraço, comovido.
Daniel

Para, mais tarde nessa data, acrescentar:

Apesar de tudo, tenho saudades daquelas pedras. Elas não tinham culpa de não terem qualquer nobreza. Nós demos-lhes a possível. De caráter, claro.
Obrigado. Obrigado.
Um forte par de abraços.

Bastaram as fotos que eu tirara em Santa Maria às “ruínas do Daniel”, como lhes chamei para provocar uma avalancha de recordações que vinham à tona como se tivessem ocorrido na véspera:

2010/10/9, daniel.de.sa

Ana, a Sr.ª Francelina e a Almerinda! Meu Deus, como me lembro bem delas! Pois é, e além daquilo tudo ainda cabia a máquina de costura! O que valia é que as mãos de minha Mãe eram tão pequeninas que quase não ocupavam espaço. Mas olha que eram mãos de fada, lá isso eram. Iam várias senhoras do Aeroporto lá a casa à costura. E havia raparigas que iam aprender. Aquele retangulozinho dava para tantas coisas e tanta gente! Até se dançava pelas festas principais do ano. E pendurava-se o porco ou deixava-se a carne em alguidares pelo chão, vigiada pela Durana (a cadela que se tornou uma lenda, como tu mesma pudeste constatar naquela conversa com um senhor antes da missa). Havia senhoras com o corpo assim mais para o menos bem feito que gostavam muito do trabalho de minha Mãe, que lhes ajustava o tecido ao corpo como se elas fossem manequins. Quando meu Pai morreu, tínhamos uns blocos de cimento que tinham sido feitos nos Anjos e estavam postos a secar no murinho do adro da ermida. A minha irmã ia comigo todos os dias regá-los para não racharem. E ninguém os roubou nunca! Eram para fazer uma casita, que a Câmara tinha autorizado usar os terrenos baldios em frente aos nossos pastos, numa parte larga da canada. Vendemo-los e serviram para pagar a renda desse ano ao “menino” José António Arruda. A dívida corrente de uma mercearia, nas Pedras de Santo Antão, ficou por pagar. Só a pude pagar cinco anos mais tarde. (Lembra-te de que vim só com o 4º ano.) Pedi a um compadre meu que passasse por lá, a perguntar quanto era a dívida, que eu iria em breve na minha primeira visita de saudade e queria pagá-la. Eram 900$00. O dono da loja, que nunca imaginara poder receber aquele dinheiro, disse ao meu compadre: “Ainda há gente séria neste mundo!” Graças a Deus, não éramos dos piores… Mas que estou para aqui a dizer? Esta conversa não interessa a ninguém, só a mim e às minhas saudades. Culpa do Chrys, que me trouxe para aqui estas coisas memoráveis.
Abraços.
Daniel

Em 10 Outubro de 2010, o autor voltava à carga emocional que as fotos das ruínas da sua velha casa em Santa Maria lhe inspiravam:

Vou falar só mais um pouco a propósito das fotografias do Chrys. Só lhes falta o cheiro. Foi precisamente do cheiro que mais falta senti, quando no verão de 2009 fui a Santa Maria depois de dezanove anos sem lá ter posto os pés.
Os nossos pastos, sobretudo à volta da casa, eram amarelos e azuis da macela e do poejo. No resto a paisagem estava cheia de murta, giesta
ou juncos.

Arrotearam tudo. Ficou nem pasto nem jardim. Já não cheira. No Aeroporto, dos velhos cheiros, nada. Só um arzinho dele na casa da Ana [Loura]. A capela de Nossa Senhora do Ar ardeu, e foi substituída por aquela, muito parecida, mas de cimento. Resistiu a torre, que é de pedra, como pudestes ver. Meu Pai trabalhou na sua construção. Chegou a levar às costas uma pedra de duzentos quilos, que está lá, com certeza. Foi no alto daquela torre que meu Pai me mostrou (a única vez que o fez) que ficara muito satisfeito com uma classificação minha. Só confessava a sua satisfação às escondidas, a minha Mãe. Creio que o dizia aos amigos. Ele pedira-me para eu ir fazer qualquer trabalho relacionado com as vacas. Eu tinha de estudar, porque ia haver chamadas orais de Francês, mas disse que não fazia mal, havia de me desenrascar. Meu Pai, que chegou a dizer que então iria ele, estava tão cansado que aceitou que eu fosse. No outro dia fui ter com ele ao cimo da torre, e perguntou-me de imediato: \”E então?\” Eu respondi: “Tive quinze.” Beijou-me, muito contente.

Aquelas silvas, em primeiro plano nas fotos das ruínas da casa, davam umas amoras diferentes de todas as que conheço. Embora gradas, não eram tão doces como as outras, e tinham uma pelica branca, muito
ligeira, a cobri-las em parte. Em buracos das pedras daqueles muros as abelhas selvagens construíam uns favos em barro (dois ou quatro) onde faziam um mel castanho, muito escuro, depositando um ovo em cada favo.
Eu ia muitas vezes, mais um amigo da minha idade, à procura desses favos, a que chamávamos casulos. Abríamo-los com um espeto e chupávamos o mel trazido na ponta do próprio espeto. Esta espécie de abelhas é tão rara que o Dr. Virgílio Vieira, biólogo, que estuda esse tipo de bicharada cá nos Açores, nunca tinha ouvido falar delas.

As matas do Aeroporto perderam o cheiro também. As árvores cresceram muito e são muito menos do que antigamente. O hotel também ardeu, não poderia cheirar como antes. O Clube Asas do Atlântico envelheceu tanto que lhe fizeram uns transplantes, pondo cimento onde havia madeira. Pronto, não se fala mais nisso. Eu teria praticamente uma história para cada foto, já disse. Mas poupo-vos.
Abraços.
Daniel
10 outubro 2010

Para se entender esta relação umbilical nunca cortada entre o autor e a ilha nada melhor do que um texto do Daniel intitulado:

Santa Maria, uma declaração de amor

Considero-me um privilegiado quando me chamam mariense. Porque, como filho destas ilhas, tenho a sorte de ter pai e mãe. Foi meu pai São Miguel, minha mãe, Santa Maria. E, se pode ter-se dupla nacionalidade, por certo que poderá ter-se dupla “insularidade”.

Sou mariense, sim, e julgo que de pleno direito. Cagarro e santaneiro. O que foi outro privilégio, ter vivido em Santana. Mais de oito anos, depois de quatro por São Pedro, na casa do Sr. Armando Monteiro, e seis meses na Ribeira do Engenho, numa casinha que era toda ao pé da porta e tinha o telhado à altura do caminho.

De São Miguel saí ainda de cabelos compridos, de que guardo uma vaga memória mas somente do dia em que mos cortaram, já em São Pedro. Antes disso, e da ilha onde fui gerado e onde nasci, só sei o que me contava minha mãe. Tempo esse em que uma criança de dois anos podia andar pelas ruas e ir até longe, no longe relativo do tamanho do corpo, sem deixar preocupado quem quer que fosse. Palmo e meio de pernas bastava para fugir facilmente das rodas de uma carroça ou de um carro de bois.

Muito cedo comecei a ser aluno da vida, em Santa Maria. Que belas lições recebi! Recordo a sabedoria de um povo a quem vi cavar um poço antes do tempo da sede. Aprendi a sua bondade em coisas tão simples como aquelas grandes pedras, postas ao alto à semelhança de pequenos menires, onde o gado ia roçar-se placidamente. A minha definição como pessoa começou a fazer-se com estes e com outros ensinamentos casuais ou espontâneos, sem pedagogia diplomada.

Pode parecer um contrassenso considerar um privilégio ter vivido em Santana, porque aquela era uma das aldeias mais rurais de Portugal. Nem havia sequer uma canada razoável que lhe fosse caminho. A que existia servia, em parte, como leito de uma ribeira, onde aflorava a rocha irregular posta a descoberto pela erosão. Durante séculos, foi a única via que levava a Vila do Porto. Maior isolamento do que aquele é difícil de imaginar. Ainda assim, em Santana nasceram e viveram pessoas de grande valor humano e social. Prodígios da superação.

De súbito, tudo mudou em 1945. Em Santana propriamente não, porque ela ficou imutável na sua rústica ancestralidade. Mas, mesmo ali ao lado, fora feito um aeroporto para ser um dos melhores e mais concorridos do Mundo. A Vila deixou de ser a principal referência, porque até na religião os de Santana se tornaram como que paroquianos da capela de Nossa Senhora do Ar, que antes fora lugar de culto de protestantes, católicos e judeus. Ia-se e vinha-se usando atalhos desenhados por milhões de passadas, cortados aqui e ali por muros que era preciso saltar. A aldeia isolada ficara a poucos minutos de um mundo novo e impensável. Mas aquela gente recebeu-o quase com a mesma naturalidade com que via nascer o Sol todos os dias, o Sol que gretava o solo árido no verão, depois de secos os lameiros do inverno. Aquela gente, que resistira à angústia da fome, numa penúria humilhante e indigna da condição humana. Como um pouco por toda a ilha, aliás. Mas que manteve uma dignidade bíblica, porque a dignidade é um estado de espírito mais do que uma afirmação social.

A nossa casa nunca fora chamada casa antes de lá morarmos. E, nesse tempo, era um absurdo pensar que quem tivesse menos de dezasseis anos não podia trabalhar. Não o proibia a lei, e a isso obrigava a necessidade de as mães não terem falta do que pôr na mesa à hora de comer. Apesar disso, não lamento nada da minha infância.

Fui pastor de cabras, de ovelhas e de vacas. Cavalguei em pelo e sem esporas nem freio, como os índios. Nunca ninguém me ensinou a ter medo do dia nem da noite. Fui cowboy ou índio na mata de Monserrate e nas do Aeroporto. Mas não estraguei nenhuma árvore, nem os meus companheiros de aventuras. Contei histórias ao meu amigo Elias, e contava-me ele outra por cada uma das minhas. Matávamos o menor número possível de personagens, quer fossem índios ou bandidos. Apenas o essencial para haver vencedores e vencidos.

Entretanto, ia aprendendo em livros ou num quadro preto. Primeiro na escola de Santana. Com a D. Eduarda na 1ª classe, a D. Doroteia, na 2.ª, a D. Úrsula, na 3.ª, a D. Francisca, na 4.ª. Continuam a ser das minhas heroínas preferidas. Fizeram o milagre de me ensinar a ler, de explicar que povo somos e a que terra pertencemos. Depois veio o Externato. Juntei à minha lista de heróis e de heroínas mais uns quantos predestinados para o bem e a sabedoria. Passei a pertencer também à geração do Cavaleiro Andante, sem dúvida a mais prodigiosa publicação juvenil que houve em Portugal. Não tínhamos dinheiro para livros nem revistas, por isso era o José Guilherme Correia que mo emprestava sempre. E alguns livros também, como o José Vieira Souto Martins, um amigo de que nada sei há meio século. Foi assim que pude ler Emílio Salgari, Mark Twain ou Enid Blyton.

E havia o Clube Asas do Atlântico. O Asas! Nunca ninguém me pôs na rua nem mostrou desagrado pela minha presença. Nem imaginavam o bem que me estavam fazendo. Ali ouvíamos os relatos do futebol e do hóquei das nossas alegrias patrióticas. Era onde eu tinha à disposição os principais jornais que se publicavam em Portugal. Um dos mais bem escritos era A Bola, e por isso, ao mesmo tempo que a rivalidade entre o Sporting e o Benfica era um dos principais fatores de unidade dos Portugueses, o desporto, contado naquele jornal que mudou tanto que se pode considerar extinto, era também uma lição de cultura.

Não longe, o campo dos jogos épicos do futebol romântico de dois defesas, três médios e cinco avançados. Com o mítico Badjana a dar os últimos pontapés na bola, jogando pela equipa da Direção do Serviço de Obras, onde meu pai trabalhava. Depois veio outro clube, o de Gonçalo Velho, para o qual minha mãe e minha irmã bordaram os primeiros emblemas.

No entanto, a alegria suprema tinha lugar reservado no Atlântida Cine. O seu porteiro deixava muitas vezes as crianças entrarem sem pagar bilhete. Por isso o Sr. Cardoso faz parte da minha lista de heróis particulares. E o grito “ó Cardoso, apaga a luz” ainda ecoa nas minhas recordações como o anúncio de todas as claridades. Outro benfeitor de homens a haver.

Na capela de Nossa Senhora do Ar aprendi o lado mais humano da vida. Aquele que pensa acima de tudo no que nos distingue dos irracionais. Se é certo que sem uma fé sobrenatural se pode ser boa pessoa, o cristianismo à maneira do Padre Artur é o testemunho do bem na Terra.

Mas qualquer pedaço de mundo vale pelo que vale a sua gente. A do meu tempo era feita destas e de outras figuras que marcaram o modo de ser de um tempo e de uma geração em que havia na ilha mais forasteiros do que naturais dela. Sorte nossa que a maior parte dos que em Santa Maria buscaram um pouco mais de fortuna ou um pouco menos de infortúnio eram pessoas de deixar saudades. Por isso o re-encontro com velhos pioneiros dos tempos modernos da Ilha de Gonçalo Velho é sempre um momento de festa que dificilmente tem semelhança quando as amizades foram feitas por outras bandas.

O próprio aeroporto, começado a construir durante a guerra, acabou por ser um lugar de passagem para a paz. Se, em 1918, Franklin Delano Roosevelt escolheu Ponta Delgada para apoio ao transporte de tropas a caminho da Europa, por aquelas pistas passaram sobretudo soldados de regresso a casa. O nome de código da operação, “Green Project”, era ele mesmo uma declaração de esperança numa nova era.

Foi neste ambiente, um dos espaços nacionais onde mais se concentravam pessoas com ensino superior ou com uma cultura acima da média, que começou a germinar a minha vontade de fazer das palavras escritas um uso para além da obrigação de alguma carta familiar. Sem Santa Maria, sobretudo sem o seu Externato, eu teria ficado pela 4.ª classe, tal como todos os rapazes que nasceram na Maia, em São Miguel, no mesmo ano que eu. Por um desses acasos que são difíceis de explicar, cresci logo nos primeiros anos de vida com uma curiosidade sem limites.

Um dia, ainda antes de completar seis anos, perguntei a meu pai como é que se faziam versos. Ele era um improvisador de quadras e de histórias como poucos conheci na vida. Chegou a fazer o negócio de uma burra cantando ao desafio. E, nos intervalos do almoço, contava casos a homens da sua idade, mas tão interessados como crianças. Vi muitos filmes pelos seus olhos, ou ouvi-os da sua boca. Ele levou a sério a minha pergunta sobre poesia, e respondeu como se deve sempre responder a uma criança: dizendo a verdade das coisas como se se falasse ao adulto que a criança será um dia. Logo a seguir exercitei o meu novo conhecimento cantando para uma vizinha da minha idade, de que só guardo a memória de uns longos caracóis loiros. Sei que começava assim, esse que foi em rigor o meu primeiro poema: “Sou Daniel/ da ilha de São Miguel”.

Era, sim, com a sorte de ser da Ilha-Mãe também. E nela vivia então um poeta que fez parte do meu imaginário, e de quem eu muito quis ser imitador: Lopes de Araújo. Não tive a sorte de ser seu aluno, mas a ânsia de alcançar um estatuto semelhante ao seu foi talvez o maior impulso que me levou a dedicar-me à escrita.

Mas Santa Maria veio a ser para mim cenário de drama também. Numa certa manhã, os responsáveis pela Direção do Serviço de Obras estavam reunidos para despedir pessoal. O critério escolhido foi o de optar pelos trabalhadores com menos filhos. O nome do meu pai foi um dos primeiros a serem falados, porque éramos só minha irmã e eu. Minha irmã não estudara porque as propinas equivaliam a um terço do ordenado de meu pai. Que levou um ano a decidir se eu deveria frequentar ou não o Externato. Acabou por resolver-se pela positiva, e eu revi a gramática da 4.ª classe, feita um ano antes, estudando-a enquanto vigiava as vacas. Valeu-nos que nunca paguei propinas no colégio, como chamávamos ao Externato.

O Miguel Côrte-Real, esse homem da linhagem dos primeiros povoadores e a quem Santa Maria muito deve, não concordou com a ideia, alegando que eu estudava, e que meu pai e minha mãe, costureira, se sacrificavam a trabalhar mais do que podiam para eu ter aquele privilégio. Estava a questão por decidir quando chegou um funcionário com uma notícia dramaticamente irónica. Meu pai acabara de deixar vago definitivamente o seu lugar na vida.

Este é o autor que primeiro descobri e traduzi, depois dele, viriam Cristóvão de Aguiar e Vasco Pereira da Costa e, aos três, conto-os como amigos especiais. Chegara a esta idade sem ter um autor amigo embora amigos houvesse que tivessem sido autores. Foi com eles que cresci a apreciar e a ler outros autores de matriz açoriana. Levei comigo nessa jornada muita gente, que, igualmente, se apaixonou por essa escrita singular, onde se sente a todo o instante a palavra mar.

(1) “Translation, like writing, is both art and craft, with a touch of alchemy. When translator and author actually get to meet, the result can be inspired. Nuance is what translates language into art.” Ann-Marie is a Toronto-based writer and actor. She has received accolades for her playwriting, acting and writing. Her play Goodnight Desdemona (Good Morning Juliet) won the Governor General’s Award for Drama, the Chalmers Award for Outstanding Play and the Canadian Authors’ Association Award for Drama. She won a Gemini Award for her role in the film Where the Spirit Lives and was nominated for a Genie for her role in I’ve Heard the Mermaids Singing. Her first novel, Fall On Your Knees, was published in 1995 to much critical acclaim in Canada and abroad. Her latest book, The Way the Crow Flies, was shortlisted for both the Giller Prize and Governor General’s Award.
http://www.banffcentre.ca/programs/93_words/2007/biltc/past_programs.aspx

CHRYS CHRYSTELLO

UM STRADIVARIUS NO PICO DA VARA

Ontem a subir o Pico da Vara, lembrei-me tanto desta crónica…

Um Stradivarius no Pico da Vara

Paris, aeroporto de Orly, 27 de Outubro de 1949. Completa a lotação do voo da Air France com destino a Nova York. Na grande cidade americana, a solidão de Edith Piaf, que sofre uma das suas depressões tão frequentes. E espera que, na manhã seguinte, Marcel Cerdan se vá juntar-lhe. Mas não há lugar no Lockheed Constellation para o amante, fisicamente o seu oposto, que perdera em Junho o título de campeão do Mundo de pesos médios para Jake La Motta. A sorte, porém, parece estar do lado de Marcel e de Edith. Um casal em lua-de-mel desiste da viagem em favor do grande ídolo francês nascido na Argélia. O avião levanta voo às 20h 05m.
Esta parte da história contém talvez uma lenda romântica, pois só embarcaram trinta e sete passageiros, e o Constellation tinha capacidade para mais de sessenta.
Provavelmente Ginette e Marcel nunca se terão encontrado. Ela não frequenta ringues de boxe nem ele assiste a espectáculos musicais em que Edith Piaf não cante. Mas certamente que não passa despercebida a Cerdan aquela jovem de uma beleza serena, esguia e segura como uma deusa grega. Nem talvez o violino, um Stradivarius, que leva consigo. Viaja com ela um homem também muito novo, que vagamente se lhe assemelha. É seu irmão, Jean-Paul, que costuma acompanhá-la quando as obras a interpretar exigem piano.
Ginette tem apenas trinta anos, mas já aos dezoito triunfara em Nova York, que passou a venerá-la. Quatro anos antes, mal terminada a guerra, fizera a sua primeira gravação, em Londres, para a EMI. Num dia que deveria ser de descanso entre outros de uma extenuante digressão, passou muitas horas a gravar com a Philarmonia Orchestra, que também se estreava em registos discográficos com aquela dimensão. O Concerto para Violino, de Sibelius, justamente aquele que estou a ouvir enquanto vou escrevendo. Uma das obras que mais desafiam qualquer violinista. Mas Ginette não desiste nunca. No intervalo concedido a todos os executantes, enquanto os outros músicos descansam ela teima em exercitar os trechos que ainda faltam. Pelas oito horas da noite, o pescoço já parece uma chaga viva. Ginette não se importa. Não só levará a gravação até ao fim, como convencerá a orquestra a meia hora de trabalho extra, para que seja possível concluí-la nesse dia. E, já depois das dez, ainda fará o ensaio completo do Concerto de Walton, a estrear dentro de pouco tempo.
À 1h 04m, hora de Paris, o Constellation entra em contacto com a torre de controlo do aeroporto de Santa Maria, onde deverá fazer escala para reabastecimento. Encontra-se a 150 milhas náuticas desse destino intermédio. A aterragem está prevista para as 2h 45m, informação depois rectificada para 2h 55m.
São 2h 51m quando o comandante, estranhamente, informa a torre de que tem o aeroporto à vista. O voo processa-se a três mil pés de altitude, cerca de novecentos metros. Recebe as instruções de aterragem. Depois, faz-se silêncio. No mesmo instante, um ruído aterrador desperta a maior parte das aldeias do Nordeste, em S. Miguel. Ginette Neveu acabara de morrer numa encosta do maciço do Pico da Vara. E com ela o irmão, Marcel Cerdan e mais os outros trinta e quatro passageiros e os onze tripulantes.
O corpo de Marcel Cerdan será levado para a sua terra natal, Sidi Bel Abdés, e aí ficará em câmara ardente, no ginásio. Durante os dias que demoram as homenagens fúnebres, suspende-se a guerra entre os resistentes argelinos e as forças de ocupação francesas. Um pouco à semelhança do que acontecia nos Jogos Olímpicos clássicos.
Edith Piaf, destroçada, acabará por dedicar-se ao espiritismo, na tentativa desesperada de voltar a ouvir a voz do seu amado. De Ginette Neveu, diz-se que estava abraçada ao violino que António Stradivari construíra mais de dois séculos antes. E que acabei de ouvir em concertos de Brahms e de Sibelius.
Daniel de Sá
Foto de Susana Medeiros

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do genocídio linguístico à literatura de daniel de sá

CHRYS-Daniel-Sá(NXPowerLite)

Do genocídio linguístico à literatura açoriana de Daniel de Sá

Chrys Chrystello

Resumo:

O número de línguas está a diminuir drasticamente. Trata-se de genocídio linguístico: as línguas são sistematicamente abatidas; o Ocidente tem silenciado centenas de línguas. Contudo, a tradição oral preserva formas verbais e não-verbais.

Embora tenham caraterísticas únicas, os dialetos dos arquipélagos atlânticos dos Açores e Madeira podem agrupar-se nos dialetos meridionais.

Recentemente autor teve de aprender as idiossincrasias micaelenses e do triângulo quando traduziu obras de Daniel de Sá, Manuel Serpa e Vítor Rui Dores. As ilhas ficam desvendadas como mito paradisíaco recuando até à infância desses escritores, atendendo ao facto de as ilhas reais já se abrirem ao peso do presente.

Em suma, as línguas têm de ser tratadas e estimadas. Elas não dividem países, a intolerância sim.

The number of languages is dramatically diminishing. It is a real linguistic genocide: languages are systematically destroyed. The Western world has silenced hundreds of idioms. However, oral tradition has preserved verbal and non-verbal forms.

Albeit with unique characteristics the Atlantic archipelagos of Madeira and Azores have dialects which may be grouped together with southern dialects of Portugal. Recently, the author was forced to learn the idiosyncrasies of the dialects of São Miguel island and the isles of the Triangle when translating works from Daniel de Sá, Manuel Serpa and Vítor Rui Dores. The islands are unveiled as a paradisiacal myth returning back to the childhood of those writers, once the real islands open up under the weight of contemporary eras. In brief, languages have to be taken care of and attended to. They do not divide countries, intolerance does.

Palavras-chave:

Genocídio linguístico, literatura açoriana, literatura portuguesa, tradução, Lusofonia.

Keywords:

Linguistic genocide, Azorean literature, Portuguese literature, translation, Lusophone matters

  1. Genocídio linguístico

A maioria das línguas em risco de extinção não consta de dicionários ou de gramáticas. Em África existem quase 2400 línguas (35%), na Ásia 2000, Australásia (Oceânia 1200), Américas (1000) e Europa (200). Ape­nas 15 países têm só uma língua (Bielorrússia, Bósnia-Herzegovina, Cuba, Coreia do Norte e Turquemenistão):

Indonésia 694 Línguas (9,5% do total),
PNG (Papua Nova-Guiné) 673
Nigéria 455
Índia 337
Camarões 247
Austrália 226
Rep. Dem. Do Congo 206
México 188
China 186
EUA 165
Brasil 150
Vanuatu 104
Rússia 90
Angola 37
Moçambique 35
Itália 30
Turquia 30
França 27
Alemanha 22
Guiné-Bissau 15
Espanha 13
S. Tomé e Príncipe 4
Macau 3
Cabo Verde 2
Timor-Leste (talvez 36) Não consta desta lista

Os autores Nettle e Romaine afirmam que “metade das línguas faladas em todo o mundo pode desaparecer neste século.” Para tornar mais explícito o elo entre a sobrevivência linguística e os assuntos ambientais, estes autores arguem “A extinção linguística faz parte do colapso quase total dos ecossistemas mundiais.”[1]

As batalhas para preservar os preciosos recursos ambientais – tais como as florestas tropicais – não podem nem devem separadas da luta para manter a diversidade cultural, e as causas da morte das línguas que à semelhança da destruição ecológica assenta na interligação entre a ecologia e a política. Existe um desconhecimento profundo sobre as línguas – desde o seu número e tamanho, aos seus nomes e locais onde são faladas. Metade das línguas mundiais desaparecerá até ao fim deste século, e entre 80 a 90 por cento[2] desaparecerá nos próximos duzentos anos. Em números con­cretos, em cada quinzena, morre uma língua.

Os antropólogos lamentam o massacre das línguas: para eles, cada língua e como uma catedral imponente, um objeto de beleza e o produto de um enorme esforço criativo, cheio de ricas tapeça­rias do conhecimento. Não permitiríamos que a Capela Sistina ou que a Mona Lisa desaparecessem sem guardar todos os traços e registo dessas obras-primas, e o mesmo se deve aplicar às línguas. Na Austrália os colonizadores europeus no século XX tentaram “civilizar” os aborígenes dando-lhes valores e padrões ocidentais, escolas e vestuário, misturados com Cristianismo e Inglês. Isto foi ainda mais notório quando raptaram literalmente uma em cada dez crianças aborígenes para as for­çarem a assimilar, pela força, os valores da sociedade branca[3].

De igual modo, nos EUA, os governos obliteraram da face da terra tribos de Índios e forçaram as crianças nativas americanas a frequentarem escolas nas quais era proibido o uso de qualquer língua que não a inglesa. A situação reverteu nas últimas décadas em ambos os países. Culturalmente, a Austrália foi colonizada com gente vinda de Inglaterra e de mais 26 países[4]. Quando os primeiros colonos arribaram em 1788 havia 250 línguas aborígenes incorporando cerca de 600 dialetos abo­rígenes, dos quais sobrevivem, hoje, cerca de 250. Tinham vocabulários complexos descrevendo os intrincados meandros das suas sociedades. Algumas delas tinham mais de dez mil étimos, com ter­minologias específicas para as cerimónias de iniciação ou para aqueles com quem o contato devia ser evitado. Alguns casais falavam mais do que um idioma e as pessoas identificavam-se quer pela geografia como pelas línguas.

A tradição oral preservou formas verbais e não-verbais, incluindo danças, canções e pintura. Cada grupo linguístico era uma nação com fronteiras, cultura e regras grupais. Atualmente cerca de 10% da população aborígene australiana fala um dos remanescentes 250 dialetos tribais. Destes, cerca de 160 já desapareceram ou são falados apenas pelos anciãos. Dos restantes 90 dialetos ape­nas vinte (20) têm uso corrente diário, por novos e velhos, sendo transmitidos para a próxima gera­ção.[5] De todos os que sobrevivem, metade deles tem apenas entre 10-100 pessoas capazes de os articula­rem.[6]

Mas o campeão da extinção de línguas nativas é o Brasil, segundo o jornal O Liberal[7] de Belém. Das 1.100 línguas indígenas, apenas 180 sobrevivem após cinco séculos, sendo mais de 80% faladas por índios. Em cinco séculos de ocupação portuguesa, o Brasil perdeu a maior parte das línguas in­dígenas. O processo de extinção continua.

O ano de 2008 foi definido como o Ano Internacional dos Idiomas pela ONU, mas esta data passa despercebida porque a extinção das línguas não se sente da mesma forma que uma inflação ou uma depressão económica. O desafio é tentar retardar ao máximo o desaparecimento das línguas em risco com um pequeno número de falantes que não a conseguem transmitir. A longo prazo a tendên­cia é a extinção, mas convém lembrar que não só as línguas morrem, com elas perde-se um conjunto de hábitos culturais, ancestrais conhecimentos de gerações. Com a sua morte esse conhecimento também fica inacessível. A língua é parte integrante da cultura. Este aspeto cultural é frequentemen­te negligenciado, dado ter-se em conta apenas a função da comunicação. É através da linguagem que se acede à cultura de um povo, ao seu modo de pensar e de vida, às suas tradições, ao seu saber.

O português beneficiou da globalização. Na internet, o Inglês representava 75% em 1998 e 45% do total em 2007. O português era 0,82% em 1998 e estava em sexto lugar em 2007 com 1,39% de pois de ter atingido 2,25% em 2001. O espanhol com 2,5% em 98, atingiu 5,5 em 2001 e atualmen­te tem 3,8%. O acordo ortográfico tem a intenção política manifesta de incrementar o “valor de merca­do” do português.

David Crystal chama netspeak[8], à “língua da rede”. Segundo Crystal

O crescimento das grandes línguas do mundo funciona como um trator, esmagando os idio­mas que se põem no caminho. Isso não é um fenómeno restrito a duas ou três línguas. Não é apenas o inglês que ameaça línguas nativas na Austrália, ou o português que põe em perigo idiomas indígenas no norte do Brasil. O chinês, o russo, o hindi, o suahili – todas as línguas maioritárias ameaçam idiomas de comunidades pequenas. O futuro dessas línguas minoritárias está vinculado a políticas regionais. Nos lugares onde sobrevivem, há uma série de práticas políticas e económicas que valorizam a diversida­de. A globalização e a revolução tecnológica da internet originam um “novo mundo linguísti­co”. Entre os seus fenómenos estão as subversões da ortografia presentes nos blogues e nas trocas de correio eletrónico e o aumento no ritmo da extinção de idio­mas. Estima-se que em cada quinzena desapareça um. Cresce a consciência de que as línguas bem faladas, protegidas por normas cultas, são ferramentas da cultura e também armas da política, além de serem riquezas económicas. A reforma do português ora em curso vai-se defrontar com um desafio inédito. Outras mudanças foram feitas em situa­ções em que era bem menos intenso o ritmo de entrada de palavras e conceitos na corren­te da vida quotidiana.[9]

Em correspondência com o autor[10] David Crystal afirmava-nos há alguns anos

Espero que o desenvolvimento da língua portuguesa faça parte duma ética multilín­gue nos países em que é falado a fim de que as línguas indígenas sejam respeitadas e apoiadas, o que no caso do Brasil é crítico dado o estado das línguas índias nativas.

  1. Da literatura açoriana (traduzida) a Daniel de Sá

Deixando de lado estas classificações o que nos interessa aqui é lembrar que “o debate académi­co em torno da expressão «literatura açoriana» é antigo – e chegou a contaminar ao longo dos anos 80 os próprios autores, quando estes se reuniam em encontros, congressos e simpósios construindo lentamente a intensa rede de amizades, afinidades intelectuais e intertextualidades que hoje marca o grupo. Onésimo escreveu dois livros e coordenou outro em torno do assunto, a saber: A Questão da Literatura Açoriana (1983), Da Literatura Açoriana – Subsídios para um Balanço (1986) e Açores, Açorianos, Açorianidade (1989). Nesses anos, falava-se em artesanato açoriano, folclore açoriano, até cultura açoriana – mas nada causava tantos embaraços como falar em literatura açoriana[11].

O problema colocou-se primeiro por razões políticas. Em 1975, três anos antes de morrer, Vitori­no Nemésio deixara-se utilizar pela Frente de Libertação dos Açores (FLA), movimento independentis­ta hoje formalmente extinto, como candidato a Presidente da futura República – e, ao longo dos anos seguintes, e contra a vontade da maioria dos autores, os separatistas que ainda resta­vam no arquipélago insistiram em usar a literatura das ilhas como um dos sinais da identidade nacio­nal destas.

Depois, vieram modas e tendências. Hoje, é questão arrumada para a maioria dos autores. Cristó­vão de Aguiar contesta o uso da expressão, outros agarram-se a ela com ambas as mãos, um terceiro grupo olha-a com bonomia e cita Wittgenstein para explicar que se trata sobretudo de uma expres­são útil – já não é uma questão central, no fundo. Se há literatura cabo-verdiana ou literatura são-tomense, contestar a existência de uma literatura açoriana é sinal de um «um restinho de Inquisi­ção», diz Onésimo.

«É, pelo menos, um ramo único no contexto da literatura portuguesa», diz Eduardo Bettencourt Pinto, 51 anos, um angolano que se tornou «escritor açoriano» por escolha própria e que já publicou no Campo das Letras o seu mais recente romance, A Casa das Rugas (2004). Feitas as contas, o que prevalece é a opinião de Pedro da Silveira, poeta da Ilha das Flores (1922-2003) e autor, entre ou­tros, de A Ilha e o Mundo (1953): «A literatura açoriana não precisa de que se aduzam argumentos a favor da sua existência. Apenas precisa, o que é diferente, de sair do gueto que lhe tem sido a sina», escreveu na entrada «Açores» do Grande Dicionário de Literatura Portuguesa e Teoria Literá­ria, coordenado em 1977 por João José Cochofel para a Iniciativas Editoriais. A verdade é que, lentamente, os escritores foram encontrando o seu espaço.

A Universidade de Brown tem há anos uma cadeira chamada Literatura Açoriana – e na Universida­de dos Açores, Urbano Bettencourt ministrava o curso de literatura açoriana (enquanto unidade curricular das licenciaturas) com a duração de dois semestres; havendo outro curso, “Portugal atlântico e a açorianidade” que era um módulo de 10 horas integrado nos Cursos de verão da Universidade. O próprio Urbano nos declarava há dias que de momento não sabe se,

Para lá do que o Onésimo leciona na Brown, existem outros cursos de iniciação à Literatura açoriana; na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, o Assis Brasil orienta um curso de literatura aaçoriana, mas já em pós-graduação. Há, no entanto, trabalhos e projetos aqui e ali; em França está a ser desenvolvido um projeto de doutoramen­to sobre o suplemento literário “Glacial” (Angra do Heroísmo, 1967-1973). O programa da disciplina de 2002 não se alterou desde então, apenas se atualizou a bibliografia crítica e foi variando o leque das obras obrigatórias, embora mantendo o Mau Tempo no Canal. Os trabalhos individuais dos alunos permitiam abordar as obras de autores mais recentes e que aparecem na bibliografia fornecida.

Podíamos citar dezenas de outros autores relevantes[12].

Eu sou um recém-chegado a estas ilhas com menos de três anos de aprendizagem, mas tive a honra e o privilégio de aprender as idiossincrasias micaelenses e picoenses quando recentemente traduzi as últimas obras de Daniel de Sá e de Manuel Serpa. Deparei-me com noções etimologicamen­te novas contrastando com o uso ancestral que o Português do continente lhes apõe nos dicionários. Trata-se aqui de desvendar as ilhas como mito paradisíaco recuando na sua essência até à infância dos autores, sem perder de vista que as ilhas reais já se abriram ao peso do presente e não podem ser apenas perpetuadas nas suas memórias. Muitas vezes a obra dum autor sofre drasticamen­te quando, em vez de ser tomada apenas como obra, é erigida ao estatuto regionalista, que não pretendeu para si própria.

Podem deduzir-se da leitura destes autores, algumas características relevantes para a açorianida­de:

  1. O modo como o clima inculca um caráter de torpor e de lentidão em que a pressa é amiga da morte;
  2. O modo como a História define os habitantes deste arquipélago ainda hoje quase tão afastados da metrópole como há séculos atrás;
  3. A forma como se recortam todos os estratos sociais: vincadamente feudais apesar do humanis­mo que a revolução dos cravos alegadamente introduziu nas relações sociais e familiares;
  4. O modo como a proximidade da terra se manifesta ainda de forma sobrejacente fora das peque­nas metrópoles que comandam a vida em cada ilha, num centralismo autofágico e macrocéfa­lo.

Neste universo tão idílico não busquei – ao traduzir essas obras – a essência do ser açoriano, que de certeza existe, em miríade de variações insulares, cada uma vincadamente segregada da outra, se o homem se adaptou às ilhas ou se estas se continuam a impor condicionando a presença humana, para assim evidenciar a sua diferença específica, neste caso a açorianidade? Estando a açorianidade presente num escritor, explicá-lo é tarefa para estudos mais complexos do que a mera atividade de um tradutor, por mais empenhado ou apaixonado que este possa estar pelo objeto da sua tradução.

A existência, ou não, de literatura açoriana não passa, necessariamente, pela existência desta aço­rianidade[13]. Natural da ilha das Flores, Pedro da Silveira (1923-2003) captou “as mundividências açorianas”, abrangendo na sua poesia “as inquietações e os sonhos de gente viva de todas as parti­lhas e um verdadeiro compromisso social“, enquanto eu apenas tive a oportunidade de captar uma fotografia da alma dos escritores que traduzi.

Luiz António de Assis Brasil[14] analisou a obra de Daniel de Sá[15] e em especial à narrativa de fic­ção, que revela facetas da identidade insular, em especial da ilha de origem.

Coloca-se assim a evasão como um destino ao qual o açoriano se entrega com a fatalida­de do cumprimento de um dever. O resultado é a errância, a transitoriedade e o permanente desejo da volta. Quando acontece, essa volta nunca é satisfatória: o emigra­do jamais poderá deixar de ser americano, e mesmo que construa uma casa sumptuosa em sua freguesia original, contribua para a igreja e participe das festas coletivas, todos lhe conhecem a hi­stória. Intentando uma análise mais ampla, percebemos quanto os componen­tes tradicionais da literatura açoriana estão presentes nessa obra: a sensação de estar-se numa prisão, o desejo de evadir-se, a saudade a roer os calcanhares, a estreite­za do ambiente insular, a desconfiança das terras estrangeiras. Daniel de Sá[16] mostra-nos uma outra realidade: aqui já não há quem abandone a ilha, mas todos são prisioneiros desse cárcere que se circunda de infinitude por todos os lados. O título, grafa­do no singular, o é naquele sentido antigo: então temos crónicas, onze no total, que tratam dos teres e haveres açorianos, nomeadamente da ilha de São Miguel, mas cujos interesses vão além.

No plano da linguagem, o Autor do livro O Pastor das Casa Mortas (edição VerAçor 2007) dá-se ao luxo de exportar, por efeitos de mimética, para uma das regiões mais interiores e montanhosas de Portugal, a Beira Alta, o seu herói em busca de um amor perdido no léxico e na sintaxe dos ve­lhos montes escalavrados por entre o pastoreio numa verdadeira apologia da solidão física e mental que é o retrato de Manuel Cordovão esse lusitano de um amor só para toda a vida. Como o autor diz a começar trata-se de um livro dedicado “Às mulheres e aos homens que ainda acendem o lume nas últimas aldeias de Portugal.”

A narrativa utilizando terminologia não insular acaba por poder ser lida como uma ode ao açoria­no isolado de si e do mundo, neste amor perdido que se encontra apenas quando Caronte ronda. Como diz o autor

Embora eu vivesse numa ilha pequenina, a cinco minutos de um passeio calmo até ao aeroporto de quase todas as companhias aéreas que havia no Mundo, isso para o caso pouco importa!

Aliás esta transposição da naturalidade geográfica do personagem deixa-nos permanentemente na dúvida se a Teresa do “Pastor” não será irmã gémea da personagem feminina que acompanha os seus passos na digressão por “Santa Maria: a Ilha-Mãe”. Em ambas as obras “as palavras [são] trata­das suavemente, amenizando as arestas da fonética, como se com elas não pudesse nunca ofender-se alguém.”

Trata-se de uma visita não ao “despovoamento das ilhas” mas ao despovoamento do país real, montanhoso, interior e árduo de Portugal. Aqui não se resgata o imaginário coletivo naquilo que tem de mais genuíno e identificador, antes pelo contrário, se dá a palavra a uma erudição imprová­vel de um apascentador de cabras. Aqui não há a memória plural, que vem de Gaspar Frutuoso, mas sim uma ficcionalização dum fenómeno que não se mimetiza apenas nesta digressão pela Beira Alta. As Casas Mortas são-nos apresentadas como um resultado inevitável e inelutável ao longo da vida do personagem principal, sem que a sátira ou o humor permeiem a couraça de convicções de Manuel Cordovão. Existe uma interdependência do autor, dos personagens e do leitor que nos levou a ver e rever dezenas de vezes, uma só passagem do livro para lhe darmos o tom, o colorido, a sonorida­de e a poesia das prosas. De início pensei que seria ocasião única, mas rapidamente me aper­cebi de que era recorrente à totalidade da obra ficcionada.

O resultado é uma prosa rica, densa e tensa, enovelando em diálogos simples e curtos um enredo que nos prende da primeira à última página e me levou a interrogar como é que fiquei órfão intelec­tual desde que acabei de traduzir o livro. As suas personagens e a sua escrita fazem de tal modo parte da minha vida que sinto uma espécie de síndroma de Estocolmo, fiquei cativo e apaixonei-me pelos captores…e agora, como vai ser?

Já o outro livro intitulado Santa Maria Ilha-Mãe (também editado pela VerAçor em 2007) é uma viagem ao passado, permeada de nostalgia quase lírica e pela magia da infân­cia e das suas cores sim­ples, mas bem nítidas. Fala-se de como os Açores conviveram com o isolamento ao longo dos séculos, dos ataques de piratas, uma ameaça constante a inculcar ainda mais vincadamente as cren­ças de origem religiosa — numa ilha que feliz­mente não foi muito assolada por terramotos nem explo­sões piroclásticas. Essa mundi­vidência, leva-nos naquilo que pode ser considerado o mais interes­sante guia ou roteiro turístico jamais escrito.

O próprio título gerou controvérsia, quer na versão portuguesa quer inglesa (Santa Maria: Ilha-Mãe; Santa Maria, Island Mother, ou como o próprio autor notaria:

Não se trata de “mãe” com valor de adjetivo, mas sim de dois substantivos, tanto mais que os liguei com hífen em Português. Como bem entendeu, uma ilha que é mãe também. Não é o caso de Ilha Verde, por exemplo…

Diz-nos Daniel de Sá “O Clube Asas do Atlântico era um dos meus quatro lugares míticos. Os outros três, também sagrado um deles, eram a capela de Nossa Senhora do Ar, o Externato e o Atlânti­da Cine. Ainda hoje recordo exatamente o seu cheiro” e todos nós – ao lê-lo – sentimos com ele, os cheiros, as cores e as toadas que nos descreve.

Estes dois livros pertencem a um mesmo tempo, em que “falar do passado açoriano é, também, falar do seu presente, e referir-se ao presente é remeter inapelavelmente ao passado, o que mostra a unidade e a solidez de propósitos do livro”, como diria Assis Brasil, referindo-se ao notável e quase único traço constante de profundo humanismo que informa os textos. Todas as suas persona­gens são de tal forma credíveis que nos sentimos trans­portados ao local e vivemos partilhando os sentimentos dos interlocutores.

Como magistralmente disse a escritora canadiana Ann-Marie MacDonald, “A tradução, tal como a escrita, é uma arte e uma maestria, com um toque de alquimia. Quando o autor e o tradutor se reúnem, o resultado pode ser inspirador. As nuances traduzem a língua numa forma de arte. [17]

A tradução do livro de Manuel Serpa Da pedra se fez vinho/When rock became wine foi outro exercício inesquecível. Apesar da ajuda de vários conterrâneos do autor houve ocasiões em que as explicações à guisa de glossário se sobrepunham umas às outras, aumentando as já profusas notas de tradutor. Tudo isto porque para um mero leitor do continente o texto seria incompreensível, ou seja, era necessário haver mesmo uma intertradução, do falar picoense para o falar continental, antes de ser vertido num inglês pouco shakespeariano. Criou-se involuntariamente um novo glossário a adicionar à Diciopédia Contrastiva da Língua Portuguesa que estes Colóquios [Açorianos] estão a inventariar desde o ano passado. David Crystal[18]. Sempre salientou que a língua inglesa “tinha substituí­do muitos idiomas nativos como o Cambriano ou Câmbrico, Cornualhês, Norn e o galês Manx, embora esteja nas últimas décadas a ser ela mesma substituída pela sua variante norte-america­na”. Ao ler trabalhos na língua original da autoria do português Saramago, do colombiano García Marquéz, do egípcio Naguib Mahfouz[19], uma pessoa deve ser sempre humilde em relação aos nossos colegas tradutores, capazes de penetrarem até às mais recônditas minudências das lín­guas de origem e transformarem-nas nas mesmas tonalidades na nossa língua de leitura. Foi isso que tentei fazer ao descobrir a Açorianidade da língua e cultura destes autores que ora traduzi e que me permitem afirmar sem sombra de dúvidas que a literatura açoriana está viva, de boa saúde e recomenda-se.

Não posso, porém, senão lamentar, que parte dos editores portugueses continue infelizmente a preferir o trabalho fácil, rápido, barato e pouco profissional de tantos aprendizes de feiticeiro tradu­tor. Cito um velho exemplo (datado de 1998) do jornal The Boston Globe, em que as vendas de um ‘depilador’ na Rússia tinham sido objeto de uma promoção como sendo um ‘tónico capilar’ para desespero de todos os recém-transformados em carecas. Outros exemplos estrangeiros abundam como o da água mineral “Blue Water” anunciada em Ucraniano como “bluvota” [vómito] ou ainda o anúncio do champô “Wash and Go” que em Russo soa a ‘vosh’ ou piolho. Admitamos que tradu­ções semelhantes em português são infelizmente correntes em material promocional do arquipélago como aconteceu há poucos anos com o belo livro turístico promocional intitulado “Triângulo Doura­do” editado pela Clássica Publicações.

Começamos esta apresentação dando-vos conta da extinção das línguas e dialetos, passando de­pois à vitalidade da escrita açoriana exemplificada pelos livros que recentemente tive o privilégio de traduzir para inglês, para os mercados da Norte América.

Deixem-me, pois, concluir que as línguas têm de ser mantidas, tratadas e estimadas. Elas não divi­dem países, a intolerância sim. Muitos de nós ignoramos a perda diária de dialetos e línguas e nem sequer sentem a sua falta, outros há que acreditam que a pluriexistência de línguas é uma praga que assola a humanidade desde os tempos da Torre de Babel, que nem vez de ajudar a comunicar apenas serve para confundir pela sua diversidade. Felizmente há já muitos clamores alegando que a extin­ção das é uma ameaça à espécie humana, e que, tal como a diversidade biológica é vital para a saúde da Terra, também vitais são a diversidades intelectuais e culturais. Isto é cada vez menos falacioso devido à globalização desenfreada.

A sobrevivência dos idiomas neste século depende de todos nós[20], pelo que devemos apro­veitar as novas tecnologias neste mundo de ondas hertzianas sem fronteiras onde a tirania dos governos não penetra. Usemos, pois, a internet para proteger e recriar as nossas línguas e culturas antes que elas se extingam.

A tradução é hoje essencial para reconhecer uma Nova Europa de 27 países, e deze­nas de línguas pondo-nos em contacto direto e instantâneo com diferentes culturas de vários países[21].

Possam eles também descobrir esta nossa rica cultura açoriana.

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Chrys Chrystello

Durante muitos anos na Austrália esteve envolvido em instâncias oficiais que definiram a política multicultural daquele país. Publicou em 1972 poesia “Crónicas do Quotidiano Inútil” (vol. 1). Desde 1967 dedicou-se sempre ao jornalismo político em rádio, televisão e imprensa escrita. Escreveu em 1999 o Ensaio Político “Timor Leste: o dossier secreto 1973-1975” e a monogra­fia “Crónicas Austrais 1976-1996”.

Organiza os Colóquios Anuais da Lusofonia (desde 2001) que tiveram como patro­no o Embaixador José Augusto Seabra e desde 2007 Malaca Casteleiro e Evanildo Bechara. Organiza (desde 2005) os Encontros Açorianos da Lusofonia (S. Miguel, Aço­res), mantendo o seu interesse no ensino de tradução, multiculturalismo, Inglês e Estudos de Tradu­ção.

Em 2005 publicou em bragança o “Cancioneiro Transmontano 2005”, e (E-Book/e-livro) o segundo volume dos seus contributos para a história “Timor-Leste vol. 2: 1983-1992, Historiografia de um Repórter” (2600 páginas e edição em CD). Entre 2007-2009, traduziu obras de autores açorianos para Inglês, nomeadamente de Daniel de Sá (Santa Maria Ilha-Mãe, O Pastor das Casas Mortas) e de Manuel Serpa (As Vinhas do Pico). Traduziu o livro de Victor Rui Dores “Ilhas do Triângulo, coração dos Açores (numa viagem com Jacques Brel)”, “Caminhos de S. Miguel” e “ilha terceira” de Daniel de Sá. O seu último livro (março de 2009) “ChrónicAçores: uma Circum-navega­ção (volume 1) narra as suas viagens em volta do mundo.

[1] Daniell Nettle & Suzanne Romaine, Vanishing Voices: The Extinction of the World’s languages Oxford University Press 2000.

[2] Daniell Nettle and Suzanne Romaine, op. cit.

[3] “Aboriginal Stolen Generation” descrita na peça “Stolen” encomendada pela Companhia de Teatro Ilbijerri Aboriginal and Torres Strait Islander em 1992, e representada no London’s Tricycle Theatre, julho 4-15, 2000. Originalmente descrita numa célebre canção de Archie Roach em 1987 “Took the children away”.

[4] Grécia, Itália, Escócia, Gales, Irlanda, Áustria, Canadá, Gibraltar, Holanda, Hungria, Índia, Madagáscar, Maurícias, Polónia, Rússia, Suécia, EUA; Índias Ocidentais, Cabo da Boa Esperança, Dinamarca, Egito, França, Alemanha, Pérsia, Portugal e Lituânia (Records of the First Fleet, jan. 26, 1788.)

[5] Dr. Annette Schmidt, 1990. Os quatro maiores grupos de idiomas sobreviventes têm entre + – 4 mil falantes, e as restantes seis línguas têm mil falantes. 15 Mil pessoas falam Aboriginal Krill e Crioulo das Ilhas Torres.

[6] In Aboriginal Australian Encyclopedia, Canberra: Aboriginal Studies Press for the Australian Institute of Aboriginal and Torres Strait Islander Studies, 1994.

[7]

[8] David Crystal cunhou o termo netspeak para designar as formas inéditas de expressão escrita que a internet gerou.

[9] Entrevista a David Crystal, in revista Veja – Capa – 12/09/07.

[10] Troca de correspondência com o autor em 2001-2002. David Crystal:

Thank you for your message. Portuguese, it seems to me, has a very strong and positive future – guaranteed by its extensive population base and the wide range of functions which it expresses, from parliamentary formality to grass-roots samba. At the same time, Portuguese speakers need to recognize that their language will be subject to change – as all languages are – and this process should not be opposed unthinkingly. When I was in Brazil last year, for example, I heard that there was a movement to try to keep English words out of Portuguese. To ban loan words from other languages can actually be a harmful step, in the development of a language, as it cuts the language off from international trends. English itself has borrowed words from over 350 other languages – including Portuguese – and the result has been an extremely rich and successful language. Portuguese has the strength to assimilate loan words from English or any other language, and still retain its distinctive identity. I would also hope that the ongoing development of Portuguese would be part of a multilingual ethos for the countries where it is spoken, so that indigenous languages are respected and supported. In the case of Brazil, this is critical, given the perilous state of so many Indian languages. I hope these observations are of some assistance to you in your work. Loan words do change a language’s character, but they don’t as such cause it to deteriorate. The best evidence of all is, of course, English itself, which has borrowed more words from other languages than any other language in the world – and look at what has happened to English! In fact, about 80% of English vocabulary is not Anglo-Saxon in character, but comes from Romance and Classical origins – including Portuguese. (It’s ironic that some of the words which the French, for example, are currently trying to ban, came from French and Latin in the first place!) You have to look at what happens, when words enter a language. In the case of English, we have such triplets as kingly (from Anglo-Saxon), royal (from French) and regal (from Latin). Now that we have all three, the language is much richer, because there are now all kinds of stylistic nuances which would not otherwise have been possible. Loanwords increase a language’s richness of expression. No attempt to keep loanwords out of a language has ever succeeded. Languages can’t be put under control. No academy has ever stopped languages changing. All this is very different from the situation of endangered languages, as I discuss for example in my book, Language Death. If languages are borrowing words it shows they are alive to social change and trying to keep pace with it. It is a healthy sign, as long as the loan words supplement and don’t replace local equivalents (as in the English example above). What is worrying is if a dominant language begins to take over the functions of a less dominant language – for example, if you found English being used as the language of higher education when previously Portuguese was used. That is where legislation can help, by introducing various protective measures, supporting broadcasting in the minority language, and so on. There does need to be a policy, especially in a world where things are changing so fast, and this policy has to address the core issues, which are all to do with the functions of multilingualism. It must also be remembered that English is not alone in its displacement of other languages. In Brazil, hundreds of Indian languages have not been displaced by English – but by Portuguese. And all major languages – Spanish, Chinese, Russian, Arabic … have affected minority languages in this way. Hope these remarks help. Professor David Crystal

[11] http://joelneto.blogspot.com/2005/12/reportagem-literatura-que-farei.html Joel Neto.

[12] Adelaide Baptista, Álamo Oliveira, Daniel de Sá, Dias de Melo, Eduardo Bettencourt Pinto, Urbano Bettencourt, Pedro da Silveira, Eduíno de Jesus, Carlos Wallenstein, Santos Barros, Martins Garcia, Emanuel Félix, Natália Correia, João de Melo, Maria Luísa Soares, Cristóvão de Aguiar, Eduardo Jorge Brum, Judite Jorge, Rui Machado, Mário Cabral, Nuno Costa Santos, Luís Filipe Borges, Alexandre Borges, Tiago Prenda Rodrigues, Emanuel Jorge Botelho, Fernando Aires, Ivo Machado, Norberto Ávila, Onésimo Teotónio de Almeida, Vamberto de Freitas ou Victor Rui Dores, Frank X. Gaspar ou Katherine Vaz (entre muitos outros), e no passado Gaspar Frutuoso (século XVI) Vitorino Nemésio (séc. XX), Antero de Quental (séc. XIX), Roberto de Mesquita (sécs. XIX e XX), Armando Côrtes-Rodrigues (séc. XX) in

http://joelneto.blogspot.com/2005/12/reportagem-literatura-que-farei.html Joel Neto.

[13] http://www.revista.agulha.nom.br/MACHADO%20PIRES.pdf página 4, Mário Cabral em MACHADO PIRES, A.M.B., Vitorino Nemésio: Rouxinol e Mocho, Praia da Vitória: Câmara Municipal Praia da Vitória, 1998, 92 pp.

[14] http://www.geocities.com/ail_br/discussaodaidentidadeacoriana.html

[15] Sá, Daniel de. Ilha grande fechada. Lisboa: Salamandra, 1992.

[16] Sá, Daniel de. Crónica do despovoamento das Ilhas. Lisboa: Salamandra, 1995.

[17]Translation, like writing, is both art and craft, with a touch of alchemy. When translator and author actually get to meet, the result can be inspired. Nuance is what translates language into art.” Ann-Marie is a Toronto-based writer and actor. She has received accolades for her playwriting, acting and writing. Her play Goodnight Desdemona (Good Morning Juliet) won the Governor General’s Award for Drama, the Chalmers Award for Outstanding Play and the Canadian Authors’ Association Award for Drama. She won a Gemini Award for her role in the film Where the Spirit Lives and was nominated for a Genie for her role in I’ve Heard the Mermaids Singing. Her first novel, Fall On Your Knees, was published in 1995 to much critical acclaim in Canada and abroad. Her latest book, The Way the Crow Flies, was shortlisted for both the Giller Prize and Governor General’s Award.

http://www.banffcentre.ca/programs/93_words/2007/biltc/past_programs.aspx

[18] Cambridge Encyclopedia of the English Language, David Crystal Cambridge University Press ISBN 0521530334

[19] Nem sequer metade das suas obras foram traduzidas para Português (apenas 4 livros…).

[20] http://www.whyy.org/91FM/radiotimes.html The work of David Harrison and Gregory Anderson is the subject of a new film which was screened at Sundance, “The Linguist.” The film tells the story of their travels and research around the globe to document endangered languages. Both are affiliated with the “Living Tongues Institute for Endangered Languages.”

[21] Palazón, Reina, co-vencedor do Prémio Nacional de Tradução de Espanha no ano 2000, pelo seu trabalho com as Obras Completas de Paul Celan, traduzidas do Alemão para o Castelhano.

http://www.academia.edu/32435239/Do_genoc%C3%ADdio_lingu%C3%ADstico_%C3%A0_literatura_a%C3%A7oriana_de_Daniel_de_S%C3%A1_Chrys_Chrystello

lembrando Daniel de Sá

existem alguns textos sobre o Daniel de Sá que foram apresentados nos colóquios da lusofonia e que merecem ser conhecidos os quais estão há anos compilados no Suplemento 2 dos Cadernos Açorianos em

https://www.lusofonias.net/acorianidade/cadernos-acorianos-suplementos.html#

https://www.lusofonias.net/acorianidade/cadernos-acorianos-suplementos.html#

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